terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Positivismo, laicidade positiva e os emigrantes

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*Rui Martins

Colunista estranha a aplicação da laicidade positiva pelo governo no que concerne a emigração ao arrepio do positivismo republicano.
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O governo deve entregar aos grupos religiosos certos setores de sua responsabilidade, imaginando que com o espírito de filantropia e a conhecida dedicação e bondade farão melhor que os funcionários do Estado ?

Imaginem se o governo Lula em atenção ao vice-presidente, entregasse tudo quanto se refere aos emigrantes para o bispo Edir Macedo resolver. É claro que, a partir daí, não haveria mais necessidade da TV Brasil continuar distribuindo seu questionário sobre programas preferidos aos emigrantes de todo mundo. A TV Record, num ato de boa vontade, tornaria também gratuitos seus programas captados no exterior pelos emigrantes e aproveitaria para difundir a boa palavra.

Digamos que com tal apoio governamental, o bispo Macedo criasse uma Ong, que poderia se chamar digamos Instituto da Universalidade e que esse instituto patrocinasse seminários, encontros e conferências internacionais de emigrantes, que, diante de tanta boa vontade, criariam um Network reunindo todas as associações de emigrantes do mundo. E que esse tal Network publicasse documentos e teses reunidas em livros editados pelo Instituto da Universalidade com o apoio da Funag.

É claro que os católicos ficariam chocados e mais que eles todos os brasileiros defensores da nossa bandeira positivista, calcada em cima de Augusto Comte, sem se falar nos marxistas e nessa minoria mais mal vista que os gays, os ateus.

E o que dizer do Papa Bento XVI que, sem ser chamado, meteu o nariz numa questão de acordos laborais na Inglaterra abolindo todos os preconceitos e instituindo condições iguais para todos, inclusive para os gays? Afinal, devemos aceitar ou não a participação das religiões na sociedade civil ? Claro que sim, faz parte da nossa sociedade democrática garantir o direito de culto e de ação e de pregação a todas as religiões.

Exceto, é claro, existem sempre exceções, se quiserem instituir no lugar do antigo espetáculo do pelourinho, o da lapidação ou apedrejamento das mulheres suspeitas de adultério. Exceto se os fundamentalistas muçulmanos quiserem obter o direito de aplicar no Brasil, nas suas comunidades a charia, e decepar as mãos de ladrões e masturbadores, mesmo se o arcebispo de Canterbury disse aceitar as leis das comunidades religiosas.

O presidente francês Nicolas Sarkozy, quando esteve com o Papa, falou em se aplicar a laicidade positiva como se houvesse uma laicidade negativa. E a reintrodução do ensino da religião católica nas escolas brasileiras, como prevê o recente acordo com o Vaticano, seria uma mostra da laicidade positiva dada pelo governo brasileiro, na pessoa do artífice desse acordo, o nosso excelente ministro Celso Amorim.

Para quem tem horror de conversa codificada e não entende o que se quer dizer com laicidade, trocamos em miúdos – é a separação entre o poder temporal, o Estado, e o dos que dizem ter poder divino, as religiões. Isso não quer dizer que as religiões são ruins, acredito haver boas religiões. É para se garantir a todos os cidadãos o livre exercício do seu culto, caso contrário uma religião dominante iria impedir ou criar dificuldades para as outras (como fazem os ortodoxos no Leste ou os muçulmanos nos países árabes) ou de não ter culto. Sem querer fazer trocadilho, o culto da laicidade vem do Iluminismo francês, inspirador dos positivistas e por tabela do materialismo dos marxistas.

Ora, o bispo Edir Macedo não assumiu o protetorado da emigração no Brasil, era só um exemplo. Essa área continua sendo dos que chegaram primeiro aqui na terra tupi e já está portanto ocupada. O único problema vem do fato do governo participar desse missionarismo, numa quebra de um preceito criado pela nossa República, o da laicidade. E isso sem provocar o rebu que teria provocado uma aliança com o bispo Edir Macedo, deixando-me numa inconfortável situação de ser o único a dar o berro.

Enfim, o espaço é curto e o assunto longo, dando oportunidade a outras colunas sob ângulos diversos. Mas para vocês que não são emigrantes, como lhes soaria saber que o princípio da laicidade positiva vem sendo aplicado pelo MRE em relação aos movimentos emigrantes ? E até uma próxima porque não faltará oportunidade.

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*Rui Martins também pode ser encontrado em...

http://www.francophones-de-berne.ch/





http://www.estadodoemigrante.org/







*Ex- correspondente do Estadão e da CBN, após exílio na França. Autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criou os Brasileirinhos Apátridas e propõe o Estado dos Emigrantes. Vive na Suíça, colabora com os jornais portugueses Público e Expresso, é colunista do site Direto da Redação. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz


Ilustração: AIPC – Atrocious International Piracy of Cartonns

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PressAA

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Ato Pela Libertação dos Presos Políticos do MST

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ATO PELA LIBERTAÇÃO DOS PRESOS POLÍTICOS DO MST E CONTRA A CRIMINALIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS

São Paulo

Quarta-feira
10 de fevereiro

19 horas

Sala dos Estudantes
Faculdade de Direito do Largo de São Francisco


Ato Pela Libertação dos Presos Políticos do MST e
Contra a Criminalização dos Movimentos Sociais


Trabalhadores Rurais, vinculados ao MST, dos municípios de Iaras e Borebi foram presos na manhã de terça feira pela Polícia Civil. Eles estão sendo acusados de liderarem a ocupação da Fazenda Santo Henrique, de propriedade do Governo Federal, e usada ilegalmente pela Multinacional CUTRALE.

A forma como a prisão foi efetuada demonstrou claramente que a polícia agiu de forma a acirrar ainda mais o conflito social. A criminalização dos trabalhadores e a apreensão de equipamentos, objetos de uso pessoal, ferramentas de trabalho, e produtos agrícolas como defensivos, fertilizantes, calcário, óleo diesel e outros, dão mostras de arbitrariedade e pré-julgamento.

Tais objetos são de uso regular e cotidiano de quaisquer agricultores, além do mais, não há comprovação por parte da Polícia de que esses bens sejam de propriedade da empresa denunciante.

Transformar problema agrário brasileiro em crime comum tem sido a tática dos setores mais conservadores e truculentos da sociedade brasileira. É um atraso que pode impedir o avanço e o desenvolvimento do país com verdadeira justiça social.

