sábado, 30 de junho de 2007

Quiçá, em Alfa Centauro

Gênio. Este era praticamente o outro nome de Mellquiadhes Ollivyettho. Ele estava na moda, tornara-se o economista mais badalado dos últimos tempos. Todos abriam o jornal diretamente na sua coluna diária -Wall ß$treet i$ here-, o restante era tão-somente o restante.

A partir das listas de favoritos de muitos milhares de assinantes, ocorria uma verdadeira romaria diária ao seu sítio (pronuncia-se "site", do inglês saite). Sua presença era a garantia do sucesso de qualquer evento, fosse qual fosse o ramo do conhecimento humano em debate. Agenda lotada, nenhuma chance de contratação para os próximos dois anos. Para os raros felizardos que privavam de sua intimidade, ele era simplesmente Mell - apesar daquele seu ar bilioso, demonstrando menosprezo pelos reles mortais que o bajulavam.

Mell (isto não quer dizer que já privei de sua intimidade) tinha a mania de dizer que não tinha manias. Afirmava isso em todas as entrevistas, mesmo que o entrevistador não lhe perguntasse sobre seus hábitos ou possíveis vícios.

Superstição? "Nenhuma!", garantia. A fitinha do Bonfim, o patuá na correntinha do pescoço, a ferradura atrás da porta, a figa no chaveiro, a carranca no canto da sala, tudo isso, pra ele, não passava de estilo decorativo ou moda. Considerava-se despojado de qualquer sentimento machista: "Não tenho qualquer tipo de preconceito contra as mulheres. Reconheço que, hoje, com o corretor ortográfico dos computadores, a mulher está bem mais preparada para ser uma boa secretária".

Semanalmente Mell recebia, em média, trinta livros de novos autores que solicitavam sua opinião, ansiosos pela aprovação e elogios do mestre. Sua secretária respondia a todos através de uma mensagem modelo. Vez ou outra encaminhava uma dessas obras ao patrão, principalmente as que se desmanchavam em elogios às suas lucubrações sobre o futuro sócio-político-econômico do país.

No Clube dos Orquidófilos de Caraguatatuba, ninguém conhecia Dona Rosa Oliveira pelo nome, para todos ela era apenas a mãe de Mellquiadhes Ollivyettho, porém nunca entendeu por que tratavam seu filho Malaquias por aquele estranho apelido. Seus filhos também eram reconhecidos apenas como "os filhos de Ollivyettho". Enfim, todas as pessoas que tinham algum parentesco com "o Mago da Economia" perdiam a identidade própria e se tornavam apenas irmãos, tios, netos, primos ou cunhados de Mellquiadhes Ollivyettho.

Há muito tempo Mell vinha tentando emplacar um neologismo com a sua marca registrada. Não se cansava de repetir: "Vivemos hoje a pós-globalização, o que já faz do momento atual a Era da Pré-Planetarização Cultural" - repetiu essa expressão 289 vezes no seu último livro: "Pré-planetarização cultural - a nossa música nas sondas espaciais" (500 mil exemplares na primeira edição).

Quando foi anunciada a primeira viagem espacial de um brasileiro, Mell procurou fazer contato imediato com o astronauta escolhido. Escreveu para o cosmonauta informando-lhe:

"Contam que Santos Dumont, enquanto realizava seu primeiro vôo com um aparelho mais pesado que o ar, assobiava uma marchinha de carnaval. Esse foi, sem dúvida, o princípio de uma nova era. Considero que este fato marca a largada para o que ocorre nos dias de hoje: a Pré-Planetarização Cultural, cujo acontecimento mais marcante ocorreu quando o robô da sonda Sojounerum acordou-se, em solo marciano, ao som da música 'Ô coisinha tão bonitinha do pai', do cantor-compositor brasileiro Jorge Aragão. Portanto, com o propósito de ampliar a nossa vanguarda colonizadora interplanetária, solicito que V.Sa., ao participar da expedição do programa espacial russo, possa levar consigo um exemplar da minha última obra sócio-científica, 'Pré-planetarização cultural - a nossa música nas sondas espaciais', e, em se oportunizando ocasião, faça com que o exemplar seja lançado no espaço sideral em direção a distantes galáxias. Assoma-me à alma a esperança de que ele venha a ser interceptado por seres inteligentes, que logo entenderão a importância de um sistemático intercâmbio cultural entre os habitantes do Universo. Atenciosamente. Mellquiadhes Ollivyettho, PhD em Sociocultura Interplanetária."

Mell não recebeu resposta do astronauta brasileiro, porém acreditou que ele estaria preparando-lhe uma surpresa, certamente viria a anunciar, lá do alto, o lançamento do seu livro. O primeiro lançamento (lato sensu) de uma obra literário-científica humana no espaço sideral, em direção a galáxias distantes...

- Poderá vir a encabeçar a lista dos mais vendidos em... nem precisa ser muito distante, talvez, Alfa Centauro... - delira Mell numa enfermaria do Pinel.

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quinta-feira, 28 de junho de 2007

Saudades do apocalipse

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243ª ZCOSGTA.


15 de outubro de 2053

Como cheguei aos 74 anos de idade, não sei; sei apenas que aqui cheguei. Nasci a 16 de dezembro de 1978, logo completarei 75. Na virada do milênio, eu concluía o curso de Engenharia Florestal, uma teimosia vocacional, ou uma esperança infundada. Infundada sim, pois tudo indicava que num futuro bem próximo tal profissão seria declarada obsoleta. Sabia-se que muito em breve as nossas florestas seriam transformadas nos imensos desertos em que realmente as transformaram. E ninguém precisava de bola de cristal para prever tal desfecho. Antes da desertificação, o Brasil foi loteado em áreas semelhantes às capitanias hereditárias do início da primeira colonização, e os lotes serviram para liquidação das dívidas contraídas junto aos organismos financeiros internacionais. No final do segundo milênio, nova ordem econômico-financeira do mundo globalizado levou os chamados países do Terceiro Mundo à bancarrota e, na segunda década do século XXI, transformou-os em simples possessões; domínios à moda antiga, agora sob a denominação de ZCOSGTA’s — Zona sob Controle da Organização Supranacional para Gerenciamento dos Territórios Alinhados —, ou seja: as zonas sob controle são os territórios alinhados gerenciados pela OSGTA, a superorganização que os administra. Esta 243ª ZCOSGTA corresponde ao antigo Estado do Rio de Janeiro. São Paulo foi dividido em duas zonas: a 238ª (norte) e a 239ª (sul). Todo o Brasil (exceto a Região Amazônica, pois esta área já havia sido ocupada por um consórcio internacional anos antes) foi dividido em 45 ZCOSGTA’s. No início, aquilo era apenas o que chamavam de imperialismo suave, o soft imperialism, que encontrava defensores mesmo entre nós. Defensores?! Não, mais tarde (tarde demais) os reconhecemos pelo que realmente são: entreguistas. Depois veio essa degradante condição de tutela imperialista nos moldes antigos. Tão ou mais violenta que as ocupações nazistas durante a Segunda Guerra Mundial (raros são os registros que restam sobre esta fase da História). Fomos uma das primeiras nações a se submeterem ao controle da OSGTA, que à época ainda atuava sob os disfarces de FMI, Bird e de outras instituições financeiras internacionais.


22 de novembro de 2053

De onde vem essa chuva oleosa que cai incessantemente? Quais as causas disso? Ainda não estão claramente definidos os motivos que a provocam. Há cerca de cinco décadas, no final do século XX, a cinematografia hollywoodiana, baseando-se nas experiências vividas em Hiroxima e Nagasaki, explorou esse cenário em produções futuristas. Atribuíam-na às conseqüências de um cataclismo atômico. No entanto, apesar de não se haver efetivado o terceiro grande conflito mundial, a hecatombe nuclear definitiva, aqui estamos debaixo desse gosmento chorume, antes só visto nos aterros sanitários. Nas ruas, as pessoas atingidas pelas primeiras precipitações desse viscoso líquido escuro acreditavam que estavam sendo alvo de uma estúpida brincadeira, achavam que alguém lhes atirava óleo queimado do alto dos edifícios. Tal equívoco provocou muitas discussões, brigas e até agressões seguidas de assassinato. Mas logo fomos informados sobre esse obscuro fenômeno. Chove sem parar. Se é que podemos chamar esse corrimento atmosférico de chuva. É como se o céu se encarregasse de permanentemente nos lembrar as agressões ambientais que cometemos nos últimos cem anos: imprudentes desmatamentos, excessiva poluição atmosférica, irresponsáveis represamentos e desvios de cursos fluviais, agressivos testes com ogivas nucleares e as mais criminosas agressões ambientais. Não, não cessa nunca. Ocorrem apenas mudanças no índice pluviométrico e na temperatura do lodo austral — denominação que alguns cientistas dão a esse óleo pluvial, por acreditarem que o fenômeno tenha origem no espaço aéreo perpendicular ao imaginário eixo polar sul, onde supostamente o globo terrestre processaria a poluição geral do Planeta, centrifugando os poluentes e redistribuindo-os sob a forma de gases concentrados, os quais se condensam e se precipitam dessa maneira chorumenta. É uma das muitas teorias sobre essa chuva mefítica (o mau cheiro lembra a catinga que se exalava dos canais que margeavam a extinta Ilha do Fundão), a de menor aceitação nos meios acadêmicos; porém a mais difundida entre a população, que hoje é extremamente mal informada (todas as notícias e informações gerais nos chegam via agência oficial da OSGTA, sob o crivo do Departamento de Censura). O que se conhecia como estações climáticas agora são períodos marcados pela intensidade das precipitações de chorume e sua temperatura. E não mais ocorrem em fases definidas. Outono, inverno, primavera e verão agora são condições temporais momentâneas, com início e duração até previsíveis pelos observatórios meteorológicos; todavia sem a verificação das fases estabelecidas pelos solstícios e equinócios como antigamente. Portanto, depois de um breve outono de duas semanas, poderemos retornar a um rigoroso verão, com temperaturas elevadíssimas e chorume abundante, durante toda a semana ou mesmo todo o mês seguinte. Sei que teremos um Natal hibernal, apesar de estarmos passando por um período de verão com a temperatura atingindo os 47 graus, porque ontem tomei conhecimento das previsões do infalível Departamento de Meteorologia: “Nas três próximas quinzenas a temperatura do chorume tende a ficar em torno dos 15 graus negativos” — se essa coisa congelasse, teríamos neve negra no Natal.


16 de dezembro de 2053

Aniversario hoje. Completei os 75. Não haverá comemoração. Há muito tempo não se festejam aniversários. Não há motivos que justifiquem comemorações. Poucos, entre os que vivem (sobrevivem) aqui na Crosta, chegam a esta idade. Sabe-se que os milionários que moram nos SiJO’s, os Sideral Joint Ownerships, já ultrapassam em muito os 100 anos de idade. O primeiro condomínio espacial, o SiJO-001, foi instalado nos anos 30–XXI (a partir de 2010 se tornou usual especificar-se o século após se referir a determinada década). As informações que nos chegam são precárias, porém dizem que três ex-presidentes dos EUA no século XX vivem hoje numa dessas estações. Dos brasileiros famosos que se tem notícia, fala-se de dois ex-empresários das comunicações, ambos já senis em 2000, mas atualmente desfrutando seus cento e muitos anos nas estações orbitais, verdadeiras cidades suspensas no espaço sideral.


