quinta-feira, 29 de setembro de 2011

PASSO DE JAMA

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(Excerto do livro "Viagem ao Umbigo do Mundo”, publicado em 2006)

Urda Alice Klueger

Acordamos na manhã seguinte um pior que o outro, todos se queixando da terrível noite nas garras dos quase 4.000 metros de altitude, além das boas doses de vinho que não tinha sido economizado da adega suspensa. Eu, que não tomara uma gota de vinho, acordei na manhã seguinte com a cabeça para explodir, com o mais puro mau humor, morta de fome, e ainda por cima não consegui descobrir na pousada abarrotada um lugar onde depois me contaram que havia um fraquíssimo café da manhã. Sentia-me tão mal que nem cogitei de subir na garupa do seu Chico – enfiei-me direto no carro de apoio, e se na véspera estivera cheia de cuidados para com o Lobo Solitário, com medo de que despencasse de algum despenhadeiro ou algo assim, nesse dia era ele quem cuidava de mim – a falta de oxigênio me fazia dormir como que desmaiada no banco duro do Land-Rover, e penso que nem vi nossa partida de Susques.

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A manhã do dia 29 de Setembro de 2004 foi bem ruim para todo o mundo. Eu, no carro de apoio, dormia como que desmaiada, e os companheiros motociclistas se ferravam no quase único trecho sem asfalto da estrada inteira, que tinha a extensão de 110 quilômetros.[1] Às oito e meia da manhã atingíamos os 4.600 metros de altitude, e a temperatura era de um grau Centígrado negativo. Houve um momento em que estava todo o mundo literalmente congelando, e todos pararam, e passaram a tentar descongelar suas mãos nos motores aquecidos das motos, mais ou menos em vão. Terezinha estava tão mal que Osmar veio ver se ela não poderia ir por um pouco de tempo no carro de apoio – eu me acordara, e cederia sem problemas o lugar a ela, mas penso que os outros, quando olharam para mim, devem ter se assustado com a minha cara, pois ninguém mais falou em botar a colega geógrafa no carro de apoio. Eu tinha saltado, com as forças que ainda me restavam, e Kako sentou-se por um pouco no banco que eu deixara vazio, com o queixo batendo e as mãos congeladas, apesar de todos estarem usando as mais pesadas roupas de lã por baixo das roupas de couro da Harley-Davidson. Kako estava um caco – arranjei um casaco sobressalente e o cobri naqueles minutos em que estivemos ali parados. Penso que ao menos as mãos dele descongelaram um pouco – sei que não havia o que fazer a não ser seguirmos: não havia abrigo, nem fogueira, nem nada que nos consolasse – ficar ali parado era congelar de vez.

Então seguimos e eu como que desmaiei de novo, e pouco vi da estrada sem asfalto, cheia de pedrinhas soltas e barro pouco compactado, uma quase que assombração para aquelas máquinas poderosas, construídas para outro tipo de estrada. Aqui e ali havia obras que comunicavam que um dia, no futuro, tudo por ali teria asfalto, mas por enquanto era necessário amargar a incompatibilidade da estrada com as Harley, que iam muito devagar, creio que a 30/40 km/h, e que pareciam nunca chegar a lugar algum. Ali já era pleno Deserto do Atacama, mas eu estava tão mal que nem me havia dado conta de tal coisa. Dava-me conta que estávamos nos despedindo da Argentina, e pensava vagamente que aquela longa extensão sem asfalto tinha a sua razão de ser: se logo adiante haveria uma fronteira com o Chile, parecia-me muito lógica aquela estrada ruim: desde criança que acompanhava as muitas broncas entre os dois países na disputa pelo Canal de Beagle, que se situava bem ao sul do continente, e que, por diversas vezes no decorrer da minha vida, tinha feito com que Argentina e Chile andassem em estado de guerra um com o outro. Pensava comigo: “Se um dia eles se pegarem de pau para valer, fica bastante complicado um país invadir o outro, com tal estrada!” Não sei se estava certa com este raciocínio, mas era o que conseguia pensar então e o que ainda fico pensando.

Chegamos, afinal, à fronteira da Argentina. Estava-se a 4.200 metros, mas agora havia um bom sol que aquecia. Havia a Aduana e mais umas outras poucas construções no meio do nada, quase tudo coisa pequena, quase tudo pequenas casinhas de adobe. Os guardas da fronteira eram muito simpáticos, e eu morria de fome – perguntei a eles se em algum lugar poderia comprar algo para comer. Indicaram-me distante casinha de adobe, onde uma índia tinha um pequeno comércio. Enterrando na areia solta as botas de D. Rose, fui até lá, e consegui bolachas, água e um potinho de doce-de-leite. Depois que comi alguma coisa senti-me melhor, e pude conversar um pouquinho com os simpáticos guardas, que me contaram que ficavam ali naquela distância perdida 30 dias de cada vez, que estavam acostumados àquilo, etc. Na verdade, eu estava com uma pena danada de estar indo embora da Argentina, daquele país de gente tão parecida com a nossa, com a qual eu me identifico tanto! Disse isto aos guardas, e eles demonstraram contentamento, e até quero falar mais um pouquinho no assunto.

Eu sou uma brasileira com uma grande paixão pelo Brasil – considero que a melhor parte de uma viagem, por melhor que ela seja, é o momento de chegar de volta ao Brasil. Sempre sinto um grande prazer ao encontrar os americanos dito latinos, e este prazer aumenta quando estou longe, muito longe, principalmente em outros continentes, por exemplo.

Encontrar um americano dito latino é sempre bom demais, não importa muito a sua nacionalidade: mexicanos, guatemaltecos, cubanos, venezuelanos, colombianos, equatorianos, bolivianos, e por aí vai. Encontrar um argentino, no entanto, é encontrar um irmão – ninguém no mundo pensa tão parecido com nosostros, brasileños, quanto os argentinos. Eu acho que um argentino é mais parecido conosco que os próprios portugueses, que falam a mesma língua que nós. Os portugueses, apesar da língua, pensam como europeus. Nós somos americanos, não temos a mesma identidade, a mesma forma de encarar o mundo que os portugueses – mas nossos vizinhos argentinos têm. Não somos iguais, claro – mas somos muito próximos! Aqueles dias de viagem pela Argentina, apesar de ter constatado algumas diferenças das quais ainda não sabia, mais me fez ver as semelhanças – viajar pela Argentina é muito parecido a viajar pelo Brasil: usam-se os mesmos cartões de crédito, as mesmas formas de postos de gasolina, de lanchonetes e restaurantes, tipos parecidos de telefones, de hotéis, enfim, temos muita semelhança mesmo, principalmente quando a gente se dá conta que somos mais ou menos comprados/vendidos pelo Fundo Monetário Internacional, de formas muito parecidas, o que se reflete muito na economia. E se tirarmos o futebol, os dois povos são muito parecidos na comunicação, na simpatia, etc. E se pensarmos mais ainda, vamos ver que somos muito parecidos, inclusive, no futebol – mas isto é outra discussão – melhor nem começa-la aqui, pois ela acirra os ânimo.

Então, estava eu com pena de deixar aquele país tão querido, e os guardas da fronteira entenderam e gostaram disso, e como foram amáveis! Eram meninos com carinhas de índios, e tão simpáticos! Como disse atrás, a temperatura subira e eu me sentia melhor – abandonei o carro de apoio, voltei à garupa do seu Chico, e foi assim que deixei a Argentina, lá naquela fronteira que se chama Passo de Jama.


[1] Um ano depois, quando os meus companheiros harleyros voltaram a passar ali, tal trecho estava totalmente asfaltado. Era inverno e havia muita neve, e os motociclistas só conseguiram passar pelo Passo de Jama porque era o momento da inauguração de tal asfalto, e poderosas máquinas haviam retirado toda a neve de sobre a estrada, para que ali chegassem sem percalços os presidentes da Argentina e do Chile, para a cerimônia de inauguração. (Nota da autora)
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Urda Alice Klueger é escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR.

Urda colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

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Ilustração: AIPC – Atrocious International Piracy of Cartoons

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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Novo Linchamento Judicial nos EEUU

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Carlos A. Lungarzo
Anistia Intenacional - USA - N° 9152711

Em Jackson, no estado de Georgia, no Sul profundo americano, região chamada de Biblia Belt (cinturão da Bíblia), por causa da superstição e o fanatismo místico, e seu profundo e visceral racismo, um afrodescendente de 42 anos, Troy Anthony Davis (1968-2011) foi executado na madrugada da 5ª feira 22 de setembro, com uma injeção letal, no presídio da cidade.

Davis sofreu o sadismo doentio do sistema penal-judicial americano, representado por 20 anos de espera por sua execução, enquanto todas as protestas de milhões de pessoas no planeta, e os sucessivos recursos eram ignorados. Como sempre, o réu é submetido a um último ato de cinismo e crueldade. Em épocas ainda piores que as atuais, os esposos comunistas Julius e Ethel Rosenberg (1953) foram eletrocutados com eletrodos mal grudados, sem o uso do fluído condutor, para que a corrente passasse lentamente, e suas cabeças pegassem fogo quando ainda estavam vivos. Hoje, quando se usa o “humanitário” método da injeção, isso não é possível. Então, os juízes demoraram 4 horas o momento da execução, no intuito de que o prisioneiro se desesperasse. Mas isso não aconteceu.

De maneira calma e corajosa, Troy esperou a morte, olhando nos olhos dos parentes do policial cujo homicídio se lhe atribui sem nenhuma prova, e apenas com testemunhas que acabaram se retratando (7 de 9). Nada que italianos e brasileiros não conheçam. Com o olhar fixo, Troy disse calmamente que ele era inocente, e foi levado à sala onde se lhe aplicou a injeção.

Como os aparatos policiais e militares, especialmente em países violentos, procuram apenas vingança, os “espetadores” que assistiram o morboso espetáculo devem ter pensado que não importava se Troy era culpável ou não. Ele pagaria pelo verdadeiro assassino. Veja.

Troy foi defendido durante anos por Anistia Internacional, e celebridades do mundo todo, incluindo o ex-presidente Carter e o Papa Bento 16, pediram seu indulto. No Brasil, o caso passou despercebido. A continuação, transcrevo o comunicado da Anistia.

Comunicado Anistia Internacional

Segue o texto oficial da Anistia Internacional, que reproduz integramente o documento original de nossa organização. Por falta de tempo, tenho usado a tradução do jornal Expresso, de Portugal, que parece correta. Os grifos e os textos entre [] são meus.