No sentido de defender a apoiar a Luta pela Reforma agrária, nos colocar contra a criminalização dos movimentos sociais e pedir a libertação dos 7 lutadores sociais presos, estamos convocando a todos os lutadores do povo, militantes dos movimentos sociais, entidades de direitos humanos, sindicatos, parlamentares, e todas as entidades comprometidas com a justiça social a participarem do Ato Pela Libertação dos Presos Políticos do MST e Contra a Criminalização dos Movimentos Sociais a se realizar na próxima quarta-feira, 10/02/2010, na Sala dos Estudantes, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (próximo ao metrô Sé) às 19hs.

Mensagem recebida por e-mail da rede castorphoto.

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PressAA

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domingo, 7 de fevereiro de 2010

O DIA EM QUE A GENY ME SALVOU

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Quando cheguei, às duas da tarde, ela já estava lá, esperando. Não me conhecia e me olhou, obliquamente, me estudando como se eu fosse um fungo bolorento: quem é esse cara? Não havia viva alma no auditório da Biblioteca Pública, na Rua Barroso, em Manaus, naquele 19 de abril de 1978. Nós dois éramos os palestrantes num evento sem público sobre o Dia do Índio, organizado pelo artista plástico Álvaro Páscoa, da Fundação Cultural do Amazonas. Foi ele quem nos apresentou.

Geny Brelaz de Castro, formada pela Universidade Federal de Pernambuco em Farmácia e Bioquímica, em 1970, é a primeira índia diplomada do Brasil. Estuda fungos, comestíveis uns, venenosos outros, mas também pesquisa parasitas agressores - alguns mortais - que infectam gente, animais e plantas, e apodrecem as árvores. O outro palestrante - esse locutor que vos fala – era, então, professor da Universidade Federal do Amazonas, com uma tese inconclusa de doutorado em Paris sobre história indígena.

- Cadê o público? Quem é que vai sair de casa com esse calor infernal para ouvir falar de índio, numa hora dessas, depois de almoçar jaraqui frito com baião-de-dois? – indaguei apreensivo.

Álvaro Páscoa deu uma baforada no cachimbo e nos tranqüilizou. Já estava tudo agendado com o professor de Educação Moral e Cívica da Escola Técnica Federal, chamado Cauby, um pomposo nome de origem tupi. No horário de sua aula, ele traria os alunos de várias turmas, com controle da lista de presença.

Efetivamente, arrastados compulsoriamente, os alunos lotaram o auditório. Cauby, um sargentão, fechou as portas para ninguém fugir. Não era preciso. Geny falou primeiro e deu um show. Quem a conhece sabe do que estou falando. Ela tem tal domínio de palco e de microfone que bota no chinelo a Hebe Camargo. Cativou os meninos. Falou nas toxinas presentes na farinha que eles haviam acabado de comer, nos hábitos alimentares, nas bebidas indígenas, nas plantas medicinais. Contou histórias. Enfim, lavou a égua.

Especialista em micologia, Geny, que é da nação Munduruku, incorporou a ciência oral milenar do seu povo ao saber escrito aprendido na universidade. Ela sabe tudo sobre fungos. Pesquisou a farmacopéia indígena, os fungos na preparação do tarubá – uma bebida indígena - e os microorganismos em farinhas da Amazônia. Já era naquela época uma pesquisadora respeitada com participação em congressos e artigos publicados no Brasil e no exterior. Foi aplaudidíssima pelo auditório.

Falar depois dela era um desafio. Tentei dar meu recado. Apoiado em documentos, descrevi o desaparecimento de muitos saberes, devido ao massacre das nações indígenas, uma das maiores catástrofes demográficas da história da humanidade. Fui aplaudido ruidosamente. No debate, o professor Cauby quis se exibir para os alunos. Discordou do termo ‘nação indígena’, que eu havia empregado, considerando-o inapropriado e perigoso. Aloprou:

- Só um traidor da Pátria chama índio de nação.

Sua intervenção, aplaudida com assobios e gritos de apoio, me intimidou. Esclareci: quem chamou os índios de ‘nações’ foi o português, não era invenção minha, estava na documentação da época. O termo ‘nação’ tinha, inclusive, significado mais amplo, pois era também usado como coletivo. Recitei versinho cantado pelas crianças lusas:

- Aranha aranhão, sapo sapão, bichos de toda nação.

Fui saudado por uma onda de aplausos. Aí entendi que qualquer discurso seria aplaudido. Foi o que aconteceu no duelo que se seguiu.

Cauby: - Não existem nações indígenas. Somos todos brasileiros. Quem fala em nações indígenas quer dividir o Brasil, que é uma só nação, uma única pátria (clap clap).

Eu: - Conversa fiada. Nação é uma coisa, estado é outra. Comete erro primário quem confunde conceitos tão diferentes. Um estado pode abrigar muitas nações (clap, clap).

Cauby: - Exatamente, é o caso da União Soviética. Só os comunistas pensam assim, porque querem minar os alicerces da Pátria (clap, clap).

Eu: - Tolice. A Suíça é um estado plurinacional. Lá, tem mais nações do que buracos em queijo suíço. A existência de tantas nações não dividiu o estado suíço, não anulou sua natureza capitalista. Ao contrário, fortaleceu (clap, clap).

No final de cada intervenção, uma onda de aplausos para o orador da vez. Quem falasse por último, ganhava. A Geny só ali, na moita, calada, observando tudo. Foi aí que Cauby, que havia feito o curso da Escola Superior de Guerra, engrossou o pirão e disparou o tiro de misericórdia, com um - digamos assim – argumento triunfante:

- Hoje, não é só Dia do Índio. É também Dia do Exército Brasileiro e da vitória na primeira Batalha de Guararapes. Você não homenageou o Exército. Você é comunista.

Fiquei gelado. Hoje, parece bobagem, mas naquele contexto era uma denúncia grave. Afinal, um ano antes, de volta do exílio, foi essa acusação que me levou a passar três semanas preso, em Manaus, quando fui encapuzado e maltratado (Anexo 01). Estávamos em plena ditadura militar, com um governador biônico, Enoch Reis, nomeado pelo general Geisel, que por sua vez também não havia sido escolhido pelo voto popular.

Os jovens de hoje, em sua maioria, não têm a menor idéia do horror que foi a ditadura. Não havia liberdade de expressão e de associação. O povo não podia votar em presidente, governador, prefeito. A censura impedia que as idéias circulassem nos jornais, no teatro, na música, no cinema, nos livros, na sala de aula. Professores, estudantes, jornalistas, artistas, músicos, cineastas e sindicalistas eram presos não pelo que fizeram, mas pelo que disseram ou pensavam e até pelo que achavam que você tinha a intenção de pensar.

