segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O Facebook está me bloqueando em atendimento aos canalhas que pagam a censura

.


O Facebook está me bloqueando em atendimento aos canalhas que pagam a censura

Fernando Soares Campos


sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Vida após a morte: isto não é prova, mas são evidências

.


Vida após a morte: isto não é prova, mas são evidências

Por Fernando Soares Campos(*)

Suponho que o indivíduo que se declara ateu é, consequentemente, materialista, ou seja, considera toda atividade espiritual humana um mero efeito de organismos materiais, principalmente os que formam o sistema nervoso e o cérebro. Assim, podemos ainda supor que o ateu acredita que, quando da extinção das atividades físicas, a morte do corpo organizado, extinguem-se também as atividades psíquicas, as manifestações anímicas do corpo quando organizadamente vivo. 
Para o ateu, depois da morte do indivíduo, a matéria se decompõe e aquele corpo não mais manifestará vida inteligente. 

De certa forma, ele tem razão, mas apenas de certa forma, e não de forma abrangente.

A falta de fé e descrença numa divindade podem ser manifestações mentais e afetivas tão religiosas quanto crer e ter fé numa entidade divina. Isso ocorre quando o indivíduo diz que não crê na existência de Deus porque não encontra argumento lógico em nenhuma das formas dos deuses propostos pelas religiões. Para esse tipo de ateu, que está mais propenso ao agnosticismo, nenhuma divindade suprema que lhe foi apresentada pode ser aprovada quando submetida a uma análise sob método empírico de comprovação científica.

Contraposto ao ateu, existe quem crê na existência de um deus personificado, uma entidade ultrassublime, uma psique onisciente, onipotente e onipresente, um deus criador de todas as coisas, inclusive, das psiques etéreas à sua semelhança, as quais seriam dotadas de corpos materiais densos para se locomover e se comunicar entre si, enquanto habitassem, por curto período, um orbe como a terra ou similar. Seus corpos materiais teriam a propriedade da reprodução e existiriam por um ciclo vital (nascimento, vida e morte). Sob essa condição, as psiques etéreas (almas) seriam consideradas encarnadas, ou materializadas, e surgiriam juntamente com a formação do corpo material. O final do ciclo vital, a morte, seria apenas do corpo físico, enquanto a psique etérea sobreviveria independente, livre da matéria tangível.  

Ao projeto da criação, a psique ultrassublime, a criadora, teria estabelecido, além das leis naturais de reprodução e manutenção do corpo material, as normas comportamentais, um conjunto de valores e preceitos a serem seguidos pela psique etérea materializada.

Desde o início do ciclo vital, o deus criador, através de seus auxiliares extrassublimes, observaria o comportamento das psiques etéreas encarnadas, distinguindo aquelas que se comportaram bem, obedecendo ao conjunto de normas e preceitos de sua empresa, das que se comportaram mal, as que infringiram as leis morais que determinam como devem agir diante das diversas circunstâncias, com as quais possam se defrontar durante a existência atrelada ao corpo material. As primeiras permaneceriam sob seus eternos cuidados, desfrutando o ambiente divino do seu deus criador; as segundas, ou expurgariam, por um longo período, suas infrações menores, passando a merecer a coabitação entre as psiques obedientes às regras da empresa divina, ou, nos casos de gravíssima desobediência, sofreriam eternamente as consequências de não haverem se comportado bem.

É como se as psiques fabricadas sob a permissão do criador fossem submetidas a um período de teste de qualidade, através do qual a psique ultrassublime avaliaria a resistência, capacidade e, principalmente, o comportamento diante das normas, tabus, costumes ou mandamentos hierárquicos, que lhes seriam ministrados, de forma religiosa, por psiques-etéreas representantes do criador, igualmente encarnadas, mas reconhecidamente capacitadas para exercer tais funções.

