Assaz Atroz

segunda-feira, 5 de março de 2018

Crônicas da minha aldeia

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Crônicas da minha aldeia

por Fernando Soares Campos

"Fale de sua aldeia e estará falando do mundo" - Leon Tolstói

O próprio Tolstói também disse: “Quando as pessoas falam de forma muito elaborada e sofisticada, ou querem contar uma mentira ou querem admirar a si mesmas. Ninguém deve acreditar em tais pessoas. A fala boa é sempre clara, inteligente e compreendida por todos.” 

As histórias de batalhas e guerras, assim como as da política, das sociedades, das religiões, das revoluções, das civilizações, enfim, as histórias da humanidade, contadas pelos vencedores, têm quase sempre um falso brilho, em que se entremeiam ações supostamente heroicas com um aspirado moral superior e pretendida moral alicerçada em consagrados princípios éticos. Geralmente são redigidas de forma pretensamente "sofisticada", em linguagem rebuscada e até mesmo com argumentos inconclusivos, privando o leitor de uma clara compreensão, e este, por sua vez, costuma interpretar os textos sob suas ideologias e valores, num faz-de-conta que entendeu.

Porém, lendo o livro de crônicas "Santana: vivendo e contando histórias", do Dr. José Avelar Alécio, pediatra, com especialização em Saúde Pública, Medicina da Família e Homeopatia, lançado ano passado pelo SWA Instituto Educacional Ltda., reconhecemos, nas considerações de Tolstói, uma completa identificação com os escritos do autor, que se dedica a traçar alguns quadros históricos de nossa "aldeia", a cidade de Santana do Ipanema, localizada no Médio Sertão de Alagoas. Avelar o faz de forma "clara, inteligente e compreendida por todos", como bem recomenda o escritor russo.

"Fale de sua aldeia e estará falando do mundo", leia as crônicas de José Avelar e estará lendo histórias do comportamento humano em qualquer parte do Planeta. Com uma grande diferença em relação aos historiadores oficiais: Avelar não tem o objetivo de elevar personalidades à condição de heróis, "com um aspirado moral superior e pretendida moral alicerçada em consagrados princípios éticos". Entretanto ele reconhece naturalmente as contribuições de muitos santanenses para o progresso da cidade, nos âmbitos educacional, cultural, empresarial e, acima de tudo, moral, com exemplos de empreendedorismo social e luta reivindicatória. 

Os textos do médico-escritor José Avelar despertam o leitor... melhor, conduz o leitor para além da mera curiosidade. Pessoas como eu, nascidos e criados naquela cidade, testemunhas de muitos dos casos contatados no livro, em determinados momentos ficamos absortos, interrompemos a leitura e meditamos sobre nosso próprio papel na sociedade, seja na condição de pai, filho, amigo, estudante, trabalhador ou, como a maioria dos meus amigos, retirantes, ausentes, saudosos, aventureiros, dispersos pelo mundo afora.

No primeiro capítulo, intitulado "Santana dos anos sessenta e setenta", me detive na crônica "Os Cinemas de Santana". Tivemos três cinemas na cidade: O Cine Glória (o mais antigo), o Alvorada e o Cine Vanger. O primeiro ficava próximo à minha casa, no bairro do Monumento, o segundo, no centro da cidade, e o terceiro no bairro da Camoxinga. 

Avelar lembra que "O sinal sonoro que antecedia o início da sessão era aguardado por todos". Chamávamos de "prefixo". No Cine Glória tal prefixo era executado ao som de "Tema de Lara", um dos primeiros filmes exibidos ali, quando o cinema passou da propriedade de seu Domingos, para seu Tibúrcio Soares. Este foi o mais maravilhoso de todos os donos de cinema da cidade: bastava iniciar a sessão, cinema semi-lotado, a gente, guris na faixa de 10 a 12 anos, se esticava na bilheteria e pedia para entrar de graça. Ele nunca negava: fazia sinal para o porteiro e mandava entrar um por um. Em casa, geralmente a gente só recebia "verba" para uma sessão semanal; na maioria das vezes, para a matinê dos domingos.

Lembro-me de ter ido assistir a alguns filmes em companhia de minha mãe, mas o que mais me marcou foi "Diana, a caçadora". Em determinado momento, quando eu já estava ficando excitado com a imagem de uma mulher nua na tela (a atriz posando para um escultor), minha mãe estendeu o braço e tapou minha vista com a mão. 

Depois de pesquisa sobre esse filme no Google, encontrei o seguinte texto : "É sintomático que o primeiro artigo de Drummond tenha sido sobre um filme — Diana, a caçadora — em que discute a questão da moral no cinema, pois essa Diana aparece totalmente nua, tendo provocado severos protestos, tanto de jovens quanto de velhos, no Cinema Pathé, de Belo Horizonte". 

O moderníssimo Cine Alvorada, tela panorâmica, produções em CinemaScope, o fino do fino. Um empreendimento do generoso Tibúrcio Soares. Avelar lembra que nas paredes da sala de exibição existiam pinturas modernas retratando aspectos regionais. O pintor foi meu amigo e vizinho José Lima, Zezinho de dona Maria Ourives, irmão de Alberto "Benga", uma família de artistas.