Em todas as universidades, havia uma Assessoria Especial de Segurança e Informação – a AESI, com delatores pagos com bons salários para dedurar quem expressasse opinião contra a ditadura. Na Universidade do Amazonas, seu chefe era José Melo de Oliveira. Tenho em mãos cópia de dois ofícios circulares assinados por Melo, em 1974, e enviados a todas as faculdades e institutos. Um deles pedia os nomes das pessoas que pretendiam organizar “uma exposição de livros soviéticos”, o outro exigia controle sobre a formatura de alunos e até sobre o discurso do orador da turma (Anexo 03).

Depois disso, ele fez carreira na administração pública, foi Secretário de Educação do governador Amazonino Mendes, e ficou conhecido como José Melo Merenda, por causa do desvio de recursos da merenda escolar. Atualmente é Secretário de Estado do Governo Eduardo Braga (PMDB, vixe, vixe!). (Anexo 02).

Não podemos esquecer, também, que em Manaus, no período de 1975 a 1979, funcionou um centro de formação, que recrutava e treinava agentes especializados em espionagem, infiltração, repressão política e torturas, financiado pela Operação Condor, conforme comprovam documentos encontrados nos arquivos da polícia política paraguaia, abertos ao público pela Justiça de lá (O Globo, domingo, 7/05/2000, pg. 48)

Há quem, hoje, defenda a ditadura militar. Depois de dois artigos contra a tortura publicados aqui nesse espaço, recebi cartas de alguns leitores com um argumento bizarro: a ditadura foi necessária, porque se os comunistas vencessem, eles aboliriam a liberdade de expressão, suprimiriam as eleições, prenderiam seus opositores, torturariam, etc. Ou seja, para impedir a implantação de um hipotético regime totalitário se fez tudo aquilo que supostamente o inimigo faria: prisão, tortura, censura, etc.

Ih, meu espaço está terminando! E a Geny, como foi que ela me salvou? Ah, a Geny foi genial, leitor (a)! Quando o sargentão me emudeceu com aquela acusação, Geny pegou o microfone, piscou um olho discretamente pra mim e fez uma defesa tão delirante quanto à peça de acusação, dando um xeque mate no Cauby:

- Se o palestrante é comunista, então eu também sou comunista e o Comando Militar da Amazônia (CMA) está cheio de comunistas, porque tudo que ele disse aqui, eu ouvi foi da própria boca dos generais, lá dentro do quartel (clap, clap, clap, claps).

Cauby ficou bestificado. Geny tinha autoridade pra falar. Ela havia acabado de receber uma medalha do CMA, por ter descoberto algum fungo lá aquartelado. Depois disso, fez concurso para professora da UFAM, onde foi Chefe do Laboratório de Patologia, ganhou muitas medalhas, inclusive a do Mérito Universitário, foi convidada a palestrar na Índia, na Argentina, na Europa, França e Bahia, se aposentou, mas continua ativa, pesquisando, é feliz e vive para sempre no meu coração: a solidária e generosa Geny.

ANEXOS:

01. http://www.taquiprati.com.br/home/apresenta-cronica.php?cronica=cronica20-05-1996

02. http://www.taquiprati.com.br/home/apresenta-cronica.php?cronica=cronica17-12-1996

03. Transcrição dos dois ofícios, ambos com um carimbo de RESERVADO e outro carimbo, advertindo: “O conhecimento total ou parcial deste documento implica em responsabilidade pela guarda de sigilo do assunto constante do mesmo. Decreto n° 60.417 – 11/3/67”.

DOCUMENTO 01

Universidade do Amazonas.

Assessoria Especial de Segurança e Informações.

Of. Circular n° 001/74-AESI/UA

Manaus, 05 de junho de 1974

Ilmo. Sr. Professor Dr. Marco Aurélio Agostinho Bezerra de Araújo

Md. Diretor da Escola de Serviço Social André Araújo da U.A.

Presente

Senhor Diretor,

É possível que nos próximos dias essa Direção seja procurada para apoiar a promoção de uma exposição de livros soviéticos.

Contamos com a compreensão de Vossa Senhoria, no sentido de impedir qualquer tentativa de levar a cabo tal exposição, bem como informar a esta Assessoria os nomes das pessoas ou instituições que procurem essa Diretoria com esse fim.

Antecipamos nossos agradecimentos

José Melo de Oliveira

Chefe da AESI/UA

DOCUMENTO 02

Universidade do Amazonas

Of. Circular n° 02/74 – AESI/UA

Em, 02 de setembro de 1974

Do: Assessor Especial de Segurança e Informações da Universidade do Amazonas

Ao: Diretor da Escola de Serviço Social “André Araújo”da Universidade do Amazonas

Assunto: Solicitação (faz)

RESP: 9/10/974

Senhor Diretor,

Tendo em vista o aproximar do encerramento do ano letivo de 1974 e, como conseqüência as colações de grau, vimos solicitar o obséquio de nos encaminhar – com bastante antecedência – a relação das personalidades que serão homenageadas (patrono, paraninfo, nome da turma, etc) pelos formandos dessa Faculdade, bem como cópia do discurso que será proferido pelo orador da turma.

Antecipando nossos melhores agradecimentos, reafirmamos nossos protestos de admiração e apreço.

JOSÉ MELO DE OLIVEIRA

Chefe da AESI/UA


José Ribamar Bessa Freire é professor universitário (Uerj), reside no Rio há mais de 20 anos e assina coluna no Diário do Amazonas, de Manaus, sua terra natal, e mantém o blog Taqui Pra Ti
http://www.taquiprati.com.br/home/index.php

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sábado, 6 de fevereiro de 2010

A tentação de Aliócha Karamazov

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Urariano Mota

Alguma vez se justifica a tortura?

Essa é a suja e secreta pergunta que alguns se atrevem a fazer, em meio à repugnância e vergonha com que a humanidade respondeu às fotos que mostravam soldados norte-americanos atormentando indefesos prisioneiros no Iraque.

É uma pergunta que foi formulada de maneira inesquecível e temerária há mais de 130 anos por Dostoiévski em Os Irmãos...

Paremos, cessemos agora esta imitação, porque de tanto imitar acabaríamos por repetir a retórica do artigo “La tentación de Iván Karamazov”, de Ariel Dorfman. Nesse artigo, relaciona-se uma possível ética da tortura a um trecho de Os Irmãos Karamazov. “Naquele romance”, escreve Dorfman, “o beatífico Aliócha Karamazov se vê tentado por seu irmão Ivan, confrontado com um dilema intolerável. Suponhamos, diz Ivan, que seja necessário, para que os homens sejam eternamente felizes, que seja inevitável e essencial torturar durante uma eternidade uma pequena criatura, tão só a um menino, não mais que um. Tu o consentirias?”

