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Fernando Soares Campos - Editor-Assaz Atroz-Chefe

Sou desligado do que acontece ao meu redor, tanto que às vezes atendo ao telefone, alguém pergunta por um dos meus filhos, peço licença e vou conferir se está em casa. Dou um giro por esta mansão de dois quartos, sala cozinha e banheiro, volto e confirmo que estou só. O meu interlocutor pode pensar que estou brincando, mas falo sério.
Muitas vezes meu filho ou minha filha entra e sai de casa, e nem percebo, ou não me lembro, apesar de, em alguns casos, ter conversado com eles. Celular? Nem me peçam, pois não tenho e nunca pedi o de nenhum deles. Pode parecer descaso para com a família, mas não é nada disso. Simplesmente confio neles. Não me dão motivo para preocupação de qualquer natureza, aparentam saber onde e com quem andam. Tudo indica que aprenderam a se cuidar. Os riscos a que se expõem são aqueles comuns a todos que vivem numa cidade como o Rio de Janeiro. Pior seria se vivessem em lugares como a minha cidade natal.
Há pouco mais de um ano passei alguns meses por lá. Nunca vi matarem tanta gente numa cidadezinha do interior como acontece ali. Eu nunca havia acompanhado tanto enterro. Todo dia matavam gente. Estive inclusive na mira dos jagunços. Dois sujeitos foram a julgamento por terem matado as esposas. Ambos absolvidos. Um deles, por um corpo de jurados formado por seis mulheres e um homem.
Acho que desta vez me desterrei por completo, dificilmente voltarei à minha cidade natal. Minha mãe e alguns irmãos ainda moram lá, ela já não tem condições físicas para enfrentar uma viagem ao Rio, portanto acho que só nos encontraremos de alma presente, quando os dois subirem.
Eu disse “quando os dois subirem”?
Pô! isso me causou calafrio... Pelo visto não vamos nos encontrar nunca mais! Pois, quanto a ela, só Deus sabe, mas por mim respondo eu: tenho certeza de que vou descer!
Mas nisso existe certo fator reconfortante: vou estar cara a cara com muitos dos meus inimigos (com alguns amigos também). Aí a gente acerta algumas contas, tendo Lúcifer como juiz. Tão justo quanto o Pai Celestial.
Né, não?!
Então por que ele atanazaria a alma de quem promoveu o mal na Terra?!
Se Lúcifer existe, é como instrumento da Justiça Divina.
Tem mais, bom mesmo será se eu encontrar alguns cachaceiros, raparigueiros e encrenqueiros por lá. Gente como Mozart e Beethoven, por exemplo. Aí é só olhar fundo nos olhos deles e deixar um réquiem ou qualquer de suas esplendorosas sinfonias invadir minha alma. Salieri, que deve estar ardendo num caldeirão daqueles, vendo aquilo, produz tsunamis de sua mórbida inveja, que se espalha pelo mundo dos ainda viventes, alcançando seus pares encarnados, fazendo-os se curvar diante do altar da imoralidade, da corrupção, do engodo, da ilusão...
A gente vai esperá-los com toda pompa. Quero ver a criatura chegar com os arreios enfeitados de bulhão, com um bulhão cravado nas costas e dando uma de bulhão. É isso aí! Porque, segundo o Houais, bulhão é enfeite para arreio de animais, é punhal e é gente desordeira, rixenta, barulhenta. Daí pra pior. Pelo que me consta, também poderia significar pessoa “covarde”, “corrupta”, “desagregadora de famílias”, entre outras desqualificações.
* * *
Muito raramente assisto à televisão, pois não consigo me concentrar no que vejo. Geralmente as primeiras cenas me transportam em pensamentos, e, em poucos segundos, nada daquilo que está passando na tela tem alguma relação com a minha viagem mental (sem efeitos fisiológicos induzidos, pois há muito tempo nem mesmo tomo bebida alcoólica, isso desde que voltei de minha cidade natal, onde vendem a melhor Cannabis do mundo!). O olhar permanece fixo na tela do aparelho, mas a atenção está pra lá de Alfa Centauro.
Outro dia eu estava diante do televisor ligado, e minha mulher, que acabara de chegar, perguntou: “Quem é essa mulher?” Desatento, respondi: “Uma ex-namorada”. Ela riu, pois na tela aparecia uma estrela de cinema. Mas não riria se soubesse que respondi como se ela tivesse perguntado quem era a mulher em quem eu estava pensando.