25 de dezembro de 2053

É Natal. Por incrível que pareça, a música característica desta época ainda é Jingle Bells, o hino do Natal — sempre que entramos no mês de dezembro, o alto-falante do abrigo toca-o dia e noite. Basicamente não há justificativa para confraternizações de qualquer tipo. Contudo o Natal ainda é lembrado. Nas entradas dos abrigos subterrâneos, onde vive a maior parte dos litosféricos, são montados presépios. É uma iniciativa feminina, nos últimos tempos as mulheres sempre se encarregam de instalar as lapinhas (lembrei-me de minha infância, em minha terra chamavam presépio de lapinha). Existem atividades que só as mulheres exercem, montar presépio é uma delas. Nem antropólogos, nem sociólogos, nem psicólogos, ninguém consegue explicar as razões; mas o fato é que a mulher ocidental orientalizou-se (para usar este termo que foi um neologismo muito em moda nos anos 20–XXI), abandonou a postura feminista incrementada nos anos 70–XX, desistiu dos propósitos de emancipação profissional, de prover a subsistência em concorrência com os homens e reassumiu a condição de aparente submissão ao domínio masculino. Pela via contrária, ocorreu a ocidentalização das orientais. Pelo menos foi isso que vimos enquanto tínhamos acesso à Internet. Até o final da época das televisões via cabo e satélite, assistimos a muita manifestação feminista (no Oriente) e feminina (no Ocidente). Agora, sem rádio, televisão, jornal, revista ou Internet (só nos resta o Boletim Oficial, lido diariamente através dos alto-falantes), não sabemos mais a quanto andam as outras partes do mundo. Acredito que, hoje em dia, nenhum movimento de protesto ou reivindicação faz sentido em qualquer parte, pelo simples fato de não se ter a quem protestar ou reivindicar. As ZCOSGTA’s não passam de mero conceito geográfico, não têm governo próprio. Muita gente não sabe nem mesmo o que vem a ser governo. Há muito tempo não se usa o termo governar, mas sim, gerenciar. Os núcleos humanos são essas aglomerações sem identidade própria. Não se sabe ao certo o que são. Há muitos anos o termo comunidade caiu em desuso. A administração da OSGTA está restrita a pouquíssimas áreas. É o que chamam de gerenciamento mínimo, neoliberalismo (aqui está ele de volta, neomaquiado). Suas atuações mais marcantes estão restritas às áreas de Comunicação, por motivos óbvios, e Transporte — neste caso, especificamente porque temem migrações em massa. Migrar para onde? — estamos sempre a nos perguntar uns aos outros. Desconfiamos que ainda possam existir na Crosta algumas áreas livres do chorume pluvial. Mas isso é apenas especulação.


13 de janeiro de 2054

Ontem à noite ouvi uma conversa entre uns companheiros aqui do abrigo. São pessoas na faixa dos 40/45 anos, como a maioria dos habitantes dos abrigos subterrâneos. Esses companheiros sabem de muita coisa referente à época pré-chorume. Fgno, que parece ser o mais velho dos três, perguntou: “O que se imaginava que viesse depois do Armagedon?” Pxton respondeu: “O Livro Sagrado falava de condenação e salvação; inferno pra uns, paraíso pra outros”. Aí Rtno acrescentou: “As pessoas especulavam sobre como se daria o Armagedon. Muitos imaginavam o Dia do Juízo como um momento em que se desencadeariam aterrorizantes fenômenos; mas esperava-se um evento com dia e hora marcada pelo Criador”. Estou registrando este diálogo porque me lembrei de uma série de artigos escritos em 2019 por um sociólogo alemão, o qual defendia a tese de que o século XX corresponde ao período apocalíptico profetizado nos livros sagrados das diversas correntes religiosas. Para ele, o narcotráfico, que se disseminou pelo mundo até meados da segunda década do século XXI, seria a representação de um dos cavaleiros do apocalipse. (Em 2016 foi condenado e enviado para uma prisão submarina o último grande chefe do cartel das drogas na Amazônia. O SUJAZ, Sistema Unificado de Justiça Arbitrária para as Zcosgtas, atualmente prefere a aplicação do degredo interplanetário ao confinamento em prisões subaquáticas, ou à pena capital, por acreditar que tal castigo é mais exemplar que a própria morte.) Sua tese, até o presente aceita pela maior parte da população, é, ao meu ver, uma lucubração fantasiosa, sem nenhum respaldo científico. A bem da verdade, é preciso reconhecer que, tirante o nazi-fascismo dos anos 30 e dos 40–XX, os demais fatos históricos do século passado se transformam em romanescos acontecimentos, quando comparados a esta catastrófica situação dos dias atuais. Mesmo o narcotráfico, que chegou a dominar praticamente todo o mundo e ameaçou transformar a população terrestre numa ignava massa de dependentes químicos, está, na categorização mundial da malignidade, em posição inferior às organizações político-financeiras que controlam o mundo atual, lá dos palácios flutuantes, no Olimpódromo (nome dado à via espacial transitada pelas estações orbitais onde vivem as elites dominantes). As viagens à Crosta, para aqueles maquiavélicos manipuladores da Economia, são aventuras radicais: só desembarcam aqui e circulam entre nós fantasiados de astronauta. Na verdade, quem nasceu e criou-se no espaço, nos SiJO’s, ou mesmo quem vive por lá há muito tempo, não tem biorresistência para suportar a atmosfera insalubre aqui da Crosta.


17 de janeiro de 2054

(Costumo intervalar de períodos bem mais longos estes registros memoriais, porém um novo argumento me fez voltar aqui mais breve que de costume.)

Ontem me caiu nas mãos um velho exemplar de “O Século XX e o Apocalipse”, uma compilação de textos publicados entre 2015 e 2030, os quais teorizam sobre a hipótese de que o século passado corresponda ao período apocalíptico anunciado pelas profecias dos livros sagrados; conforme as conjecturas daquele sociólogo alemão, a quem me referi no registro de 13 de janeiro último. Os autores dessa obra são unânimes na opinião de que o Paraíso e o Inferno correspondem hoje à vida no Espaço e na Crosta, respectivamente. Assim, insistem em afirmar que os processos seletivos de condenações e absolvições, conforme as terrificantes revelações proféticas do livro Apocalipse, estejam explícitos nesta separação entre nós, os “excluídos” (habitantes da Crosta), e os “escolhidos” (habitantes dos SiJO’s). Mas garantem que ainda resta uma chance para os que aqui ficaram: salvarem-se através do processo de arrependimento e expiações e, finalmente, se submeterem a uma prova de incontestável fidelidade ao SUED — Sistema Universal de Educação e Disciplina, ou — como no original — Discipline&Education Universal System — DEUS.


05 de fevereiro de 2054

Sei que até aqui estou dando a entender que discordo dessa suposta tese que faz do século XX a Era Apocalíptica, na qual teria ocorrido o catastrófico Armagedon, o grande conflito entre o Bem e o Mal. No entanto a minha opinião não é simplesmente discordante. Na verdade, quem vive (?) os dias de hoje e viveu pelo menos o último quarto do século XX sabe que, de todas as atividades criminosas, de todos os cânceres sociais conhecidos até o presente, de todas as formas de corrupção ou de qualquer outra degradação moral possível, enfim, dentre tudo aquilo que possa ser classificado como danoso ao ser humano, nada pode se comparar (menos ainda se equiparar) ao ganancioso domínio político do poder econômico, nem ao entreguismo dos vendilhões da Pátria, nem ao funesto poder bélico das arrogantes superpotências. Fatores que, interagindo, formam o maior complexo de geração das desgraças que hoje assolam o Planeta. Depois disso, só nos resta sentir Saudades do Apocalipse.

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quarta-feira, 27 de junho de 2007

Mortos acima de qualquer suspeita

Geraldo e Cláudio são amigos inseparáveis. Aposentados, podem ser vistos a partir das duas da tarde, todos os dias, na mesa exclusiva da dupla, no Bar do Cardoso. Nos últimos vinte anos, só falharam um dia. Foi no domingo passado, pois naquele dia o bar fechou devido ao recrudescimento da violência que toma conta da cidade há uma semana.


Geraldo abre o jornal e lê para o companheiro:


— Vê essa, meu: "Já somam 107 os suspeitos abatidos pela polícia desde sexta-feira passada".

— Suspeitos de quê?! — perguntou Cláudio

— Aqui só fala em suspeitos.

— Mas quem são esses suspeitos?

— Ora! eu já li isso pra você, são os mortos, meu!

— Sei, mas quem são os mortos?

— Putz!, meu, você não saca uma! Quer que eu desenhe? Os mortos são os suspeitos, meu!

— Mas, meu, eu quero saber quem são os mortos suspeitos.

— Fácil: são os caras que a polícia matou.

— E esses caras têm nome?

— Tinham.

— Como "tinham"?

— Agora são somente números.

— São suspeitos de quê?

— Suspeita-se que alguns desses suspeitos participaram de um movimento suspeito, supostamente ligado ao suspeito crime organizado.

— Mas, se depois de investigados os casos, descobrirem que alguns dos suspeitos são inocentes?

— E daí?!

— O que acontece com esses que já morreram?

— O que acontece?! Ora, meu!, não acontece mais nada, os caras já morreram.

— E a polícia está procurando novos suspeitos?

— Claro.

— Mas, pelo que estou entendendo, qualquer pessoa que estava na cidade, nos últimos dias, é um suspeito.

— Claro que não!

— Por que não?

— A polícia, antes de atirar, não pergunta onde o cara estava nos últimos dias.

— E se ficar provado que o morto suspeito não estava na cidade há mais de uma semana e não tinha nenhum envolvimento com organizações criminosas?

— Aí o suspeito morto passa a ser apenas morto.

— Hein?!

— Torna-se um morto acima de qualquer suspeita.

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sábado, 23 de junho de 2007

Jorge de Tereza

Jorge viu Tereza, sua mulher, de papo com o Francis. Arrepiou-se só de pensar no que os dois estavam conversando. Fez menção de ir até lá e defender sua propriedade. Todo mundo sabia que o Francis era o mais competente conquistador do bairro... Da cidade?! Sim, talvez da cidade. Acho que, se alguém dissesse “do país”, ninguém duvidaria, pois corria de bocas a ouvidos e bocas que ele já havia conquistado noventa e nove por cento das mulheres casadas da vizinhança.

Jorge tremia, não sabia o que fazer. Preferiu esperar mais um pouco. Felizmente o encontro foi rápido, e Jorge tranqüilizou-se quando viu a sua mulher apontar para certa direção, como se estivesse informando um endereço, os dois se despedirem e cada um seguir em sentidos opostos. Mesmo assim, quando chegou em casa, cobrou uma explicação:

— O que o Francis queria com você?!

— Quem?!

— O Francis, ora!

— Quem é esse Francis?!

O marido logo imaginou que a mulher estava querendo despistar. “Está escondendo o jogo”. Apertou:

— Vai dizer que não conhece aquele com quem estava de papo ali na pracinha, hein?!

— De papo na pracinha?! Escute aqui: você está me ofendendo! Eu não sou mulher de dar papo a qualquer um na pracinha, ou em qualquer outro lugar! Exijo que você me peça desculpas!

Diante da aparente indignação da mulher, Jorge entregou os pontos.

— Esta bem, desculpe, eu me enganei, era uma mulher parecida com o Francis...

— O quê?!

— Quer dizer... era outro Francis... com outra mulher... Não, não! Era outra mulher com o Francis. Pronto.

— Ah, sim! Mas, da próxima vez, vê se enxerga melhor as coisas.

Outro dia, no bar da esquina, Jorge batia papo com Orlando, uma das vítimas do Francis. Todo mundo sabia que a mulher do Orlando dava mole não só pro Francis. Jorge mandou descer umas dez rodadas de chope e, quando se certificou de que o amigo estava alto, decidiu perguntar, na lata:

— Orlando, num me leve a mal, mas é verdade que o tal do Francis... (engasgou) é... bem... dizem que ele... (pigarreou)

— Já sei, você quer saber se ele come a Rosa, é isso?

— Não! Eu jamais insinuaria uma coisa dessas! Como pode imaginar que eu podia pensar um troço desses?!

— Pensei que você sabia...

— Bom, saber, saber, eu não sei não, mas que falam por aí, falam... né?

— Então, você quer saber se é verdade...

— Longe de mim! A gente sabe que essa gente é linguaruda e inventa histórias.

— Mas essa é verdade sim. Nesse caso, ninguém tá inventando nada não.

— Hein?!

— É o que você ouviu. É tudo verdade, o Francis come a Rosa sim.

— Peralá! Você fala isso numa boa, tranqüilão! Você não faz nada pra se vingar? Não lava sua honra?!

— Claro que faço.

— Faz?!

— Claro!

— O quê?

— Como a mulher dele.

— Não acredito! Devo estar sonhando!

— É sempre ela quem lava minha “honra” — Orlando dá uma gargalhada; cai o queixo do Jorge.

Naquele exato momento, passa um mulherão em frente ao bar. Ela acena e sorri para Orlando. Jorge quer saber:

— Quem é essa?

— Não conhece?

— Acho que já vi esse avião passando por aqui, mas não conheço não.

— Só você mesmo, Jorge! Porra, como você é desligado, cara! Essa é Carmélia, a mulher do Francis.

Jorge levantou-se, foi até a porta do bar e apreciou a gostosona que já ia dobrando a esquina. Voltou, sentou-se e continuou o papo:

— Alguém mais, fora você e o Francis, come aquela criatura divina?!

— O Mário da Célia, o Reinaldo da Angélica, o Geraldo da Lourdes, o Zé da Vilma, o Marcos da Beatriz, o Carlos da Marilda...

— Não acredito! Quer dizer que aquela maravilha dá pra qualquer um?!

— Epa! Eu não sou qualquer um...

— Desculpe, eu não quis dizer isso. É que você citou tanta gente... que eu...

— Parece que só você, Jorge, tá por fora do que acontece no bairro.