Finalmente o Cine Vanger. Este não tinha lá uma boa reputação, pois funcionava numa garagem e apelava para exibições de filmes pornôs importados, os chamados "suecos". Acredito que, por isso mesmo, Avelar, que morava nas proximidades daquele cinema, deixa bem claro: "Nunca assisti a filme no Cine Vanger" (risos).

"Santana: vivendo e contando histórias", um livro de crônicas para santanenses ou qualquer outro habitante do Planeta, pois, segundo Leon Tolstói, "Fale de sua aldeia e estará falando do mundo".

Obrigado, Avelar, pela belíssima e importante obra.

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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Brilhantes mentes sombrias do Majestoso Império de Absurdil

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Brilhantes mentes sombrias do Majestoso Império de Absurdil

por Fern
ando Soares Campos

Ali, precisamente em alguma área entre as regiões ártica e antártica, existia um reino do tipo que só conhecemos em contos de fada: o extraordinariamente vulgar Majestoso Império de Absurdil, governado, durante muitos séculos, pela dinastia Bundaleone. Ferdinando Bundaleone XXIV, o último imperador de Absurdil, era um monarca tão vaidoso que obrigou os seus súditos a reverenciá-Lo até nos pronomes oblíquos.

Sua Presunçosa Majestade parecia feliz com os resultados da política econômico-financeira do reino, seu fabuloso tesouro pessoal era invejado pelos soberanos de todo o mundo. Contudo Sua Faustuosa Majestade andava com o seu augusto saco cheio da monótona rotina: desvirginar as donzelas debutantes, assistir a enforcamento de ladrão de galinha, praticar tiro ao alvo em escravos e alimentar os crocodilos do fosso do castelo com bebês recém-nascidos, como forma de controle da natalidade.

Quase todos os dias, Bundaleone visitava o Museu Imperial, mesmo que fosse apenas para uma rápida passagem pelo setor Cabeças dos Traidores, onde Sua Macabra Majestade apreciava os rostos aterrorizados de inimigos decapitados — as cabeças eram mergulhadas em uma solução conservante e exibidas em vasos cristalinos.

Enfadado com a mesmice do seu dia-a-dia, Sua Entediada Majestade mandou vir à Corte o seu ministro da Ignorância e Barbaria e ordenou que este lhe apresentasse um eficiente programa de manutenção do analfabetismo, pois um relatório do Serviço Absurdileiro de Informações e Delação Obrigatória (Sabido) indicava suspeitas de que alguns trabalhadores estavam aprendendo a ler e escrever. O ministro retirou-se garantindo à Sua Estúpida Majestade que iria intensificar todos os esforços do seu ministério para elaborar o mais eficiente plano de incremento da ignorância e barbaria de todos os tempos, em Absurdil.

Em seguida, Bundaleone convocou o seu ministro das Desinformações. Deste, ele exigiu que fossem tomadas providências para conter a queda de audiência do único canal de televisão do reino, a estatal TV Cubo. Relatório ultra-secreto do Sabido informava à Sua Esclarecida Majestade que, nas segundas-feiras, apenas 99,99% dos televisores permaneciam ligados até a meia-noite. O ministro tranquilizou Sua Preocupada Majestade, garantindo-lhe que apresentaria um infalível plano, desenvolvido em convênio com o Ministério da Aculturação, para obrigar todos os súditos a assistirem à programação da emissora estatal, durante todo o tempo em que não estivessem trabalhando no corte e moagem de cana, a monocultura do vulgarmente extraordinário Majestoso Império de Absurdil.

Finalmente, Sua Injustiçosa Majestade fez vir à sua presença o ministro da Injustiça. A este Bundaleone cobrou mais empenho no desrespeito aos direitos humanos; do contrário, ele próprio, o ministro, seria também chicoteado em praça pública, como qualquer dos súditos que eram mensalmente punidos por terem nascido miseráveis e não conseguirem alcançar o status de pobre ao se tornarem adultos, conforme determinava a lei; feito que qualquer trabalhador poderia facilmente realizar, bastando apenas triplicar o seu volume diário de corte de cana, durante a mesma jornada de trabalho a que estava submetido desde os cinco anos de idade: 20 horas diárias.

No dia seguinte os maquiavélicos ministros compareceram à Corte com os mais sórdidos planos. Os programas propostos para o incremento da ignorância e barbaria, desinformação e violação dos direitos humanos eram tão repulsivos que encantaram Sua Repugnante Majestade Bundaleone XXIV.

— Jamais, em nenhum outro reino, foi implementado um plano tão abominável! — festejou Sua Execrável Majestade. — A ignorância e a injustiça finalmente triunfarão para sempre no meu reino! — sentenciou.