Início do Texto
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EUA executaram Troy Davis
Amnistia Internacional
15:33 Quinta feira, 22 de setembro de 2011

A Amnistia Internacional condenou a decisão das autoridades do Estado da Geórgia de executarem o prisioneiro no corredor da morte, Troy Davis.
Troy Davis, de 42 anos, que se encontrava no corredor da morte desde 1991, foi executado por injeção letal na prisão do Estado da Geórgia em Jackson, no dia 21 de Setembro, apesar das sérias dúvidas em torno da sua condenação.

No mesmo dia, o Irão enforcou publicamente um jovem de 17 anos condenado pelo homicídio de um popular atleta, apesar das proibições internacionais sobre a execução de adolescentes, enquanto a China executou um paquistanês condenado por tráfico de drogas apesar dos crimes de droga não se incluírem nos crimes "mais graves" do direito internacional.

"Este é um dia triste para os direitos humanos em todo o mundo. Ao executarem estes indivíduos, estes países estão a mover-se contra a corrente global da abolição da pena de morte", afirmou Guadalupe Marengo, Vice-diretor da Amnistia Internacional para a América.

"Os países que mantêm a pena de morte defendem muitas vezes a sua posição reivindicando que o uso que fazem da pena de morte é consistente com a legislação de direitos humanos internacional. As suas ações no dia 21 de Setembro contradizem flagrantemente estas reivindicações", afirmou a Vice-diretora.

Os ativistas da Amnistia Internacional fizeram uma extensa campanha contra a pena de morte. Nos últimos dias, foram enviadas, às autoridades da Geórgia, quase um milhão de assinaturas em nome de Troy Davis, apelando para comutarem a sua sentença de morte. Foram realizadas vigias e eventos em aproximadamente 300 locais por todo o mundo.

Troy Davis foi condenado à morte em 1991, pelo homicídio do polícia Mark Allen Macphail em Savannah, no estado da Geórgia. O caso contra Troy Davis baseou-se principalmente em declarações de testemunhas. Desde o seu julgamento em 1991, sete das nove testemunhas chave retiraram ou alteraram o seu testemunho, algumas alegando coerção policial.

O adolescente iraniano Alireza Molla-Soltani foi enforcado na manhã de 21 de Setembro diante de uma multidão na cidade de Karaj. Foi condenado à morte no mês anterior por apunhalar Ruhollah Dadashi, um popular atleta, durante uma disputa na sequência de um acidente de viação a 17 de Julho. O jovem de 17 anos disse que entrou em pânico e apunhalou Ruhollah Dadashi em legítima defesa depois do atleta o atacar num local escuro, de acordo com os relatos dos media locais.

Zahid Husain Shah, detido em 2008 por tráfico de drogas, foi executado na China por injeção letal no dia 21 de Setembro.

No mesmo dia, Lawrence Brewer foi também executado em Huntsville, no Texas. Foi condenado à morte pelo seu papel no homicídio de James Byrd Jr., em Junho de 1998.

A Amnistia Internacional opõe-se à pena de morte em todos os casos, sem exceção.

"A pena de morte é um sintoma de uma cultura de violência e não uma solução", acrescentou Guadalupe Marengo. "Devemos manter a esperança e as execuções angustiantes levadas a cabo no dia 21 de Setembro devem levar os membros da Amnistia Internacional e outros ativistas a quererem continuarem a luta contra a pena de morte".

Para além dos EUA, da China e do Irão, a campanha da Amnistia Internacional para a abolição da pena de morte foca-se na Bielorrússia.
A Amnistia Internacional está a trabalhar com o Centro de Direitos Humanos Viasna, uma Organização Não Governamental, na Bielorrússia [no Brasil conhecida por seu nome em inglês, Belarus], apelando ao Presidente Lukashenko para suspender imediatamente as execuções e comutar as sentenças de todos os indivíduos que se encontram no corredor da morte.

[NOTA minha: Para acessar o site de Viasna, na Belarus, clique no nome desta ONG. O texto está em inglês.]

Desde que o país declarou a independência em 1991, estima-se que 400 pessoas tenham sido executadas na Bielorrússia. Depois de um ano sem execuções, as autoridades bielorrussas executaram dois homens em 2010 e condenaram três pessoas à morte e outros dois homens foram alegadamente executados entre 14 e 19 de Julho de 2011, apesar de não ter havido confirmação oficial das suas mortes. A Bielorrússia é o ultimo país na Europa e na antiga União Soviética que ainda realiza execuções.
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Final do Texto

As nove testemunhas disseram inicialmente que tinham visto Troy atirando no policial, mas, vários anos depois, quando a causa foi julgada em segunda instância, sete deles reconheceram que tinham sido ameaçados e extorquidos pela polícia para declarar contra Davis. Para que o julgamento parecesse normal, o juiz e o promotor escolheram mais de metade de jurados negros, mas estes confessaram depois que, por causa da perseguição racial no Sul americano, e a situação indefensa de afroamericanos pobres, eles votaram pela condenação pois se sentiam incapazes de suportar as ameaças do promotor e dos juízes contra os membros de suas famílias.

Diretos Humanos nos EEUU

Quando se criou o estado americano, composto pelas colônias originais, os “pais da pátria” deixaram claro tanto em seus discursos individuais como na Declaração da Independência, que a nova nação estaria regida por princípios básicos: a crença em Deus (um lema que aparece nas notas de dólar), a supremacia da propriedade privada ilimitada sobre qualquer outro direito, e o privilégio de submeter pelas armas quaisquer outros povos ou etnias. Isto teve sua versão mais explícita na teoria do Destino Manifesto, de 1985, que justificava a agressão americana em qualquer lugar que fosse acessível a suas tropas.

Essa visão totalitária planejada no momento mesmo da criação do estado não possui equivalentes. Outros estados notoriamente racistas, como a África do Sul do apartheid, e o Estado de Israel, desenvolveram seu racismo na medida em que avançavam seus projetos de agressão contra etnias maioritárias (negras e árabes, respectivamente), mas o projeto racista não foi formulado de maneira explícita na fundação desses países.

Além disso, a força econômica e militar dos EEUU tem tornado muito difícil a luta contra a violação dos direitos humanos básicos. A formação de grandes grupos sociais fundamentalistas, a exaltação do colonialismo e do racismo, e a poderosa propaganda de ódio da mídia, mantiveram como únicos direitos humanos o porte de armas e a livre expressão. Embora o segundo seja um direito legítimo, ele foi pensado para combinar os interesses dos magnatas da mídia. Aliás, toda norma jurídica, sem exceção, pode ser violada, como mostra o caso dos prisioneiros de Guantánamo.

Enquanto certos países são estigmatizados por seu terrorismo de estado e a comissão de horríveis genocídios, como Ruanda e Sudão, os EEUU são vistos com normalidade por grande parte da população mundial que não sofreu suas invasões, pois, afinal, são brancos, cristãos e ricos. Além disso, centos de milhões de pessoas possuem negócios, nexos acadêmicos e técnicos e outros tipos de parceria como os americanos.

A citação de Anistia Internacional do terrível crime contra Troy está acompanhada de relatos sobre execuções no Irão, na China e na Belarus, e outro de um americano. Isto não é por acaso. Os EEUU estão no terceiro lugar de terrorismo de estado “legalizado” no planeta. Embora seu exercício da morte e a tortura sejam menores que em alguns países de Ásia e América do Sul, a impunidade que significa criar leis para cometer esses atos coloca grande parte do planeta em risco de sofrer genocídios derivados das invasões americanas e, consequentemente, tortura, como em Abu Ghraib, e execuções, como as que se praticam quase continuamente nos estados do Sul e em alguns outros.

Para algumas sociedades sul-americanas, mergulhadas em problemas só nacionais, a morte de Troy Anthony Davis nem foi percebida. Entretanto, nos países mais organizados do mundo, o fato provocou uma onda de terror e repúdio. Milhares de pessoas se estão organizando contra a pena de morte em todo o planeta. Convém lembrar que o Brasil não tem pena de morte para civis desde a ditadura, mas nunca foi derrogada a infame e paleolítica lei que permite aplicar a pena de morte em caso de Guerra. Talvez, Brasil nunca mais entre em nenhuma guerra, mas, mesmo assim, este privilégio dos militares para decidir sobre as vidas humanas em nome da guerra, é uma mácula terrível para um país que pretende ser civilizado. A Argentina, apesar de sua proclamada política de Direitos Humanos, somente derrogou a pena de morte em caso de Guerra há dois ou três anos.

Tudo isto deve nos fazer refletir sobre a barbárie que ainda vivemos, e começou a ser lentamente combatida desde 1945. O que falta é muito mais do que já se fez. O mais importante é que ONU produza uma convenção contra a Pena de Morte, assim como existe uma convenção contra a tortura.

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Carlos Alberto Lungarzo foi professor titular da UNICAMP até aposentadoria e milita em Anistia Internacional (AI) desde há muitos anos. Fez parte de AI do México, da Argentina e do Brasil, até que esta seção foi desativada. Atualmente é membro da seção dos Estados Unidos (AIUSA). Sua nova matrícula na Organização é de número 2152711.

Carlos A. Lungarzo colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

Para se comunicar com o autor, escrever a carlos.lungarzo@gmail.com

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domingo, 25 de setembro de 2011

Desconto de 69% + 30% = 1% de orgasmo

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Rosa Pena


Depile seu sovaco com um desconto de 90% e ainda ganhe mechas californianas à Lulu Santos. Tudo isso por $ 29,90 no Trauma's Coiffeur. Sessenta e quatro mil pessoas já compraram, faltam apenas cinco mil para ativar essa promoção 69. Salão bem equipado com dois secadores! Compre na suruba.com.br. Tá esperando o quê?

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Tudo isso no "abelhasacana.com. br". Faltam apenas três mil e quarenta pessoas para ativar. Tá esperando o quê?

Operar com ofertas sempre acima dos 50% (chegam a 90%) nas mais diversas áreas de serviços, (predominam as que usam a vaidade como chamariz), gastronomia, lazer, diversão, turismo, começou como trabalho de observação e pesquisa para esquentar o comércio nos EUA. Nessa busca foi percebido um hábito chinês. Lá, consumidores forçavam o desconto de determinados produtos pela presença em massa à porta das lojas, obrigando os lojistas a diminuírem o valor. Na busca de formas para legitimar esta pressão do consumidor, nasceu o conceito de compras coletivas, que permite um benefício comum aos compradores, um ganho imediato para o intermediário e os fornecedores lucram na quantidade de vendas e, principalmente, na divulgação em grande escala de seu estabelecimento, produtos e afins.