— Então me bota por dentro, amigão! — Jorge demonstrou inquietante interesse.

— A Carmélia só dá pro marido da mulher que o Francis comer. É a sua vingança. A nossa vingança. Dela e de todos os maridos que o Francis corneia por aí.

— Não!

— Sim!

— Quer dizer que esse bairro é um bairro de cornos?

— Pelo que sei, só você está fora do bloco dos cornos. É uma desonrosa exceção.

— Desonrosa?! Ora, seu corno conformado!, vá encher o saco de outro!

Jorge levantou-se, pagou a despesa e saiu resmungando. Quando dobrou a esquina, viu a bela mulher do Francis entrando no carro do Argemiro da Leda. “Pouca vergonha!”.

No sábado à noite a mulher de Jorge aprontou a mesa para receber um convidado pro jantar. A campainha tocou, Jorge atendeu, fez o convidado entrar e, animado, apresentou o amigo à mulher:

— Tereza, esse é o Francis, o amigo de quem lhe falei. O Francis mora aqui perto, a gente costuma bater uma pelada de vez em quando...

— Prazer — diz Tereza sem nem mesmo estender a mão para cumprimentá-lo.

Jorge parece nervoso, indica uma poltrona para o amigo, fala à toa, diz qualquer coisa, até que, fingindo surpresa, informa:

— Ih, esqueci de comprar os cigarros!

— Desde quando você está fumando?! — perguntou Tereza.

— Não é pra mim, querida, é pro Francis. Eu prometi a ele um maço de cigarro da Polinésia.

— Cigarros da Polinésia?! — a mulher do Jorge não entendeu patavina.

— Deixa pra lá, Jorge, eu trouxe um maço de minha marca preferida.

— Nada disso, Francis, promessa é promessa! Vou buscar o maço de cigarros da Polinésia. A essa hora a tabacaria em Nova Iguaçu ainda está aberta.

— Nova Iguaçu, querido?! Mas Nova Iguaçu fica muito distante!

Lá da porta Jorge ainda gritou:

— Se eu demorar, não se preocupem comigo — saiu sem ouvir os protestos da mulher.

Às quatro da manhã o telefone chamou. A mulher do Jorge atendeu:

— Alô! (Snif...).

— Querida, me desculpe, o carro enguiçou, a bateria do celular estava descarregada, só agora cheguei a uma oficina...

— (Snif...) Volte logo, amor (Snif...).

— O que está havendo? Você está chorando? O Francis ainda está aí?

— Nem me fale nesse salafrário! (Snif...) Foi só você sair, e ele me deu uma cantada... (Snif...)

— Cantada?! E você o que fez?!

— O que fiz?! Você ainda pergunta o que fiz? Está duvidando de mim?! (Snif...)

— Longe disso, amor! Só queria saber a sua reação...

— Rachei a cabeça daquele safado com um cabo de vassoura (Snif...). Ele ainda está aqui sim, mas estirado no meio da sala. Volte logo, amor, venha tirar esse defunto sem vergonha daqui (Snif...).

Jorge desligou o celular e, de dentro do carro, em frente à casa do Francis, ainda viu Carmélia despedindo-se, aos beijos, do Leonardo, solteiro.

— O filho da puta do Osvaldo da Rosa me paga!

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sexta-feira, 22 de junho de 2007

Sioux, tupiniquins e caetés

Bicho-papão, mateus de reisado e meganha eram os mais alucinantes personagens de minha infância. Essas medonhas figuras, folclóricas ou reais, me provocaram delirantes pesadelos. Mas, na pré-adolescência, final dos anos 1950, outros seres abomináveis passaram a ocupar meu terrificante imaginário. Foi quando assisti aos primeiros faroestes cujos enredos enfocavam a campanha do lendário General Custer contra os índios sioux. A partir de então, Cavalo Louco, o chefe sioux, e seus pavorosos selvagens invadiram minhas oníricas aventuras, ameaçando rasgar meu peito e rachar meu crânio com suas apavorantes machadinhas. Felizmente, na hora agá, sempre aparecia a Sétima Cavalaria, tendo à frente um bravo corneteiro executando o toque de avançar, e a tropa me salvava daquelas desalmadas criaturas.

Além dos sioux, também os navajos, comanches e apaches rastejaram pelo quintal de minha casa em madrugadas de lua cheia. Naquelas horas, os regougos de gatos e gatas no cio me provocavam incontroláveis tremores; pois, nos meus devaneios, eu acreditava que fossem os sinais para o ataque. Nem os alemães, japoneses e árabes juntos em uma só produção hollywoodiana dos anos 50 me apavoravam mais que índio norte-americano.

Estranhamente a minha fobia de peles-vermelhas não foi transformada em pavor aos índios brasileiros. Acredito que isso se deve ao fato de que, na minha época de estudante, os livros de História tratavam do descobrimento do Brasil usando como principal ilustração o quadro A Primeira Missa no Brasil (acho que ainda usam muito essa pintura), celebrada pelo Frei Henrique Soares de Coimbra, com o auxílio de tantos outros frades e assistida pelos nobres navegantes.

Os nativos tupiniquins figuram na tela como seres enfeitiçados, dominados pela visão da imensa cruz no altar improvisado para a realização do ofício religioso, portanto eu acreditava que os colonizadores do Velho Oeste americano gastaram bala à toa; pois, a meu ver, com a cruz à frente, não haveria demônio que resistisse.

No caso brasileiro, ninguém poderia temer tão dóceis criaturas como aqueles índios deslumbrados.

Apreciando a reprodução do quadro, eu estava convicto de que, naquele mesmo dia da primeira celebração da santa missa em Terra Brasilis, os autóctones destas bandas já teriam até respondido ao santo sacramento em latim, portanto imaginava que, a cada "Dominus vobiscum" de Dom Henrique Soares de Coimbra, os índios brasileiros já teriam respondido: "Et cum spiritu tuo", e entoando cantos de louvor.

Nas séries escolares mais avançadas, eu soube que, nos tempos das grandes navegações, ali bem pertinho de minha casa, em Alagoas, habitavam outros silvícolas nem tão afáveis quanto os tupiniquins. Eram os caetés, cujos remanescentes mestiçados ainda hoje resistem ao massacre.

Contam que, nos primórdios da colonização brasileira, um navio português naufragou próximo à foz do Rio São Francisco, na costa alagoana, e os sobreviventes foram resgatados pelos índios caetés. Entre os náufragos resgatados estava Dom Pero Fernandes Sardinha, bispo de São Salvador da Bahia de Todos os Santos, que, ao chegar à praia, abençoou os seus salvadores e agradeceu aos céus por terem enviados aqueles anjos da guarda.

Porém, enquanto Dom Pero Sardinha rendia graças a todos os santos por ter milagrosamente sobrevivido ao sinistro afundamento, os índios cantavam e dançavam dando glórias a Tupã pela farta pesca do dia.

Imagine o bispo chegando à aldeia e se apresentando ao cacique caeté:

— Prazer, Sardinha, Pero Fernandes Sardinha...

Ao que o chefe indígena deve ter respondido:

— Sardinha-guaçu. Jakaru nde!

Dom Pero Fernandes deve ter sacado seu pequeno dicionário português-tupi-guarani e traduzido: "Sardinha grande. Vamos comer você".

Assustado, o eminente religioso certamente saltou de banda. Mas logo se recompôs. Segurou o rosário, apertou-o e balbuciou uma poderosa jaculatória, controlando o pânico.

Deve ter tentado explicar ao grande chefe:

— Mim... — batendo no peito — Mim... entende?! Mim fez votos de castidade. Mim não poder ter relações sexuais.

Ao que o cacique teria respondido:

— Che jejuká nde!

Dessa vez, se Dom Fernandes Sardinha tivesse tido tempo de consultar o dicionário de bolso, teria entendido que o chefe dos caetés lhe disse: "Vou matar você". E foi o que dizem que ele fez, rachando a cabeça do sacerdote com uma violenta bordunada.

Naquela noite os caetés se regalaram com um autêntico banquete sagrado.

Nos dias seguintes, quando os outros náufragos ouviam o cacique dizer "Jakaru nde!", arriavam as calças e se viravam de costas para o manda-chuva da tribo. Mas os guerreiros caetés gostavam mesmo era de filé de nádegas. E tome bordunadas.

Baseado nesses fatos, desconfio que, antes da esquadra cabralina aportar em terras brasileiras, uma expedição portuguesa teria explorado nosso litoral e indicado o local ideal para o evento do descobrimento, pois a nação tupiniquim era realmente a mais pacífica de toda Terra de Santa Cruz e alimentava-se basicamente de mandioca, coco e pescado (sardinha-mirim, de verdade). Enquanto as demais tribos brasileiras apreciavam um genuíno prato português.

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quarta-feira, 20 de junho de 2007

Puta ignorância, Batman!

Andaram dizendo que Sua Majestade o Imperador de Plantão George W. Bush II, monarca da vez em Washington, desconhecia que a população brasileira é constituída por uma pluralidade étnica, na qual o segmento negro destaca-se, formando, provavelmente, o maior contingente entre os diversos grupos que compõem a maior miscigenação do Planeta. Teria ele perguntado ao gerente do Brasil, na época, Sua Ex-Excelência Fernando Henrique Cardoso, se no nosso país existia negro. Provavelmente Bush percebeu tal possibilidade ao notar o cabelo crespo de FHC.

Já não se faz imperador como antigamente, pois duvido que os imperadores romanos, de Augusto a Adriano, fossem tão mal informados como os césares ianques dos dias que se passam. Ou eles são realmente ignorantes por natureza, ou menosprezam os seus vassalos de segunda categoria, ou simplesmente nos esnobam, dando a entender que somos gente (coisa?) de pouca importância.

Talvez queiram apenas despistar, para que a gente não observe que eles vivem ligados em nosso patrimônio, esmiuçando nossas vidas. Ou é tudo isso de uma só vez. Mas, antes de qualquer coisa, acho que deve ser dissimulação mesmo: os gringos fingem que não nos conhecem bem, que não dão muita importância para o “quintal”, só para ficarem mais à vontade enquanto saqueiam o Auriverde.

Ronald Reagan, ao desembarcar em Brasília (lá pelos idos de 1983, se não me falha a memória), saudou “the bolivian people”. Aí, dizem que foi acudido por um assessor que soprou no seu ouvido: “Brazilian, excellence, brazilian people”. E ele teria emendado: “Brazilian people too”.

Na matéria que tratava da visita do presidente Reagan ao Brasil, em 83, o The New York Times publicou, a título de ilustração, um mapa indicando as escalas do avião presidencial na América do Sul. Na tal ilustração a cidade de São Paulo podia ser localizada, através de uma seta, lá no meio da Amazônia, mais ou menos no lugar onde se encontra Manaus, a capital do Estado do Amazonas.

— Santa ignorância, Batman!

— Não, Robin, isso era apenas pra despistar os discípulos de John Hinckley.

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domingo, 17 de junho de 2007

Unidades diferenciais cósmicas

O amor de Élcio por Luci só podia ser comparado ao amor de Luci por Élcio. Não deveria existir, em todo o Rio de Janeiro, outro casal tão apaixonado quanto aquele. Moravam na Tijuca, onde nasceram, criaram-se, estudaram, namoraram e se casaram.

Depois de casados, instalaram, num shopping da Barra da Tijuca, uma loja especializada em confecções, componentes e acessórios apropriados para esportes náuticos. Para não destoar dos estabelecimentos vizinhos, a loja exibia nas suas vitrines algumas expressões em inglês: surf wear, sale, até mesmo delivery. Contudo o seu nome comercial não podia ser outro: "Élcio & Luci", e tinha como logotipo as iniciais "E" e "L" artisticamente grafadas, entrelaçadas no centro de um coração escarlate.

Conjecturando a possibilidade de terem nascido ambos com o mesmo sexo, concluíram que, ainda assim, seriam amantes. Mesmo porque, já naqueles dias, esse tipo de relacionamento seria razoavelmente tolerado pela sociedade. Ele preferia que, nesse caso, fossem mulheres. Ela inclinava-se pela condição masculina. Mas isso não implicava algum tipo de polêmica entre eles. Acreditavam que, em qualquer circunstância, teriam nascido um para o outro.

Adeptos de seitas esotéricas, os dois estavam sempre buscando signos e caracteres que revelassem os princípios daquele arrebatado amor. Consultavam horóscopo, mapa astral, tarô, vidente e chegaram até a participar de sessões de projeção de vidas passadas, com o intuito de se conhecerem mais a fundo. Entretanto foi através de um místico do Engenho de Dentro, bairro da linha principal da Central do Brasil, que descobriam um dado curioso (para eles, cabalístico!) a respeito de suas vidas.