Emocionado, Bundaleone observou seus desprezíveis assessores e sentiu a necessidade de recompensá-los pelos seus esforços. Súbito, brotou uma brilhante idéia sombria da saudável mente psicótica de Sua Mórbida Majestade. Assim, Ferdinando Bundaleone XXIV informou aos seus sabujos auxiliares que lhes prestaria uma homenagem sem precedente na História do Majestoso Império de Absurdil.

Os ministros regozijaram-se com o vergonhoso reconhecimento do soberano desavergonhado e, num gesto coreograficamente ensaiado, ajoelharam-se e, como mandava a tradição, beijaram os pés do escroto monarca, antecipadamente agradecendo-lhe a homenagem que lhes seria prestada.

Bundaleone mandou construir um suntuoso salão anexo ao Museu Imperial. Para a inauguração deste novo espaço cultural, Sua Diabólica Majestade mandou decapitar os três ministros autores dos eficientes planos de incremento da ignorância e barbaria, desinformação e injustiça. As cabeças dos homenageados, mergulhadas em solução conservante, acondicionadas em enormes vasos cristalinos, inauguraram a seção Brilhantes Mentes Sombrias do Majestoso Império de Absurdil.

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Moral indecorosa: Em alguns casos, é prudente mandar representantes a eventos em que certos governantes pretendam homenageá-lo. 


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sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Tiros pela culatra

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Tiros pela culatra

por Fernando Soares Campos 

Portal do jornal russo Pravda, versão em português - 03.11.2017

Trecho:

A mulher entrou na sala e estranhou o comportamento do marido ao telefone. Ele aparentava estar entre pasmo e eufórico, caminhava em círculo e repetia a pequenos intervalos: "Não! Não! Nããão!". Ela fez sinais, acenou, piscou, sussurrou: "Quem é?", "O que está acontecendo?". Ele apenas repetia: "Não! Não! Nããão!". A mulher impacientou-se, bateu palmas para chamar sua atenção. Tentou umas batidinhas com o pé. Nada, quer dizer, "Não!", era só o que ele dizia ao seu interlocutor.

Ela desistiu, resolveu esperar sentada. Ele mudou sua monossilábica comunicação para "Sim! Sim! Sei!". Impaciente, ela levantou-se bruscamente e perguntou: "Afinal, é sim ou não?!". Ele colocou o indicador entre os lábios e fez "psiu!". Ela já estava disposta a lhe tomar o telefone e perguntar ao outro o que estava acontecendo. Ele agradeceu pelas informações e despediu-se. 
- E agora dá pra você me explicar o que está acontecendo?! - exigiu ela.
- Você não vai acreditar, querida!
- Vai logo, desembucha, homem! Que aconteceu de tão grave?!

LEIA MAIS AQUI

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domingo, 29 de outubro de 2017

Fábula: "O pintassilva aquilino e o urubu-atucanado travestido de condor"

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"O pintassilva aquilino e o urubu-atucanado travestido de condor" 

por Fernando Soares Campos 

Portal do jornal russo Pravda, versão em português 
CPLP » Brasil - 29.10.2017

Trecho:

Naquela época, o Reino Unido do Pau-Brasilis vivia sob o governo de um urubu-atucanado travestido de condor. A turba depôs o urubu-atucanado que nada tinha de condor, mas, sim, condottiere, e o pintassilva-aquilino assumiu os destinos do reino.

O aventureiro urubu-atucanado havia deixado a nação no mais lamentável estado de penúria, um miserê nunca antes experimentado pelos reino-unidenses, também conhecidos por paus-brasileiros. Durante o reinado do urubu-atucanado, o Reino Unido do Pau-Brasilis tornara-se submisso aos ditames da Fauna Mamífera Internacional (FMI) e empobrecido pela pilhagem a que os autóctones comparsas do monarca entreguista se aventuraram durante muitos anos, saqueando os cofres públicos e vendendo quase todo o patrimônio do Reino a preço de banana na hora da xepa.

Em quase uma década de reinado, o pintassilva-aquilino havia conseguido resgatar grande parte dos pardais, rolinhas, bem-ti-vis, sabiás e tantas outras espécies que, durante séculos, de geração a geração, viviam em extrema pobreza, verdadeiramente escravizados. Toda a fauna miúda, que nunca antes na História havia tido a atenção dos governantes, agora frequentava universidades, escolas técnicas, tirava férias e já nem precisava se desgastar batendo asas para percorrer longos percursos, pois passou a viajar confortavelmente de avião, comprava em shopping e dormia sob ar condicionado.


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O abismo brasileiro - A concentração de riqueza aprofunda a ferida nacional
por Guilherme Boulos [*]
CPLP » Brasil - 25.10.2017
Trecho:
Os números apresentados pelo estudo A Distância Que Nos Une, da Oxfam, são chocantes: a riqueza dos seis maiores bilionários brasileiros equivale à dos 100 milhões mais pobres. Considerando o 0,1% mais rico, seu rendimento [NR] em um mês é o mesmo que um trabalhador com ganho de um salário mínimo receberia em 19 anos. Difícil explicar pela meritocracia uma desigualdade tão gritante.


domingo, 24 de setembro de 2017

Golpear ou não golpear, eis a questão



Golpear ou não golpear, eis a questão
 
por Fernando Soares Campos
 
Com esta imprensa que temos aí, acontecem coisas assim: repórteres entrevistam alguns generais e os consultam sobre as possibilidades de um iminente golpe de estado, perguntam aos militares de alta patente se existe algum golpe em andamento nos quarteis, como se algum conspirador admitisse as intenções de golpear. Não entro no mérito se existe ou não, no momento, algum general conspirando sistematicamente no Brasil, refiro-me apenas à “ingenuidade” de certos profissionais de imprensa. 
 
