domingo, 3 de junho de 2007

Projeto Fábula no Atacama (III)

Crêem os materialistas que o pós-morte é apenas uma passagem para o vazio, uma viagem, sem volta, ao nada. Ou mesmo uma viagem sem volta ao nada. Para os religiosos, o último suspiro liberta a alma da pesada matéria que a aprisiona a este mundo e lhe dá acesso à verdadeira vida, paradisíaca ou infernal. Quem morrer verá. Ou não, conforme crêem os materialistas.

Também dizem por aí que os moribundos fazem retrospectivas mentais de suas existências, recordando os seus principais feitos e desfeitos. Mas... o que teria um preá agonizante a relembrar? Provavelmente as roeduras de cada dia e os chiados de cada coito. No entanto este não é o caso de um fabuloso preá turista brasileiro no Deserto do Atacama. O nosso preá agonizante tem histórias pra contar, pois incríveis histórias viveu e tantas outras, fantásticas, ouviu.

003 — Vale da Morte — Deserto do Atacama — noite.

Com a chegada da estrelada noite atacamenha, o urubu faminto recolhe-se ao topo de uma das elevações que ladeiam o corredor do Vale da Morte; enquanto o preá agonizante, acomodado numa pequena depressão do terreno, rememora os mais felizes momentos de sua roedora vida em Taubaté, interior paulista.

Flash-back

Efeitos especiais: a imagem ondula, ondula, ondula... até que, estável, se destaca a mãe-preá chegando ao ninho.

Os quatro filhotes tateiam na semi-escuridão do lar, ávidos pelas tetinhas maternas. Seus três irmãos se apoderam dos bicos mais fartos, na parte traseira, sobrando-lhe as glândulas menos lactíferas, próximas às patinhas dianteiras da mãe. Por isso ele se tornou o filhote mais franzino da ninhada, e os seus irmãos o consideravam um tolo, pois nunca disputava a fartura das mamas da retaguarda. Porém o que nenhum deles percebia era que a sua atitude aparentemente passiva tinha objetivos, digamos, pragmáticos: naquela posição ele, bem ou mal, alimentava-se e, de lambujem, gozava as carícias da mãe-preá, deleitava-se com as lânguidas lambidas maternas. Entretanto, além do conflito edipiano e da necessidade alimentar, o preazinho mirrado preferia a primeira fila porque a sua mãe contava-lhes maravilhosas histórias de ninar, e, estando ali bem próximo da fonte sonora, ele não perdia um só trecho dos fascinantes contos que a mãe-preá narrava com a competência de uma Sherazade.

Plano geral: a mãe-preá deitada e os filhotes sugando-lhe as mamas com sofreguidão. Corta para close do preazinho franzino, único a sorver com parcimônia.

Mãe-preá: — Era uma vez... (Fim do flash-back)

No breu da noite, apenas os olhinhos de rato do preá brilham e movimentam-se lentamente (na trilha sonora, “Evita”, na voz de Madonna e Los Niños). Uma lágrima brota no canto do olho esquerdo, enquanto o direito se agita, dilata-se e vê a gotícula crescer, rolar e precipitar-se no ar, cintilante, em câmera lenta... (tema musical crescendo, apoteótico...). Eis que surge a miúda língua do preá agonizante, que se estende... e apara a gotícula.

Contra-regra: PLOC!, seguido de SHUPT!

Legenda (as palavras surgem uma a uma):

AS LÁGRIMAS LAVAM A ALMA E EVENTUALMENTE SACIAM A SEDE

P.S.: Não se sabe bem qual a razão predominante, mas naquela estrelada noite atacamenha o preá chorou até o amanhecer.

004 — Vale da Morte — Deserto do Atacama — dia.

O Sol já estava a pino quando o preá acordou-se. Piscou seus olhinhos de rato e viu o que há dias temia ver: o urubu faminto pousado na borda de sua cavidade-abrigo. Pensou em cumprimentá-lo, mas imaginou que um bom-dia poderia soar irônico. Apenas murmurou “oi”. Mas o fez de forma tão penosa que o urubu imaginou que tivesse gemendo de dor.

— Croooac?! — perguntou o urubu.

— Falo sim, sou poliglota, mas preferia que conversássemos num dos idiomas humanos.

— Também sou multilingüista, já trabalhei em diversas fábulas.

— Atuou em “O urubu e o papagaio”?

— Fui o único intérprete, fiz duplo papel.

— Como conseguiu?

— Efeitos especiais, usando um jogo de espelhos.

— Bom, eu queria saber mesmo é como conseguiu representar personalidades tão diferentes numa mesma obra.

— Fiz laboratório.

— Laboratório?! Onde?

— Brasília...

— Congresso Nacional?!

— Duas semanas na Câmara e uma no Senado.

— Nossa! deve ter assimilado muitas facetas!

— Realmente, hoje sou considerado um ator multifacetado.

Apesar de conhecer a natureza necrofágica do urubu, o preá agonizante não ignorava o ditado “o apressado come cru”, e temia que, para um urubu faminto, isso pudesse traduzir-se em “o esfomeado come vivo”. Precisava distraí-lo. E não havia melhor maneira que apelar para o ego de um ator vaidoso.

— Ah! eu daria meus últimos momentos de vida para assistir a uma de suas apresentações ao vivo.

O urubu faminto expressou um gesto de falsa modéstia: encolheu-se e moveu a cabeça para os lados, mantendo um sorriso encabulado no bico torto.

— Pena que não tenha aqui comigo um pedacinho do couro da minha última refeição, pois eu poderia lhe dar um autógrafo — disse o urubu, fazendo o preá se arrepiar.

— Não! Quer dizer, não mereço tanto. Sou um reles preá em extinção. Provavelmente o último da espécie aqui no Atacama. Ficaria satisfeito se pudesse assistir a algumas de suas performances.

O urubu olhou para o preazinho moribundo e, baseado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, decidiu atender o último desejo de um condenado à morte.

— Veja esses trechos de “Um urubu no Planalto Central”.

Fazendo poses, caras e bicos, o urubu finge atender ao telefone, conceder entrevista, discursar numa tribuna, assinar papéis, interrogar em CPI e, a melhor de suas performances, embolsar propina, propina, propina... de dez, vinte, trinta, quarenta por cento.

Tão distraídos estavam que foram surpreendidos pelo entardecer anunciando mais uma estrelada noite atacamenha. O urubu faminto despediu-se, recolhendo-se ao topo da montanha, onde, pacientemente, aguardaria sua que sua refeição atingisse o ponto ideal.

O preá agonizante, saudoso e sedento, chorou. Não se pode determinar a razão predominante, sabe-se apenas que ele chorou a noite inteira.

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