De passagem, anotemos que causa espanto, em um escritor que se quer digno do nome, a confusão, a identificação feita entre criador e personagem. Tal equívoco acreditávamos ter deixado de existir desde a Arte Poética, de Aristóteles. O artista, que imita o real, não é bem esse real imitado. A sua arte, vale o velho exemplo, não é a toalha de Verônica, até mesmo quando ele narra na primeira pessoa. Ora, quando Dostoiévski escreve o capítulo O Grande Inquisidor em Os Irmãos Karamazov, os argumentos ali narrados não são os da pessoa física de Dostoiévski, ainda que nos pareçam muito eloqüentes, estão mais próximos de Ivan. A opinião do romancista por vezes não está nem no conjunto orgânico do romance. A criação, ao atingir a sua felicidade, é uma vitória do gênio humano, até mesmo contra a opinião da pessoa civil do criador. Daí o espanto que nos causa uma pergunta-provocação de Ivan Karamazov ser confundida com uma pergunta de Dostoiévski.

De passagem ainda, anotemos um desacerto mais básico. Não há na fala de Ivan, “Imagina que os destinos da humanidade estejam entre tuas mãos e que para tornar as pessoas definitivamente felizes, proporcionar-lhes afinal a paz e o repouso, seja indispensável torturar um ser apenas, a criança que batia no peito com seu pequeno punho, e basear sobre suas lágrimas a felicidade futura. Consentirias tu, nestas condições, em edificar semelhante felicidade? Responde sem mentir!”, não há, nessa fala de Ivan, uma tentação de Ivan. A tentação é de Aliócha. A tentação é de quem a sofre. Desde o Novo Testamento, onde se escreve que o demônio tentou Cristo no deserto, que se diz que a tentação foi de Cristo. O paciente é o dono do seu sofrimento.

Em última visão passageira, anotemos nossa estranheza diante disto: “Uma verdade incômoda: os soldados norte-americanos e britânicos no Iraque, como os torturadores em outros lugares, não se consideram a si mesmos como malvados, mas como os guardiões do bem comum, patriotas que mancham as suas mãos para libertar da violência e da ansiedade a maioria ignorante e cega”, do artigo de Ariel Dorfman. Os torturadores, e pedimos perdão ao leitor por essa tortura, porque tão óbvio é o fato, os torturadores não se alimentam de ideais nobres. Os seus comandantes, os fascistões do gênero Franco, Bush, Pinochet, em falsa consciência, talvez. Mas o torturador de baixo e médio escalão, os soldados, os oficiais.... mais uma vez, solicitamos o nosso perdão por essa tortura. Por favor, esses caras de gente são profissionais. Trabalham para qualquer ordem, independentemente dos objetivos proclamados. No caso desses que aparecem a sorrir nas fotos do Iraque, não, eles não se julgam maus sujeitos, indivíduos tenebrosos, não. Mas se sabem muito longe de guardiões da moral e do bem comum. O que dizer da militar norte-americana que zomba da nudez envergonhada, humilhada, dos soldados presos? O que dizer dela, enquanto posa e arrasta um grande cão pelo solo do cárcere? Vamos além das fotos. Entrevistados, os torturadores dizem que cumpriam ordens, e as ordens eram fazer a vida desses prisioneiros um inferno. Daí a direção ordenada para quebrá-los, no corpo, nos costumes, na religião, na alma. Daí a exibição da grande pornografia, à americana: amontoados de carnes e músculos, como fartura de mercadorias em liquidação.

E agora, de um modo menos ligeiro, permitam-nos entrar no mérito mesmo do artigo. Nele há um apoio básico nos pontos: 1) a pergunta de Ivan Karamazov, a que não saberíamos bem responder até hoje; 2) mais perguntas, ou situações-problema, que poderiam justificar, de um ponto de vista ético, a tortura de um prisioneiro. Comecemos pelo romance amputado. Mas com um brevíssimo preâmbulo. Os cidadãos ingleses sabem muito bem que as obras de Shakespeare servem para qualquer situação: para glorificar Blair e para condená-lo; ou para elogiar a subserviência, e para maldizer a subserviência. Os cidadãos italianos devem sentir isso com Dante, os alemães, com Goethe, os espanhóis, com Cervantes. E todo o mundo, em um nível de menor exigência, deve sentir isso com as fábulas de Esopo. Dito isto, cheguemos mais perto: ainda que o romance dostoievskiano tenha sido tão pobre e estreito na compreensão de conspiradores revolucionários, como em Os Demônios, deveríamos poupá-lo de ter uma citação para justificar um ato sujo. Deveríamos guardá-lo para as muitas e fundamentais iluminações que legou, e, no caso de Os Irmãos Karamazov, deveríamos tê-lo em nossa companhia, na dor que sentem os torturados, como neste ponto:

Gritavam-lhe: - “Arrastaram teu pai pela barba para fora do cabaré; tu corrias ao lado dele pedindo misericórdia”...
– Não faças as pazes com ele, papai, de modo nenhum. Os meus colegas na escola dizem que ele te deu dez rublos por isso.– Não, meu pequeno, por coisa alguma do mundo aceitaria dinheiro dele, agora. (O meu pequeno se pôs a tremer, agarrou minha mão nas suas, beijou-a)– “Papai, provoca-o a um duelo, na escola eles me infernam dizendo que és um covarde, que não te baterás, mas que aceitarás dele dez rublos”.

Sabe você que quando os meninos são taciturnos e altivos retêm por muito tempo as lágrimas, mas quando elas brotam, por motivo de um grande pesar, não correm, mas jorram? Suas lágrimas ardentes inundaram-me o rosto. Ele soluçava, convulsivamente, apertava-me contra ele. “Papai – gritou ele -, meu querido papai, como ele te humilhou!”. Então os soluços dominaram-me e nos abalavam, enlaçados sobre esta pedra.

A cena acima dispensa qualquer retórica de moldura. Melhor, rejeita-a. Ela é mais eloquente, ao falar da dor dos humilhados, que a pergunta de Ivan, ao insinuar uma ética em quem humilha.

Intelectuais de seguro e sereno juízo crítico vêem no artigo de Dorfman um deslocamento do conteúdo político da tortura para uma abordagem moral. Ainda que se reconheça a repercussão moral de qualquer ato humano (e estamos supondo que as sevícias a outro sejam um ato feito por homens), a discussão da tortura a presos de guerra passaria antes pelo desrespeito à Convenção de Genebra, e à Declaração Universal dos Direitos do Homem. É fato, a crítica é procedente. Mas queremos dizer, é aqui, exatamente aqui nesta esfera moral, que Ariel Dorfman mais fracassa. A começar, num primeiro passo, pela busca de robustez intelectual para uma prática vulgar, acanalhada, das delegacias de polícia às prisões orientadas pela CIA. Jamais uma obra de Dostoiévski mereceria uma citação como legenda de foto de um homem arrastado como um cão. O pensamento escrito de Dostoiévski não se mistura à pornografia de corpos nus, sodomizados. Mas Ariel Dorfman tenta, e tentar, nesse artigo, é uma palavra que lhe é cara.