Neste momento em que se dissemina notícias sobre as possibilidades de um golpe militar em nosso país, a imprensa deveria investigar, com isenção de interesses pessoais ou de classe, até onde a realidade revela a verdade dos fatos. Eu disse investigar?! Ainda existe aquele velho e eficiente jornalismo investigativo em alguma parte do mundo?

Conspiração contra um governo (qualquer que seja) é uma constante, é uma atitude comum a oposições de qualquer orientação político-ideológica. Todos conspiram, uns mais desleais que outros, mas conspirar é muito comum entre adversários. Às vezes, até mesmo dentro dos próprios grupos politicamente alinhados.

Golpear um governo não depende apenas de "clima" ou "ambiente" político; mas, acima de tudo, de oportunidade. E essa oportunidade a direita-sectária brasileira está criando, com o apoio da mídia golpista, pois quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Lembram-se? Os tempos são outros, os métodos talvez também sejam outros, porém não menos violentos.

Milhares de pessoas já tiveram suas vidas devastadas pelo terror de um golpe de estado porque não acreditavam que estava sendo engendrado golpe militar em seus países, até chamavam de paranoico quem insinuasse tal possibilidade. "Teoria da conspiração". 
 
Duvido que, na manhã de 1º de abril de 1964, os militantes de esquerda e a população brasileira em geral acreditassem que, naquele mesmo dia, os tanques estariam nas ruas.

Eu perguntaria aos companheiros chilenos se eles poderiam nos relatar como se sentiam nas vésperas daquele 11 de setembro de 1973, quando bombardearam o Palácio La Moneda e se livraram do presidente Salvador Allende, que dizem ter-se suicidado. Se a população havia sido notificada sobre o “evento”.
 
E os companheiros argentinos, por acaso, receberam algum boletim informativo com uma nota do tipo "Amanhã cedo vamos golpear"? Como foi o primeiro dia de matança aí na Argentina, hein?! Como estava o clima naquele dia? Muito frio? Chuvoso? Nevasca? Calor? 
 
A imprensa e os políticos sob um golpe militar nos dias de hoje

O AI-5 do general-ditador Costa e Silva, em 1968, impôs o fechamento do Congresso Nacional e censura à imprensa. Estabeleceu de vez a ditadura que começou em 64. Porém, nos dias de hoje, com a imprensa e o Congresso que temos aí, não precisariam cassar mandatos nem impor censura à imprensa. Pra quê?! Eles já aprenderam a autocensurar-se, a obedecer, a mancomunar-se. 
 
Os atos de exceção, hoje, se limitariam a suspender o processo eleitoral através do sufrágio universal e estabelecer a nomeação de governadores e uma cota senadores biônicos. Mas o principal, o seu mais importante artigo seria aquele que determinaria eleição indireta para a Presidência da República. Aliás, este seria o verdadeiro motivo de um golpe militar sobre o golpe legislativo de 2016.
 
Os golpistas já sentiram que é praticamente impossível manter Lula preso com o país sob regime de liberdade de expressão e manifestação popular. Haveria um clima de perturbação permanente, as principais estradas do País seriam fechadas diariamente em diversos trechos. Paralisaríamos os setores produtivos da nação. Portanto, só lhes resta aplicar o golpe fatal, o golpe de misericórdia sobre o que nos resta em nome de um cambaleante Estado democrático de direito.
 
Agora imagine o seguinte cenário: Lula lá no cadeião de Curitiba, milhares de militantes petistas e esquerdistas em geral distribuídos entre presídios, manicômios e cemitérios clandestinos; outro tanto exilado pelo mundo afora. Imaginou?! Então, leia o jornalista Fernando Brito, editor do site Tijolaço, e desimagine, desencasquete. Ele não admite que exista, atualmente, a possibilidade de um golpe militar no Brasil devido à importância que o nosso país representa no cenário mundial. 
 
Vejamos esse trecho de um dos seus artigos em que ele diz que até se nega a "ficar discutindo a possibilidade de um golpe militar como sendo o maior escândalo de nossos tempos" e expõe suas razões:

"A primeira é que são remotíssimas as possibilidades de se instaurar um governo militar num país da importância mundial do Brasil, mesmo que diariamente o governo faça tudo  para apequená-lo. É evidente que qualquer pessoa dotada de algum juízo geopolítico sabe que a conjuntura mundial, hoje, ao contrário dos tempos da “Guerra Fria”, o impede. E, mesmo que haja uma aventura insana, é algo que não se sustenta politicamente.

