quarta-feira, 3 de junho de 2009

O Sanfoneiro Mágico

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(O conto que os Irmãos Grimm perderam oportunidade de parodiar)


A Aldeia dos Caetés de Garanhuns era um dos principais condados de uma das capitanias hereditárias do Nordeste do Reino Desencantado do Pau-Brasilis. Foi dali que, em meados do século XX, milhares de retirantes da seca partiram em cima de paus-de-arara a fim de descolar um rango no Sul Prometido.

Numa daquelas aventurosas viagens havia um menino buchudo, cabeça-de-papagaio, zambeta, feeei pa peste! Ele era conhecido na taba dos caetés-garanhuenses pelo apelido de Lua Silvestre. Antes de subir na carroceria do caminhão, o seu tataravô lhe entregou um fole de oito baixos e fez a seguinte recomendação:

– Lua, carregue sempre com você esse fole mágico. Ele tem o poder de encantar gente e até bicho brabo. Nem lobisomem resiste ao toque dessa sanfoninha.

O velho ainda contou uma história que Lua nunca mais se esqueceu.

Certa feita, mal-afamado coronel de engenho havia mandado um bando de jagunço tomar o sítio da família Silva dos Caetés na marra. A jagunçada cercou a casa de taipa e mandou que os moradores abandonassem o roçado. O velho bisavô de Lua – à época, um caboclo bem disposto – saiu para o terreiro tocando o pequeno fole. O homem parecia estar em transe mediúnico, pois, só Deus sabe como, ele executava trechos de Die Zauberflöte (“A Flauta Mágica”, ópera do austríaco Wolfgang Amadeus Mozart). Ao ouvir o som da sanfona, os jagunços arriaram as espingardas e começaram a dançar feito bailarinas; enfileiraram-se um atrás do outro e, saracoteando, chegaram a um barreiro, entraram nas águas barrentas e se afogaram.

O menino enfiou o fole num saco surrado, tomou a bênção ao bisavô e partiu no pau-de-arara rumo ao Sul Redentor.

Algumas décadas mais tarde...

O Reino Desencantado de Pau-Brasilis vivia os trevosos tempos do governo de PhHC, o príncipe dos sociopatas, também conhecido como o mão-leve-de-ferro. O país naufragava como uma plataforma de petróleo sabotada. A corte estava infestada de ratos bajuladores a serviço do flibusteiro governante. De dia, os ratos cortesãos chiavam alto, e toda a população do Reino escutava o estridente ruído, mas não reagia; de noite, as mais repugnantes ratazanas saiam de seus luxuriantes ninhos e atacavam as populações das províncias, saqueando despensas e tomando seus minguados caraminguás.

Um dia Lua Silvestre se apresentou à população oprimida, trazendo a tiracolo seu encantatório fole de oito baixos e garantindo que, se lhe dessem chance, libertaria a nação do domínio de PhHC, o privateiro, e exterminaria a praga ratinheira que se alastrava do Olimpo Central por todas as regiões do país.

Os habitantes do Reino aceitaram o desafio, proclamaram a República Popular do Pau-Brasil e nomearam Lua Silvestre para governar provisóriamente. Até lhe prometeram que, se ele os libertasse dos salteadores do Tesouro Nacional, os eleitores lhe dariam um milhão de votos por cabeça rolada, renovando seu mandato presidencial

Lua Silvestre sacou o pé-de-bode mágico de dentro do saco, arregaçou as mangas e puxou o fole. O som do forró “Pega ladrão!” (em alemão de um tradutor online, “Sie fangen diebisch!”) ecoou pelos céus de Pau-Brasil. Foi aí que os ratos começaram a sair das tocas. Sem controle sobre os seus próprios movimentos, ratões sassaricavam em praça pública, ratazanas rebolavam-se nas ruas, faziam strip tease e, alvoroçados, corriam e se atiravam nas águas do Tietê, Rio das Velhas, canal do Maracanã, rio Ipanema, Lagoa dos Patos, Baía de Guanabara, ou na poça d´água poluída mais próxima.

Seven years later...

Os paus-brasileiros estavam contentes com o governo de Lua Silvestre, já haviam até revalidado seu mandato de governante. A pátria ia de vento em proa, mas ia... À meia-bomba, mas ia... Navegava que nem um navio nos trilhos...

Entretanto alguns ratos exímios nadadores haviam conseguido escapar do afogamento. E continuaram praticando suas preferidas modalidades de natação: crawl no erário, borboleta-vampira, peito mamado, costas-quentes... Atualmente permanecem lutando, com unhas, dentes e membros eretos, para reaver o trono e resgatar a cobiçada chave do Tesouro Nacional.

Andam falando que, entre os que se safaram do afogo no mar-de-lama, existe um aspirante a presidente da República. Dizem até que ele é um mágico tocador de tuba... Dizem...
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(Todos os textos publicados pelo ASSAZ ATROZ são de autoria de Fernando Soares Campos: sátiras, contos, fábulas, crônicas, paródias, artigos de opinião... Qualquer outro texto que acompanhar as postagens terá indicada a referida fonte. Autorizamos cópia, republicação e distribuição do conteúdo deste blog, desde que a fonte e a autoria sejam informadas onde ocorrerem as postagens. Cordialmente. Editor-ASSAZ-ATROZ-Chefe.)
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Um comentário:

helentry disse...

Rica imaginação.Difícil de reconhecer os personagens..tão comuns eles se tornaram... Mas os ratos já são espertos e expertos...Vão assaltar o flauteiro a qualquer momento, pode acreditar! A união faz À(assim mesmo) força... Parabéns pela criatividade...Não faltam elementos de inspiração, não é mesmo?
Eloisa Helena