Porém, no processo de fabricação (reprodução) dos corpos materiais que servirão de instrumento para que as psiques realizem seus testes, em alguns casos, ocorreriam acidentais falhas, e os corpos apresentariam defeitos de fabricação: membros atrofiados, órgãos debilitados, ou mesmo a falta de algumas dessas peças, obrigando as psiques nessas condições a utilizarem seus corpos deficientes, ou desistirem da prova ali mesmo, no final da linha de produção. Outras, durante a fase de prova, sofreriam acidentes que interromperiam os ciclos vitais muito antes de esgotar o prazo médio de validade dessas máquinas orgânicas.

Vem daí a ideia religiosa de que a nossa massa corporal é tão-somente o veículo de um suposto ser psíquico que, depois de utilizá-la, existiria "totalmente" desvinculado de qualquer forma de matéria. É como se o psiquismo fosse um ente imaterial cuja dependência do corpo físico tivesse apenas o objetivo de se fazer comunicar com outros seres psíquicos igualmente materializados. Estes seres etéreos usariam os corpos materiais somente durante a fase de teste (a existência encarnada). Receberiam estímulos através de órgãos apropriados para a transmissão dos sentidos básicos (olfato, paladar, visão, audição e tato), além de assimilar e decodificar informações captadas pelos processos de percepção, atenção, associação, memória, raciocínio, juízo, imaginação e pensamento, transformando qualquer impressão em linguagem que expresse sua autoconsciência. Além dos sentidos comuns e do processo cognitivo, a psique etérea, em muitos casos, vivenciaria experiências sensoriais transcendentes, aquilo que vai além das idéias e conhecimentos ordinários.

Religiosos acreditam que essa alma seja alguma coisa que possa, em outra dimensão cósmica, manifestar-se independente, livre, dissociada de qualquer tipo de matéria. Certamente, tal conceito remonta a milênios antes da ciência descobrir a existência de partículas subatômicas, os objetos quânticos. Quem poderia, hoje, garantir que a matéria só existe conforme a composição clássica: átomos que formam moléculas que formam células que formam tecidos que formam órgãos...? (As chamadas matérias orgânicas, que formam corpos animais e vegetais.) Ou aquelas cujas estruturas moleculares lhes conferem o estado de mineral?

A ciência ainda não desvendou totalmente as verdadeiras essências das matérias e das energias existentes no Universo conhecido. Acredita-se, inclusive, que possa existir neste Universo algum tipo de substância formada por elementos distintos de toda composição de matéria e energia que conhecemos. A mais recente descoberta nesse campo é a da misteriosa energia escura, ou energia negra, cuja natureza ainda se constitui num dos maiores desafios para ciência, no que tange, principalmente, aos atuais conhecimentos da física e da cosmologia. O Universo também desperta interesses no campo da filosofia, destacadamente, da metafísica, através da qual se realizam investigações transcendentes às experiências sensíveis, em busca de fundamentos exclusivamente teóricos sobre as relações entre os corpos celestes, a força gravitacional, a expansão deste Universo, a infinitude e eternidade do espaço-tempo, a possibilidade da existência de vida inteligente em outras plagas cósmicas, as manifestações da alma humana e a existência de um deus criador de todas as coisas.

Assim como não podemos conceber o Nada, não há como compreender a manifestação psíquica sem um elemento físico, condutor de energia sutil, capaz de realizar o processamento dos dados disponíveis e expressá-los através de movimentos corporais, linguagem oral e escrita, ou mesmo por ondas ou radiações.

Acreditar que a psique etérea pode se manifestar sem a participação de qualquer tipo de matéria decorre, provavelmente, de preconceito, pelo fato de considerarmos a matéria um elemento inferior, um objeto tangível, identificável pelos sentidos básicos da máquina humana, os canais materiais; enquanto a alma (a psique, o psiquismo), um ente imaterial, seria sublime, intocável, venerável, aquilo que nos assemelha a Deus, a psique ultrassublime.

Ainda não nos desvinculamos das sensações que a matéria densa proporciona à psique etérea, aparentemente a ela "aprisionada". Temos a impressão de que o ser eminentemente psíquico se manifesta usando a matéria apenas enquanto vivencia as experiência na "fase de teste", mas que, ao fim do ciclo vital do corpo físico, se libertaria desta matéria. Este é um estágio do ser ainda bastante rudimentar, imbuído de preconceitos em relação à matéria. Mero preconceito.