Uma meia dúzia de leitores me escreveu cobrando a continuação do desenrolar da história do torturador que diz não temer a verdade. A cada mensagem nesse sentido, fui até a sacada do apartamento e dei uma sacada nas adjacências, a fim de confirmar se os sujeitos mal encarados ainda estão de plantão do outro lado da rua. “Positivo e operante!” é o que parecem dizer ao celular. Falam, comem sanduíches e certamente comentam sobre as bundas das mulheres que passam carregando os cachorrinhos pra fazer pipi no canteiro que divide as pistas.
* * *
Já haviam se passado dois dias desde o meu segundo telefonema à viúva do suboficial Damasceno. Eu já sabia que não dava mais para contar com ela. Cheguei a pensar em mandar um dos meus filhos ligar e tentar obter, com uma desculpa bem formulada, alguma pista que pudesse me levar ao tenente Sousa. Desisti, pois estaria dando um péssimo exemplo a um filho; ensinando e estimulando-o a mentir; além disso, eu não gostaria que fizessem isso comigo, não suporto esse tipo de comportamento, portanto não seria capaz de agir assim com alguém. Só aprovo uma atitude desse gênero se tiver como objetivo salvar alguém de uma situação de alto risco. Para mim, seria o caso em que, diante da falta de alternativa, os fins justificariam os meios.
Enquanto tento entender esses rascunhos sobre o meu encontro com o sargento Túlio e a forma cinematográfica como cheguei ao seu esconderijo baixo astral, em Anchieta, vou contar como terminou o caso do meu amigo preso na Ilha das Cobras.
Vim do Sertão alagoano para o Rio disposto a ajudá-lo. Ele e mais dois dos seus irmãos moravam numa casa na Gamboa, Centro Velho da cidade, próximo à Zona Portuária.
No dia da minha chegada quase não tratamos do meu papel em sua defesa no tribunal militar, pois a gente gostava mesmo era de música.
Meu amigo tocava violão, até se esforçava e conseguia um som original. Eu gostava de compor, letra e música, mesmo não sabendo tocar nem caixa de fósforo. Ele fazia os arranjos e a gente se divertia em espécies de saraus, regados à cerveja, quando a grana dava, claro.
Ele me mostrou uma poesia que fez enquanto estava preso. Não me lembro do título, mas apenas destas duas estrofes, que musiquei e ele fez o arranjo no pinho:
Passam-se os dias,
Os meses, os anos,
E a morte não vem
Pro meu desengano.
Só sofrimento
Nas mãos dos tiranos.
Meu Deus, não te esqueças,
Nós somos humanos.
Na luta diária
Que é tão desigual,
Catando migalhas
Em um milharal,
Herói neste mundo
E no espiritual,
Meu Deus, esta alma
Tornou-se imortal.
Acrescentei mais duas estrofes de minha autoria, mas eram tão ruins que nem me lembro.
No dia seguinte fomos ao escritório do Dr. Wilhelm, seu advogado, na Rua México.
O Dr. Wilhelm me disse que eu não deveria me preocupar com muitos detalhes do caso, pois teria que testemunhar sobre, basicamente, os bons antecedentes e idoneidade do réu. Mesmo assim ele me pediu para mentir um pouquinho mais: eu arranjaria uma desculpa para justificar minha presença no local e diria que presenciei o final da ocorrência, o momento em que meu amigo estava sendo levado pelos fuzileiros.
Acertamos os detalhes.
Em casa, ensaiamos minha participação formulando possíveis perguntas e respostas.
“Desde quando você conhece o réu?”
“Desde que ele nasceu.”
“Como assim, se você é mais novo que ele?!”
Aí a gente repetia tudo...
“Desde que eu nasci.”
“Ah, bom! Qual a sua opinião a respeito do comportamento do réu?”
“Quando não bebe, dá pra conviver com ele!”
Aí meu amigo não aguentava as gozações, ficava nervoso, praguejava.
“Porra, cara! Tu leva tudo na sacanagem!”
“Fica tranquilo! Eu vou mentir pra caramba! Vou dizer que você é um cara maneiro, calmo, sereno, disciplinado, trabalhador. Digo até que vocês foram vítimas da intolerância de sua tia, aquela que chamava vocês de demônios!”
Aí, tudo virava brincadeira, meu amigo pegava o violão e tome Lupicínio, Chico, Vinícius, Milton e outros assassinatos.
Finalmente chegou o dia da audiência.