No passo seguinte, reconhecemos a sua perícia de escritor, que antes fracassara no primeiro passo. Nesse movimento, Dorfman levanta a voz, é certo que num deserto da verdade, mas levanta-a, e clama contra a tortura, retoricamente (alguém se lembra do discurso de Bruto em Júlio César?). No entanto, eis o que ele faz: constrói possibilidades, “morais”, que justifiquem a tortura. Todas, as possibilidades, como se fossem consequências extraídas da primeira pergunta de Ivan Karamazov. O recurso retórico é conhecido: e se, e se... Seria algo como:

• Você é capaz de matar uma criança?
• Não, claro que não.
• E se a criança fosse uma terrorista?
• Crianças não são terroristas.
• E se ela estivesse domesticada, com lavagem cerebral, que a tornasse uma terrorista?
• Ainda assim, de modo algum eu a veria como uma terrorista.• E se essa criança trouxesse o corpo cheio de bombas?
• Eu preferiria morrer a matá-la.
• E se essa criança, com o corpo de bombas, entrasse para explodir uma creche?
• Não sei.
• E se nessa creche estivessem os seus filhos e as pessoas que você ama?
• Neste caso

E nesse caso estariam justificados os fuzilamentos de meninos que atiram pedras em tanques de Israel. E nesse caso, num desenvolvimento natural, estaria justificado até o assassinato dos que aceitam passivamente o domínio do Estado de Israel, porque mais cedo ou mais tarde se tornarão terroristas. E para que não vejam nisso um exagero, citamos as palavras de Kenneth Roth, da Human Rights Watch: “Os defensores da tortura sempre citam o cenário da bomba-relógio. O problema é que tal situação é infinitamente elástica. Você começa aplicando a tortura em um suspeito de terrorismo, e logo estará aplicando-a em um vizinho dele”.

É este cenário que Ariel Dorfman pinta, enquanto desloca os nossos olhos dos crimes de guerra, porque tais crimes seriam justificados por nosso pavor, por nosso medo: “E se o preço do Éden fosse a tortura? Ou a pessoa a quem se tortura soubesse onde se esconde uma bomba que está a ponto de explodir e matar milhões? Responderíamos que não (torturaríamos)? Responderíamos que a tortura, seja qual for a nossa ameaça ou nosso medo, é sempre absolutamente inaceitável? ...”.

Se não somos iraquianos, se não somos prisioneiros em Guantánamo, se não somos muçulmanos, se não somos palestinos em Gaza, se não somos um desses suspeitos de portar uma bomba, em resumo: se não estamos sob as botas da civilização norte-americana, ah, então poderemos ganhar um sereno distanciamento da retórica viciosa de Dorfman. E só então, tranquilos, ponderados, compreenderemos o título do seu artigo. Ele tem razão em chamá-lo de “A tentação de Ivan Karamazov”. Há razão robusta nisso. O seu artigo é a própria tentação de Ivan, que Dostoiévski jamais escreveu.


Urariano Mota, escritor e jornalista, autor de “Soledad no Recife” (Boitempo – 2009) seu último romance, indicado como um possível livro do ano pelo conceituado site Nova Cultura, elaborado e administrado na Alemanha, com os destaques literários da CPLP - Comunidade de Países de Língua Portuguesa. É colunista do site Direto da Redação.

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A NAVE DOS INOCENTES

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Tendo em vista as ações fascistas que andam acontecendo no Estado de Santa Catarina/Brasil, criminalizando os Movimentos Sociais (leia-se: prisões arbitrárias de lideranças do MST em Imbituba/SC), achei que é momento de fazer circular mais uma vez o texto abaixo, escrito em 2004. Urda.

Urda Alice Klueger

A estrada era de barro e de pedra e de pó, mas tudo isso desaparecia numa baixa nuvem de bruma, bem rasinha com o chão, a ponto de a gente se esquecer de pensar se os velhos pneus da Kombi iriam resistir aos pedregulhos pontudos ou não – na Kombi velha, que já deveria estar aposentada se cá não fosse o mais legítimo terceiro mundo (e está cheinho de gente que acha que o Sul é diferente, pitéu de primeiro mundo), um bando de pequenos anjos como que agitavam suas tênues asas em forma de sorrisos, e ao olhar para eles, quem é que ainda ia pensar em coisas como pneus e pedregulhos?

Ela viajava adiante do carro aonde eu estava, a Nave dos Inocentes, e apesar de ser mais de três horas da madrugada e da estrada inóspita, cada pequeno anjo daqueles sorria e abanava para nós, e a Kombi tinha as luzes internas acesas, decerto para que nenhum anjinho chegasse a sentir medo, e eles eram tantos, mas tantos, que não sei como cabiam todos ali, meninos e meninas de 3, de 4, de 6 anos, talvez, anjinhos com carinhas caboclas, com carinhas italianas, com carinhas alemãs, verdadeiros anjinhos brasileiros flutuando na névoa dentro daquela Nave que os levava em direção do Futuro, e sua alegria e farra eram coisas impressionantes! No carro onde eu viajava alguém lembrou que se tratavam de anjinhos que raras vezes andavam de carro, que decerto dali vinha sua alegria – e nós abanávamos e eles nos abanavam e riam, e aquela Nave dos Inocentes era como que uma coisa irreal a flutuar na noite, como se fosse um sonho lindo que alguém estivesse tendo, e na verdade, era um Sonho.

Quando eu contar qual era o Sonho, diversos leitores não vão mais querer ler o resto da crônica, mas, vá lá: eu seguia a Nave dos Inocentes, e nos dirigíamos todos, num comboio que só aumentava, em direção de uma das fazendas de terras arrasadas (há fotos para comprovar o arrasamento das terras) que fazia parte do maior latifúndio do meu Estado, para ocupá-lo. E, diante de nós, como numa irrealidade, a Nave dos Inocentes navegava em direção ao Sonho e ao Futuro.

Andei quebrando um braço e ele ainda não está bem bom; assim, sabia que apesar de estar fazendo parte de uma equipe de apoio, pouco poderia ajudar a carregar e fazer outras coisas para aquelas 500 famílias que seguiam para a ocupação. Então pensei nos anjinhos que abanavam na velha Kombi – e se, na hora em que a Kombi parasse, seus pais não estivessem a postos? Quatro horas da manhã é um horário muito tardio para meninos e meninas tão pequenos estarem naquela farra toda – havia que se pensar no que aconteceria se algum sobrasse na Nave. E já que estava sem muita força física, pensei em usar a força do coração, e ficar de guarda para quando a Nave dos Inocentes parasse, amparar junto ao peito algum anjinho que começasse a chorar. E foi o que fiz.