Entretanto este ser etéreo está evoluindo e alcançará estágios em que conhecerá as leis naturais que regem sua existência, identificará a matéria em seus múltiplos estados e funções e perceberá como alcançou autoconsciência, como ocorreu a sua evolução. Perderá o preconceito e considerará a matéria apenas um estado natural, igualmente "divino", quando comparada ao ente etéreo, a psique imaterial.

A matéria é a concentração de elementos do Universo conhecido. O ente psíquico nunca se manifestará independente do ente material, mesmo porque não há como nem por que separar um do outro.  A diferença fundamental entre um e outro é que a matéria é eterna, indestrutível e se transforma; enquanto o ente psíquico é igualmente eterno, indestrutível e evolui.  

A transformação da matéria

Antoine-Laurent Lavoisier, reconhecido como o pai ou fundador da química moderna, através de seus trabalhos de pesquisa,pôde enunciar uma lei que ficou conhecida como Lei da Conservação das Massas ou Lei de Lavoisier.

"Numa reação química que ocorre num sistema fechado, a massa total antes da reação é igual à massa total após a reação". Ou "Numa reação química a massa se conserva porque não ocorre criação nem destruição de átomos. Os átomos são conservados, eles apenas se rearranjam. Os agregados atômicos dos reagentes são desfeitos e novos agregados atômicos são formados". Ou ainda, sob conceito filosófico: "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma."

Daí podemos concluir que nada pode surgir do nada; e nada pode transformar-se em nada.

A partir dessa constatação, entendemos que os elementos que constituem o nosso corpo material são eternos, indestrutíveis, eles apenas reagem entre si e se transformam (durante e após o ciclo vital).

A evolução do ente psíquico, a psique etérea 

O ente psíquico, etéreo, autoconsciente, individual, único, unido ao nosso corpo material, é igualmente eterno, indestrutível, entretanto este, à medida que aprofunda seu autoconhecimento, é capaz de criar mecanismos próprios para controlar seus desejos e impulsos afetivos e emotivos; adquire conhecimentos através de processo em que aplica a percepção, atenção, associação, memória, raciocínio, juízo, imaginação, pensamento e linguagem; desenvolve métodos próprios para o aprendizado de determinados sistemas e soluções de problemas; nele não ocorre a simples transformação de seus elementos, mas, sim, o progresso quantitativo e qualitativo de conhecimentos e o aperfeiçoamento do emprego de suas principais funções (cognição, volição, afeto e motivação), portanto o ente psíquico evolui.

Podemos também afirmar que, em vista do ente psíquico desejar conhecer a verdade e persegui-la, esta evolui consigo.

Tomás de Aquino afirmou que "nenhum ente esgota a verdade", e isso reforça o nosso conceito de evolução da verdade.

Hegel dizia que uma tese sempre terá para si uma antítese, e a união dessas teorias formaria uma nova ideia, abrangendo aspectos da tese e da antítese em síntese. E a síntese se tornaria uma nova tese, e, assim, o ciclo se reinicia com a formação de sua respectiva antítese. O que  vem a ser isso, senão o caráter evolutivo da verdade?

Se a matéria fosse a causa da inteligência, por que, ao final do ciclo vital, essa matéria, que vinha manifestando tal inteligência, volta ao estado primitivo, em que somente as leis que regem seus aspectos físicos e químicos funcionariam? A matéria continua se transformando eternamente, porém aquilo que os ateus consideram como sendo de suas exclusivas responsabilidades, a inteligência e seus produtos, cessariam.