Quando entramos no salão de audiência, um jovem estudante universitário estava sendo julgado. Não havia ninguém na platéia, só o corpo de auditores, no centro deles, o juiz-auditor, à direita, um pouco afastado, o promotor; escolta de fuzileiros navais ao lado do réu; seu advogado à frente e um professor, testemunha de defesa, que suava em bicas para abonar a integridade moral do seu aluno, o bom comportamento, o excelente desempenho nos estudos, coisas assim. O estudante, pelo que entendi, havia sido preso no campus e indiciado por fazer panfletagem considerada subversiva.
Não demorou muito, a audiência terminou, o jovem estudante foi recolhido ao presídio e o professor foi embora.
Chegou a nossa vez.
Depois das apresentações formais, foi feita a leitura dos autos mais relevantes do processo. O advogado do meu amigo trocou umas palavras com o juiz-auditor, que era, se a memória não me falha, capitão-de-fragata. Se não me lembro bem da patente, mas não esqueço sua aparência: a cara do senador Marco Maciel, o mesmo tipo mapa do Chile, mais mal encarado que os sujeitos que estão de plantão ali em frente ao condomínio.
O juiz-auditor fez as perguntas de praxe: se eu conhecia o réu há muito tempo e o que eu achava do seu comportamento. Exatamente como previmos. Em seguida o promotor me perguntou se eu estava no local da ocorrência. Respondi “sim” diretamente ao promotor, o que me valeu a primeira advertência do juiz-auditor, que não havia me informado que ele repetiria a pergunta, e só aí eu responderia. Mesmo assim me repreendeu de forma grosseira.
O promotor perguntou se eu teria ouvido o réu gritar palavrões.
Falei que sim, mas que os impropérios eram gritados a ermo, sem pretender agredir a moral do oficial ou de quem quer que fosse, eram desabafos “ao vento”.
Isso me custou a segunda repreensão:
“Limite-se a responder ‘sim’ ou ‘não’! Não tente influenciar a decisão deste tribunal!”
Naquele momento entendi que uma repreensão grosseira pode funcionar ao contrário, ou seja, elevar a auto-estima do repreendido. Paradoxal? Pois explico. Quando senti que tinha o poder de influenciar a decisão de um tribunal daqueles, cresci, me enchi de “importância”.
Depois de mais algumas perguntas fáceis de responder sem levantar suspeitas de que estava mentindo, o promotor quis saber a posição da viatura da guarda de fuzileiros navais em frente à escola:
“Estava com os quatro pneus em cima da calçada, ou com dois em cima e dois na pista, ou com os quatro na pista?”
Eu conhecia bem o local e sabia que todas as alternativas eram possíveis. Escolhi uma delas e fiz o “x”:
“Os quatro pneus em cima da calçada”.
Devo ter feito bingo, pois o camarada não contestou.
“A viatura estava do lado direito ou esquerdo do portão?”
Não olhei pro réu, pois daria bandeira, mas pensei:
“Vais voltar pro presídio. Só que desta vez mal acompanhado”.Escolhi a opção “b”:
“Esquerdo”.
"Hein?" (Não esperei o juiz auditor perguntar "hein?")
"Esquerdo de quem sai da escola!"
Claro, ele ou qualquer pessoa teria perguntado o lado baseando-se numa visão de fora pra dentro; como saquei que havia errado, mudei o sentido.
O promotor se deu por satisfeito.
E eu muito mais!
Dias depois saiu a sentença: meu amigo foi absolvido.
Ah! ia esquecendo. Perguntei pelo nicaraguense. Meu amigo disse que ele foi detido para averiguação, mas evocou o parentesco com o ditador Anastácio Somoza Debayle. Checaram e confirmaram. Foi tratado como amigo. Terminou o curso com o cabelo cortado e bem comportado. Voltou pra terra dele e certamente encerrou a fase
hippie.
“E você, o que aconteceu contigo naquela noite?”
“Eles me levaram para uma sala no Primeiro Distrito Naval. Quando entrei lá, tinha uma placa na parede:
‘Quem disser que foi interrogado aqui e não apanhou, está mentindo’.”
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Bom, ainda não consegui digitar muita coisa dos rascunhos da entrevista com o sargento Túlio. Outra hora eu volto.
Eu me sentiria mais seguro se aqueles camaradas fossem embora!
Para quem quiser compreender melhor essa história, aí estão os links das duas primeiras partes:
Parte 1- http://assazatroz.blogspot.com/2010/01/o-torturador-que-diz-nao-ter-medo-da.htmlParte 2 -
http://assazatroz.blogspot.com/2010/01/o-torturador-que-diz-nao-ter-medo-da_23.htmlIlustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons
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PressAA.