Assim que chegamos à área que estava sendo ocupada, tratei de sair do carro onde estava e ir ver o que acontecia na Kombi. Como eu, um magote de adultos seguiu para a mesma porta, e todos eram casais, e muitos tinham bebezinhos ao colo, e quase todos eram feios, mal-vestidos, judiados pela vida, envelhecidos prematuramente, sem nada de seu além daquelas crianças que começaram a sair da Nave. E então eles gritavam coisas assim:

- Segura na mão do Luizinho, e tu na mão do Antonio, não se soltem!

E cada casal arrebanhava alguns anjinhos, às vezes três, às vezes quatro, e os colocavam numa enfiada de mãos dadas, preciosos colares de crianças que eram as suas jóias mais preciosas, as únicas jóias das suas vidas sofridas. Em coisa de um instante a Nave dos Inocentes estava vazia – não sobrara nenhum anjinho para eu acalentar junto ao coração. E então eu soube que aquela gente jamais sairia dali a não ser por algum acordo feito por um bom juiz; que não haveria soldado, cachorro ou canhão que enfrentasse gente que tinha colares de tais preciosidades, gente determinada a tudo para garantir as suas jóias.

Blumenau, 20 de abril de 2004.

Urda Alice Klueger [escritora e historiadora, colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz ]



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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O AMOR NOS TEMPOS DO BIG BROTHER

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Urariano Mota

Recife (PE) - Nós últimos tempos, tenho visto jovens que se agarram e se sufocam aos beijos em público. Nas filas dos supermercados, nos ônibus, nas feiras livres, em todos os lugares o amor está no ar. Até parece haver uma onda, um vagalhão de ternura que arrasta e assalta os corpos de nossos jovens. É como se uma ardente atração fizesse com que se friccionassem amorosa, irresistível e interminavelmente. Como se amam! dizemos de início. Que paixão irreprimível! dizemos mais adiante. Que despudor! dizemo-nos enfim, em silêncio.

A evidência manda dizer que somente observa jovens quem não mais é um deles. Que mal haveria na exibição da necessidade de uma pessoa que exige, urgente, outra? O escândalo que sentimos diante de tais exibições não é já manifestação de conservadorismo? Não é já, como nos diria um jovem, a expressão de uma inveja, porque não mais sentimos o ardor vital da paixão? Então nós, que não somos mais garotos, mas nem por isso alcançamos a invenção da lâmpada elétrica, respondemos. Aos poucos, como convém a nossas pausas de fôlego.

Existem paixões públicas, necessária e indissoluvelmente públicas, como a expressão do pensamento em palavras, em símbolos, em imagens, em música. Um poema, um romance, um relato, ainda que expressem a maior intimidade, que em palavras não saberíamos expressar no cotidiano, é por necessidade e realização um expressar para o mundo. Que infelicidade seria, para todos nós, os versos de Mario Benedetti cercados para sempre entre quatro paredes! Paixões assim trazem o destino de ser públicas. E elas só se realizam na medida mesmo em que se tornem conhecidas.

Diferentemente, acreditamos, das paixões dos indivíduos que se realizam neles mesmos. Que importa ao distinto público a maneira como amamos na intimidade da nossa cama? Que importa à vida de toda a gente a expulsão de humores, vale dizer, o orgasmo do nosso sexo? Se não fazemos disso a expressão de algo menos físico, que importância isso tem para todo o mundo? Um cínico nos diria, “o que é bom é para ser mostrado”. Que o beijar, o abraçar, o devorar, são atos naturais, e, portanto, ao serem mostrados, que importa? Ao que responderíamos: existem outros atos naturais, íntimos de intestinos, que nem por isso devem em público ser mostrados. Queremos dizer.

O amor tem um significado que é a própria expressão do humano. Ele se ferramenta, digamos assim, ele transforma em ferramentas a seu serviço tudo o que de bom e de mau ao longo de uma vida, inteligência e sensibilidade juntamos. O tocar das mãos, dos dedos das mãos, o viajar juntinhos, em silêncio, conversando sem palavras, não é já uma eloquência do sentimento? “Nós nos queremos”, insinuam-se os casais com um ser além até da consciência. Se o amor é tão íntimo, para quê demonstrá-lo?

A julgar pelas exteriorizações, os jovens estão cada vez mais apaixonados. Que bom! Mas nos permitam uma reflexão, esse mal da idade. Essa genuína paixão não estaria vestida do exibicionismo do Big Brother? Pois na tevê há um exibicionismo em que os indivíduos mais simplórios viram celebridades. Sob que atos? Ora, pela exibição do que fazem na cama, para toda a gente. É o próprio espetáculo do afeto. Na TV, eles não se dizem, nem têm necessidade de dizer, eu te amo. Os lençóis lhes falam, por eles. Se não há uma cama nos supermercados, que se há de fazer? Se as palavras lhes faltam, agem, com o furor das sugadas no cangote, do amassar dos seios, diante dos olhos de todo nós, numa televisão ao vivo. Nós, os grandes irmãos, nesse papel de voyeur, como um novo Monsieur Jourdain nos dizemos: “Então isso é a paixão, e eu não o sabia”.

Mas por força da distância, imaginemos esses jovens quando as dificuldades da vida baterem à porta. Imaginemo-los naquele tempo em que a doença lhes bater sem aviso e sem agenda. Pior do que tudo, imaginemo-los naquele tempo em que o fogo da paixão tiver queimado o vigor de suas melhores forças. Como reagirão? Se o amor se foi, se a paixão queimou até as cinzas, se os corpinhos sarados perderam a forma, se um beijo, num supremo esforço, não mais substitui a palavra e o sentimento amor....

“Ah, tu vai pensar nisso, é?”, eles podem nos responder. “Era só o que faltava ...esse final num tá no Big Brother”.

Urariano Mota, escritor e jornalista, autor de “Soledad no Recife” (Boitempo – 2009) seu último romance, indicado como um possível livro do ano pelo conceituado site Nova Cultura, elaborado e administrado na Alemanha, com os destaques literários da CPLP - Comunidade de Países de Língua Portuguesa. É colunista do site Direto da Redação.

Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O torturador que diz não ter medo da verdade - Parte 3

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Fernando Soares Campos - Editor-Assaz Atroz-Chefe

Sou desligado do que acontece ao meu redor, tanto que às vezes atendo ao telefone, alguém pergunta por um dos meus filhos, peço licença e vou conferir se está em casa. Dou um giro por esta mansão de dois quartos, sala cozinha e banheiro, volto e confirmo que estou só. O meu interlocutor pode pensar que estou brincando, mas falo sério.

Muitas vezes meu filho ou minha filha entra e sai de casa, e nem percebo, ou não me lembro, apesar de, em alguns casos, ter conversado com eles. Celular? Nem me peçam, pois não tenho e nunca pedi o de nenhum deles. Pode parecer descaso para com a família, mas não é nada disso. Simplesmente confio neles. Não me dão motivo para preocupação de qualquer natureza, aparentam saber onde e com quem andam. Tudo indica que aprenderam a se cuidar. Os riscos a que se expõem são aqueles comuns a todos que vivem numa cidade como o Rio de Janeiro. Pior seria se vivessem em lugares como a minha cidade natal.

Há pouco mais de um ano passei alguns meses por lá. Nunca vi matarem tanta gente numa cidadezinha do interior como acontece ali. Eu nunca havia acompanhado tanto enterro. Todo dia matavam gente. Estive inclusive na mira dos jagunços. Dois sujeitos foram a julgamento por terem matado as esposas. Ambos absolvidos. Um deles, por um corpo de jurados formado por seis mulheres e um homem.

Acho que desta vez me desterrei por completo, dificilmente voltarei à minha cidade natal. Minha mãe e alguns irmãos ainda moram lá, ela já não tem condições físicas para enfrentar uma viagem ao Rio, portanto acho que só nos encontraremos de alma presente, quando os dois subirem.

Eu disse “quando os dois subirem”?

Pô! isso me causou calafrio... Pelo visto não vamos nos encontrar nunca mais! Pois, quanto a ela, só Deus sabe, mas por mim respondo eu: tenho certeza de que vou descer!

Mas nisso existe certo fator reconfortante: vou estar cara a cara com muitos dos meus inimigos (com alguns amigos também). Aí a gente acerta algumas contas, tendo Lúcifer como juiz. Tão justo quanto o Pai Celestial.

Né, não?!

Então por que ele atanazaria a alma de quem promoveu o mal na Terra?!

Se Lúcifer existe, é como instrumento da Justiça Divina.

Tem mais, bom mesmo será se eu encontrar alguns cachaceiros, raparigueiros e encrenqueiros por lá. Gente como Mozart e Beethoven, por exemplo. Aí é só olhar fundo nos olhos deles e deixar um réquiem ou qualquer de suas esplendorosas sinfonias invadir minha alma. Salieri, que deve estar ardendo num caldeirão daqueles, vendo aquilo, produz tsunamis de sua mórbida inveja, que se espalha pelo mundo dos ainda viventes, alcançando seus pares encarnados, fazendo-os se curvar diante do altar da imoralidade, da corrupção, do engodo, da ilusão...

A gente vai esperá-los com toda pompa. Quero ver a criatura chegar com os arreios enfeitados de bulhão, com um bulhão cravado nas costas e dando uma de bulhão. É isso aí! Porque, segundo o Houais, bulhão é enfeite para arreio de animais, é punhal e é gente desordeira, rixenta, barulhenta. Daí pra pior. Pelo que me consta, também poderia significar pessoa “covarde”, “corrupta”, “desagregadora de famílias”, entre outras desqualificações.

* * *

Muito raramente assisto à televisão, pois não consigo me concentrar no que vejo. Geralmente as primeiras cenas me transportam em pensamentos, e, em poucos segundos, nada daquilo que está passando na tela tem alguma relação com a minha viagem mental (sem efeitos fisiológicos induzidos, pois há muito tempo nem mesmo tomo bebida alcoólica, isso desde que voltei de minha cidade natal, onde vendem a melhor Cannabis do mundo!). O olhar permanece fixo na tela do aparelho, mas a atenção está pra lá de Alfa Centauro.

Outro dia eu estava diante do televisor ligado, e minha mulher, que acabara de chegar, perguntou: “Quem é essa mulher?” Desatento, respondi: “Uma ex-namorada”. Ela riu, pois na tela aparecia uma estrela de cinema. Mas não riria se soubesse que respondi como se ela tivesse perguntado quem era a mulher em quem eu estava pensando.

Uma meia dúzia de leitores me escreveu cobrando a continuação do desenrolar da história do torturador que diz não temer a verdade. A cada mensagem nesse sentido, fui até a sacada do apartamento e dei uma sacada nas adjacências, a fim de confirmar se os sujeitos mal encarados ainda estão de plantão do outro lado da rua. “Positivo e operante!” é o que parecem dizer ao celular. Falam, comem sanduíches e certamente comentam sobre as bundas das mulheres que passam carregando os cachorrinhos pra fazer pipi no canteiro que divide as pistas.

* * *

Já haviam se passado dois dias desde o meu segundo telefonema à viúva do suboficial Damasceno. Eu já sabia que não dava mais para contar com ela. Cheguei a pensar em mandar um dos meus filhos ligar e tentar obter, com uma desculpa bem formulada, alguma pista que pudesse me levar ao tenente Sousa. Desisti, pois estaria dando um péssimo exemplo a um filho; ensinando e estimulando-o a mentir; além disso, eu não gostaria que fizessem isso comigo, não suporto esse tipo de comportamento, portanto não seria capaz de agir assim com alguém. Só aprovo uma atitude desse gênero se tiver como objetivo salvar alguém de uma situação de alto risco. Para mim, seria o caso em que, diante da falta de alternativa, os fins justificariam os meios.

Enquanto tento entender esses rascunhos sobre o meu encontro com o sargento Túlio e a forma cinematográfica como cheguei ao seu esconderijo baixo astral, em Anchieta, vou contar como terminou o caso do meu amigo preso na Ilha das Cobras.

Vim do Sertão alagoano para o Rio disposto a ajudá-lo. Ele e mais dois dos seus irmãos moravam numa casa na Gamboa, Centro Velho da cidade, próximo à Zona Portuária.

No dia da minha chegada quase não tratamos do meu papel em sua defesa no tribunal militar, pois a gente gostava mesmo era de música.

Meu amigo tocava violão, até se esforçava e conseguia um som original. Eu gostava de compor, letra e música, mesmo não sabendo tocar nem caixa de fósforo. Ele fazia os arranjos e a gente se divertia em espécies de saraus, regados à cerveja, quando a grana dava, claro.