O próprio ateu, consciente de que a ciência ainda não desvendou totalmente as verdadeiras essências das matérias e das energias existentes no Universo conhecido, pode acreditar na sobrevivência da alma, a psique etérea, dando continuidade ao processo evolutivo de um ser autoconsciente de sua existência, sem, com isso, acreditar na existência de um deus criador de todas as coisas, onisciente, onipotente, onipresente e justiceiro. Basta crer, fundamentado em métodos científicos e metafísicos, que essa psique realmente jamais se manifestaria desprovida de qualquer forma de matéria (que é basicamente em que o ateu acredita). Basta saber que certa matéria quintessenciada, conforme já propagava Aristóteles (384 a.C. a 322 a.C.), dizendo tratar-se de determinado elemento etéreo que compõe as esferas celestes, distinto em sua quase imaterialidade das quatro propriedades naturais - terra, água, fogo e ar - que constituem os corpos densos no mundo sublunar, o éter, pois bem, basta saber que esse tipo de matéria envolve o corpo material denso e, dessa maneira, expressa toda a inteligência explicitamente observável, identificável.

Essa psique etérea conhece todo o processo de nascimento, vida e morte (ciclo vital) do corpo material organizado e tem consciência de que, sob qualquer forma que esse corpo venha a perecer, ela sobrevive no corpo de matéria sutil, cuja composição ainda é praticamente desconhecida da ciência. Ateu que não se dá ao trabalho de analisar tal possibilidade, fica com o seu dogma sobre a inexistência de vida inteligente após a morte do corpo físico.

(*)Fernando Soares Campos é escritor, autor de "Fronteiras da Realidade - contos para meditar e rir... ou chorar" - Chiado Editora - Portugal - 2018.   


sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Komila Nakova, ex-KGB, revela como a CIA recruta estudantes estrangeiros nas universidades dos EUA

.


Komila Nakova, ex-KGB, revela como a CIA recruta estudantes estrangeiros nas universidades dos EUA




por Fernando Soares Campos(*)



Estávamos aqui nas dependências da PressAA, a nossa agência de notícia Assaz Atroz, discutindo a pauta. Já passava da meia-noite e não conseguíamos fechar, não havia consenso para deliberarmos sobre a principal manchete do dia. A maior parte das sugestões indicavam um título bombástico para um caso rasteiro: "Desembargador confessa que cometeu crime para manter Lula preso".

"Isso é bobagem", falei. A meu ver, todos que tiveram influência na condenação e prisão de Lula cometeram algum tipo de crime ou contravenção administrativa. Além do mais, disso aí todo mundo já está tratando. O que eu queria mesmo era falar sobre o motivo pelo qual essa gente age criminosamente. Isso, sim, é o que interessa. Mas acabei aceitando, provisoriamente, a abordagem sobre o vazamento da confissão do desembargador. Encerramos a reunião, e eu fiquei só.

Quando as coisas estão ruças, ligo para a russa Komila Nakova, que os nossos leitores mais antigos sabem que se trata exatamente de uma ex-agente do KGB, atualmente positiva e operante no ramo de investigação particular, expert em casos de infidelidade conjugal, mas que eventualmente, na condição de freelancer, trabalha para nós, ou para alguns freeloaders da mídia venal.

Com essa onda de grampo, eu não quis expor meu problema por telefone, pedi a ela que viesse até aqui, a fim de me dar umas dicas seguras sobre a matéria que pretendíamos publicar.

Devido a uns entreveros domésticos, estou dormindo na redação até a poeira baixar. Komila é quase nossa vizinha, mora logo ali no acesso à Ladeira dos Tabajaras. Estamos sempre nos cruzando na Estação Cardeal Arcoverde.

Era madrugada avançada, quando ela adentrou-se na minha sala, arrastando-se, sorrateira, pelo duto de ventilação, a fim de não ser filmada pelo circuito de segurança do prédio. Não me surpreendi, pois ela sempre foi assim, imprevisível.

Komila, aparentemente exausta, deixou-se cair numa poltrona localizada num canto da sala, respirou fundo e falou:

– Nakova, chefinho, ao seu dispor...

– Komila!

– E come sempre que quiser, querido... Na cova ou onde você desejar... Você sabe que eu te amo!

– Deixe a graceta pra outra hora. O caso é sério!

– Não é “gra”, chefinho, é “bo” – falou e cruzou as pernas mais sensuais que conheço.