Essa prática ganhou espaço nos EUA em 1990, mas em dois anos fracassou, voltando a ressurgir entre 2000 e 2002, aí já contando com a Internet e suas redes sociais, fundamentais para o sucesso dessa venda “no escuro”. É uma área para a qual ainda é precoce determinar "como um bom ou um mau negócio" tanto para a empresa como para o consumidor. Por enquanto o intermediário está levando. Sempre!

O conceito de compras virtuais depende das parcerias que obviamente deveriam seguir a risca a propaganda levada ao público. Ah! Não é bem isso que vem acontecendo por aqui. A pessoa física paga antes por um serviço e em inúmeras vezes sequer consegue falar com o vendedor, que dirá usufruir da forma prometida por aquilo que já pagou.

A satisfação do comprador sempre é o que menos importa no Brasil, o que acaba comprometendo a visão otimista de um crescimento como em Hong Kong, (gera lucros exorbitantes). Lá o prestador de serviços é obrigado a oferecer exatamente aquilo que foi anunciado ou é multado e, por vezes, perde definitivamente o benefício das vendas em grupo.

Que dó! Aqui, como sempre, não existe a máxima dessa proposta: Fidelizar um público e conseguir o óbvio que é gerar receita pelo aumento de volume, divulgar um produto ou serviço, pois permite ao consumidor experimentar a um custo reduzido e, se gostar, voltar, espalhar entre amigos, incorporar aos seus hábitos ainda que por preços maiores.

Penso nos lucros e nos prejuízos que tive ao fazer compras coletivas. Precisava consumir para saber do funcionamento. Sou extremamente ativa e curiosa, navego demais na internet e não há como passar impune diante de tantas ofertas então...

Fiz uma viagem fantástica no verão por um preço reduzido. Meus cabelos estão totalmente quebrados depois de uma hidratação prometida com um dos melhores produtos do mundo e feita numa caneca sem rótulo. Jantei (muito bem) num restaurante em Laranjeiras assistindo a um grupo excelente de blues, mas fiquei horas numa fila para almoçar uma feijoada no Leblon. As massagens estéticas corporais que prometiam redução de medidas levaram meu dinheiro e deixaram as minhas gordurinhas no mesmo lugar, apenas machucadas. A academia de natação não tem um horário satisfatório e o cupom já vai vencer, a limpeza de pele durou menos de dez minutos, mas meu Fotolivro ficou lindo!

Lastimável não ter como, nem com quem reclamar, pois ninguém quer resolver nada. Só faturar. Mais lastimável ainda é que entre lucros e prejuízos nasceu a dúvida, o temor e o desânimo de pagar pra ver. É preferível eu continuar comprando meus sapatos do tamanho exato do meu pé e para dar certo tenho que calçá-los antes.

Vai que, de repente, viro sapatão por conta de alguma phodacoletiva

Rosa Pena (Rio de Janeiro-RJ). Professora e administradora de empresas. Especialista em recursos audiovisuais e artes cênicas. Trabalhou na Divisão de Multimeios da Educação na Secretaria de Educação e Cultura do Rio de Janeiro, com projetos ligados a cinema, teatro, música e literatura. Compulsiva para ler e escrever, considera a Internet a grande biblioteca contemporânea. Tem livros virtuais publicados e quatro livros editados no papel: Com licença da palavra, antologia do grupo Pax Poesis Encantada (2003), PreTextos, seu primeiro livro solo, onde reúne crônicas e contos de sua autoria (2004), na sequência UI! (2007) e Tarja Branca (2010). Mais em seu site:http://www.rosapena.com/

Rosa colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Como seria um "apartheid nordestino"?

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Título original: “E se Golias Viesse?” (revisado)

Fernando Soares Campos

Li no site do Observatório da Imprensa nota intitulada "Hamas usa sósia de Mickey em campanha contra Israel ". Militantes do Hamas estariam usando uma réplica do ratinho símbolo da Walt Disney Company "para divulgar mensagens da dominação islâmica (sic) e da resistência armada para o público infantil em um programa da emissora de TV al-Aqsa chamado Pioneiros do Amanhã ". A imitação do Mickey se chama Farfour.

Este foi o trecho da matéria que mais chamou a minha atenção:

"O programa conta também com a participação de crianças, cantando hinos sobre a luta contra Israel – que há muito tempo vem reclamando que os canais palestinos incitam ódio ao povo israelense. David Baker, porta-voz do primeiro-ministro israelense Ehud Olmert, afirmou que `não há nada cômico sobre ensinar novas gerações de palestinos a odiar israelenses´. Mark Regev, porta-voz do ministério do Exterior, acusou os palestinos de não assumir o compromisso de parar de incitar ódio contra Israel. `As crianças aprendem que matar judeus é algo bom´, diz."

A contrapartida

Em 2006 foram amplamente divulgadas na internet fotos de crianças israelenses escrevendo mensagens nos mísseis que seriam lançados contra as posições palestinas no Líbano. Crianças e adolescentes, usando batom e lápis de desenho, aparentemente descontraídas, escreviam mensagens nos petardos e conversavam com os soldados. Ao lado, seus pais acompanhavam a visita ao front, provavelmente orgulhosos de verem seus filhos se instruindo na arte da matar, indiferentes à dor que possam causar.
Baseado naquelas fotos, acredito que qualquer porta-voz do Hamas poderia dizer que ali "as crianças aprendem que matar palestinos é algo bom". Pelo visto, crianças de ambos os lados são vítimas dos senhores do ódio e da intolerância, da ganância e da prepotência.

A globalização do medo

Hoje, o conflito no Oriente Médio é tratado pela grande imprensa brasileira apenas através das notícias frias, relatando as atrocidades, porém geralmente transformando vítimas em culpados. Nota-se que os intelectuais e mesmo artistas, escritores e figuras notórias em geral evitam abordar o assunto em artigos de opinião.

Em 2003, para editar um documentário que estava produzindo para exibição no 3º Fórum Social Mundial, o cineasta-publicitário Kais Ismail solicitou apoio de uma universidade da Grande Porto Alegre, a qual lhe cedeu as instalações e equipamentos de uma ilha de edição. O documentário se intitularia "Palestina em lágrimas". Ao término do trabalho, Kais pediu autorização da universidade para inserir no vídeo um agradecimento à direção da instituição; esta, no entanto, respondeu que colaboraria, mas negou-se a aparecer como colaboradora.

Em 2004, Mohamad, brasileiro-palestino, 22 anos, primo-irmão do Kais Ismail, foi assassinado na Palestina com 30 tiros de M-16 (metralhadora americana), disparadas por sionistas estrangeiros que obedecem às ordens dos comandantes israelenses. Mohamad foi agredido de tal forma que o seu braço esquerdo foi decepado a tiros. Kais foi entrevistado por uma emissora de televisão brasileira. A primeira pergunta do entrevistador foi: "O seu primo era terrorista?", ao que o entrevistado respondeu: "O meu primo, certamente, não era um garoto que corria a varrer as ruas para que os tanques de guerra passassem e arrasassem tudo, pelo contrário, o que ele fazia, era tentar barrar estes tanques e defender sua família, desde criança, atirando pedras."

O publicitário Kais ainda nos informa: "No último programa do Fantástico (Rede Globo) do mês de novembro de 2004, foi exibida uma matéria que, como num passe de mágica, fez com que toda a imprensa não tocasse mais no assunto e curiosamente procurei agora, há pouco, no site do Fantástico a matéria do dia 28.11.2004 e não encontrei nada". Sumiu! Escafedeu-se!

Já imaginou uma "Faixa do Piauí"?

Aqui neste Brasil de todo mundo, a maior miscigenação do Planeta, a gente fica indignado com o que fazem com as populações pobres, que, nos grandes centros urbanos, são empurradas para os morros e alagados, onde se aglomeram em favelas que não oferecem as mínimas condições de habitabilidade. São ambientes insalubres, onde falta de tudo: segurança pública, escolas, postos de saúde, áreas de lazer e até mesmo acesso independente às residências. Também acompanhamos as marchas dos sem-terra, forçando a barra para ocupar latifúndios improdutivos, apesar de formados por terras férteis, com muita água e estradas para o escoamento das produções.

Já ouvi muita gente do povo perguntando sobre a guerra no Oriente Médio, pessoas que dizem não entender como é que se briga tanto por uma terra que, em grande parte, não passa de desertos aparentemente inóspitos. O nosso povo é assim mesmo, está acostumado a "ver" a fartura de terras produtivas em nosso país, mesmo que verdadeiramente concentrada nas mãos de poucos.

Ainda bem que o nosso movimento dos sem-terra e sem-teto não é formado por poderosos fascistas apoiados pelo poder global dos EUA e UE. Imaginemos que esse poder resolvesse fundar em terras brasileiras um estado para algum dos seus povos protegidos. Então, baseados na Carta de Pero Vaz de Caminha, ou mesmo no Tratado de Tordesilhas, reivindicasse, por exemplo, o Nordeste Brasileiro para fazer tal assentamento e fundação do novo estado. A primeira providência, creio, seria criar a "Faixa do Piauí", onde seria concentrado o povo autóctone, romeiro do Padre Cícero e devoto de Frei Damião. Duvidam que isso possa um dia vir a acontecer?! Pois não duvidem! Lá na Palestina tem um povo encurralado vivendo nessas condições.

Como seria o "apartheid nordestino"?

Lá no Oriente Médio a cidade de Belém, sede da Natividade, é hoje uma cidade sitiada e, a mau exemplo da fronteira dos EUA com o México, cercada de muros de oito metros de altura. Aqui, eles cercariam a cidade de Juazeiro do Norte, a "meca nordestina", onde os romeiros reverenciam o Padim Ciço.

Israel instituiu quatro tipos de carteiras de identidade para palestinos: os de Ghazaa não podem sair da Faixa, os da Cisjordânia não podem vir a Jerusalém, os de Israel não podem entrar nos Territórios Palestinos Ocupados e os do Vale do Jordão também não podem sair dessa área para visitar as demais regiões. Nesse caso, o apartheid nordestino seria mais ou menos nos seguintes moldes: cabeça-chata do Sertão não poderia visitar o Agreste nem a Zona da Mata, exceto na época do corte de cana; empregados domésticos em Recife, para se dirigirem ao trabalho, seriam obrigados a usar os velhos túneis que os holandeses construíram durante a ocupação, no século XVII.

Para manter o terror, caças F-16 Fighting Falcon, toda noite, sobrevoariam a "Faixa do Piauí", roncando suas turbinas, lembrando o desfile de tanques do tipo Merkava Mk 3 durante o dia.