O vidente, que era versado, entre outras ciências, em numerologia, observou, praticamente em todos os dados pessoais de Élcio, a ocorrência de uma unidade a mais que nos tópicos correspondentes em sua mulher. A isso o mago denominou Unidade Diferencial Cósmica (UDC).

A começar pela idade: ele era um ano mais velho que ela. Além disso, nascera no dia 11 de maio; Luci, a 12 de junho. E as suas certidões de nascimento ainda indicavam um expressivo detalhe: ele veio ao mundo às 03h45; ela às 04h45. Portanto a diferença era, precisamente, de um ano, um mês, um dia e uma hora. No entanto as coincidências... melhor, as UDC's do mago não paravam por aí. Na altura, Élcio media exatamente um centímetro a mais que Luci. Calçava 39; ela, 38. Até as cinco letras do nome dele, em relação às quatro do dela, não seriam resultado de mera casualidade. De acordo com o adivinho, seus pais foram imperativamente influenciados por aquele princípio determinista no momento da escolha dos nomes dos filhos ("Luci" era nome próprio, não se tratava de abreviação carinhosa).

Segundo o místico, essa incidência de UDC's não conferia ao marido nenhum fator de superioridade; para ele, elas tinham valor apenas distintivo, sem qualquer sentido de graduação. Mesmo assim estimulou o casal a provocar tal ocorrência em diversos âmbitos, garantindo que esta seria sua principal Via de Absorção de Energias Cósmicas (VAEC).

Assim, seguindo recomendações do mestre e padecendo sacrifícios dietéticos, procuravam manter o peso a 1kg de diferença a favor de Élcio (ou seria contra, por tratar-se de peso a mais?).

Mesmo vivendo um aparente mar de rosas, Luci tinha sempre em mente um conselho de sua mãe: "No casamento, como na vida em geral, um olho na missa, outro no padre".

Graças ao proverbial alerta da mãe, certa ocasião ela percebeu que o seu marido fazia olho comprido pra cima de Aline, a dona da floricultura em frente à sua loja no shopping.

Algumas semanas depois de ter notado o possível flerte do marido com a florista, as suas suspeitas finalmente se confirmaram: descobriu que as saídas de Élcio, invariavelmente à tarde, nem sempre se destinavam às pesquisas de mercado, como ele as justificava; na maioria das vezes, saía para se encontrar com Aline.

No começo, Luci padeceu a angústia dos traídos, porém guardava silêncio sobre a questão, não externava qualquer sinal de lamúria. Fazia de tudo para dissimular aquele inferno astral. Não queria que o marido percebesse seu sofrimento. Pretendia resolver o problema da maneira menos traumática.
Já considerava seu casamento uma causa perdida, até que resolveu consultar o numerologista do Engenho de Dentro.

Diante do problema, o vidente chamou sua atenção para as tais Unidades Diferenciais Cósmicas.

Desculpando-se pela sua indiscrição, o místico quis saber:

- Com quantos parceiros você mantém relações sexuais, minha jovem?

Ela, fidelíssima esposa, vivendo sua monogâmica paixão, naturalmente respondeu:

- Com um, mestre, somente com um! Ele é a única pessoa com quem transo. Juro!

E o sapiente guru observou:

- Então, minha filha, não compreende que isso esclarece tudo?!

Fez-se a luz! Luci entendeu que tudo não passava do fatalismo das UDC's, o que isentava o marido de qualquer culpa. "Pelo contrário, agindo assim ele contribui para equilíbrio da nossa vida conjugal, através da nossa principal VAEC", pensou e voltou para casa consciente de que deveria aceitar seu carma com resignação.

Com a juda de um consultor especializado em Feng Shui, Luci restaurou o fluxo da energia chi em sua casa e na loja. Até se tornou amiga de Aline, sem nunca lhe dar a entender que sabia do seu relacionamento com Élcio. Tornaram-se confidentes.

Quando Aline, enciumada, fez a amiga saber que seu marido investia em mais um caso amoroso (agora andava de caso também com Michelle, uma das vendedoras da floricultura), Luci não se abalou, finalmente, tendo Élcio duas amantes, ela pôde ceder às cantadas de Astrogildo, o mago do Engenho de Dentro, agora seu amante... quer dizer, o homem que restabeleceu as UDCs do casal.

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sábado, 16 de junho de 2007

Gravata indecente!

- Porra, cara! tu deverias ter sido eleito o canalha do ano!

- Quem dera! Não estou com essa bola toda!

- Pra mim, este ano, não pintou ninguém que chegasse nem perto do teu cinismo!

- Acho que você está desinformado; mas, em todo caso, obrigado, tenho me esforçado para ser o melhor.

- E tua mulher?!

- Puta que pariu! Não deve existir outra fêmea mais cretina! - sorri.- Um clone da mãe!

- É verdade, ninguém pode negar as semelhanças.

- Velha esperta aquela, enterrou cinco maridos ricos.

- E teus filhos? Como estão indo os teus filhos?

- Ih! você até me fez lembrar de que preciso pagar à empreiteira que está fazendo as reformas aqui em casa.

- O que tem o cu a ver com as calças? Perguntei pelos teus filhos.

- É que estou instalando grades nos corredores a fim de dificultar o acesso deles ao meu quarto. Vá que, de uma hora pra outra, aqueles safados resolvem me matar. O prevenido morreu de velho.

- Pelo visto tu morrerás mesmo é velhaco.

- Cada um faz por merecer sua velhacaria em paz.

- Quais os teus planos para o ano novo?

- Você já os estabeleceu.

- Eu!

- Sim, você: quero ser eleito o canalha do ano!

- Mas fala um pouco dos teus filhos.

- Bom, você sabe que estou dando um duro danado pra fazer de um deles o meu sucessor.

- Pelo visto o mais novo está bastante desencaminhado... dá uns ares de bom moço...

- Ora! são arroubos da juventude, isso passa, deixa o menino se divertir. Todo mundo sabe como essas coisas funcionam: hoje, revolucionário; amanhã, reacionário...

- É verdade, lembrei-me de que tu foste vice-presidente do Centro Acadêmico.

- Lembrou-se?! Pois eu nem me lembrava disso.

- Olha, faltam apenas dois minutos para a virada do ano.

- Tem razão, vou descer, estão todos me esperando no deque da piscina...

- Será que aquele viadinho colunista social veio?

- E por acaso aquele fresco perde um réveillon aqui em casa?!

- Nem ele nem aquele deputadozinho corrupto.

- O juiz Ladário Lobo também não.

- E a piranha da tua secretária?

- Essa não pode faltar, já virou tradição: no final da festa ela vem dar uma chupada no meu caralho. Você vai ver. Sai daqui correndo, vai levar o cheque pro marido.

- Olha a hora, agora só falta um minuto pra virada!

- Tou indo, tou indo... Tchau!

Saiu do quarto apressado.

A sua imagem no espelho ainda gritou:

- Ei, volta aqui! Tu não arrumaste a gravata!

Mas ele já não podia ouvi-la.

No jardim, a sua mulher o recebeu com um largo sorriso, porém observou que a sua gravata estava desalinhada. Tentando ajeitá-la, ela falou:

- Querido, essa gravata está indecente!

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quarta-feira, 13 de junho de 2007

Por que Narciso esnobou a ninfa Eco? (Primeira parte)

Não sou propriamente um mitólogo, mas, depois desta contribuição mitográfica, espero ser reconhecido, pelo menos, como mitógrafo. Os fatos relatados podem não ter acontecido, mas isso pouco importa, pois tentam esclarecer detalhes sobre outros fatos que certamente não ocorreram.

Quando Narciso nasceu, Tirésias, o adivinho de plantão, vaticinou:

— Esse mitológico moleque vai viver pra lá de muitos anos.

Cefiso e Liríope, pais de Narciso, ficaram contentes, visto que aquela criança não seria mais uma a engrossar o índice de mortalidade infantil da antiga Grécia. O mago, porém, advertiu:

— Só tem um problema.

— Problema?! — perguntou espantado Cefiso; afinal, pretendia que seu filho fosse saudável e viesse a se tornar um atleta e participar das olimpíadas de Atenas, como ele, o pai, nunca havia participado.

— Que problema?! — espantada, quis saber Liríope; afinal, as mães cuidam das gripes, do sarampo, da catapora, da caxumba e das lombrigas dos filhos.

Mas Tirésias os tranqüilizou:

— Não se preocupem, Narciso será um jovem quase normal.

— Quase?! — animou-se o pai, pois naquela época era normal que os rapazes se interessassem mais por jovens loiros que pelos louros das olimpíadas.

— O que você quer dizer com “quase”? — quis saber a mãe, pois naquela época era normal que os filhos tivessem fortes inclinações edipianas.

Tirésias rodopiou pela sala, com gestos afetados, com uma das munhecas apoiada na cintura e falando como se estivesse incorporado por uma entidade do Candomblé.

— Narciso será tão belo, mas tão gato, tão lindo, tão fofo...

— Pára com isso, viadopolus! — impacientou-se o pai. — Só quero que meu filho não seja tão maricopolus quanto você!

— Nem tão taradopolus, como o filho da Jocasta — completou a mãe.

O adivinho esclareceu:

— A questão é que, para viver pra lá de muitos anos, Narcisinho não poderá ver sua própria imagem — advertiu Tirésias. — Porque, de tão maravilhoso, tão belo, tão pão (naquela época ainda se usava essa gíria), diante de tanta autobeleza, poderá se auto-apaixonar e, tão bem autodotado como é, vai poder até se autofornicar — enfatizou com o reflexivo “se”.

A Mitologia não registra, mas não tenho dúvida de que Cefiso e Liríope tomaram cuidados incomuns enquanto criavam e educavam Narciso. Provavelmente, jamais lhe serviram líquidos em copo, prato, tigela ou qualquer vasilha que pudesse produzir uma superfície espelhante. Também não podiam ter em casa nenhum objeto polido, fosse metálico, cerâmico ou mesmo de madeira envernizada. Cristais, nem pensar! Só não se preocuparam com objetos de plástico porque naquela época essa matéria ainda não havia sido criada. O urinol de Narcisinho foi substituído por uma caixinha de madeira com areia; afinal, o menino era um gato. Todas as providências foram tomadas para evitar que o jovem Narciso viesse a contemplar sua própria imagem, senão a Mitologia e a Psicanálise viriam a confundir o narcisista Narciso com o onanista Onan.

Certo dia, Cefiso e Liríope se descuidaram, e o jovem Narcisito saiu sozinho de casa, foi dar (?) num bosque cheio de ninfas. Exatamente nesse dia ele se encontrou com Eco, a ninfa que tinha a mania de repetir os últimos sons que ouvia. Eco ficou encantada com a beleza de Narciso, de tal forma que foi tomada de um furor uterino, o tipo de tesão que viria a ser chamado de ninfomania.

Eco aproximou-se do rapaz e, extasiada, arregalou o olhos, a fim de contemplar toda aquela beleza. Os dois estavam assim, cara a cara, olhos nos olhos. Narciso parecia igualmente deslumbrado.

Considerando que Eco apenas repetia os últimos sons de tudo que ouvia, naquele momento ela pensou: “Sou realmente irresistível”.

Porém o que estava acontecendo de verdade era que Narciso havia visto, pela primeira vez, sua própria imagem refletida nos olhos arregalados da ninfa. Foi então que o auto-encantado Narciso falou:

— O ser mais belo de todo o universo sou eu!

— ...sou eu! sou eu! — repetiu Eco.

— Não, sua convencida! SOU EU! — explodiu Narciso, batendo no peito.

— ...SOU EU! SOU EU! – ecoava Eco.

— Você?! Ah, não FODE! — berrou.

— ...FODE! FODE! FODE! — repetia Eco, enquanto levantava a saia.

Horrorizado com aquela oferecida, Narciso saiu disparado e gritando:

— Não vem, que não tem!

— ...tem! tem! tem!

— Você tá louca!

— ...cê tá louca! ...cê tá louca! ...cê tá louca...!

(Deve ter sido desse encontro que surgiu o provérbio: “Quando um não quer, dois não trepam”.)

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Por que Narciso esnobou a ninfa Eco? (Final)

Cenas do capítulo anterior:

Narciso encontra-se com Eco e, através do reflexo de sua imagem nos olhos arregalados da ninfa, descobriu que ele é deslumbrantemente belo. Porém tudo indica que Narciso tinha medo de aranha, pois bastou ela levantar a saia, e ele disparou bosque adentro, fugindo da repetitiva Eco e gritando:

— Não me comprometa!

— ...meta! ...meta! ...meta! — repetia a ninfa, tentando alcançá-lo, com a saia levantada.

— Dos deuses, sou um enviado!