– Não acha que essa sua graçola às vezes incomoda?

– Também não é “gra”, meu amor, é “cal”. E, a mim, não está me incomodando de forma alguma...

– Você não tem jeito, não. Vamos ao que interessa.

Convidei Komila para ler, na tela do monitor, a relação dos principais elementos envolvidos na prisão de Lula. Acompanhando cada nome de policial federal, membro do Ministério Público e do Judiciário, destacavam-se alguns dados biográficos do indivíduo.

Ela levantou-se, aproximou-se de mim por detrás, debruçou-se sobre as minhas costas, roçando aquele maravilhoso par de peito no meu lombo. Fiquei excitado, mas não deixei transparecer que ela havia me provocado estímulos libidinosos... quer dizer, um puta tesão.

Komila leu tudo num piscar de olhos, pois, quando era adolescente, fez curso de leitura dinâmica por correspondência em São Petersburgo. Certa ocasião ela me disse que sua tataravó conheceu Dostoiévski, chegando mesmo a inspirar o consagrado escritor russo na criação de uma de suas personagens.

Quando terminou de ler, perguntei:

– Você conhece algum desses elementos? Sabe alguma coisa sobre algum deles?

– Todos! Conheço todos... E sei o bastante sobre cada um deles.

– Todos?! Impossível! Não precisa exagerar. Você sabe que pagamos o preço justo pelas suas colaborações. Não há necessidade de tentar atribuir a si própria um valor acima da importância que tem para nós e que, há muito tempo, reconhecemos como fundamental para a manutenção desta nossa agência.

Komila tem sempre uma resposta para qualquer pergunta ou insinuação.

– Querido, sei que você se lembra que lhe falei do meu curso de leitura dinâmica, mas não lhe contei de outro curso que fiz por correspondência, o de memorização de textos. Se li os dados biográficos desses sujeitos, já sei muito sobre eles, já conheço o suficiente para dizer que se trata de subagentes da CIA, colaboradores da NSA, aprendizes de tiras do FBI, coisas assim...

– Você pode explicar como chegou a essas conclusões?

– Tá tudo aí... Tem informações suficientes... Dizem que alguns cursaram programas de instrução de advogados da Harvard Law School. Outros foram premiados pelo Global Investigations Review. Tem mestre em direito pela Universidade de Harvard e pela Yale Law School. Aparece até visiting teacher in Los Angeles School of Law... E tantas outras qualificações afins. Do que mais precisamos para saber quem são?

– O que você quer dizer com isso?

– O que eu quero dizer?! Não quero dizer nada, isso aí diz por si mesmo.

Eu tinha uma ideia sobre o que ela estava falando, mas queria que a russa fizesse jus ao que receberia pelas informações prestadas, portanto teria que explicar detalhadamente o que tudo aquilo significa no seu métier, no mundo da espionagem.

– Tudo bem que isso aí diga por si mesmo, mas eu quero que você diga por isso aí...

– Me sirva um drinque.

– Não temos vodca.

– Se não tiver champanhe francesa ou Romanée-Conti safra dos anos oitenta, qualquer coisa serve.

– Tem uma cachacinha mineira. É coisa fina.

– Melhor que uísque americano. Manda.

Servi uma dose caprichada da caninha de boutique. Tomou de um só gole, como um cossaco numa cossaca.

– Como eu já lhe disse, essas informações falam por si mesmas – Komila se movimentava pela sala enquanto explicava sua tese –. Grande parte dos estrangeiros que estudaram nessas universidades americanas, ou que foram agraciados com títulos honoríficos ou condecorações, ou convidados na condição de professores visitantes, acabaram sendo vítimas das armadilhas da CIA e se tornaram subagentes dos órgãos de segurança controlados pela NSA, a poderosa National Security Agency.

– Subagentes?!

– Sim, subagentes, colaboradores, agentes de araque... São tratados como agentes, mas, pelas identificações internas, são tidos como subagentes. Trabalham para o governo dos Estados Unidos, inclusive traindo os governos e o povo de seus próprios países. Entendeu?