Mas quero que todos saibam que nós, nordestinos, somos muito bons no uso de estilingue. E pedra é o que não falta lá no Piauí. Além disso, religioso como nosso povo é, tá assim de Davi no Nordeste!

Pelo sim, pelo não, estão avisados!

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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

FALANDO FRANCAMENTE

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Francisco Miguel de Moura*

Numa ocasião como esta, a tentação é falar de si próprio. Mas seria impertinente falar sobre mim, quando minha apresentadora, Profª Teresinha Queiroz, já disse tudo e de forma muito clara e generosa. Resta-me, portanto, agradecer, e falar sobre a criatura – minha obra – e não sobre o criador. Lembro sempre do que disse Confúcio: – “Não se deve a todo momento ficar falando de si, por dois motivos: é que, se falamos de bem, ninguém vai acreditar, e se falamos de mal, todos acreditarão”.

Entrando no assunto que quero desenvolver, de imediato me vem à lembrança certo dia dos anos 1980, morando em Salvador, quando entrei numa livraria e comecei a olhar os livros, atividade para mim muito prazerosa, mesmo que nada possa ler além do título, autor e orelhas, e mesmo que nada possa comprar daquela vez. E, por simples coincidência, li na lombada de uma pequena brochura, o seguinte título O Menino Perdido, de autor americano, já falecido há muito tempo. Comprei o compêndio, li todos os contos e gostei, mas, por algum mecanismo obscuro da mente, não guardei nem o livro nem o nome do autor. Foi o meu espanto. Senti-me roubado, pois já me fixara naquele título para escrever algo que fosse memória da minha meninice.

Lembro-me também de outro dia, já no começo dos anos 1990, em Luís Correia, depois de um banho na praia de Amarração. Sentindo já o começo de uma intransigente crise de depressão, comecei a reler pedaços de contos, crônicas, capítulos. Saudade e angústia. Vontade de fazer algo distinto do que já havia lido sobre a infância. Era isto que sentia. E começava a refazer alguns bosquejos miúdos, num caderninho escolar, e a partir dali ressurgia o nome de O Menino Perdido como título não definitivo. Começada a escrita, vieram as indecisões. Não encontrara um novo título e isto me contrariava. Era impossível abrigar minha matéria sob esse título e depois publicá-la. Eu já havia escrito uma crônica com o título de Um Menino Perdido, que logo desejaria publicada num livro de crônicas, o que de fato aconteceu em 1996.

Muitos questionamentos foram feitos mentalmente e permaneceram em ebulição na minha cabeça. Era muita a matéria a escrever, e não queria um livro grande, no fundo eu desejava um grande livro. Também nem pensar em fazer coisa parecida com O. G. Rego de Carvalho, em Ulisses entre o Amor e Morte. Não tinha como. Eu sou realmente discípulo de O. G. Rego de Carvalho e muito me orgulho disto. Ele é um dos maiores amigos que fiz na minha vida, em Teresina, só não maior do que o Hardi Filho, poeta dos melhores do Piauí, pessoa com quem primeiro me encontrei em Teresina e, juntamente com Herculano Moraes, fundamos o movimento literário O CLIP – Círculo Literário Piauiense. Com O. G. Rego de Carvalho foi diferente: antes de encontrar-me com ele, como colega do Banco do Brasil, já havia lido Ulisses entre o Amor e a Morte. Foi outro espanto na minha vida. Espanto que se repetiu em Somos Todos Inocentes e em Rio Subterrâneo. Que obras incomparáveis!

Mas quantos escritores, que vieram antes dele e de mim, escreveram a infância (ou sobre a infância)? Lembro-me de alguns: José Lins do Rego, com seu O Menino de Engenho; Graciliano Ramos com o seu livro Infância; Joaquim Nabuco, com o espetacular Minha Formação. Os clássicos russos Dostoiévski e Leon Tolstói fizeram livros sobre sua infância e adolescência, excelentes obras cujos nomes não me vêm à memória. Os clássicos modernos mais à vista seriam O Pequeno Príncipe, de Antoine de Exupéry, e O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon. A enumeração seria enorme e tomaria muito tempo. Não falemos das historinhas da vida comum e das fábulas antigas renovadas que tanto têm sido escritas e publicadas como meio de ganha-pão de escritores desempregados e de editores sem imaginação senão a do vil metal. Claro que o genial Monteiro Lobato não entraria nessa última classificação, antes merece ser o primeiro da boa lista, com Memórias de Emília e Caçadas de Pedrinho, para referir apenas duas da sua numerosa produção.

Não, eu jamais escreveria uma história ou um conto com o fim único de ganhar dinheiro. Ganhar dinheiro é bom, mas vender a consciência é horrível.

Passei mais de 20 anos a elaborar O Menino quase Perdido. Finalmente, sem matar completamente o nome primitivo, encontrara o novo título: com uma palavrinha apenas ganhei originalidade. Daí então passaram a ser pensadas, com mais gosto, as formas de escrever e a escolha do conteúdo de cada uma das suas partes. Ele, O Menino... não é um conto grande, não é somente feito de contos encadeados, não é de crônicas, não é um romance. E é tudo isto. Ou quase tudo. A matéria eu já possuía até demais, não que minha infância tenha sido tão rica, mas foram minha infância, minha família, minha terra, minha vida que me inspiraram para escrever esta obra. Original na forma, dentro do poder de minha inventiva. Escolhendo como escrever e o que escrever. E o que publicar e o que deixar de publicar. Muitas páginas foram rasgadas. O livro é não somente real como pode ser ficção, imaginação de homem adulto sobre o que e como sentia o menino, naquele tempo. Um transporte enorme no tempo, no espaço e nas emoções. Assim se casaram o distanciamento e a intimidade. Quase todos os personagens são parentes: pai, mãe, avós, tios, irmãs, primos, amigos, amigas e namoradas – algumas inventadas.

Mas é preciso que diga: - este livro é da minha mãe, principalmente. Quem não gosta de mãe certamente não vai gostar dele. Assim como para Saramago a pessoa mais sábia que ele conheceu, quando menino, foi o avô, para mim, foi minha mãe, até os 8 anos. Fui educado para emoções duradouras e positivas. Daí por diante, juntar-se-ia a influência de meu pai.

Com relação a sua composição, repito: - Foi todo escrito e reescrito muitas vezes. Não digo que esteja perfeito. Não há perfeição, na espécie humana nem sei se em outras. A perfeição é apenas um ideal a perseguir. E é isto que os bons escritores fazem, por si, para si e pela humanidade.

Creio que estou sendo capaz de dizer pouco sobre a matéria de O Menino quase Perdido, mas o suficiente para saber-se que não se trata de biografia, muito menos de minha biografia. Minha biografia são meus livros, não sou cientista nem personagem da mídia, não sou político para quem tudo o que faz precisa ser dito e mostrado, e mentido e enganado. Sou um homem simples e ao mesmo tempo vaidoso do que faço, do que penso e do que recuso. Se em O Menino quase Perdido isto for achado, então o escritor, o personagem onisciente não pôde ser totalmente isento de imprimir sua marca. Eis minha luta pela originalidade e pela diferença em minha escrita, assim como sou diferente em pessoa, sabendo como o filósofo Schopenhauer, que “o estilo é a fisionomia do espírito” e não da cara.

Para confirmar minhas palavras, é pertinente que cite, mais uma vez Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), filósofo dos anos selvagens da filosofia” e autor de “O Mundo como Vontade e Representação”. Escreveu ele: 1º) “Um livro nunca pode ser mais do que a impressão dos pensamentos do autor”; 2º) “Para estabelecer uma avaliação provisória sobre o valor da produção intelectual de um escritor não é necessário saber exatamente sobre o que ou o que ele pensou, pois para tanto seria necessária a leitura de todas as suas obras. A princípio basta saber como ele pensou”.
Pensei “O Menino quase Perdido” como uma obra original sobre a infância, no estilo e na construção, quando qualquer menino é rei, ficando distante o autor onisciente, muito distante do que sentia e sente “o menino”, no íntimo - ambos realmente tornados personagens.

Auguro, pois, que O Menino... seja lido como verdade mista, real e ficcional, coleção de contos, de crônicas, ou mesmo romance, para os leitores mais liberais. Editorialmente é um memorial, assim ficou classificado e registrado. E que cada leitor encontre seu menino de forma diferente, da forma que o próprio leitor foi em criança. Se assim acontecer estarei pago.

Finalizando, repito com o vulgo que “de bons propósitos, o inferno está cheio”. Sim, porque me traí e traí a todos, dizendo, no início, que não iria falar de mim mesmo, porém da obra. Acontece que a obra é o homem. Eu sou a minha obra, jamais um se desligará do outro. Se isto acontecer, ambos são falsos ou hipócritas e é isto que eu não quis nem quero ser.
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*Francisco Miguel de Moura em depoimento lido no lançamento de “O Menino quase Perdido”, na APL – Academia Piauiense de Letras”, em 17-9-2011

Texto enviado pelo autor a título de colaboração para com esta Agência Assaz Atroz
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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Vinte perguntas [e respostas] sobre a Corte de Haia

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Carlos A. Lungarzo

São Paulo, 20/09/2011

Num artigo publicado ontem, Celso Lungaretti chama a atenção sobre o fato de que até a grande imprensa brasileira deve reconhecer as difíceis possibilidades de sucesso do Estado Italiano numa eventual ação na Corte de Justiça da Haia contra o Estado Brasileiro. Este assunto tem grande importância, pois a maioria de nós tivemos conhecimento do funcionamento dessa Corte há apenas algum tempo, quando começou o caso Battisti. Pensei, então, que seria útil dar uma forma tipo “perguntas e respostas” a alguns aspectos básicos sobre este assunto, para esclarecer um pouco a outros leitores (com perdão da pretensão).

1. O que é o Tribunal Internacional de Haia?

O Tribunal ou também Corte Internacional de Justiça de Haia (CIJ) é o principal órgão judicial das Nações Unidas, que começou a funcionar em 1946, na cidade de Haia, Holanda, com o objetivo de resolver conflitos entre estados.

2. Tem algo a ver com o Tribunal Penal Internacional?

Essa confusão é muito frequente. A Corte Penal Internacional está também em Haia, mas foi fundada em 2002, e cuida de ações contra pessoas físicas, em casos de crimes contra humanidade. Ela pode aplicar penas de prisão como um tribunal comum, desde que o país em que se encontra o réu colabore com a Corte.

