domingo, 3 de junho de 2007

Projeto Fábula no Atacama (II)

— Genial! Quer dizer, gen! Você é o mago da redução de custos!

Era o meu editor ao telefone.

— Do que você está falando?

— Ora! da idéia de aproveitar o preá turista e usá-lo na produção da fábula no Atacama. Uma considerável redução dos custos.

— Sim... claro!

— Mas... onde você arranjou aquele urubu?

— Urubu?

— Sim, o urubu faminto que acertou um Exocet na cabeça do preá!

— Ah! o pardal.

— Pardal?!

— Claro, aquilo era apenas um ensaio. Levei o pardal no bolso. Não pagou passagem, nem precisei de autorização do Ibama. Passou batido pela Alfândega.

— Gen!!! — o homem ficou eufórico. — Você é o mago da redução de custos!

— Você já disse isso, mas vai repetir mais uma vez quando vir o que estou aprontando.

— Nem preciso ver: você é o mago da redução de custos. Pronto, agora conta.

— Estou preparando a maior economia de neurônios de todos os tempos!

— Economia de quê?

— Neurônios.

— Você vai precisar fazer uso desses elementos na produção da fábula? Pensei que era só urubu e preá.

— Eu falei que vou poupá-los e não utilizá-los.

— Ah, sim! Mas como pretende...?

— Fazer?

— Isso!

— Adquiri um pacote de clichês!

— Dê um exemplo.

— O preá pergunta ao urubu: “Como te chamas?”. Ele responde: “Faminto, Urubu Faminto”. Sacou?

— Você quer dizer como em “Bond”, é isso?

— Calma!, não precisa gastar neurônios. Agora escuta essa outra: o preá está exausto, porém é duro na queda, não quer bater as botas. O urubu resolve dar um rolé enquanto o bicho fecha o paletó. Mas, antes de alçar vôo, diz: “Hasta la vista, baby”.

— Quer uma sugestão?

— Manda.

— Diga que o preá respondeu: “Estou ferrado, não tenho onde cair morto”

— Boa, muito boa. Anotei. Mas creio que seja mais apropriado ele dizer: “Mifu, estou chamando urubu de meu louro”.

— Que tal “com uma mão na frente outra atrás”?

— “Duas patinhas na frente e duas na bunda” dá um quê de originalidade.

— Com certeza!

— Não. Assim já é abuso. Prefiro “sem dúvida”.

— Tudo bem, pode continuar os ensaios. Mas apresse os trabalhos. Tempo é dinheiro.

— Anotei. Posso até usar “time is money” e mandar a tradução nas legendas.

— Tem carta branca. Você é o mago da redução de custos. Tchau!

Desligou. Também anotei “Ter carta branca”. Fica bem em espanhol: “Tener carta blanca” . Vou voltar à revisão do roteiro.

002 — Vale da Morte — Deserto do Atacama — dia

O preá estava ali, agonizante, prostrado, indefeso, não lhe sobrara forças para mais um passo. Desidratado, não mais suava, portanto estava desprovido de qualquer fonte para saciar a sede. Empregando todos os esforços, ele consegue erguer os seus olhinhos de rato.

Ponto de vista: o urubu faminto planando, planando em círculos espiralados, agourento.

Na trilha sonora: “El condor pasa”.

Subitamente o preá ouve uma voz cavernosa (a sonoplastia aplica efeitos cavernosos à voz):

Voz Cavernosa: — Preeeááá...

Preá Agonizante: — Deus?! Deus, onde estás que não te vejo?!

Voz Cavernosa: — Queee... Deeeuusss queee... naaada, babacaaa..., euuu... souuu aaa... suaaa... puuulgaaa... atrááásss daaa... orelhaaaa..., idiooota!

Provocada pelo instinto de sobrevivência, uma hipercorrente bioenergética percorre o corpo do preá agonizante produzindo-lhe um hiper-reflexo na patinha direita, que avança sobre a orelha esquerda, alcançando a pulga pela ponta de uma de suas garrinhas e levando-a, rapidamente, à boca.

Contra regra: Kleck!

* * * * *

Moral parcial: Nunca perca a oportunidade de se passar por Deus; mesmo que você seja apenas uma pulga arrogante.

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