– Até aí, sim, mas eu gostaria mesmo é de saber como chegam a essa condição, como ou por que se entregam para atuarem como entreguistas, muitas vezes cometendo crimes de lesa-pátria. Você falou de armadilha da CIA. Que tipo de armadilha?

– Pode me servir mais um drinque?

– Sim, é pra já!

Komila ainda estava com o copo vazio na mão. Servi mais uma dose da mineirinha proibida para menores de idade. Novamente ela tomou de um só gole, colocou o copo na minha mesa e continuou se movimentando pela sala.

Parou e estendeu os braços para a frente, indicando o sofá ao lado da porta. Cerrou os punhos e, em seguida, abriu os dedos indicador e polegar, formando ângulos retos, simulando um enquadramento fotográfico.

– Imagine você e eu ali naquele sofá. Ambos despidos. Você sentado, eu agachada, com a cabeça entre as suas pernas, fazendo um movimento cadenciado de sobe e desce. Você em estado de extrema excitação... Imaginou?

– Você fazendo um boquete em mim. Sim, mas, nesse caso, não é questão de imaginar, é apenas de recordar...

– Então, imagine se, antes da gente partir para o bem-bom, eu tivesse instalado uma minicâmera em algum local estratégico dessa sala e filmasse tudo, inclusive quando fiquei de quatro no sofá e você praticou um parece-mas-não-é...

– Komila! – praticamente gritei –, você não fez isso, fez?!

– Calma, querido! Não, não fiz. Mas você é homem e eu sou mulher, portanto, se tivesse feito não seria nada demais, exceto pelo fato de que você não ia querer que seus filhos e sua mulher, ou mãe, irmãos ou mesmo seus amigos assistissem a cenas com essas que descrevi.

– Descreveu o que já fizemos em diversas ocasiões! Jure que você não filmou, não fotografou nem falou disso pra ninguém!

– Take it easy, honey! Você me conhece, sabe que não sou chantagista.

– Sim, eu confio em você, mas o que tudo isso tem a ver com as armadilhas da CIA?

A loira voltou-se pra mim. Tinha um sorriso enigmático, com a bochecha direita repuxada para cima e os lábios pressionados, como se estivesse forçosamente evitando um sorriso aberto.

– Se na cultura machista de vocês uma cena dessas pode abalar a moral de um homem, nem sei o que dizer se fosse você no meu lugar, e, no seu, outro macho...

– Tá me estranhando?!

– Não, estou só supondo.

– Então, continue...

– Agora entenda que é nisso que dá a participação de militares, jornalistas, advogados e tantos outros profissionais estrangeiros nas instituições do império ianque, em suas escolas militares e universidades. Muitos generais e magistrados estrangeiros que, quando jovens, passaram por aquelas escolas, foram induzidos ao envolvimento em atos meramente comportamentais; em geral, homossexualismo, ativo e passivo. Mulheres casadas foram induzidas à infidelidade conjugal ou mesmo prostituição.

– Tudo acontece sempre em relação às atividades sexuais?

– Não. Também são levados a cometer alguns ilícitos, prática de pequenos roubos e furtos. Agora andam estimulando os crimes cibernéticos, invasões a sites do governo, roubo de senha, clonagem de cartões de crédito. Qualquer desvio de conduta daqueles que por lá aportam é registrado, gravado, fotografado, filmado, testemunhado e arquivado pela CIA. Nada escapa, pois eles acreditam que qualquer item daqueles pode, um dia, vir a ser útil. Tudo está arquivado, são muitos milhares de dossiês...

– Acho que chantageiam até aos mortos.

– Claro! Morto tem família. E algumas dessas famílias estão tentando reaver algumas fortunas depositadas em paraísos fiscais offshore, sob o controle de Wall Street.

– Como fazem para controlar todo esse contingente de colaboradores, ou subagentes, como você chama os vendilhões da pátria?