3. Como funciona a CIJ?

Nos casos contenciosos, a Corte atua por pedido de algum estado e o demandado só pode ser outro estado. O estado demandante apresenta sua queixa, que é estudada pelos juízes. A Corte produz uma espécie de “sentença”, que, teoricamente, tem carácter obrigatório. A força que faz cumprir as decisões da Corte em casos de contenciosos (que seria equivalente à polícia na justiça doméstica) é o Conselho de Segurança da ONU.

A Corte também pode produzir opiniões consultivas, na qual os juízes dão um parecer sobre certos problemas, que em sua maioria são de caráter geral e nem sempre específicos de uma situação concreta, que envolvem as relações entre estados. As opiniões consultivas só podem ser pedidas pela ONU e suas agências, e não são de cumprimento obrigatório, mas constituem pareceres técnicos que podem influir na maneira em que a ONU trata um problema.

4. Hmmm... É muito complicado. Poderia dar um exemplo de cada caso, de um contencioso e de uma opinião consultiva?


CONTENCIOSO: Reclamação da Nicarágua contra os EEUU, por ter invadido seu país com forças militares e paramilitares. Caso: Nicarágua vs. EEUU, 1989, Relatórios da CIJ 14, pp. 158-160. Os EEUU foram condenados e, em vez de acatar, boicotaram o tribunal.

OPINIÃO CONSULTIVA: Opinião de como devem ser interpretadas as condições da Carta da ONU, artigo 4º, para a admissão de novos estados. 28 de maio de 1948.
Como se pode ver, esta opinião consultiva não trata de um assunto litigioso, não é emitida por ação de nenhum estado e só interessa à própria ONU.

5. Alguns magistrados e ex-magistrados, diplomatas, especialistas em relações internacionais, etc., dizem que a resolução de um contencioso demora muito, mas que, no caso Battisti, a CIJ poderia dar uma opinião consultiva, que é rápida. É assim?

As opiniões consultivas demoram muito menos, isso é verdade, mas eu não consigo imaginar o que seria uma opinião consultiva neste caso. Seria dizer à ONU que nenhum estado, no futuro, deve dar refúgio a um escritor de 56 anos cujas iniciais sejam CB?

6. Que tipo de contenciosos trata a CIJ?

Desde sua fundação, predominam os problemas de fronteiras, navegação aérea, uso de águas e recursos minerais, ocupação de territórios por tropas estrangeiras, crimes não tratados pelo Tribunal Penal, exigências de indenizações, conflitos de meio ambiente, como o atual entre a Argentina e o Uruguai.

O primeiro de todos, em 1946, foi uma reclamação britânica contra Albânia, pedindo indenização porque um navio seu foi atingido por minas submarinas. Um caso recente típico foi a construção do muro da Palestina por Israel.

7. Quantas vezes a CIJ tratou, nestes 65 anos de vida, um caso de extradição?

Uma. Bélgica pediu em 2009, que Senegal entregasse Habré, o ex-presidente do Chad por crimes contra a humanidade. O pedido foi derrotado por 13 a 1.

8. Qualquer país pode pedir uma ação contra qualquer outro?

Não. Se um estado quiser demandar outro, ambos devem estar sob a jurisdição da CIJ. Isto se consegue de três maneiras: (1) Pela existência de um acordo preexistente de que ambos reconhecem a CIJ como árbitro. (2) Quando, faltando esse acordo, o estado demandado decide se submeter voluntariamente. (3) Quando, existindo um Tratado Bilateral relativo ao caso em apreço (por exemplo, aqui, é o tratado de extradição Brasil-Itália), esse tratado contém uma cláusula que diz “Qualquer aspecto não definido neste tratado, será submetido à CIJ, etc.”.

9. Em qual dos casos estão o Brasil e a Itália?

Não estão no caso (1) nem no caso (3). O caso (2) depende de que, dentro de certo prazo, o Brasil decida se submeter voluntariamente. Mas, se o Brasil decidisse aceitar isso, teria aceitado, com maior razão, a arbitragem proposta pela Itália segundo a Convenção Fernandes-Forlani. Então, o Brasil e a Itália não estão em nenhuma dessas condições.

10. Mas, então, como a Itália poderá apresentar um requerimento contra o Brasil?

Teoricamente, o pedido da Itália deveria ser arquivado imediatamente após de protocolado. Seria totalmente irregular que a Corte aceitasse analisar, mesmo preliminarmente, esta queixa da Itália, mas, pode existir uma probabilidade ínfima de que, com algum pretexto que não consigo imaginar, seja submetida a consideração.

11. Que acontecerá então?

Como o Brasil não está na mesma jurisdição, o estado brasileiro ignorará a convocatória, como fez com a recente pretensão da Itália de aplicar a Convenção de Fernandes-Fornari.

12. E se o processo começasse, ou seja, se a CIJ desse um jeito para processar o Brasil?

Na situação atual isso não parece possível. Seria como julgar o Brasil à revelia, algo que é moda na Itália, mas não no resto do mundo.

13. Mas, supondo que, por algum motivo, Brasil comparecesse... o que aconteceria?

Não creio que nenhum país se submeta voluntariamente a esse tipo de humilhação, muito menos após o discurso da chefe de Estado na ONU, mas vamos fazer um modelo teórico imaginário.

O plenário da CIJ analisaria o pedido da Itália de obrigar o Brasil a entregar Battisti e decidiria (com estas ou outras palavras, não podemos saber de antemão), que o assunto não viola nenhum direito do demandante, e que a retenção do perseguido foi determinada pelo chefe de estado, aprovada pelo STF no dia 08/06/2011, e que não é um caso de Direito Internacional.

14. Haveria unanimidade para este tipo de decisão?

É impossível saber agora, mas é provável que sim. Países como a Alemanha, que têm também uma política semifascista, praticam hoje um sistema repressivo mais discreto e de menor impacto que a Itália, e nada ganhariam com tornar-se marionetes de um estado mafioso-fascista-stalinista, e, como se isto fosse pouco, ainda corrupto e economicamente falido. O governo conservador francês está tentando que se esqueça a suja atitude de Chirac quando assinou a extradição autorizada pelo Conselho de Estado. Os EEUU e o RU sabem muito bem que Battisti nada tem a ver com terrorismo. Ambos estão preocupados pelo terrorismo real, e não pelos sonhos de vendetta de seus aliados. Mas, na pior das hipóteses, não haveria suficientes votos a favor.

15. Qual seria o fundamento para que a CIJ rejeitasse liminarmente a apreciação deste caso?

Para ser tratado sob o direito internacional, um conflito deve mostrar que o estado demandante possui algum indício de ter sido prejudicado, ou que o caso tem repercussão geral, porque implica algum risco para os princípios básicos da ONU. É claro que uma vingança particular não coloca em risco a paz mundial, nem coisas semelhantes. A perseguição contra Battisti é parecida com a condenação de Salman Rushdie pelo Irão em 1989, uma questão de rancor pessoal que, no caso de Rushdie era teológica, e no caso Battisti, é também mística, mas vinculada a um ressentimento de vendetta.

Além disso, o caráter jurídico da questão está encerrado. Mesmo que o STF cometesse um abuso ao pretender questionar o direito do chefe de estado a decidir em assuntos internacionais (uma intenção que fracassou 5 a 4 em 12/2009), de fato, o tribunal acabou reafirmando o direito que Lula já tinha, como tem qualquer chefe de estado num país “normal”. Finalmente, o abuso ainda mais espantoso de tentar deturpar a decisão final do governo, foi derrotado também em 08/06, por 6 a 3.

O Brasil não sequestrou nenhum cidadão italiano, nem violou os direitos do país. Qualquer juiz que vote a favor deveria reconhecer que a vingança é um direito dos estados e deveria ser respeitado. Mas não imagino nenhum dos juízes atuais capazes de dizer isso. (Há alguns anos, talvez o representante brasileiro teria apoiado esse entendimento, mas não o atual representante, que é especialista em Direitos Humanos).

16. Então, alguns experts em relações internacionais, juristas, políticos, etc., que dizem que Brasil vai perder, estão errados?

Se eu aprendi bem o português, erro significa o mesmo que em espanhol: um desvio involuntário e acidental da verdade, como “erro de cálculo”, “erro de pontaria”, etc. Mas essas opiniões não têm nenhum componente acidental. São bem planejadas e premeditadas, e seus autores devem estar “espiritualmente” gratificados.

17. Suponhamos o impossível: que o Brasil perdesse. Como faria a Itália para que o Brasil obedecesse?

Se a Itália ganhasse, não poderia obter Battisti de volta por vontade do governo. Nenhum governo se submeteria a essa humilhação. Então deveria pedir à CIJ que mobilize sua “polícia” que é o Conselho de Segurança. Suponhamos que (1) a Itália obtivesse a maioria de votos no CS, (2) que, além disso, nenhum membro permanente use seu direito de veto. Então, o CS poderia atuar. O que significa isto?
O Conselho de Segurança para fazer cumprir a ordem em favor da Itália, deveria mandar uma força multinacional para invadir o Brasil e capturar Battisti. Será que alguém leva isto a sério?

18. Como é a composição da CIJ atualmente?

Brasil, com o jurista Cançado Trindade, especialista em Direitos Humanos. Os outros: Japão, Eslováquia, Serra Leoa, Jordânia, Alemanha, França, México, Marrocos, Rússia, Somália, Reino Unido, China, Estados Unidos.

19. Battisti teve seus direitos negados na Corte Europeia de Direitos Humanos (CEDH), mas todos os juristas sérios têm certeza de que isso não acontecerá na CIJ. Isso significa que o senso de justiça na CIJ é maior que na CEDH?

Seria um pouco temerário usar palavras grandiosas como “senso de justiça”. As instituições estão ao serviço dos estados e, portanto, das elites que os governam. Deixemos o caráter sagrado da justiça para os teólogos. Entretanto, há diferenças fundamentais entre ambos os casos.

A CEDH rejeita 96% ou mais das petições. Aceita apenas as que são úteis aos governos. Então, não custava nada colocar Battisti nesses 96%. Fora da esquerda francesa, poucos repararam nisso. Na Haia, se houver um julgamento, será algo público e muito acompanhado pela opinião mundial, já que os casos que a CIJ julga são poucos. Qualquer arbitrariedade seria um escândalo.

Além disso, ignorar um pedido justo, como fizeram com Battisti na CEDH, é muito menos violento e escandaloso que aprovar uma condena injusta, que, aliás, prejudicaria o estado brasileiro como pessoa jurídica, e o atual governo. É uma medida que só tomariam em caso extremo... talvez, se o finado bin Laden estivesse no Brasil.

Além disso, percebam que o STF está começando a mudar, e haveria apenas dois ministros para “torcer” pela Itália. Eles eram os donos da Corte brasileira, mas não poderiam influir na justiça internacional.