Ele me mostrou uma poesia que fez enquanto estava preso. Não me lembro do título, mas apenas destas duas estrofes, que musiquei e ele fez o arranjo no pinho:

Passam-se os dias,
Os meses, os anos,
E a morte não vem
Pro meu desengano.
Só sofrimento
Nas mãos dos tiranos.
Meu Deus, não te esqueças,
Nós somos humanos.

Na luta diária
Que é tão desigual,
Catando migalhas
Em um milharal,
Herói neste mundo
E no espiritual,
Meu Deus, esta alma
Tornou-se imortal.

Acrescentei mais duas estrofes de minha autoria, mas eram tão ruins que nem me lembro.

No dia seguinte fomos ao escritório do Dr. Wilhelm, seu advogado, na Rua México.

O Dr. Wilhelm me disse que eu não deveria me preocupar com muitos detalhes do caso, pois teria que testemunhar sobre, basicamente, os bons antecedentes e idoneidade do réu. Mesmo assim ele me pediu para mentir um pouquinho mais: eu arranjaria uma desculpa para justificar minha presença no local e diria que presenciei o final da ocorrência, o momento em que meu amigo estava sendo levado pelos fuzileiros.

Acertamos os detalhes.

Em casa, ensaiamos minha participação formulando possíveis perguntas e respostas.

“Desde quando você conhece o réu?”

“Desde que ele nasceu.”

“Como assim, se você é mais novo que ele?!”

Aí a gente repetia tudo...

“Desde que eu nasci.”

“Ah, bom! Qual a sua opinião a respeito do comportamento do réu?”

“Quando não bebe, dá pra conviver com ele!”

Aí meu amigo não aguentava as gozações, ficava nervoso, praguejava.

“Porra, cara! Tu leva tudo na sacanagem!”

“Fica tranquilo! Eu vou mentir pra caramba! Vou dizer que você é um cara maneiro, calmo, sereno, disciplinado, trabalhador. Digo até que vocês foram vítimas da intolerância de sua tia, aquela que chamava vocês de demônios!”

Aí, tudo virava brincadeira, meu amigo pegava o violão e tome Lupicínio, Chico, Vinícius, Milton e outros assassinatos.

Finalmente chegou o dia da audiência.

Quando entramos no salão de audiência, um jovem estudante universitário estava sendo julgado. Não havia ninguém na platéia, só o corpo de auditores, no centro deles, o juiz-auditor, à direita, um pouco afastado, o promotor; escolta de fuzileiros navais ao lado do réu; seu advogado à frente e um professor, testemunha de defesa, que suava em bicas para abonar a integridade moral do seu aluno, o bom comportamento, o excelente desempenho nos estudos, coisas assim. O estudante, pelo que entendi, havia sido preso no campus e indiciado por fazer panfletagem considerada subversiva.

Não demorou muito, a audiência terminou, o jovem estudante foi recolhido ao presídio e o professor foi embora.

Chegou a nossa vez.

Depois das apresentações formais, foi feita a leitura dos autos mais relevantes do processo. O advogado do meu amigo trocou umas palavras com o juiz-auditor, que era, se a memória não me falha, capitão-de-fragata. Se não me lembro bem da patente, mas não esqueço sua aparência: a cara do senador Marco Maciel, o mesmo tipo mapa do Chile, mais mal encarado que os sujeitos que estão de plantão ali em frente ao condomínio.

O juiz-auditor fez as perguntas de praxe: se eu conhecia o réu há muito tempo e o que eu achava do seu comportamento. Exatamente como previmos. Em seguida o promotor me perguntou se eu estava no local da ocorrência. Respondi “sim” diretamente ao promotor, o que me valeu a primeira advertência do juiz-auditor, que não havia me informado que ele repetiria a pergunta, e só aí eu responderia. Mesmo assim me repreendeu de forma grosseira.

O promotor perguntou se eu teria ouvido o réu gritar palavrões.

Falei que sim, mas que os impropérios eram gritados a ermo, sem pretender agredir a moral do oficial ou de quem quer que fosse, eram desabafos “ao vento”.

Isso me custou a segunda repreensão:

“Limite-se a responder ‘sim’ ou ‘não’! Não tente influenciar a decisão deste tribunal!”

Naquele momento entendi que uma repreensão grosseira pode funcionar ao contrário, ou seja, elevar a auto-estima do repreendido. Paradoxal? Pois explico. Quando senti que tinha o poder de influenciar a decisão de um tribunal daqueles, cresci, me enchi de “importância”.

Depois de mais algumas perguntas fáceis de responder sem levantar suspeitas de que estava mentindo, o promotor quis saber a posição da viatura da guarda de fuzileiros navais em frente à escola:

“Estava com os quatro pneus em cima da calçada, ou com dois em cima e dois na pista, ou com os quatro na pista?”

Eu conhecia bem o local e sabia que todas as alternativas eram possíveis. Escolhi uma delas e fiz o “x”:

“Os quatro pneus em cima da calçada”.

Devo ter feito bingo, pois o camarada não contestou.

“A viatura estava do lado direito ou esquerdo do portão?”

Não olhei pro réu, pois daria bandeira, mas pensei: “Vais voltar pro presídio. Só que desta vez mal acompanhado”.

Escolhi a opção “b”:

“Esquerdo”.

"Hein?" (Não esperei o juiz auditor perguntar "hein?")

"Esquerdo de quem sai da escola!"

Claro, ele ou qualquer pessoa teria perguntado o lado baseando-se numa visão de fora pra dentro; como saquei que havia errado, mudei o sentido.

O promotor se deu por satisfeito.

E eu muito mais!

Dias depois saiu a sentença: meu amigo foi absolvido.

Ah! ia esquecendo. Perguntei pelo nicaraguense. Meu amigo disse que ele foi detido para averiguação, mas evocou o parentesco com o ditador Anastácio Somoza Debayle. Checaram e confirmaram. Foi tratado como amigo. Terminou o curso com o cabelo cortado e bem comportado. Voltou pra terra dele e certamente encerrou a fase hippie.

“E você, o que aconteceu contigo naquela noite?”

“Eles me levaram para uma sala no Primeiro Distrito Naval. Quando entrei lá, tinha uma placa na parede: ‘Quem disser que foi interrogado aqui e não apanhou, está mentindo’.”

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Bom, ainda não consegui digitar muita coisa dos rascunhos da entrevista com o sargento Túlio. Outra hora eu volto.

Eu me sentiria mais seguro se aqueles camaradas fossem embora!


Para quem quiser compreender melhor essa história, aí estão os links das duas primeiras partes:

Parte 1- http://assazatroz.blogspot.com/2010/01/o-torturador-que-diz-nao-ter-medo-da.html

Parte 2 - http://assazatroz.blogspot.com/2010/01/o-torturador-que-diz-nao-ter-medo-da_23.html



Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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