domingo, 3 de junho de 2007

Projeto Fábula no Atacama (I)

Sempre que posso, retomo o Projeto Fábula no Atacama (PFA), diálogo entre um urubu faminto e um preá agonizante, através do qual pretendo formular o mais lógico preceito moral capaz de orientar as relações comportamentais do ser humano com a sua própria natureza animal — a síntese do procedimento a ser adotado quando o ser humano for submetido a uma prova de resistência psicobiológica, estando imbuído dos princípios inatos da consciência, ou de generalizações da observação empírica, a lhe instigar: “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

É realmente um projeto ambicioso, uma megaprodução que o meu editor ainda não está convencido do retorno financeiro.

A fim de viabilizar o projeto, venho tentando obter algum patrocínio. Enviei proposta aos departamentos de marketing e comunicação de diversas empresas. Um amigo meu demonstrou interesse em apoiar tão relevante empreendimento cultural. Porém, depois de realizar uma enquete entre a sua clientela, desistiu de bancar o transporte e alimentação do urubu até o local da produção, o Deserto do Atacama. Concluiu que poderia comprometer a imagem do seu restaurante.

Liguei para o meu amigo Urariano Mota:

— Urariano, me dá uma dica. O que é que eu faço pra convencer meu editor de que o retorno financeiro do PFA é lucro líquido e certo?

— Mas... mas quem é você? Eu te conheço mas não estou me lembrando. (1)

— Fernando, amigo! Fernando Soares. Estou tentando convencer o meu editor a investir numa produção internacional, uma fábula ambientada no Deserto do Atacama, diálogo entre um urubu faminto e... Bom, leia, aqui mesmo em La Insignia, “Pouca carniça pra muito bico” e “Projeto Fábula no Atacama”, que você vai entender. Acontece que o homem está relutante...

— Se o comum da gente soubesse o gozo imenso que vem da arte, se a gente comum vivesse o prazer grande que é viver na arte, se a gente de todos nós despertasse para a libertação que vem da arte, se, quando e se e então pudéssemos renascer, viver mais uma vez com a consciência da vida anterior, ah, então saberíamos todos exaltar e ver e ser a felicidade que vem do artista. (2)

— Obrigado, amigo, mas preciso mesmo é fazer o Conselho Editorial entender tudo isso aí. Apresentei o meu projeto e, até agora, só argumentam sobre os altos custos da produção...

— Ou seja, discutiram-no à maneira dos ignorantes que pela vez primeira vêem uma obra de arte. Pelos traços e características exteriores. E em se tratando de um romance, pelo enredo, número de páginas, preço, e releases da editora. Mas estas características, reconheçamos, estão longe da razão de ser da literatura. (3)

— Isso!!!

— Filhos da puta! (4) Você já tentou andar plantando bananeira? (5)

— Você acha que isso vai despertar o interesse de algum empresário circense?

— É da natureza humana, tão bem imitada pelos bons atores, que o sentimento, a emoção, a fala, o crescendo, tem um processo. (6)

— Valeu! Vou tentar — despedimo-nos.

Voltei à revisão do roteiro de “O Urubu e o Preá” (título provisório).

001 — Vale da Morte — Deserto do Atacama — ext./dia

(Vou suprimir o “ext.”, afinal, todas as cenas serão externas.)

001 — Vale da Morte — Deserto do Atacama — dia

Um grupo de animais turistas brasileiros visita o Norte do Chile. Enquanto passeiam por entre os borrifantes gêiseres atacamenhos, um preá distancia-se do grupo e se perde numa trilha que o leva aos confins do Vale da Morte.

Legenda: Três dias depois...

O preá, agora agonizante, avista um oásis, tipo os do Saara, com palmeiras, tendas coloridas, camelos pastando verdoengas gramíneas, mulheres pegando água num poço, homens polindo suas espadas, tapetes decolando e aterrissando no tapeteporto e gênios atendendo os pedidos dos seus amos, servindo-lhes deliciosas esfihas e gostosas odaliscas...

Preá Agonizante: — Allah seja louvado! Estou salvo! — balbucia com extrema dificuldade.

Efeitos especiais: a imagem do paradisíaco oásis ondula, ondula e desaparece. Era uma miragem. Novamente a mais inóspita região do Planeta se revela aos olhos do roedor moribundo. Banhado de suor, o preá lambe seu próprio corpo, numa desesperada esperança de saciar a sede. Arrasta-se penosamente por mais uns dez metros e abriga-se num cantinho sombreado por uma depressão do terreno.

Close: os olhinhos de rato do preá se mexem em círculo, ele tenta fazer o reconhecimento da área a fim de assenhorear-se da dolorosa situação.

Contra-regra: Ploft!

Uma gosma marrom atinge a cabeça do preá e escorre pelo seu rosto até as bordas dos seus minúsculos beiços. Impulsionado pelo instinto de sobrevivência, o pequeno mamífero agonizante suga a visguenta substância.

Contra-regra: Shupt!, seguido de Arrrgh!! e Kusp!

Preá Agonizante: — Eca!

O autor olha para o límpido céu azul anil atacamenho e avista um objeto planando, espiralando numa remoinhadora corrente de ar.

Autor: — É uma sacola plástica vazia! (zoom) Não! É uma pipa! (mais zoom) Não! É um superbombardeiro B-2 Spirit fora da rota iraquiana! (zoom total) Nãããooo! É o urubu faminto! Finalmente vou escrever minha fábula!

O urubu faminto também aplica zoom máximo. Enxerga o preá com a cabeça lambuzada.

Urubu Faminto: — Croac!! (legenda: Acertei na mosca!)

Preá Agonizante: — Pô! isso é uma tremenda urucubaca!

.....

Urariano Mota, em:

(1) “Os corações futuristas”, pág 203.
(2) “Ronald Golias, ou quando o riso era remédio”, La Insignia, outubro 2005. Cultura.
(3) “O Chico Buarque de Budapeste”, La Insignia, setembro de 2005. Cultura.
(4) “Os corações futuristas”, pág 195.
(5) pág. 109.
(6) “Os personagens da CPI”, La Insignia, julho 2005. Cultura.

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Um comentário:

Urariano Mota disse...

Meu amigo Fernando, muito obrigado pela homenagem. Tem post novo em http://urarianoms.blog.uol.com.br/
Abraço.