Finalmente, sem falar de “espírito de justiça”, podemos dizer que os interesses da CIJ são diferentes dos da CEDH. Os tribunais europeus estão interessados em perseguir todo aquele que discorde com o atual modelo que, salvo em alguns países, é antipopular, racista, xenofóbico, conservador, e viciado em perseguição de imigrantes e em refoulement.

Os países reunidos na Haia têm interesses regionais, econômicos e políticos diversos, alguns deles em confronto com os países coloniais. Na Europa, rejeitar um caso de direitos humanos é rotina, pois os governos vivem fazendo isto. Já para a CIJ, aceitar a pretensão da Itália seria tornar-se procurador de uma vingança cuja sede de sangue é difícil de entender fora do círculo fascista-stalinista. O que significa esta história de Battisti para o representante de Serra Leoa ou do Japão? Por que um juiz internacional se meteria em tamanha encrenca e colocaria seu país em tal ridículo??

20. Será que a Itália vai mesmo à Haia?

Essa é uma grande pergunta, mas deveremos esperar o prazo estipulado por Frattini. Não podemos saber antes. A Itália e seus subservientes no Brasil pensam que Roma ainda é a capital do mundo como no século 1º, e que o 95% da humanidade é católica, mas pode haver alguns líderes italianos que saibam que a história mudou por volta de 1400, e que não adiantará muito uma bufonada desse tamanho.

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Carlos Alberto Lungarzo foi professor titular da UNICAMP até aposentadoria e milita em Anistia Internacional (AI) desde há muitos anos. Fez parte de AI do México, da Argentina e do Brasil, até que esta seção foi desativada. Atualmente é membro da seção dos Estados Unidos (AIUSA). Sua nova matrícula na Organização é de número 2152711.

Carlos A, Lungarzo colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

Para se comunicar com o autor, escrever a carlos.lungarzo@gmail.com

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terça-feira, 20 de setembro de 2011

OS ANDES, O SALAR E SUSQUES

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(Excerto do livro "Viagem ao Umbigo do Mundo”, publicado em 2006)

Urda Alice Klueger

Fica bastante difícil passar para um texto o que é subir a Cordilheira dos Andes. A grandeza da natureza é tão inexplicável e tão indiscritível ali no Passo de Jama, para onde seguíamos, que penso que sequer um filme pode mostrar o que se sente quando se está naquelas subidas como que ciclópicas, ínfimos insetos que somos diante da grandiosidade da Natureza. Eu aconselho a cada ser humano das Américas a um dia passar por tal experiência, para “sentir” na pele a grandiosidade do seu continente, e de repente, no meio daquelas grandezas infinitas, numa breve descida, vimos lá adiante como que uma imensa planície toda feita de neve, ou de chantili, ou sei lá o que pode ser tão branco. Instintivamente, cada harleyro foi diminuindo a velocidade enquanto a estrada começava a cortar aquela brancura sem mácula, aquela brancura que descobríamos feita de gemas que rebrilhavam ao sol. Um salar! Continuamos rodando até o centro daquele grande círculo, e então paramos todos junto à uma casa bem grande feita inteiramente de barras de sal, com todos os móveis e tudo o que uma casa tem também feito e esculpido em sal, e cercada por aprazíveis áreas para piquenique e esculturas, tudo de sal.

Saltei ali sem querer crer no que os meus olhos viam – fui confirmar lambendo as paredes, as esculturas, as coisas que estavam por ali, para ter certeza de que não vivia uma alucinação. Turistas alemães também estavam ali a fotografar tudo e a tirar fotos com um argentino totalmente índio, que ganhava sua vida ali, a vender pequenas esculturas de sal que fazia. Jamais imaginara estar, um dia, num lugar assim – e como se formara tal lugar? Um dia, lá na aurora dos tempos, quando os continentes se separaram e as placas tectônicas foram se empurrando uma sobre a outra e começaram a formar o que é hoje a Cordilheira dos Andes[1], um mar que existia em algum lugar também foi parar lá em cima, há mais de 3.000 metros de altitude. Tantos milênios ficou aquele mar preso lá no alto das montanhas que toda a sua água acabou se evaporando, e sobrou aquela camada de sal, que mede entre 2,80 m a 3,0 metros, e que pode ser cortada por serras como se fossem grandes pranchões de madeira. Em alguns pontos explora-se a retirada do sal, mas aquilo é como retirar agulhas de palheiros, dano praticamente insignificante àquele oceano de sal petrificado, maravilha das maravilhas, coisa na qual eu acreditava por estar vendo – até já vi coisa parecida na televisão, mas nunca pensara estar a pisar, de verdade, num espetáculo daqueles.

Tivemos, porém, que acabar partindo. Adiante do salar, tanto quanto me lembro, a nossa subida acabara – muito haveria a subir, ainda, em outros dias. Viajávamos, agora, por uma paisagem árida e seca, com pouquíssimos pontos de umidade e minúsculas lagoas, e montanhas altíssimas espalhadas em alguns pontos do horizonte, raiadas de neves brancas, e que provavelmente eram vulcões. Nos pequenos pontos de umidade criava-se alguma coisa verde, musgos ou outras plantas adaptadas àquela secura e àquela altitude, e alguma coisa de fauna sempre deixava as suas marcas, às vezes até gordas lhamas peludas. O interessante eram as montanhas longínquas, prováveis vulcões: já passara o tempo do degelo, que decerto tinha sido muito forte um mês antes, e o que se via eram estrias de gelo, neves eternas em forma de fios que engalanavam tais montanhas como aqueles fios prateados que a gente usa para enfeitar árvores-de-Natal. Dava até para duvidar que aqueles fios brancos fossem mesmo feitos de neve e gelo – havia quem achasse que se tratava de calcáreo. Eu me lembrava de experiências anteriores nos Andes, e não tinha dúvida de que aquilo era gelo, e que aquelas montanhas, lá onde apareciam as estrias de gelo, deviam estar em torno de 5.000 m de altitude. Por onde andávamos, na planície desolada e quase toda seca, deveríamos estar a mais de 3.000 metros de altitude.

A tarde avançava e logo seria noite. Onde dormiríamos? De repente, antes que eu me desse conta, enveredamos para dentro de uma pequenina cidade, bem na hora em as crianças daquele lugar saíam da escola e caminhavam pelas calçadas de adobe da sua cidadezinha de adobe. As crianças pararam, estáticas, respiração suspensa diante daquela invasão de seres extraterrestres no seu pequenino burgo, e até hoje os olhos delas estão bem vivos na minha lembrança, e fico a imaginar que imagem guardaram de nós naquele por-do-sol de fim de setembro, quando a noite chegava rapidamente e eles olhavam para coisas que, talvez nem na sua pequena escola nunca tivesse sido mostrada. Extraterrestres vestidos de preto, em possantes máquinas negras com luzes brancas acesas, seriam pessoas como as outras ou seriam invasores que chegavam àquele lugar esquecido, que sequer nas enciclopédias tenho localizado? Ali era Susques, território argentino, e aquelas crianças de olhos encantados e arregalados eram quase os últimos pequenos argentinos com os quais nos encontraríamos – estávamos nas fímbrias daquele país.

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[1] Procure saber um pouquinho mais sobre Geografia: a Cordilheira dos Andes ainda não está pronta – lá por baixo dela, as placas tectônicas continuam se movimentando e empurrando-a para cima. Recentemente, em 26 de dezembro de 2004, nós que estamos vivos hoje tivemos a oportunidade de ver o que acontece quando as placas tectônicas acabam se movimentando. Falo do terremoto, maremoto e consequentes tsunamis (ondas gigantes) que assolaram o sul da Ásia, tirando ilhas do lugar e mudando alguma coisa no eixo de rotação da terra. Muitas e muitas gerações tinham vivido sem terem a oportunidade de ver tal acontecimento da natureza, e por pior que tenha sido a catástrofe ocorrida, há que pensarmos que fomos privilegiados por podermos observar quase que milagrosamente, através da televisão, a movimentação das placas tectônicas. (Nota da autora) Posteriormente a esta nota, também li uma outra explicação a respeito da formação de um salar daquele tamanho à tal altitude – em resumo, talvez pudesse ser o secamento de um grande lago, como o Titicaca hoje.



Urda Alice Klueger é escritora, histpriadora e doutoranda em Geografia pela UFPR.

Urda A. Klueger colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Os(as) paralelos(as) se encontram no infinito

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– Deus não joga dados pra perder –


Fernando Soares Campos

Ao dividir o Universo (Infinito-Eterno) ao meio, tendo criado um ponto, uma linha ou mesmo um plano, qualquer deles sendo utilizado como “fronteira” (ponto-cisão) [ver em Deus e o Universo Holográfico] consideremos agora apenas os 4 raios que formam as paralelas (dois ao macrouniverso e dois ao microuniverso). Então, vejamos que o ponto-cisão marca o encontro das paralelas.

Observe que a divisão do Universo-infinito-eterno, a partir do ponto-cisão, criou dois universos (infinitos-eternos) perpétuos... Visto que qualquer ponto no Universo-infinito é, ao mesmo tempo e espaço, o começo e o fim.

Lembremo-nos agora da contínua divisão dos infinitos-eternos em progressão geométrica. Está no texto acima indicado. Daí podemos compreender as partes de um holograma, cada parte representando o Todo. É como se Deus fosse homem sendo mulher, ou mulher sendo homem. É como se pegássemos um elemento de um rebanho e ele representasse o Todo.

A Via Láctea é a nossa galáxia; melhor: é a galáxia que habitamos com, provavelmente, outros companheiros de Alfa Centauro e de outras plagas cósmicas.

A expressão “vias lactarias” designa o processo de lactação dos mamíferos; entre estes, nós aqui na Terra como no Céu.

[Lembrei-me do antigo costume de amamentação solidária, com o emprego da mãe-leiteira; como, por exemplo, a negra cativa que servia de amamentadora de brancos, amarelos, cafusos, confusos, confúcios, taoístas... E, se sobrasse alguma gota, amamentaria também os seus filhotes.]

Pois bem, mal começamos a entender a vida, e a vida se esvai e volta, plena de sua autoconsciência, pacífica ou pacificada nos guetos umbráticos... fumígenos...

Mas estávamos falando mesmo do quê? Ah! sim, da Via Láctea, essa nave mãe que trotskista Universo afora.

Arthur Schopenhauer dificilmente escreveria fácil, mas facilmente escreveu difícil de se entender que o Mundo como vontade representa ação. Mesmo assim, existe gente exigente ao ponto de incompreender a abrangência, apesar da importância, do linguajar coloquial.