"Governo militar, hoje,  é coisa para ex-capitães aloprados, jovens imbecilizados e senhores saudosistas. Militar com comando e responsabilidade não acredita nisso, nem vai para aventuras que não sabe onde e como terminam. É coisa para aspirantes e tenentes bolsonaristas ou general em campanha prévia para o Clube Militar, onde vai curtir sua passagem para a reserva e se pode falar sem agir. Há quem fale em outras aventuras eleitorais: seu direito e uma falta de juízo sem tamanho.

"A segunda razão é que a ditadura que me preocupa é a que já vivemos: a judicial.

"Esta, sim, não é um perigo, é uma realidade.

"Pior, é uma ditadura sem comando, porque o que seria seu “Estado Maior”, o STF, tornou-se uma espécie de “escolinha do Professor Raimundo” onde estamos debatendo as questões da “mais alta irrelevância” numa profusão de vaidades. Agora mesmo está julgando a questão do ensino religioso confessional, sem um mínimo de responsabilidade em ver que, neste momento, o tema é gasolina para os incendiários do ódio.

"Se falta comando, porém, tenentes superpoderosos não são escassos neste diktat da toga.

"Além do tenente master Moro esporulam outros que se apresentam como carrascos da corrupção, com especial predileção pela esquerda, ou até, na falta disto, para obterem seu brilhareco, dos gays, das meninas que perdem a virgindade, e tudo o mais que possa atrair a atenção pública, enquanto o governo postiço vai entregando tudo o que resta de patrimônio e esperanças deste país.

"Desculpem, mas eu não entro na gritaria contra a “ditadura militar” – que não desejo, óbvio, e creio, por tudo o que disse ao início, não virá – para fazer disto mais uma marola no tsunami punitivista com o medo do “prendam todos, senão prendemos vocês”.

"É mais água no moinho do autoritarismo não-militar, mas da meganhagem que se tornou o sistema judicial e parajudicial."(Fernando Brito, no artigo "O mais perigoso para a democracia é o Mourão ou o “Morão”? - TIJOLAÇO - 22/09/2017)"

Mas, em verdade, vos digo: se capitularmos diante de frustrados militares golpistas, e o Brasil sofrer mais um golpe de estado arquitetado no Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, e perpetrado pelas facções militares colonizadas e submissas aos ditames imperialistas dos ianques, pois bem (bem mal), desta vez não sairemos do jugo ditatorial nem tão cedo. Talvez, democracia nunca mais! Seria o "1984" de George Orwell definitivamente instalado para a purgação da nossa degenerada existência. Seria o definitivo atestado de que não somos merecedores deste paraíso terrestre chamado Brasil, pois estamos transformando-o num verdadeiro inferno.

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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Deus e o diabo na Terra são um só

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Deus e o diabo na Terra são um só

por Fernando Soares Campos

Portal do jornal russo Pravda, versão em português - 02.09.2017 
Sociedade » Cultura

Trecho:

Essa história de que o Bem sempre vence o Mal é balela, feliz apoteose de novela épica. O Bem não vive em conflito com o Mal, o Bem e o Mal se complementam e se dispõem numa só forma. O conflito é nosso, é íntimo, não é externo. É de dentro para fora; não, o contrário; e ele se dá em função dos nossos interesses pessoais, imediatos, inalienáveis. A distinção entre um e outro está condicionada apenas à nossa consciência, ao que dela fizemos, ao que nela plasmamos, mas isso não quer dizer que podemos tratar essa questão atribuindo-lhe uma condição relativa, pois o Bem e o Mal se fundem e são inseparáveis, são objetos, sujeitos, não são qualificações de objetos, de sujeitos, como o que consideramos bom ou mau.

(...)

A crise existencial nossa de cada dia pode estar relacionada com esta nossa tentativa de separar deus do diabo, aplicando conceitos pessoais, semiconscientes, sobre o Bem e o Mal, sem considerarmos que, dentro de nós, um não existiria sem o outro. Num mundo só de luz, não adiantaria alguém tentar explicar o que viria a ser a sombra. Também num mundo somente de sombras, seria inútil alguém tentar explicar o que possa ser a luz. "Quem não soube a sombra não sabe a luz" (Taiguara, em "Teu sonho não acabou"


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LEIA TAMBÉM:

Discurso do Presidente Bashar al-Assad da Síria

Trecho:

Ocidente político e conflito global entre duas forças

Quando falo de "o Ocidente" falo no sentido político do termo. Não vou listar os estados 'ocidentais', todos nós sabemos quem comanda o Ocidente, assim como todos conhecemos esse "Ocidente político" - provavelmente com Estados localizados no extremo da Ásia - nada tem a ver com política, mas faz como se tivesse. É portanto sobre esse Ocidente que falarei hoje aos senhores e senhoras.

domingo, 27 de agosto de 2017

Lei de Causalidade e "Lei de Casualidade"

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Lei de Causalidade e "Lei de Casualidade"

por Fernando Soares Campos


Eu gostaria de entender melhor a aplicação e o funcionamento da Lei de Causalidade, também conhecida como Lei de Causa e Efeito ou Lei de Ação e Reação, mas não quero me ater a exemplificações específicas sobre causas e efeitos de ordem pessoal, consequentes à vontade e ação do indivíduo, nem a exemplos precisos de causas oriundas de decisões coletivas e que gerem efeitos isolados sobre indivíduos ou atinjam o âmbito total de uma sociedade.