— ...viado! ...viado! ...viado! — subitamente Eco estancou.

Finalmente entendeu que estava perdendo seu tempo. Envergonhada por ter sido esnobada, Eco perdeu o apetite e definhou.

Aconselhada por Diana, Eco resolveu que seria modelo nas passarelas do Olimpo. Então, para atingir o padrão exigido, parou de comer. Emagreceu, emagreceu, emagreceu... até que sobrou apenas as partes mais sólidas. Eco transformou-se numa rocha. Mas não perdeu o hábito de repetir o final dos sons que ouvia. As rochas vizinhas gostaram da brincadeira e passaram a fazer o mesmo. A moda se espalhou pelos Pirineus, Himalaia, Andes, até chegar à garagem aqui do condomínio onde moro.

Narciso resolveu morar no bosque, onde os demais habitantes lhe pareciam horríveis e, portanto, realçariam sua beleza, destacando-o de tudo e de todos. Nisso se inspirou Caetano, que disse: "É que Narciso acha feio o que não é espelho", e trocou Salvador por Sampa, onde sua feiúra se confundiria com a "feia fumaça que sobe apagando as estrelas".

Em noites de tempestade, Narciso vagava pelos campos, cantando e dançando na chuva, pois os clarões dos relâmpagos sugeriam flashs das câmeras fotográficas de centenas de paparazzi em busca de flagrantes de sua vida noturna. E os trovões equivaliam ao que hoje chamam de thecno music, mesmo considerando que os ribombos da natureza soam bem mais harmoniosos.

Numa dessas noites, Narciso encontrou-se com Dionísio, que era vendedor de vinho da adega de seu pai, Zeus (na Grécia é comum as pessoas sofrerem de "língua presa", daí chamarem "Deus" de "Zeus"). Então, Dionísio (Zionísio, para os gregos) fez Narciso experimentar uma garrafa de cada safra, desde as produções mais antigas até as preciosidades que hoje só se encontram em Ciudad del Este, no Paraguai. Narciso tomou um porre e, como se dizia naquela época, entrou em ékstasis, ou, como ainda hoje se diz por lá, ficou ekstatikós.

Quando o dia amanheceu, Narciso ainda estava meio chapado; o fígado bombardeado lhe provocava uma homérica dor de cabeça e uma sede odisséica. Narciso saiu correndo pelos campos, suplicando:

— Água! Água! Água...

O boquisseco Narciso avistou uma lagoa; porém, quando se aproximou, eis que, estupefato (ou, como escreveriam os portugueses, estupefacto), viu sua própria imagem refletida nas águas cristalinas. Entretanto, contrariando a versão tradicional, Narciso não imaginou que estava vendo a si próprio: pensou que aquele lá fosse Dionísio, o jovem vendedor de vinho, com quem bebera, dançara, comera e por quem fora comido a noite toda.

Narciso imaginou que seu mitológico companheiro também viera afogar a ressaca e teria aproveitado para dar uma refrescada. Apaixonado pelo filho de Zeus, Narciso, num salto olímpico, atirou-se em seus braços, esquecendo-se de tudo e de todos, inclusive de que não sabia nadar.

Moral mitológica lógica: Se Narciso apaixonou-se por Dionísio, hoje a estátua do deus do vinho está aí mesmo para provar que tamanho não é documento.


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terça-feira, 12 de junho de 2007

Da Odisséia à Cabraléia, o mundo é uma diarréia

Tudo começou quando Zeus nomeou o troiano Páris jurado do concurso Miss Olympus. As favoritas, segundo Homero, um colunista social da época, eram Atena, Hera e Afrodite. As candidatas podiam não ter as medidas nem a desenvoltura de Gisele Bündchen, mas nem por isso foram menos importantes que a prenda gaúcha, rainha das passarelas.

Homero denunciou na sua coluna de fofocas do Globe Olympus que, assim como os bicheiros cariocas compram os jurados dos desfiles das escolas de samba, as três principais concorrentes tentaram corromper Páris, oferecendo-lhe mimos em troca do seu voto.

Hera, que hoje é conhecida como uma trepadeira lenhosa e vive por aí enfeitando muros e paredes, naquela época ainda não era lenhosa e não entendia nada de objeto de consumo masculino, pois prometeu ao troiano que o transformaria em rei da Ásia e da Europa. Muita responsabilidade para um príncipe playboy que só pensava naquilo.

Atena prometeu a Páris que lhe daria sabedoria e destreza militar. Foi um tiro pela culatra, pois isso lhe soou como ofensa. O príncipe teve a impressão de que a deusa estava insinuando que ele seria um demente, além de demonstrar desconhecimento de suas habilidades como guerreiro nas noturnas batalhas com as troianas.

Afrodite, apesar de ter sido gerada de forma artificial, sem os prazeres que a via natural proporciona, é considerada a deusa do amor e do sexo. Entende de sedução e, conseqüentemente, de corrupção. Foi dela a proposta praticamente irrecusável. Afrodite prometeu que, se Páris votasse nela, faria com que ele se casasse com a mulher mais bela do Planeta.

Páris, como qualquer jurado, senador ou deputado corrupto, aceitou a oferta que lhe pareceu mais vantajosa, o suborno de Afrodite. Acontece que, na ocasião, a mais bonita do mundo era a espartana Helena, mulher de Menelau, rei de Esparta.

Com a proteção de Afrodite, a deusa alcoviteira, Páris raptou Helena de Esparta e a elegeu Helena de Tróia. Foi aí que o fofoqueiro Homero, que estava editando a revista gay “Espadas de Esparta”, fez o mais infame dos trocadilhos: passou a chamá-la de Helena de Trolha, insinuando que, desde os dez anos de idade, a pagã aprontava das suas, chegando a provocar o tesão de Teseu, cinqüentão, filho do rei Egeu, de Atenas.

Dizem que Menelau não se abalou com o rapto de Helena, afinal ele tinha pra mais de não sei quantas escravas gostosas no seu harém. Algumas tinham o rosto muito parecido com o de Helena; em outras, os peitos eram praticamente iguais aos da formosa, e existiam ainda aquelas que exibiam bundas, coxas e até línguas helênicas. Por que, então, correr atrás de tudo isso numa só? Por quê?! Ora por quê! Porque ela poderia até não significar muito para um só, mas muita gente ficou com saudade de Helena. Entre os saudosos, o mais saudoso: Agamenon, irmão de Menelau. O cunhado de Helena já não suportava tanta saudade, acabou convencendo Menelau a correr atrás do prejuízo.

Depois de muitos anos tentando debalde (advérbio bastante usado à época) entrar na cidade de Tróia, os espartanos tiveram a genial idéia do cavalo de pau oco, que anos depois seria utilizada pelos corruptos colonizadores do Brasil, na versão do santo do pau oco, para contrabandear ouro.

Os espartanos deixaram o cavalo de pau recheado de guerreiros em frente aos portões de Tróia. Sem desconfiar que se tratava de um poderoso vírus, os troianos fizeram o presente grego entrar na cidade. À noite, enquanto Helena e Páris estavam lá no bem-bom, os espartanos saíram da barriga do cavalo. Um dos guardas troianos viu os guerreiros saindo pela retaguarda do animal e até comentou com os colegas do posto: “Olha lá!, não é um cavalo! É uma égua e estava prenhe!”. Mas aí era tarde demais, os espartanos abriram os portões e o exército de Menelau invadiu a cidade, matando meio mundo e resgatando Helena.

Muitos anos se passaram, até que os portugueses, inspirados na Ilíada, lançaram-se ao mar e vieram parar nas costas brasileiras. Entre os anos MD e MMVII, ocorreu a Cabraléia de Camões, a versão tropical da Odisséia de Homero.

Aqui no nosso solo pátrio, Menelau se tornou patrono dos cornos. Teseu passou a ser conhecido como o príncipe dos pedófilos. Agamenon é hoje reconhecido como o protetor dos ricardões. E, finalmente, Hera, Atena e Afrodite foram eleitas musas dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário (não necessariamente nessa ordem) em terras tupiniquins.

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sábado, 9 de junho de 2007

Que diabos isso tem a ver com Operação Mangosta?!

Outro dia contei um sonho... quer dizer, pior, um pesadelo que tive noite dessas, mas ninguém acreditou que sonhei, ou "pesadelei", aquilo. Algumas pessoas até arriscaram uma interpretação freudiana sobre o meu sonho; outras acreditaram tratar-se simplesmente de uma projeção lúdico-onírica influenciada pelas aventuras dos agentes Maxwell Smart (Agente 86) e Topper Harley (Top Gang).

Teve um engraçadinho que falou: "Nem Fidel Castro teria um pesadelo desses", e forçou um riso que pretendia ser a apoteose do seu sarcasmo. Mesmo assim eu quis saber por que ele relacionava Fidel ao pesadelo que lhe contei. Aí o camarada me fez lembrar da Operação Mangosta, os planos dos EUA, no início dos anos 60, para criar pretextos que justificassem uma invasão militar a Cuba.

Pensei: acho que ele tem razão, meu pesadelo tem realmente alguma coisa em comum com a Operação Mangosta, mesmo que seja apenas uma analogia dos aspectos operacionais desta com os "fatos" ocorridos no meu pesadelo. Senão vejamos, primeiro, alguns detalhes da macabra operação que a CIA montou para vender ao mundo uma imagem terrorista da revolução cubana.

A Operação Mangosta previa, entre outras ações, simular um ataque à base militar de Guantánamo pelos cubanos exilados nos EUA, porém travestidos de soldados da revolução cubana. Os sujeitos destruiriam aviões e instalações, seriam capturados e mandados para prisões, de onde sairiam protegidos por novas identificações pessoais. O ataque ofereceria o pretexto para um contra-ataque direto a Cuba e a conseqüente reconquista do país que ousou desafiar Washington.

Também estavam nos planos macabros uma possível explosão de um navio (não tripulado) nas proximidades de uma importante cidade cubana. Ao sinistro se seguiria uma simulada operação de resgate das inexistentes vítimas. Os principais jornais dos Estados Unidos publicariam a lista das "baixas", gerando comoção mundial e revolta contra o regime revolucionário de Cuba. Aí, não teria OEA nem ONU que segurasse a invasão da ilha de Fidel.

Mas... o que isso aí tem a ver com o meu pesadelo?! Nada. Ou quase nada. Realmente essa parte da Operação Mangosta ainda não tem muito que se possa relacionar com o meu letárgico sonho. Entretanto o hediondo plano também providenciava ações como, por exemplo, fazer explodir uma aeronave civil norte-americano (tipo aquele aveão da Gol, entende?), também sem tripulantes e passageiros, teleguiado, e anunciar, com muito pesar, uma falsa lista de tripulantes e passageiros.

Quem teria derrubado o tal avião?! Claro, os cubanos sob o comando de Fidel Castro. Afinal, Osama bin Laden, na época, era apenas um molecote de 5 anos, brincando de montar camelo nas costas dos amiguinhos.

Bom, acho melhor parar com esse papo cerca-lourenço e ir direto ao que acredito ter alguma relação entre o meu pesadelo e a Operação Mangosta.

Sonhei que um avião, zerinho!, zerinho!, decolava de um aviário (pô!, em sonho vale tudo) no Vale do Paraíba. Os equipamentos funcionavam às mil maravilhas. Tinha plano de vôo, combustível e scotch 12 anos. Montados na gigantesca ave metálica estavam, além da tripulação, alguns caronas, num total de sete pessoas; entre elas, Joe Vigarista, ou Zé Shark, como o cara é conhecido em Nova York, há long time.

Eu voava em outro avião na mesma rota, mas em sentido contrário. O avião de Joe Vigarista passou perto de nós, mas nem tão perto assim, nada que oferecesse qualquer risco de colisão. Súbito!, apareceu um óvni com aparência de morcego. Notei que alguns dos passageiros a bombordo haviam visto o morcegão. Estávamos sobrevoando a selva amazônica, por isso acreditei estava vendo um pterossauro que, devido ao aquecimento global, havia saído da caverna onde sobrevivera por milhares de anos, para se refrescar planando sobre a floresta. Aquilo me assustou! Principalmente quando notei que não se tratava de pterossauro coisa nenhuma! Era um bicho bem mais feroz: um falcão da noite, que, num dialeto dos índios do Alto Xingu, escreve-se "nighthawk".

O passageiro à minha frente gritou: "Olha lá!, ele disparou alguma coisa contra nós!".

Eu vi aquela coisa se aproximando. A comissária que passava ao lado ainda lhe perguntou: "O senhor precisa de alguma coisa?". Naquele momento, não sei bem o que aconteceu, apenas ouvi o som abafado do impacto do objeto lançado pelo nighthawk no casco da aeronave: TUM! Isso mesmo, TUM!, não foi "bum", mas TUM! Deve ter sido lá atrás, pois o avião desandou, rodopiou e despencou em parafuso. Aí sim foi BUM! Então eu me acordei todo suado.