Os(as) paralelos(as) se encontram no Infinito...

É como nesta imagem gráfica de DNA.




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NovaE: Flash Back

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O Ser Integral



Fernando Soares Campos

Suponho que exista no corpo humano um ente material ínfimo, uma partícula infinitesimal na qual estaria registrada toda a ciência do universo. Seria a síntese de tudo o que existe: matéria e subjetividades da mente (um chip: corpo e alma). Para melhor entendimento do que pretendo expor, vou chamar essa partícula de Partícula Espírito-Matéria, ou simplesmente o Ser Integral.

Agora suponhamos que todo conhecimento universal até hoje revelado e o infinito potencial de tudo aquilo que possa vir a ser revelado, teorias que venham a ser capazes de explicar toda a formação do Universo e as causas de todos os fenômenos possíveis, pois bem, imaginemos que tudo isso estivesse registrado em uma obra de infinitos volumes e que todos os dias pudéssemos ler um desses volumes. Bom, se são infinitos volumes, certamente não teríamos a mínima chance de ler e estudar toda a obra em uma única existência usando um corpo que se esvai depois de esgotado o prazo de validade, uma vida conforme a conhecemos: nascimento, existência e morte do corpo.

O conhecimento, sem dúvida, é infinito, e nisso podemos facilmente crer. Por isso mesmo desenvolvi uma teoria sobre certa partícula infinitesimal de matéria inteligente, a Partícula Espírito-Matéria, o Ser Integral. Uma ínfima partícula de matéria, parte integrante do nosso corpo individual, na qual estariam registrados, através de códigos universais, todos os conhecimentos, todas as ciências, tudo sobre o universo que conhecemos e todo o infinito potencial a ser revelado. Essa partícula seria o verdadeiro centro de comando do ser animal. Nela se encontraria o potencial de tudo que necessitamos para evoluir, inclusive a autoconsciência, com ela a vontade, a força de vontade, os impulsos para o auto-aprendizado, decodificando a si próprio.

Sempre imaginamos as grandezas através das imagens geométricas que o mundo exterior se revela a nós. Dessas grandezas nasce em nós a noção de espaço e conseqüente duração de tempo para percorrê-lo.

Associamos a existência da matéria a tudo aquilo que impressiona nossos sentidos básicos: visão, tato, audição, olfato, paladar; além de concebermos o imaginário tangenciamento de tudo aquilo que é subjetivo, através dos sentidos emocionais e afetivos, as impressões que nos causam o que acreditamos ser bom ou mau, belo ou feio, agradável ou desagradável, quando apreciamos obras de arte, paisagens, obras literárias, quando torcemos ao assistir competições e nos inter-relacionamentos pessoais

Em se tratado de matéria, grande para nós é uma montanha, o planeta, uma estrela, o Universo; e infimamente pequeno é um átomo (nem precisamos ir além, detalhando suas partículas). Daí a dificuldade do homem comum entender que o conteúdo das obras de uma biblioteca com milhares de volumes impressos possa vir a ser armazenado numa partícula infinitesimal. Entretanto aqueles que conhecem os princípios de funcionamento de um microcomputador podem imaginar a tal Partícula Espírito-Matéria, seus circuitos, códigos e registros.

Os vírus

Os vírus se formam espontaneamente no Reino Mineral e passam a atuar no Reino Vegetal, com autonomia para se movimentarem intracorpos, onde adquirem conhecimento suficiente para desenvolver estruturas organizadas que vão desde as gramíneas às mais frondosas árvores.

No estágio vegetal, os vírus adquirem características apropriadas para se desenvolver e evoluir, transmutar-se, atrair elementos para a formação de corpos mais volumosos, um estágio mais avançado que o momento de sua criação no Reino Mineral, de onde sai dotado apenas do potencial, dos circuitos, dos códigos. Os registros (softwares) produzidos e instalados na sua massa são suficientes apenas para locomoção, alimentação e reprodução. Da vasta experiência adquirida no Reino Vegetal, instalando softwares mais avançados, passam para o Reino Animal, criando corpos autônomos, que vão desde as amebas até o maior dos mamíferos.

Partícula Espírito-Matéria no corpo humano

O espírito (a alma) do corpo animal emanaria da partícula, onde todos os conhecimentos estariam gravados, além de codificado para interpretar e agir diante de qualquer situação. Para entrar em contato com o mundo exterior, a dimensão imediata, no plano material, o Ser Integral cria mecanismos, como, por exemplo, os órgãos e sistemas apropriados para locomoção do corpo denso, e a sua cabine de comando é a massa encefálica, o seu principal invólucro.

Toda experiência adquirida, toda etapa vencida, tudo seria registrado na massa encefálica. É como se instalasse softwares no hardware adequando para o contato imediato com o mundo de matéria densa.

A massa encefálica é um aparelho grosseiro, porém apropriado para transmitir a cada órgão do corpo humano uma cópia dos seus interesses específicos, aquilo que tal órgão precisa para o seu funcionamento. Essa é a forma de fazer o organismo colocar os sistemas orgânicos em funcionamento sem que precisemos estar comandando conscientemente cada órgão e cada sistema orgânico.

Em cada órgão se localiza uma Partícula Espírito-Matéria mais evoluída que as demais, em fase de aprendizado, certamente menos evoluída que ao Ser Integral comandante da unidade corpórea. Assim, o coração funciona de forma autônoma, porém integrado a todo o organismo. Nele a sua Partícula Espírito-Matéria-Aprediz dominaria conhecimentos sobre as funções cardíacas. Caso ocorressem pequenas irregularidades no órgão, imediatamente a partícula aprendiz tentaria resolver por si mesma, através de sua liderança em relação às partículas aprendiz de válvula, aprendiz de artéria, aprendiz de célula... Em casos de agravamento, solicitaria socorro imediato à partícula trabalhadora Aprendiz-Gerente do sistema circulatório. Casos de extrema gravidade seriam enviadas mensagens para o competente departamento cerebral.

A massa encefálica registraria todo o conhecimento adquirido no período de cada existência. Quando nascemos, o cérebro traria, numa região ultraprotegida, todos os conhecimentos conscientemente adquiridos em todas as existências, desde as mais elementares noções matemáticas, éticas, científicas... tudo adquirido desde quando a partícula se desdobrava para decodificar as primeiras impressões do universo, ainda como um vírus, até a última existência na forma humana. Todo esse conhecimento permaneceria latente, mas é o que facilmente poderia vir à consciência do indivíduo.

Alma e matéria são indissociáveis.

Um corpo humano poderia até se desintegrar sob o efeito, por exemplo, de uma explosão de uma bomba atômica, mas a partícula infinitesimal inteligente, aquela que registra todo o conhecimento do universo, sobreviveria, assim como todos os “átomos” do corpo desintegrado. Todas as demais partículas teriam registros de suas funções no corpo que ocupa momentaneamente, ou onde esteja de passagem, evoluindo.

Aquele Ser Integral conscientemente criaria condições de sobrevida no mundo quintessenciado, sobreviveria com todos os registros, as decodificações realizadas desde que se libertara do Reino Mineral, como um vírus-princípio-espiritual, até quando abandonasse o mais denso corpo humano que usou para manter contato com o universo exterior.

No mundo de matéria em estado de quinta-essência, usaria tais energias sutis para reproduzir a forma humana, e geralmente o faz assumindo a última forma como viveu durante a última encarnação. Quando encontra oportunidade e se faz necessário, costuma entrar em contato com o mundo material, este em que nos encontramos. E isso que a gente chama de espectro (fantasma) é a projeção daquela partícula infinitamente pequena, o Ser Integral, ele saberia usar a matéria eterificada na dimensão que foge às suas percepções quando estamos usando este corpo denso, onde a partícula autoconsciente decodificar-se-ia, a cada etapa, até apreender o suficiente para não mais precisar deste corpo denso.


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domingo, 18 de setembro de 2011

Quando o intelecto alia-se à paixão

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Pedro Bondaczuk

A importância de um livro não se mede, apenas, pelo tema que aborda. E nem pela forma com que o assunto é tratado. Também a sua extensão não é, nem de longe, relevante, por não se tratar de parâmetro confiável de avaliação. Há volumosíssimos calhamaços, de mil páginas ou mais que, quando submetidos à criteriosa análise, se revelam vazios de idéias e desérticos em termos de pensamentos e sentimentos. Não sensibilizam, nada acrescentam e raramente o leitor consegue completar sua leitura. Não passam de perdulária verborragia.

Não que conteúdo e forma não sejam importantes. São mais do que isso: fundamentais. Mas a extensão não é. Os bons escritores, aqueles que sobrepujam o tempo e o esquecimento, dão seus recados em poucas palavras, e m pouco mais que uma centena de páginas, se tanto. São, além de criativos e peritos no domínio da técnica de redação, objetivos. Põem, sem rodeios, logo de cara, o “dedo na ferida” a que se propõem a expor.

Parodiando o dramaturgo Bertolt Brecht (Eugen Berthold Friedrich Brecht), em uma de suas tantas peças teatrais que ainda rodam mundo, encenada nos mais requintados palcos planeta afora, pode-se afirmar, categoricamente: “Há livros com conteúdo sólido e profundo e são bons. Há outros que além do conteúdo, têm forma correta, precisa e impecável, e são melhores. Há os que além do conteúdo e da forma, primam pela fluência e pela clareza e são muito bons. Mas há os que, além de tudo isso, são escritos com paixão. Estes são imprescindíveis”.

Esse é o caso específico do excelente romance de Urariano Motta, “Soledad no Recife” (Boitempo Editorial) – obra ficcional, posto que baseada em fatos e personagens reais – que, por reunir todas essas características simultaneamente, tem que constar das mais refinadas e preciosas bibliotecas de pessoas inteligentes, bem-informadas, cultas e, sobretudo, sensíveis, combinação que, convenhamos, é das mais raras.

Creiam-me, não exagero. Se exagero houver na minha constatação, este é para menos, dada minha relativa inabilidade para expressar-me com a clareza e a objetividade que o assunto requer. Concordo com o escritor Alípio Freire que acentuou, no texto de “orelha” do livro de Urariano Motta: “Quando viramos a última página de “Soledad no Recife”, o mais indicado é que nos recolhamos a um profundo e contrito silêncio ou que nos lancemos à produção de um exaustivo ensaio literário (...)”. É o que fiz, faço agora e me proponho a fazer em breve.