O que pretendo mesmo é compreender por que um princípio tão lógico como a Lei de Causalidade pode ser preterido quando da investigação de certos acontecimentos e, em seu lugar, admitir-se a incidência de “casualidade”, “acaso” – sorte, destino, fatalidade, milagre, vontade de Deus...

As crianças parecem ser as mais renitentes criaturas interessadas em conhecer as causas e as conexões dos acontecimentos.

Por exemplo...

Pai: “O velho Pedro morreu”. Filho: “Morreu por quê?” “Foi atropelando quando atravessava a rua.” “E por que ele foi atravessar a rua?” “Ele ia à padaria.” “E por que ele ia à padaria?” “Ia comprar pão, ora!” “E por que ele ia comprar pão ora?” “Porque estava com fome, claro!” “E por que ele tava com fome claro?” “Ele estava com fome porque já fazia muito tempo que não comia!” “E por que fazia muito tempo que ele não comia?” “Para! Você está me deixando louco!”

Aí, chega a mãe e fala carinhosamente: “Filho, ele morreu porque Deus o chamou”. “E por que Deus o chamou?” “Porque chegou sua hora.” “E por que chegou sua hora?” “Vá dormir, vá, filhinho. Amanhã você precisa acordar cedo, tem que ir pra escola.” “E por que eu tenho que ir pra escola?”

O problema é que os fatos geralmente se encadeiam em causa e efeito-causa (efeito dominó); por isso, às vezes não conseguimos argumentar com objetividade, priorizando o núcleo da argumentação e identificando seus elementos periféricos, supostamente secundários. Ainda mais se alguém nos bombardear com perguntas fixadas no efeito cascata.

Nem sempre conseguimos enxergar a verdadeira relação entre os acontecimentos sucessivos, aquilo que possa revelar ligação entre as ações de causa e efeito, a “causalidade” dos fatos.

E as “casualidades”? Como se explica um fato ocorrido de maneira aparentemente fortuita, sem que possamos identificar qualquer motivo que justifique seu acontecimento, sem qualquer explicação plausível sobre aquilo que o gerou?

Existiria efeito sem causa, como dizem que alguns especialistas em física quântica pretendem provar? Não seria apenas o orgulho, ou arrogância, de certos cientistas que não admitem assumir que desconhecem as causas de tal ou qual fenômeno? Isso implicaria afirmar que o “acaso” existe. Acredito que a diferença básica entre tais cientistas e determinados religiosos é que estes, invariavelmente, atribuem a suposta ocorrência "casual" à vontade de Deus (sorte, destino, milagre); enquanto aqueles, provavelmente, identificam a fonte do “acaso” no próprio "acaso". É como se do nada pudesse surgir alguma coisa; porém, nesse específico caso, o religioso fanático está mais próximo da razão que o cientista ateu, pois este pretende explicar o surgimento de “alguma coisa” a partir do “nada”; enquanto o religioso admite, pelo menos, uma causa a determinado fenômeno inexplicável: sorte, destino, vontade de Deus...


Assim como existe a Lei de Causalidade, existiria uma “Lei de Casualidade”?

Ora, terá pensado você, leitor atento: “Se a casualidade ocorresse sob as determinações de uma lei, uma regra, nesse caso, deixaria de ser casualidade”.

Concordo, mas veja o que o outro leitor igualmente atento diria: “A Lei de Casualidade é a sorte ou o destino”.

Ou seja: a casualidade seria fruto da casualidade. É isso? Então, entramos no circuito equivalente ao cachorro correndo atrás do próprio rabo.

Analisando sorte e destino através de conceitos que indiquem casualidade, ou seja, quando a gente classifica certos acontecimentos como tendo sido o resultado da sorte ou do destino, tais como dependentes do acaso, estamos apenas buscando justificativa para o que ainda não entendemos, ou para as causas que ainda não identificamos.

Acontece que aquilo que costumamos chamar de sorte ou destino tem, na verdade, pai e mãe. E não é a Providência Divina interferindo em determinados casos, beneficiando uns ou castigando outros; mas apenas a própria Legislação Universal, natural, perfeita, atuando em todos os sentidos.

O que chamamos de sorte ou destino são fatores que ocorrem em consequência de nossas próprias ações, reações ou inações, as formas ativas ou passivas como nos comportamos em determinados momentos, diante das situações que se nos apresentem. A “sorte” ou o “destino” seria, portanto, o “efeito” de como agimos, reagimos ou "inagimos", fazendo uso adequado ou inadequado dos recursos de que dispomos. Daí, a boa ou má sorte, o bom ou mau destino. Por isso mesmo, sorte e destino têm “causas”, não são simples frutos de “acasos”. Assim, podemos continuar chamando de “sorte” ou “destino” aquilo que ainda não entendemos ou não identificamos a origem.