Mas... o que isso tem a ver com Operação Mangosta?! Sei lá! Eu só sei que no dia seguinte liguei a tevê e ninguém falava de um avião que teria caído na Amazônia, pois era véspera de eleição e as editorias dos noticiários de tevê tinham assuntos mais importantes a tratar do que falar de um pesadelo sem pé nem cabeça.

Porém, o que mais me impressionou nessa história foi Joe Vigarista, dias depois, contar, no The New York Times, que...

"Era um vôo confortável, rotineiro. Com o quebra-sol da janela fechado, eu estava descansando em meu assento de couro a bordo de um jato executivo de US$ 25 milhões, voando a mais de 11 mil metros acima da vasta floresta tropical Amazônica. Cada um dos sete a bordo do jato para 13 passageiros estava na sua. Sem aviso, eu senti um solavanco e ouvi uma forte batida, seguida por um silêncio assustador, exceto pelo zunido dos motores. E então vieram as palavras que nunca esquecerei. 'Fomos atingidos', disse Henry Yandle, um outro passageiro que estava em pé no corredor perto da cabine do jato Legacy 600 da Embraer."

Pô! Joe Vigarista não vai esquecer as "palavras'. Eu não consigo esquecer a forte batida, TUM!, e, como diz Joe Vigarista, "sem aviso", ouvi o BUM!

Mas... o que diabos isso tem a ver com Operação Mangosta?!

Sei lá!

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sexta-feira, 8 de junho de 2007

A verdade sobre Édipo e o enigma da Esfinge

Pesquisa realizada pela Universidade do Rio Grande do Norte e corroborada por banco de dados do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - revela que as chances da mulher brasileira se casar depois dos 30 anos de idade são consideravelmente reduzidas. Segundo as informações coletadas, aos 35 a mulher conta apenas com 19% de probabilidade de levar um homem ao altar ou ao juiz de paz. Aos 45 ela tem mais chances de acertar numa das loterias da Caixa do que realizar seu sonho de amarrar um parceiro pelos laços matrimoniais (acertando na loteria, provavelmente suas chances voltam a se equiparar às de uma sensual jovem de 18).

Na verdade, em se tratando de casamento, essa questão encerra um intrigante paradoxo, pois tanto o homem quanto a mulher preferem companheiros mais maduros, por representarem quadros psicológicos de pessoas supostamente mais experientes. Além disso a imaturidade não é fator de atração sexual; exceto para os pedófilos, uma perversão que foge àquilo que predomina na natureza humana. Porém, se ambos decidissem impor suas preferências, ou seja, homens buscando parceiras mais maduras, e mulheres igualmente procurando conquistar homens de idade superior às suas, estaria criado um impasse, nem ou nem outro encontraria o parceiro ideal. Por isso, desde o princípio das civilizações, tornou-se necessário que um dos dois fizesse predominar a sua vontade.

Foi aí que a mitologia grega resolveu parte do problema. E, pelo visto, a imaturidade masculina foi decisiva para que "perdêssemos" a parada.
Os personagens Édipo e Electra representam, na tradicional psicanálise freudiana, as tendências do homem e da mulher sentirem atração sexual pela mãe e pelo pai, podendo substituir essas figuras por outras equivalentes. Porém a mitologia trata Édipo como vítima de uma fatalidade, enquanto Electra é revelada como a desequilibrada assassina que envolve o irmão no assassinato da própria mãe, Clitemnestra.

Édipo mata o pai, entretanto o seu crime encerra duas atenuantes: a primeira diz respeito a que o trágico acontecimento ocorreu num momento em que ele foge da companhia dos pais adotivos, a quem imaginava que fossem seus pais biológicos, exatamente para evitar a realização da profecia, a revelação do Oráculo de Delfos, que lhe vaticinou a futura condição de parricida; segunda, Édipo matou Laio, seu verdadeiro pai, sem saber com quem estava se digladiando.

Electra, porém, é retratada como uma mulher fria e calculista, capaz de envolver o próprio irmão no assassinato da mãe, vingando a morte do pai.

Se a lenda grega demonstra que Édipo foi vítima de uma fatalidade e que o seu relacionamento incestuoso com Jocasta, sua mãe, é apenas um acidental capítulo da novelesca trama, então, por que Freud inspirou-se na lenda grega para denominar de "Complexo de Édipo" o libidinoso impulso masculino pela figura materna? Talvez Freud, como (modéstia à parte) eu, tenha sacado o que realmente aconteceu quando Édipo chegou a Tebas, tentando escapar da premonição do oráculo.

Finalmente, a verdade sobre Édipo e o enigma da Esfinge

Chegando a Tebas, Édipo soube que uma esfinge estava aterrorizando a população. Tratava-se de um monstro parte leão alado, parte mulher, o qual, antes de executar a sua vítima, dava-lhe uma oportunidade de se livrar da morte fazendo uma pergunta enigmática: "Qual é o animal que tem quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite?".

A resposta correta para esse enigma significaria a derrota da Esfinge. Muitos já haviam tentado solucionar a charada, porém erravam a resposta, o que autorizava a Esfinge a devorar-lhes as partes que mais apreciava, jogando os restos num precipício, em cujo fundo amontoavam-se as ossadas daqueles que ousaram enfrentá-la. Centenas de jovens haviam se aventurado a encarar a Esfinge tentando decifrar o seu enigma, pois aquele que lograsse sucesso teria como prêmio a deslumbrante Jocasta, a rainha de Laio, uma sensual e experiente mulher.

Édipo, inicialmente, não demonstrou interesse em faturar o prêmio; porém, quando o jovem viu a fascinante Jocasta, uma coroa divinamente sensual, a personificação da volúpia, teve uma violenta ereção e ficou nesse estado permanentemente. A partir daquele momento, nada mais lhe interessava, e, para ele, a vida não teria mais sentido se não conquistasse aquela maravilhosa criatura madura. Foi assim que Édipo candidatou-se ao trono, decidindo enfrentar a Esfinge, com a certeza de que a venceria e faria jus ao seu cobiçado objeto de consumo.

A fim de disfarçar o volume do pênis permanentemente ereto, Édipo passou a se vestir apenas com uma folgada túnica; isso evitava o desconforto de manter o membro amarrado à coxa. Trajado com o roupão, ele partiu para o local onde encontraria a Esfinge. Ao entardecer Édipo avistou a Esfinge, aproximou-se da aberrante criatura e esperou a pergunta.

Com a chegada do incauto jovem, a Esfinge até riu-se de contente, pois acreditou que o seu jantar estava garantido, e, caprichando na rouquidão cavernosa, formulou a enigmática pergunta:

- Qual é o animal que tem quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite?

Édipo respondeu de pronto:

- O homem.

A Esfinge se abalou, e o seu "hum!" soou entre "rum!" e "grrr!". Inquieta, abanou as asas e ergueu o rabo leonino, pois Édipo havia respondido corretamente. Porém, para que ela se desse por vencida, o disputante teria que justificar a sua resposta.

- Por que afirmas, com tanta segurança, que é o homem?

(Se você acredita que a resposta de Édipo foi aquela de que "o homem, ainda como um bebê, engatinha de quatro; acaba crescendo e andando em duas pernas; e com a idade necessita do suporte de uma terceira perna, uma bengala", engana-se, esqueça isso.)

Édipo posicionou-se de frente para a Esfinge e falou decidido:

- O homem, quando bebê, engatinha de quatro; acaba crescendo e andando em duas pernas - brusco, Édipo abriu a túnica e fez a Esfinge arregalar os olhos para apreciar a sua colossal manjuba ereta apontando em sua direção -, nesta fase, este membro, assim na horizontal, é realmente um caralho; porém, na velhice, cai para a vertical e o sujeito, no final da vida, anda com três pernas.

Imediatamente um raio fulminante destruiu a derrotada Esfinge, pois a justiça olimpiana não tardava nem falhava, era vapt-vupt em questões que envolvessem os famosos mitos gregos.

O pano caiu, mas logo se iniciou o próximo ato.

Apesar de ser, como toda mulher, electriana, Jocasta foi obrigada a se casar com Édipo. Certamente, se dependesse de sua vontade, teria desposado alguém bem mais velho. Porém a descoberta de que Édipo era seu filho culminou com suicídio de Jocasta, condenando todos os homens a optarem por mulheres mais novas e, como medida de segurança, limitando o mais cobiçado objeto de consumo de todos os tempos a um prazo de validade máximo de 30 anos.

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domingo, 3 de junho de 2007

Pouca carniça pra muito bico

Resolvi escrever uma fábula ambientada no Deserto do Atacama. Pensei num diálogo entre um urubu e um preá agonizante. Já estava com tudo fantasiado. Mas, como desconheço a fauna do Atacama, pintou uma dúvida assaz atroz: não sei se no Atacama existem preás e urubus. Dizem que, nos oásis e margens das lagoas, podem ser encontrados flamengos, lhamas, guanacos e outras espécies. Bom, nesses locais, pode-se encontrar tudo isso, creio que até preá. Urubu, jamais; pois sabe-se que urubu prefere lugares mais hostis, onde preás morrem de fome e sede. Além disso, oásis não é deserto; é desvio de conduta, como a honestidade desde Ruy Barbosa.

Pensei em exportar alguns urubus pra lá. Botei fé na verve. Aí meti o dedo no teclado e espantei uns três: Xô! Xô! Xô! Afinal, a viagem é longa, e um urubu só não faz. Verão.

Nada. Só consegui fazê-los alçar vôo e ficar lá em cima planando em espiral e corujando a gente aqui embaixo.

Liguei para um amigo e pedi sugestão sobre como levar uns três urubus até o Deserto do Atacama.

— Como é que eu faço?

— Digite “teco-teco”.

— Pronto, digitei “teco-teco”.

— Agora, em vez daquelas faixas que os teco-tecos rebocam, digite “galinha morta”.

— Tá digitado: “galinha morta”. E daí?

— Amarre a galinha numa corda de uns vinte metros e levante vôo rebocando a isca.

— Saquei! Obrigado, amigão.

— Cara! não se diz mais “obrigado”. É “valeu!”.

— Tudo bem, valeu, cara!

Com uma galinha morta a reboque, decolei do aeroporto de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, com destino ao Chile. Quinze minutos de vôo, olhei pra trás. A corda esticadinha. Lá na ponta, uma galinha planadora, linda, leve e solta, apesar de espetada num arame anzolado.

Quando a gente cruzar os Andes, vai arrastar uma revoada de condor excitado. Epa! e os urubus?! Cadê-los?!! (Se fosse do Millôr, esse texto ia virar objeto de interpretação nos cursinhos pré-vestibulares, e os professores justificariam o uso do “cadê” como “verbo de interrogação”). Os urubus continuavam lá distante, planando, espiralando numa corrente aérea qualquer. A galinha não provocou o menor tesão no pedaço.

Aterrissei e liguei novamente para o meu amigo diqueiro.

— Cara, não valeu não! Os urubus nem deram a menor bola pra galinha.

— Peralá! você levantou vôo hoje mesmo?!!

— Claro! tenho pressa. Quero mandar a fábula ainda hoje para o editor.

— Assim não dá! Você precisa dar um tempo, pelo menos uns dois dias, até a galinha apodrecer. Urubu só se interessa por putrefatos.

— Valeu!

Digitei: “Uma semana depois...”

Aí decolei o teco-teco rebocando a galinha bichada. A duzentos pés de altitude, dei uma olhada em volta, a fim de localizar os urubus e atraí-los rumo ao Atacama. Céu mais limpo! Olhei pra trás e só vi a corda tremulando. Lá embaixo, no final da pista, uma mancha preta se movimentando. Mais de não sei quantos urubus estraçalhando a carniça!!!

Aterrissei.

Liguei para o Fausto Wolff:

— Fausto, me dá uma dica aí!

Falei da minha intenção de transportar uns três urubus até o Atacama, onde pretendia escrever uma fábula tendo como personagens um preá agonizante e um urubu faminto. Contei sobre a minha frustrada tentativa de atrair os urubus com uma galinha podre e tal. Até protestei:

— Porra! Se fosse o Veríssimo, esses voluntários da Defesa Sanitária já estavam lá, e ele já teria escrito a fábula...

— Mas, do Veríssimo, tu só tens o Fernando. Ainda falta muita letra pra tu chegares lá, tchê!

— Já é alguma coisa...

— Mas vou te dar uma dica. Já que se trata de uma fábula, urubu sabe ler. Então tu não precisas de isca natural.

