domingo, 3 de junho de 2007

Projeto Fábula no Atacama (IV)

Dizem que, quando um urubu pousa num telhado de uma residência, os seus habitantes devem se preparar para o pior: “Urubu no telhado; caixão encomendado”. No entanto ainda não se sabe se o urubu tem poder de premonição ou se ele é somente dotado de natureza agourenta. Para algumas pessoas, ele tem o dom de identificar energias mórbidas que estejam atuando em determinado ambiente, por isso se aproxima de localidades envolvidas por um baixo astral. Mas há quem acredite que o urubu seja o próprio agente da desdita, o verdadeiro portador dos maus fluidos. Neste caso, supõe-se que a sua aproximação agravaria as probabilidades da ocorrência de sinistro. Hoje acreditamos nesta segunda hipótese.

Vejamos o caso desse fabuloso urubu faminto. Ele veio ao Deserto do Atacama contratado pela nossa editora. Talvez seduzido pela expectativa do sucesso fácil; já que não conseguiu classificar-se para o próximo Big Brother Brasil. Fica assim descartada a possibilidade de que tenha vindo ao Atacama atraído por cheiros, sons, cores ou qualquer outro estímulo sensitivo. Nem ao putrefatíssimo general Pinochet pode-se atribuir a presença do brasileiro urubu faminto no Chile. Mesmo porque putrescências genéricas abundam e medram no seu próprio solo pátrio. Entretanto, tão logo aqui chegou, o povo chileno tornou-se vítima de sua natureza agourenta: acirram-se as questões fronteiriças Chile-Peru.

Dizem que urucubaca, um termo que significa azar, infortúnio, má sorte, caiporismo, vem de “urubu” e “cumbaca”, um peixe tão azarento que, se pescado, o pescador deve mudar de profissão, pois será condenado a sete anos de má pescaria. Agora imagine um urubu que tenha comido uma cumbaca.

Vade retro, urubu faminto! É por tua causa que estou sem inspiração! Mas vamos lá, antes que o leitor desista.

005 — Vale da Morte — Deserto do Atacama — dia.

A calorenta manhã atacamenha fez o urubu faminto observar que se acordar no topo de um monte no Deserto do Atacama tem alguma coisa em comum com o despertar, por exemplo, num luxuoso hotel em Downtown Nova York: em ambos os casos, a primeira coisa que se faz é abrir os olhos.

(Não, isso está uma merda! Vou tentar outra.)

O preá agonizante teve uma brilhante idéia para fazer o urubu faminto ajudá-lo a sair daquela indigente situação. Tão logo o urubu pousou na borda do seu buraco-abrigo, o preá falou:

— O que me causa maior tristeza é morrer sem ter oportunidade de resgatar o tesouro.

— Do que você está falando?!

— É que a minha excursão por estas bandas tinha um objetivo mais proveitoso do que simplesmente conhecer as regiões andinas.

— Mas de que tesouro você está falando?

— Eu falei “tesouro”?

— Sim, com todos os chiados. Por acaso, isso tem alguma coisa a ver com o Tawantinsuyo?

— O quê?!

— Tawantinsuyo, o império inca!

— Ah! não propriamente, mas tem tanto valor quanto um tesouro inca.

O urubu abriu as asas, mexeu-se banzeiro, pigarreou.

— Acho que, por aqui, mais valiosos que um tesouro inca, só dois preás.

O preá empalideceu. Estremeceu, mas logo se recompôs.

— Primeiro, aqui no Atacama não tem preás, estou de passagem; segundo, o tesouro também não está aqui no deserto.

— Não?! E onde se encontra?

— Nas montanhas bolivianas.

— Explica! Explica! Que tesouro é esse?

— Três milhões de dólares, em notas verdinhas.

— Mas isso dá comprar muitos e muitos preás... desculpe! É... frangos... muitos e muitos frangos. Onde exatamente a gente pode encontrar esse tal tesouro? Como soube dele? — o urubu demonstra ansiedade.

— Já falei que é na Bolívia. Quem me contou foi o Poletto, um ex-assessor do Palocci.

— Palocci? O ministro do Lula?

— O próprio. O cara me deu todas as coordenadas do local onde as caixas estão escondidas.

— Caixas?

— Sim, caixas de rum.

— E quem iria esconder caixas de rum nas montanhas bolivianas?

— Quem?!

— Sim, quem?

— Pois é, quem?

— Hummm...

— Não, não é “hum”, é rum, tchê!

— Tchê?! Peraí, você é paulista ou gaúcho?

— Morei uns tempos na Argentina.

— Quais foram as dicas do Poletto ex-assessor do Palocci?

— Bom, ele disse que as caixas estão lá há uns quarenta anos.

— E por que ele mesmo não foi pegar o tesouro?

— Porque não tem rum de verdade. Só dólares. E o Poletto não bebe dólares, claro!

— Mas quem teria deixado tanto dinheiro nas montanhas bolivianas?

— Pois é, quem? Quem, tchê?!

.....

Nota ao editor:

P.S 1.: Reconheço que o texto acima está uma merda, mas pelo menos não precisa colocar as ilustrações com as setas indicando o caminho do tesouro. O que significa uma considerável economia de mão de obra especializada.

P.S. 2: O preá sempre foi um assíduo leitor da Veja.

P.S. 3: Também não perdia um “Onde está Wally?”.

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