A “Lei de Casualidade” só existiria em função da nossa ignorância, dos nossos parcos conhecimentos, da nossa pouca compreensão do mundo e de suas realidades. Seria ela apenas uma abstração, ou um “cover”, da Lei de Causalidade, pois a distinção entre uma e outra só pode ser estabelecida considerando-se apenas o grau de facilidade ou de dificuldade que tivermos para identificar razões, motivos, causas dos acontecimentos. A questão é que, quando não enxergamos claramente a “causa”, tendemos a atribuir tudo ao “acaso”.

Milagre, por exemplo, é um fenômeno inexplicável através das leis naturais reveladas pela Ciência, até onde o processo científico alcançou. Ou seja: inexplicável devido ao nosso limitado grau de conhecimento das leis naturais (não confundir com leis do Direito Natural).

Trocando em miúdos

Para muita gente, ainda hoje, o simples ribombar de trovões e a precipitação de raios no céu seriam fenômenos milagrosos, ocorridos apenas em função da vontade de Deus, com momento e hora marcada, por merecimento ou necessidade, anunciando boa-venturança ou desgraça... E assim foi para toda a Humanidade, durante séculos e séculos, porém já não é mais isso para a maior parte dos humanos (supõe-se), ou para os humanos razoavelmente instruídos.

Como nos comportamos diante de relatos sobre "milagres” testemunhados?

Ou nos negamos a acreditar nas testemunhas, tratando o caso como fruto de imaginação fantasiosa ou de possível alucinação (individual ou, o que é mais difícil de se aceitar, coletiva). Ou atribuímos o fato a certa revogação momentânea e localizada das leis naturais (sobrenaturalidade), pela “vontade de Deus”, com o propósito de realizar o tal “milagre” e de transmitir uma mensagem. Ou nos munimos de razões naturais, alicerçadas em conhecimentos científicos e, a partir daí, elaboramos fundamentos de caráter essencialmente teórico, transcendentes às experiências verificadas pelas nossas funções sensoriais imediatas.

Milagre seria, portanto, para algumas pessoas, uma mentira, invencionice, fantasia, ou nada mais que alucinação; para outros, obra da vontade de Deus, que teria promovido uma eventualidade a fim de atender determinado propósito. Outros tantos tentariam explicá-lo através do conhecimento intuitivo, supra-sensível; mas, na medida do possível, ratificado por detalhes qualitativos e quantitativos do fenômeno, detalhes estes identificados e classificados com base em processos científicos.

Dessas três proposições, cabe desenvolver apenas a terceira, pois as duas primeiras, por si mesmas, pelas suas próprias formulações, pretendem responder à questão.

Quando à explicação “científica” de um “milagre”, explicação em que se leva em consideração a ocorrência de leis naturais reveladas – ocorrência daquilo que delas temos comprovado conhecimento – e, com isso, elabora-se fundamentos teóricos que, por sua vez, possam fornecer subsídios instigantes a pesquisas através de ciências diversas, pois bem, quando a essa explicação acrescentamos, além dos caracteres científicos e filosóficos (metafísicos), elementos de “paranormalidade”, afastamo-nos da compreensão da Lei de Causalidade e enveredamos no campo das “casualidades”, simplesmente porque “sobrenaturalidade” e “paranormalidade” redundam em fé cega, crença fanática (apesar de ambas as palavras terem relação semântica entre si, a primeira é bastante utilizada para justificar fatos sob o ponto de vista religioso, e a segunda é muito empregada nas explicações de fenômenos ufológicos, por exemplo).

Sorte no jogo de azar

Sabemos que ganhar ou perder nos chamados jogos de azar é uma questão inerente à Lei de Probabilidade.

Ao lançarmos um dado, cada face dele tem uma possibilidade de ficar para cima; uma entre seis possibilidades de posição (1/6).

O mesmo acontece quando giramos uma roleta numerada: cada número tem uma possibilidade de parar em determinada posição que o indica como sendo o número premiado; apenas uma entre tantas outras possibilidades de vir a ser o número sorteado (1/n).

(Matemáticos podem desenvolver teorias baseadas em outros fatores que devem ser levados em consideração quando dos cálculos estatísticos que determinam as probabilidades, fatores esses que podem interferir no resultado do jogo. Entretanto, em geral, podemos dizer que tal resultado está sempre determinado por uma possibilidade de ganhar entre tantas de perder.)

Nos jogos de azar, uma das características da Lei de Probabilidade é cada tentativa resultar em um acontecimento, tendo-se um estabelecido número de possibilidades de que ele venha a ocorrer. Sendo assim, só haveria razão para se falar em “acaso” se as probabilidades fossem infinitas, o que, por si mesmo, descaracterizaria o sentido do termo, por não haver mais a determinação de como o fato ocorre.