— Como assim?

— Tu já tens o teco-teco digitado, o aeroporto, os urubus... plano de vôo...

— Tá tudo aqui na tela do monitor.

— Digita “faixa”.

— “Faixa”.

— Bom, agora...

Aí o Fausto mandou todas as coordenadas: faixa de cambraia, largura, comprimento e nome da isca, na cor marrom. Escrevi, e ele finalmente recomendou:

— Decole com a faixa enrolada, só deve soltá-la quando atingir uns quinhentos pés de altitude.

— Valeu!

Pronto. Tudo nos conformes, decolei. O teco-teco atingiu a altitude ideal. Soltei o laço do barbante que mantinha o rolo de cambraia preso à cauda. Deflagrou-se a faixa com o nome da isca. Dois minutos de vôo e já estava sobrevoando o oceano. Olhei pra trás.

— Não! Cadê a cidade?!

Tremenda tempestade se aproximando. Era uma nuvem só!, esse toró vai me pegar. Não, nada disso! Tempestade coisa nenhuma! Era tudo urubu! Nunca vi tantos numa só revoada. Revoada? Não! não! Revoada é de ave com pedigree. Urubu é bando. A vante, um céu de almirante; lá embaixo, um mar de brigadeiro; a ré, uma umbrática visão... quer dizer, “urubrática”. Milhares e milhares! Acho que exagerei na isca artificial. Olhei pra ela. Senti náuseas. Adernei a boreste e vomitei. Parte da urubuzada mergulhou atrás do vômito. Porra! o Fausto poderia ter sugerido alguma coisa menos nojenta. Esse troço é muito asqueroso!

Os urubus mais malhados já estavam bem próximos. Acelerei. Velocidade máxima!, deixando pra trás tudo quanto é vírgula, ponto, ponto-e-vírgula, parênteses, o escambau.

Se no Atacama não tiver preá legítimo, deve ter pelo menos algum roedor parente. E daqui pra lá esse bando de urubu vai diminuir, os mais fracos vão cair no oceano.

Oceano?!!

Peralá! Estou indo pra África! Chegar no Atacama por aqui, só se eu der a volta à Terra! Essa geringonça não tem autonomia pra isso!!! Se eu deletar “teco-teco” e digitar “jatinho”, os carniceiros não vão conseguir me acompanhar. Preciso voltar, pegar a rota oeste. Aí pintou um baita problema: se eu der uma guinada de 180 graus, vou estourar o teco-teco na nuvem de urubu. Olhei pra trás. Observei que considerável parte do bando havia desistido. Já dava pra ver grandes falhas na nuvem. Buracos brancos. Acho que entenderam que é pouca carniça pra muito bico.

Resolvi arriscar. Guinei a bombordo e mirei num espaço vazio. Vupt! Mergulhei! Senti o maior alívio quando vi a cidade do Rio de Janeiro lá na frente. Maravilhosa! Quando pousei, os urubus fizeram a farra, não sobrou um fiapo da isca artificial.

Desisti da fábula. Apaguei tudo isso aí em cima.

À noite, avaliando a minha malograda tentativa de escrever uma fábula ambientada no Deserto do Atacama, concluí que fui salvo pela pressa e pelo escasso material de que dispunha. Explico. Como vocês viram, leram ou sentiram, milhares de urubus desistiram do banquete, por entenderem que a carniça, apesar do apetitoso estado de putrefação, não ia dar pra todos. Também teve aqueles que se contentaram com o vômito. Foi aí que apareceram os buracos brancos. Acontece que, devido à minha pressa e à pouca merda pra escrever o nome da isca, pintei apenas CONG NAC.

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Projeto Fábula no Atacama (I)

Sempre que posso, retomo o Projeto Fábula no Atacama (PFA), diálogo entre um urubu faminto e um preá agonizante, através do qual pretendo formular o mais lógico preceito moral capaz de orientar as relações comportamentais do ser humano com a sua própria natureza animal — a síntese do procedimento a ser adotado quando o ser humano for submetido a uma prova de resistência psicobiológica, estando imbuído dos princípios inatos da consciência, ou de generalizações da observação empírica, a lhe instigar: “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

É realmente um projeto ambicioso, uma megaprodução que o meu editor ainda não está convencido do retorno financeiro.

A fim de viabilizar o projeto, venho tentando obter algum patrocínio. Enviei proposta aos departamentos de marketing e comunicação de diversas empresas. Um amigo meu demonstrou interesse em apoiar tão relevante empreendimento cultural. Porém, depois de realizar uma enquete entre a sua clientela, desistiu de bancar o transporte e alimentação do urubu até o local da produção, o Deserto do Atacama. Concluiu que poderia comprometer a imagem do seu restaurante.

Liguei para o meu amigo Urariano Mota:

— Urariano, me dá uma dica. O que é que eu faço pra convencer meu editor de que o retorno financeiro do PFA é lucro líquido e certo?

— Mas... mas quem é você? Eu te conheço mas não estou me lembrando. (1)

— Fernando, amigo! Fernando Soares. Estou tentando convencer o meu editor a investir numa produção internacional, uma fábula ambientada no Deserto do Atacama, diálogo entre um urubu faminto e... Bom, leia, aqui mesmo em La Insignia, “Pouca carniça pra muito bico” e “Projeto Fábula no Atacama”, que você vai entender. Acontece que o homem está relutante...

— Se o comum da gente soubesse o gozo imenso que vem da arte, se a gente comum vivesse o prazer grande que é viver na arte, se a gente de todos nós despertasse para a libertação que vem da arte, se, quando e se e então pudéssemos renascer, viver mais uma vez com a consciência da vida anterior, ah, então saberíamos todos exaltar e ver e ser a felicidade que vem do artista. (2)

— Obrigado, amigo, mas preciso mesmo é fazer o Conselho Editorial entender tudo isso aí. Apresentei o meu projeto e, até agora, só argumentam sobre os altos custos da produção...

— Ou seja, discutiram-no à maneira dos ignorantes que pela vez primeira vêem uma obra de arte. Pelos traços e características exteriores. E em se tratando de um romance, pelo enredo, número de páginas, preço, e releases da editora. Mas estas características, reconheçamos, estão longe da razão de ser da literatura. (3)

— Isso!!!

— Filhos da puta! (4) Você já tentou andar plantando bananeira? (5)

— Você acha que isso vai despertar o interesse de algum empresário circense?

— É da natureza humana, tão bem imitada pelos bons atores, que o sentimento, a emoção, a fala, o crescendo, tem um processo. (6)

— Valeu! Vou tentar — despedimo-nos.

Voltei à revisão do roteiro de “O Urubu e o Preá” (título provisório).

001 — Vale da Morte — Deserto do Atacama — ext./dia

(Vou suprimir o “ext.”, afinal, todas as cenas serão externas.)

001 — Vale da Morte — Deserto do Atacama — dia

Um grupo de animais turistas brasileiros visita o Norte do Chile. Enquanto passeiam por entre os borrifantes gêiseres atacamenhos, um preá distancia-se do grupo e se perde numa trilha que o leva aos confins do Vale da Morte.

Legenda: Três dias depois...

O preá, agora agonizante, avista um oásis, tipo os do Saara, com palmeiras, tendas coloridas, camelos pastando verdoengas gramíneas, mulheres pegando água num poço, homens polindo suas espadas, tapetes decolando e aterrissando no tapeteporto e gênios atendendo os pedidos dos seus amos, servindo-lhes deliciosas esfihas e gostosas odaliscas...

Preá Agonizante: — Allah seja louvado! Estou salvo! — balbucia com extrema dificuldade.

Efeitos especiais: a imagem do paradisíaco oásis ondula, ondula e desaparece. Era uma miragem. Novamente a mais inóspita região do Planeta se revela aos olhos do roedor moribundo. Banhado de suor, o preá lambe seu próprio corpo, numa desesperada esperança de saciar a sede. Arrasta-se penosamente por mais uns dez metros e abriga-se num cantinho sombreado por uma depressão do terreno.

Close: os olhinhos de rato do preá se mexem em círculo, ele tenta fazer o reconhecimento da área a fim de assenhorear-se da dolorosa situação.

Contra-regra: Ploft!

Uma gosma marrom atinge a cabeça do preá e escorre pelo seu rosto até as bordas dos seus minúsculos beiços. Impulsionado pelo instinto de sobrevivência, o pequeno mamífero agonizante suga a visguenta substância.

Contra-regra: Shupt!, seguido de Arrrgh!! e Kusp!

Preá Agonizante: — Eca!

O autor olha para o límpido céu azul anil atacamenho e avista um objeto planando, espiralando numa remoinhadora corrente de ar.

Autor: — É uma sacola plástica vazia! (zoom) Não! É uma pipa! (mais zoom) Não! É um superbombardeiro B-2 Spirit fora da rota iraquiana! (zoom total) Nãããooo! É o urubu faminto! Finalmente vou escrever minha fábula!

O urubu faminto também aplica zoom máximo. Enxerga o preá com a cabeça lambuzada.

Urubu Faminto: — Croac!! (legenda: Acertei na mosca!)

Preá Agonizante: — Pô! isso é uma tremenda urucubaca!

.....

Urariano Mota, em:

(1) “Os corações futuristas”, pág 203.
(2) “Ronald Golias, ou quando o riso era remédio”, La Insignia, outubro 2005. Cultura.
(3) “O Chico Buarque de Budapeste”, La Insignia, setembro de 2005. Cultura.
(4) “Os corações futuristas”, pág 195.
(5) pág. 109.
(6) “Os personagens da CPI”, La Insignia, julho 2005. Cultura.

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Projeto Fábula no Atacama (II)

— Genial! Quer dizer, gen! Você é o mago da redução de custos!

Era o meu editor ao telefone.

— Do que você está falando?

— Ora! da idéia de aproveitar o preá turista e usá-lo na produção da fábula no Atacama. Uma considerável redução dos custos.

— Sim... claro!

— Mas... onde você arranjou aquele urubu?

— Urubu?

— Sim, o urubu faminto que acertou um Exocet na cabeça do preá!

— Ah! o pardal.

— Pardal?!

— Claro, aquilo era apenas um ensaio. Levei o pardal no bolso. Não pagou passagem, nem precisei de autorização do Ibama. Passou batido pela Alfândega.

— Gen!!! — o homem ficou eufórico. — Você é o mago da redução de custos!

— Você já disse isso, mas vai repetir mais uma vez quando vir o que estou aprontando.

— Nem preciso ver: você é o mago da redução de custos. Pronto, agora conta.

— Estou preparando a maior economia de neurônios de todos os tempos!

— Economia de quê?

— Neurônios.

— Você vai precisar fazer uso desses elementos na produção da fábula? Pensei que era só urubu e preá.

— Eu falei que vou poupá-los e não utilizá-los.

— Ah, sim! Mas como pretende...?

— Fazer?

— Isso!

— Adquiri um pacote de clichês!

— Dê um exemplo.

— O preá pergunta ao urubu: “Como te chamas?”. Ele responde: “Faminto, Urubu Faminto”. Sacou?

— Você quer dizer como em “Bond”, é isso?

— Calma!, não precisa gastar neurônios. Agora escuta essa outra: o preá está exausto, porém é duro na queda, não quer bater as botas. O urubu resolve dar um rolé enquanto o bicho fecha o paletó. Mas, antes de alçar vôo, diz: “Hasta la vista, baby”.

— Quer uma sugestão?

— Manda.

— Diga que o preá respondeu: “Estou ferrado, não tenho onde cair morto”

— Boa, muito boa. Anotei. Mas creio que seja mais apropriado ele dizer: “Mifu, estou chamando urubu de meu louro”.

— Que tal “com uma mão na frente outra atrás”?

— “Duas patinhas na frente e duas na bunda” dá um quê de originalidade.

— Com certeza!

— Não. Assim já é abuso. Prefiro “sem dúvida”.

— Tudo bem, pode continuar os ensaios. Mas apresse os trabalhos. Tempo é dinheiro.

— Anotei. Posso até usar “time is money” e mandar a tradução nas legendas.

— Tem carta branca. Você é o mago da redução de custos. Tchau!

Desligou. Também anotei “Ter carta branca”. Fica bem em espanhol: “Tener carta blanca” . Vou voltar à revisão do roteiro.

002 — Vale da Morte — Deserto do Atacama — dia

O preá estava ali, agonizante, prostrado, indefeso, não lhe sobrara forças para mais um passo. Desidratado, não mais suava, portanto estava desprovido de qualquer fonte para saciar a sede. Empregando todos os esforços, ele consegue erguer os seus olhinhos de rato.

Ponto de vista: o urubu faminto planando, planando em círculos espiralados, agourento.

Na trilha sonora: “El condor pasa”.