No caso do verbo fazer no passado, devo confessar que terminei de ler o livro de Urariano em novembro do ano passado, tão logo ele me chegou às mãos. Quando lancei no mercado “Lance fatal” e “Cronos e Narciso”, em setembro de 2010, fiz um trato com o amigo escritor. Ele escreveria a respeito das minhas duas modestas obras e eu me propunha a fazer o mesmo em relação ao seu romance. Trato feito, trato cumprido, certo? Errado!

Urariano fez a sua parte. Redigiu inteligente e lúcida avaliação dos meus dois livros (generosíssima, sem dúvida), enquanto eu... Estava tomado rigorosamente pela mesma sensação que Alípio teve. Ou seja, a da necessidade de recolher-me a um “profundo e contrito silêncio”. Não podia limitar-me a uma análise superficial e apressada do livro. Ademais, já havia decidido redigir, oportunamente, um ensaio literário a propósito.

O caso do verbo fazer no presente é esta minha contrita confissão de débito com o amigo, essa admissão de não haver cumprido, de imediato, o trato feito. E o tempo futuro? É o aviso de que na sequência, farei várias considerações sobre “Soledad no Recife” que, reunidas, poderão compor (na verdade, irão) alentado ensaio literário. Só espero ter competência suficiente para expressar-me com clareza, pelo menos a minimamente próxima da do autor deste apaixonante romance.

Ajo dessa maneira não apenas consoante recomendação de Alípio Freire, lúcida e pertinente, mas, principalmente, em respeito ao enorme talento de Urariano. Convém ressaltar que não há nenhuma subjetividade no que penso desse escritor. Afinal, mesmo sem que houvesse o menor contato pessoal entre nós (ele no Recife e eu em Campinas), ou seja, sem que houvesse um reles aperto de mão, um abraço fraterno, um olho no olho e sem que um conheça, por exemplo, nem mesmo o timbre da voz do outro, por nunca termos conversado, tenho-o na conta de grande amigo. E de fato, ele o é. Mais do que isso até, considero-o irmão que compartilha comigo (e eu com ele) sonhos e ideais comuns. Essas coisas a gente sabe, sem a mais remota necessidade de comprovação. Sente-as.

Urariano trata desse assunto – e de muitos outros, como amor, ódio, ciúmes, traição, idealismo etc.etc.etc. – e faz, na página 54 de “Soledad no Recife”, esta lapidar constatação: “Ocorrem-nos sentimentos muitas vezes sem explicação, sem uma causa clara, se podemos alimentar a esperança de que todas as coisas tenham uma causa. As pessoas do povo têm uma frase que expressa melhor um fato sem explicação “isso tem lógica”. Se tiver, não é mecânica, nem está no reino do cálculo das probabilidades”(...).

Porquanto, como Urariano observa em outro trecho do livro: “A vida está ao lado, corre célere agora mesmo, e pede, mais que pede, exige, ordena uma interpretação, um instantâneo, um flagrante. A paralisação do voo do beija-flor. Mais grave que isso, porque passa ao largo da paralisação mecânica do movimento. Não são asas em um voo congelado. Não é o instante infinitésimo no percurso e paradoxo da flecha de Zenon. É como – se me permitem comparar mal – um olhar fixo e perseguidor. Vivo, permanente e ciclópico. No entanto, além dessa ambição e muito mais além do escrito, a vida corre, ao lado de mim”(...).

Boa leitura.


Pedro Bondaczuk editor de Literário

Urariano Mota colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A mídia no Cutrale dos outros é MST

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Escravidão na Cutrale não é manchete

Por Altamiro Borges

Não saiu no Jornal Nacional da TV Globo. Também não foi capa nos jornalões. A Folha publicou uma notinha bem tímida. Mas o Ministério Público do Trabalho flagrou ontem na Cutrale de Itatinga, interior paulista, 62 trabalhadores em condições irregulares.

Quando o MST ocupa as terras griladas pela empresa, uma das maiores produtoras de suco de laranja do mundo, é o maior escândalo. Já quando a fiscalização encontra trabalhadores escravizados na Cutrale, a mídia “privada” se finge de morta!

32 numa única residência

O Ministério Público do Trabalho visitou o local e constatou que 32 trabalhadores habitavam numa única residência. “Ela estava em péssimas condições de higiene e conforto, sem vestiários, cozinha, ventilação e iluminação adequada. Além disso, os trabalhadores pagavam R$ 24,00 por dia pela alimentação e recebiam salários de apenas R$ 620”, registra a Radioagência NP.

Os próprios trabalhadores, que atuavam na colheita de laranja, denunciaram a situação ao Ministério Público do Trabalho (MPT). Oriundos de Sergipe e Maranhão, eles chegaram na região em setembro passado, “já endividados pelas despesas com transporte e alimentação”. Segundo o procurador da Justiça do Trabalho, Luis Henrique Rafael, a Cutrale é responsável pela grave situação.

Responsável pela condição degradante

“Quando ela faz a contração de trabalhadores de outros estados, existe uma instrução normativa do Ministério do Trabalho obrigando que o registro da carteira seja feito no estado de origem do funcionário. Isso garante que os trabalhadores, durante a viagem, sejam protegidos pelo contrato de trabalho e tenham benefícios se acontecer algum acidente. Porém, ela aceitou essa situação e não fiscalizou. Por isso, é responsável pelas condições degradantes do alojamento”.

Após o flagrante, a empresa se comprometeu a indenizar os trabalhadores. Mas é bom lembrar que a Cutrale, tão protegida pela mídia comercial, é reincidente em vários crimes. Entre outras maracutaias, ela sofre processo na Justiça por ocupar, ilegalmente, 2,6 mil hectares de terras da União no município de Iaras (SP), também no interior de São Paulo.





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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons



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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Dilma e a pegadinha do Fantástico

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Urariano Motta*

Recife (PE) - Desde o tempo em que trabalhei no rádio, aprendi que uma entrevista nem sempre deve começar pelo que mais interessa. Pois existiria depois o que se chama edição, onde o fundamental que interessava à pauta assumiria o devido lugar de destaque. Assim fizemos em mais de um “Violência Zero”, esse era o nome do programa, um espaço de direitos humanos no rádio, que então denunciava os criminosos da boa sociedade em Pernambuco.

Mas nunca, nem mesmo no dia em que entrevistamos um espancador de travestis, que afirmava na maior naturalidade odiar gays e assemelhados, nunca tratamos o agressor com desrespeito à sua pessoa, ou dele montamos o que não era real, documentado, em provas e pesquisas anteriores. Isso quer dizer, não lhe púnhamos na boca aquilo que o editor pensara antes, pois mais de uma vez mudamos o imaginado, que não se confirmava na pesquisa viva.

Que diferença para a entrevista de Patrícia Poeta com a presidenta Dilma no Fantástico do último domingo! A primeira coisa a se notar, já no começo, é a diferença de autoridade entre a repórter/apresentadora e a presidenta do Brasil. Entendam o que isso quer dizer: quem mandou em cena foi Patrícia, perdão, Poeta. “Agora vamos trabalhar?”, comandou a moça cuja poesia reside nos longos cabelos.

A edição preservou o constrangimento, a clara insinuação de que a presidenta não estivesse já trabalhando, exatamente para responder à grande autoridade da apresentadora do Fantástico. Que comandava e cruzava os braços.

Quem essa gente pensa que é? Aqui se confirma uma vez mais a história do carregador de quadros de santos em cima de jumento, que ao passar pelas estradas via o povo se ajoelhar e pensava “o quanto sou importante”. Quem monta no veículo TV Globo recebe a sua aura.

Patrícia manda na presidenta, e a edição realça o mando mais adiante em outro momento. Olhem bem, prestem atenção, porque a fala a seguir é da Poeta:

“Vou deixar a senhora falar um segundo exemplo. Tomei seu tempo lá na alvorada, a senhora tem crédito agora. Vou deixar”.

Sentiram a força?

Antes, da autoridade, Patrícia Poeta, vêm muitas bobagens (lembram-se do princípio de edição?), todas desrespeitosas para o cargo e importância da primeira mulher a presidir o Brasil, mulher ex-guerrilheira, torturada e quase morta na ditadura. Pergunta a autoridade do veículo:

“Em uma reunião dessas, por exemplo, tem um momento mais mulher? Bolsa, sapato, filho, neto?”, e segue, entre menções a fotos de netinho, até atingir o que interessa:

“Poeta: A senhora não imaginava, por exemplo, que fosse ter que trocar quatro ministros em tão pouco tempo, três deles, pelo menos, ligados a denúncias de corrupção, esperava isso?

Dilma: Olha, Patrícia, eu espero nunca trocar nenhum ministro e muitos deles eu não troquei exatamente por isso. Vamos e venhamos. O ministro Jobim, Nelson Jobim, saiu por outros motivos.

Poeta: Mas os outros três...

Dilma: “Eles ainda não foram julgados, então não podem ser condenados”.

Até o sublime instante em que se irmanam editores e repórteres ungidos pelo poder do veículo. Lembrem-se do princípio da edição, o que conduz bobagens até chegar a este ponto:

Poeta: “E como que a senhora controla esse toma lá da cá, digamos assim, cada vez mais sem cerimônia das bancadas? Como é que a senhora faz esse controle?

Dilma: Você me dá um exemplo do “da cá” que eu te explico o “toma lá”’.

Vem um curto silêncio na cena da entrevista. O ar não admite buracos, mas ainda assim há um raivoso e perturbador silêncio. Então volta a verdadeira autoridade, que ali chegou por decisão soberana de todo o povo do Brasil:

“Estou brincando contigo.... Vou te explicar. Eu não dei nada a ninguém que eu não quisesse. Nós montamos um governo de composição. Caso ele não seja um governo de composição, nós não conseguimos governar. A minha base aliada, ela é composta de pessoas de bem. Ela não é composta, não é possível que a gente chegue e diga o seguinte: ‘Olha, todos os políticos são pessoas ruins’”.

A autoridade que vem do veículo onde monta, a cara da entrevistadora Patrícia Poeta é de morder, apesar de palavras em tom de meiga manteiga. Não há mais um morde e assopra. Há um morde e assobia. Quem desejar ver a pegadinha que se frustrou, assista abaixo:

http://www.youtube.com/embed/BAEoXe0ymjc

Se houvesse uma edição popular, de toda a entrevista esta frase seria a mais séria: “’Tou brincando contigo”.

E os risos do Brasil ao fundo, que no rádio chamavam BG.


Urariano Motta* – Recife: é pernambucano, jornalista e autor de "Soledad no Recife", recriação dos últimos dias de Soledad Barret, mulher do cabo Anselmo, executada pela equipe do Delegado Fleury com o auxílio de Anselmo.
Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz._

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Ilusração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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