As probabilidades nos jogos de azar somente variam em função da modalidade ou de defeito no sistema de jogo. E nada indica que haja influência de suposto acaso, sorte, boa estrela. A primeira causa de alguém ganhar ou perder num desses jogos é a decisão de jogar. A segunda está submetida à Lei de Probabilidade.

Em se tratando de jogos de azar que também exijam atenção, raciocínio e habilidade dos jogadores, como acontece, por exemplo, nos jogos de carta, as probabilidades podem variar no tempo, de acordo com a jogada. Não se pode dizer que, porque alguém deitou, passou ou comprou tal carta, tenha, com isso, aumentado ou diminuído sua “sorte”; mas, sim, suas chances, as probabilidades.

A Lei de Probabilidade, assim como todas as leis naturais, está inserida no complexo da Legislação Universal.

Sincronismo e coincidência de acontecimentos idênticos - “coincidentes probabilisticos”

Acontecimentos idênticos podem ocorrer simultaneamente ou numa sequência temporal, mas sem relação imediata de causa e efeito entre si, aquilo que a gente costuma dizer: “Um não tem nada a ver com o outro”. Ou: “Um não é a causa nem o efeito do outro”. Em cada acontecimento, podemos identificar, isoladamente, agentes e motivos que os provocaram. Cada ocorrência tem seu relacionamento íntimo-causal independente. No caso, por exemplo, de uma série de incêndio, a causa que levou alguém ou alguma coisa fazer arder as chamas aqui não é a mesma causa (agente e ação) que fez arder as chamas ali ou acolá.

Em acontecimentos meramente sincrônicos, as relações entre eles residem em fatores fenomenais. Ainda como exemplo, analisemos a série de incêndio:

a) Têm causas (agentes e ações) e efeitos. Lei de Causalidade.

b) Ocorreram sob a determinação do mesmo princípio, ou seja: o fogo que queima aqui e o fogo que queima lá ou acolá obedecem à mesma Lei de Combustão.

(Porém não se pode atribuir a causa do fogo à própria Lei de Combustão, visto que não existe autocombustão – combustão espontânea –, como alguns cientistas pretendem provar. Seria basicamente o mesmo que dizer que existe efeito sem causa.)

c) Fatos idênticos podem ocorrer em vários pontos ao mesmo tempo (momento exato, rigorosamente pontual – sincronização linear no tempo e no espaço), ou em tempos distintos; neste caso, poderíamos considerá-los sincronizados em função da abrangência espacial e da frequência temporal: a cada tantos minutos, tantas horas, tantos dias, tantas semanas, tantos meses, tantos anos... tal número de fatos idênticos aconteceram ou acontecem numa determinada área (bairro, cidade, estado, país, continente...). Lei de Probabilidade.

Epa! Mas essa tal Lei de Probabilidade não é para os chamados jogos de azar?

A questão espaço-temporal dos acontecimentos sincrônicos pode ser definida pela abrangência territorial e frequência temporal das ocorrências, e, colhidos estes dados, pode-se estabelecer as probabilidades, usando cálculos fundamentados na teoria de probabilidade, a Lei de Probabilidade.

Coincidência

Os acontecimentos idêntico-sincrônicos são muitas vezes chamados de “coincidentes”, porém o significado de “coincidência” deveria ficar restrito ao fato de que eles se realizaram ao mesmo tempo ou numa definida sequência de tempo.

O problema é que costumamos usar a palavra “coincidência” ou “coincidente” para designar acontecimentos que teriam ocorrido “ao acaso”, ou seja, acreditando que a simultaneidade teria acontecido “por acaso”, sem levar em conta fatores naturais e artificiais preestabelecidos, os quais podem fornecer elementos para cálculos probabilísticos: frequência dos acontecimentos, área de incidência, condições climáticas e geológicas dessas áreas, suas condições de uso social, enfim, ene fatores que podem influenciar a incidência de certos acontecimentos. De posse desses dados e mais os que aí couberem, qualquer matemático pode calcular as probabilidades de vir a ocorrer tal ou qual fenômeno, em tal ou qual área, com tal ou qual frequência. Dessa forma, deixaríamos de chamá-los de “coincidentes casuais” (coincidentes ao acaso) e passaríamos a chamá-los de “coincidentes probabilísticos”.

Conclusão

Se acontecimentos idênticos ocorrerem em série, existem aí três fatores naturais e generalizantes que os relacionam:

1) Qualquer acontecimento encerra, obrigatoriamente, a Lei de Causalidade, nenhum ocorre por acaso.

2) Em todo acontecimento ocorre um fenômeno natural, ou conjunto de fenômeno, que caracteriza sua dinâmica: incêndio/combustão, desabamento/fadiga...

3) A sincronia entre os acontecimentos pode ser evidenciada através de cálculos probabilísticos. Se fugir aos padrões probabilísticos, há fortes razões para se admitir relação deintencionalidade na produção da série.

Mas podemos continuar acreditando na existência de suposta "Lei de Casualidade", só não podemos atribuir sua existência à vontade de Deus, mas tão-somente à nossa ignorância. 


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