Subitamente o preá ouve uma voz cavernosa (a sonoplastia aplica efeitos cavernosos à voz):

Voz Cavernosa: — Preeeááá...

Preá Agonizante: — Deus?! Deus, onde estás que não te vejo?!

Voz Cavernosa: — Queee... Deeeuusss queee... naaada, babacaaa..., euuu... souuu aaa... suaaa... puuulgaaa... atrááásss daaa... orelhaaaa..., idiooota!

Provocada pelo instinto de sobrevivência, uma hipercorrente bioenergética percorre o corpo do preá agonizante produzindo-lhe um hiper-reflexo na patinha direita, que avança sobre a orelha esquerda, alcançando a pulga pela ponta de uma de suas garrinhas e levando-a, rapidamente, à boca.

Contra regra: Kleck!

* * * * *

Moral parcial: Nunca perca a oportunidade de se passar por Deus; mesmo que você seja apenas uma pulga arrogante.

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Projeto Fábula no Atacama (III)

Crêem os materialistas que o pós-morte é apenas uma passagem para o vazio, uma viagem, sem volta, ao nada. Ou mesmo uma viagem sem volta ao nada. Para os religiosos, o último suspiro liberta a alma da pesada matéria que a aprisiona a este mundo e lhe dá acesso à verdadeira vida, paradisíaca ou infernal. Quem morrer verá. Ou não, conforme crêem os materialistas.

Também dizem por aí que os moribundos fazem retrospectivas mentais de suas existências, recordando os seus principais feitos e desfeitos. Mas... o que teria um preá agonizante a relembrar? Provavelmente as roeduras de cada dia e os chiados de cada coito. No entanto este não é o caso de um fabuloso preá turista brasileiro no Deserto do Atacama. O nosso preá agonizante tem histórias pra contar, pois incríveis histórias viveu e tantas outras, fantásticas, ouviu.

003 — Vale da Morte — Deserto do Atacama — noite.

Com a chegada da estrelada noite atacamenha, o urubu faminto recolhe-se ao topo de uma das elevações que ladeiam o corredor do Vale da Morte; enquanto o preá agonizante, acomodado numa pequena depressão do terreno, rememora os mais felizes momentos de sua roedora vida em Taubaté, interior paulista.

Flash-back

Efeitos especiais: a imagem ondula, ondula, ondula... até que, estável, se destaca a mãe-preá chegando ao ninho.

Os quatro filhotes tateiam na semi-escuridão do lar, ávidos pelas tetinhas maternas. Seus três irmãos se apoderam dos bicos mais fartos, na parte traseira, sobrando-lhe as glândulas menos lactíferas, próximas às patinhas dianteiras da mãe. Por isso ele se tornou o filhote mais franzino da ninhada, e os seus irmãos o consideravam um tolo, pois nunca disputava a fartura das mamas da retaguarda. Porém o que nenhum deles percebia era que a sua atitude aparentemente passiva tinha objetivos, digamos, pragmáticos: naquela posição ele, bem ou mal, alimentava-se e, de lambujem, gozava as carícias da mãe-preá, deleitava-se com as lânguidas lambidas maternas. Entretanto, além do conflito edipiano e da necessidade alimentar, o preazinho mirrado preferia a primeira fila porque a sua mãe contava-lhes maravilhosas histórias de ninar, e, estando ali bem próximo da fonte sonora, ele não perdia um só trecho dos fascinantes contos que a mãe-preá narrava com a competência de uma Sherazade.

Plano geral: a mãe-preá deitada e os filhotes sugando-lhe as mamas com sofreguidão. Corta para close do preazinho franzino, único a sorver com parcimônia.

Mãe-preá: — Era uma vez... (Fim do flash-back)

No breu da noite, apenas os olhinhos de rato do preá brilham e movimentam-se lentamente (na trilha sonora, “Evita”, na voz de Madonna e Los Niños). Uma lágrima brota no canto do olho esquerdo, enquanto o direito se agita, dilata-se e vê a gotícula crescer, rolar e precipitar-se no ar, cintilante, em câmera lenta... (tema musical crescendo, apoteótico...). Eis que surge a miúda língua do preá agonizante, que se estende... e apara a gotícula.

Contra-regra: PLOC!, seguido de SHUPT!

Legenda (as palavras surgem uma a uma):

AS LÁGRIMAS LAVAM A ALMA E EVENTUALMENTE SACIAM A SEDE

P.S.: Não se sabe bem qual a razão predominante, mas naquela estrelada noite atacamenha o preá chorou até o amanhecer.

004 — Vale da Morte — Deserto do Atacama — dia.

O Sol já estava a pino quando o preá acordou-se. Piscou seus olhinhos de rato e viu o que há dias temia ver: o urubu faminto pousado na borda de sua cavidade-abrigo. Pensou em cumprimentá-lo, mas imaginou que um bom-dia poderia soar irônico. Apenas murmurou “oi”. Mas o fez de forma tão penosa que o urubu imaginou que tivesse gemendo de dor.

— Croooac?! — perguntou o urubu.

— Falo sim, sou poliglota, mas preferia que conversássemos num dos idiomas humanos.

— Também sou multilingüista, já trabalhei em diversas fábulas.

— Atuou em “O urubu e o papagaio”?

— Fui o único intérprete, fiz duplo papel.

— Como conseguiu?

— Efeitos especiais, usando um jogo de espelhos.

— Bom, eu queria saber mesmo é como conseguiu representar personalidades tão diferentes numa mesma obra.

— Fiz laboratório.

— Laboratório?! Onde?

— Brasília...

— Congresso Nacional?!

— Duas semanas na Câmara e uma no Senado.

— Nossa! deve ter assimilado muitas facetas!

— Realmente, hoje sou considerado um ator multifacetado.

Apesar de conhecer a natureza necrofágica do urubu, o preá agonizante não ignorava o ditado “o apressado come cru”, e temia que, para um urubu faminto, isso pudesse traduzir-se em “o esfomeado come vivo”. Precisava distraí-lo. E não havia melhor maneira que apelar para o ego de um ator vaidoso.

— Ah! eu daria meus últimos momentos de vida para assistir a uma de suas apresentações ao vivo.

O urubu faminto expressou um gesto de falsa modéstia: encolheu-se e moveu a cabeça para os lados, mantendo um sorriso encabulado no bico torto.

— Pena que não tenha aqui comigo um pedacinho do couro da minha última refeição, pois eu poderia lhe dar um autógrafo — disse o urubu, fazendo o preá se arrepiar.

— Não! Quer dizer, não mereço tanto. Sou um reles preá em extinção. Provavelmente o último da espécie aqui no Atacama. Ficaria satisfeito se pudesse assistir a algumas de suas performances.

O urubu olhou para o preazinho moribundo e, baseado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, decidiu atender o último desejo de um condenado à morte.

— Veja esses trechos de “Um urubu no Planalto Central”.

Fazendo poses, caras e bicos, o urubu finge atender ao telefone, conceder entrevista, discursar numa tribuna, assinar papéis, interrogar em CPI e, a melhor de suas performances, embolsar propina, propina, propina... de dez, vinte, trinta, quarenta por cento.

Tão distraídos estavam que foram surpreendidos pelo entardecer anunciando mais uma estrelada noite atacamenha. O urubu faminto despediu-se, recolhendo-se ao topo da montanha, onde, pacientemente, aguardaria sua que sua refeição atingisse o ponto ideal.

O preá agonizante, saudoso e sedento, chorou. Não se pode determinar a razão predominante, sabe-se apenas que ele chorou a noite inteira.

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Projeto Fábula no Atacama (IV)

Dizem que, quando um urubu pousa num telhado de uma residência, os seus habitantes devem se preparar para o pior: “Urubu no telhado; caixão encomendado”. No entanto ainda não se sabe se o urubu tem poder de premonição ou se ele é somente dotado de natureza agourenta. Para algumas pessoas, ele tem o dom de identificar energias mórbidas que estejam atuando em determinado ambiente, por isso se aproxima de localidades envolvidas por um baixo astral. Mas há quem acredite que o urubu seja o próprio agente da desdita, o verdadeiro portador dos maus fluidos. Neste caso, supõe-se que a sua aproximação agravaria as probabilidades da ocorrência de sinistro. Hoje acreditamos nesta segunda hipótese.

Vejamos o caso desse fabuloso urubu faminto. Ele veio ao Deserto do Atacama contratado pela nossa editora. Talvez seduzido pela expectativa do sucesso fácil; já que não conseguiu classificar-se para o próximo Big Brother Brasil. Fica assim descartada a possibilidade de que tenha vindo ao Atacama atraído por cheiros, sons, cores ou qualquer outro estímulo sensitivo. Nem ao putrefatíssimo general Pinochet pode-se atribuir a presença do brasileiro urubu faminto no Chile. Mesmo porque putrescências genéricas abundam e medram no seu próprio solo pátrio. Entretanto, tão logo aqui chegou, o povo chileno tornou-se vítima de sua natureza agourenta: acirram-se as questões fronteiriças Chile-Peru.

Dizem que urucubaca, um termo que significa azar, infortúnio, má sorte, caiporismo, vem de “urubu” e “cumbaca”, um peixe tão azarento que, se pescado, o pescador deve mudar de profissão, pois será condenado a sete anos de má pescaria. Agora imagine um urubu que tenha comido uma cumbaca.

Vade retro, urubu faminto! É por tua causa que estou sem inspiração! Mas vamos lá, antes que o leitor desista.

005 — Vale da Morte — Deserto do Atacama — dia.

A calorenta manhã atacamenha fez o urubu faminto observar que se acordar no topo de um monte no Deserto do Atacama tem alguma coisa em comum com o despertar, por exemplo, num luxuoso hotel em Downtown Nova York: em ambos os casos, a primeira coisa que se faz é abrir os olhos.

(Não, isso está uma merda! Vou tentar outra.)

O preá agonizante teve uma brilhante idéia para fazer o urubu faminto ajudá-lo a sair daquela indigente situação. Tão logo o urubu pousou na borda do seu buraco-abrigo, o preá falou:

— O que me causa maior tristeza é morrer sem ter oportunidade de resgatar o tesouro.

— Do que você está falando?!

— É que a minha excursão por estas bandas tinha um objetivo mais proveitoso do que simplesmente conhecer as regiões andinas.

— Mas de que tesouro você está falando?

— Eu falei “tesouro”?

— Sim, com todos os chiados. Por acaso, isso tem alguma coisa a ver com o Tawantinsuyo?

— O quê?!

— Tawantinsuyo, o império inca!

— Ah! não propriamente, mas tem tanto valor quanto um tesouro inca.

O urubu abriu as asas, mexeu-se banzeiro, pigarreou.

— Acho que, por aqui, mais valiosos que um tesouro inca, só dois preás.

O preá empalideceu. Estremeceu, mas logo se recompôs.

— Primeiro, aqui no Atacama não tem preás, estou de passagem; segundo, o tesouro também não está aqui no deserto.

— Não?! E onde se encontra?

— Nas montanhas bolivianas.

— Explica! Explica! Que tesouro é esse?

— Três milhões de dólares, em notas verdinhas.

— Mas isso dá comprar muitos e muitos preás... desculpe! É... frangos... muitos e muitos frangos. Onde exatamente a gente pode encontrar esse tal tesouro? Como soube dele? — o urubu demonstra ansiedade.

— Já falei que é na Bolívia. Quem me contou foi o Poletto, um ex-assessor do Palocci.

— Palocci? O ministro do Lula?

— O próprio. O cara me deu todas as coordenadas do local onde as caixas estão escondidas.

— Caixas?

— Sim, caixas de rum.

— E quem iria esconder caixas de rum nas montanhas bolivianas?

— Quem?!

— Sim, quem?

— Pois é, quem?

— Hummm...

— Não, não é “hum”, é rum, tchê!

— Tchê?! Peraí, você é paulista ou gaúcho?

— Morei uns tempos na Argentina.

— Quais foram as dicas do Poletto ex-assessor do Palocci?

— Bom, ele disse que as caixas estão lá há uns quarenta anos.

— E por que ele mesmo não foi pegar o tesouro?

— Porque não tem rum de verdade. Só dólares. E o Poletto não bebe dólares, claro!

— Mas quem teria deixado tanto dinheiro nas montanhas bolivianas?

— Pois é, quem? Quem, tchê?!

.....

Nota ao editor:

P.S 1.: Reconheço que o texto acima está uma merda, mas pelo menos não precisa colocar as ilustrações com as setas indicando o caminho do tesouro. O que significa uma considerável economia de mão de obra especializada.

P.S. 2: O preá sempre foi um assíduo leitor da Veja.

P.S. 3: Também não perdia um “Onde está Wally?”.

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