domingo, 3 de junho de 2007

Projeto Fábula no Atacama (V)

Eu poderia ter usado um tubarão assassino e uma sardinha suicida; ou um gavião astuto e uma rolinha obesa; ou um político corrupto e bajulador e uma verba incauta; ou uma bunda flácida e uma cueca apertada; ou a cena de um jantar de novela e um telespectador sem café-da-manhã, almoço e jantar; enfim, muitas são as opções de personagens que se pode usar em fabulosas narrativas. Mas preferi um urubu faminto e um preá agonizante como protagonistas da minha fábula no Deserto do Atacama.

Rendi-me ao currículo do urubu, à sua vastíssima experiência no ramo. Nas versões nacionais, faz sempre o papel que o abutre e até mesmo o corvo tenham desempenhado nas produções estrangeiras. Quanto ao preá, apesar de não ter o norrau (1) do urubu, não pode ser considerado propriamente um amador.

Enquanto o urubu dedicou sua vida basicamente às funções de agente do Departamento de Defesa Sanitária e protagonista de fábulas, o preá roeu muito por essas matas adentro e atuou como coadjuvante em algumas peças literárias. Também levei em consideração suas esporádicas participações no âmbito das ciências biológicas, como cobaia de laboratório, cobrindo as folgas de hamsters e camundongos, os titulares da área.

Atualmente, em conseqüência da gripe aviária, o preasbusiness tornou-se uma atividade em ascensão. Os produtores de matrizes apregoam:

“Não corra risco com: gripe do frango, febre aftosa, crise do avestruz, derrota eleitoral, bicho da goiaba, mosca da carambola, mariposa das flores, formiga cortadeira, cochonilha vermelha, vassoura-de-bruxa, stubborn dos citros, lagarta rosada, bicudo-do-algodoeiro, percevejo, curuquerê, mandarová, lerneose, caspa de coelho, carrapato de tartaruga, gagueira de papagaio, chato, reportagens apócrifas, entre outras pragas; SEJA UM Preá Master “.

Nestes tempos difíceis, multiplicam-se os criadouros de preá. Os especialistas em preacultura garantem que se trata de um investimento cem por cento seguro. Ao contrário do urubu, sua carne é macia e saborosa (2), a pele é usada na confecção de bijuterias, a urina participa da composição de um certo soro e, o fino da gastronomia animal (para animal), o seu cocô é adicionado às rações de outros bichos, que, mesmo não sendo porcos, são muito porcos.

Entretanto o nosso preá agonizante teve a sorte de nascer livre, um preá silvestre, característica própria de praticamente todos os urubus (exceto o urubu-rei de zoológico). A diferença entre um preá nascido e criado em cativeiro e um nativo seria a mesma diferença verificada entre uma criança produzida e desenvolvida em condomínio fechado e um garoto malabarista de sinal de trânsito. Um preá de gaiola não sobreviveria vinte e quatro horas aqui no deserto; enquanto o preá agonizante, há dias, leva o urubu faminto no papo. Por isso mesmo estamos revendo os conceitos de “urubu malandro” e “preá caipira”.

006 — Vale da Morte — Deserto do Atacama — alta madrugada.

No topo da montanha, o urubu faminto pensa no preá, preocupa-se com ele, pois este, a cada dia, fica mais minguado. No seu buraco-abrigo, o preá agoniza feliz por ainda estar vivo.

Ansioso, o urubu alça vôo em plena madrugada e, num átimo de segundo, pousa na beira do buraco-abrigo do preá (3).

O preá finge não ter visto a chegada do urubu e simula um delírio febril:

— Kem-Kem! cadê você, Kem-Kem?!

— Kem-Kem?! Quem diabos é Kem-Kem?!

O preá continua representando:

— Bandido! Bandido!

— Bandido?! Esse atrevido está me chamando de bandido?! — além de confuso, o urubu está contrariado.

— Kem-Kem! Bandido! cadê vocês?!!! — “delira” o preá.

O urubu faminto grita:

— Preá!!! Acorda! Acorda! Preá!!!

— Hã! Quem está me chamando? É você, Kem-Kem?!

— Hummm...

— Ah! é você, Bandido?!

— Peralá! Não é nada disso! Sou eu, urubu faminto!

— Desculpe, é que ouvi “muuuu...”, aí pensei que fosse o boi Bandido.

— Boi Bandido?! Que boi Bandido?! Dá pra você me explicar o que está acontecendo?!

— É que eu estou ardendo em febre e acho que estava delirando. Pensei que os meus amigos da excursão haviam me encontrado.

— Amigos da excursão?

— Sim, o brasileiro boi Bandido e o pato chinês Kem-Kem!.

— Boi brasileiro e pato chinês aqui no Deserto do Atacama?!

— Sim, eles vieram em busca de cura nas águas dos geysers.

— Cura?! Cura de quê?!

— Não sei bem... talvez artrite... ou enxaqueca crônica...

— Você observou comportamentos estranhos nesses seus amigos turistas?

— Nada de anormal: Bandido babava como qualquer boi, e Kem-Kem era fanho como qualquer pato.

— Baba?! Fanho?! — o urubu recua alguns passos. — Você se relacionou com eles por muito tempo?

— Só uma semana, eram meus melhores amigos na excursão. Até que me desviei do grupo e vim parar aqui neste fim de mundo... Ui! — geme.

— Ui?! Que houve? Não está se sentindo bem?!

— Não é nada não. Só uns sapinhos, aqui, ó — o preá estica a língua —, só uns sapinhos. Tá vendo?

— Não, não dá pra ver nada, tá muito escuro. Mas noto que você está um pouco fanhoso...

— Resfriado, só um resfriadozin... zin... zin... a a a aaatchim!!!! ...zinho.

Ágil, o urubu bate as asas e dá um salto pra trás.

Contra-regra: PLASH!!!
Sonoplastia: Um minuto de silêncio.

— Você ainda está aí? — pergunta o preá.

— Não! quer dizer, sim!.

— Não quer conversar mais um pouco? Eu sei que estou um pouco gripado, como o Kem-Kem, mas...

— Já estou de saída. Sinto muito. Estimo suas melhoras.

O urubu faminto alça vôo. Corta para o urubu pousando no topo do morro. Câmera fecha com a negra silhueta do urubu em primeiro plano. Ao fundo, a estrelada noite atacamenha.



Moral: Lamentar a enfermidade de alguém e estimar suas melhoras nem sempre significam manifestações de solidariedade.


Notas:

(1) Leia-se know-how.

(2) Não conheço ninguém que tenha comido urubu (nem mesmo em piada de papagaio), mas dá para imaginar que sua carne não deve ser macia e, menos ainda, saborosa. Basta ver que não se trata de uma ave em extinção. Pelo contrário.

(3) Não houve propriamente exagero na velocidade do urubu, apenas um corte para a cena seguinte. Além disso, eu queria usar “átimo de segundo”. É uma bela expressão, não é mesmo?


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