– Todo esse pessoal, ao retornar aos seus países, passam a ser monitorados permanentemente. Todos recebem algum tipo de apoio, benefícios incomuns. Alguns, com os gabaritos das provas antecipadamente fornecidos, são aprovados em concursos, nomeados para cargos de muita importância e facilmente promovidos. Outros trabalham para multinacionais de ramos diversos, principalmente para as petroleiras. No serviço público, os antigos dão cobertura aos mais jovens, os recém-chegados. Esses elementos servem aos interesses do governo dos EUA e, de forma indireta ou mesmo direta, dependendo do caso, são sempre lembrados de suas marcas nas mãos da CIA. São uns fracos. E os que mais arrotam valentia em solo pátrio são os mais comprometidos, vivem se borrando de medo de serem desmascarados.

– Isso quer dizer que os ianques nem mesmo bancam todos eles. Na verdade, somos nós mesmos que pagamos para eles irem estudar lá e depois sustentamos esses canalhas aqui, ganhando os mais altos salários e trabalhando contra o Brasil, em prejuízo de todos nós, brasileiros.


– Pegou o espírito da coisa, chefinho... Então, meu caro, não tenho mais o que lhe esclarecer. Vou tirar o time... pois tenho cliente do outro lado para atender.


– Espere! Só mais uma pergunta...


– Mande...

– Posso considerar que todos esses nomes que você leu, na relação que lhe apresentei, são subagentes da CIA?

– Bem, alguns colaboram contrariados, sob pressão, estão por demais envolvidos, não têm como recuar. São permanentemente chantageados, chegam a receber fotografias, cópias de documentos comprometedores, coisas assim. Isso funciona como os jovens que se envolvem com o tráfico de drogas e não podem fazer mais nada sem autorização do gerente da boca. Outros, os preconceituosos, vira-latas de formação, odientos, racistas... estes se entregam de corpo e alma. Geralmente são separatistas, querem o retalhamento do Brasil, a entrega da Amazônia a um consórcio internacional para a sua governança e a formação de estados independentes, conforme a própria divisão regional do país. Quer dizer, com a entrega da Amazônia, os estados do Norte seriam agrupados em uma espécie de protetorado do tal consórcio. A ideia é que o Nordeste também seja submetido à condição de protetorado e se torne mero fornecedor de mão de obra em condições análogas à escravidão.

– Sem a Amazônia, sem o Nordeste, sem o pré-sal, sem o Brasil!

– Sem dignidade...


– O que você acha que devemos fazer?


– Isso vocês decidem. Agora vou partir... Tchau, querido!

– Espere, ainda temos outra questão pra resolver!

– Hoje não dá, estou naqueles dias...

Como um raio, melhor, como um rato, Komila saiu pela janela aqui do oitavo andar, de onde ainda pude vê-la, lá embaixo, montando no seu unicórnio alado, último modelo, e partindo sob o céu estrelado...




(*)Fernando Soares Campos é escritor, autor de "Fronteiras da Realidade - contos para meditar e rir... ou chorar" - Chiado Editora - Portugal - 2018.


.

sábado, 4 de agosto de 2018

Deus não joga dados pra perder

.


Deus não joga dados pra perder 

por Fernando Soares Campos(*)


Qualquer ponto na infinitude do espaço cósmico é o Centro do Universo, por estar, em todas as direções, equidistante das “extremidades do infinito”. Também podemos afirmar que tal ponto representa, concomitantemente, o começo e o fim da imensidão do espaço cósmico.

Se dividíssemos a infinitude universal ao meio, tendo criado um plano imaginário, infinito, a ser utilizado como “fronteira” (cisão) do Universo, surgiriam dois universos infinitos, ambos com todos os elementos do Todo. Se, a partir dessa primeira divisão, continuássemos dividindo o Universo-infinito em progressão geométrica, obteríamos infinitas partículas, cada uma delas contendo a principal característica do Universo: a infinitude.

Daí podemos compreender o fenômeno ocorrido num holograma, em que cada parte reproduz o Todo. É como uma gota d´água do mar, que é composta por todos os elementos das águas de todo o oceano.

Se o Universo é concebivelmente infinito, qualquer porção deste Universo é infinita.

Imaginemos uma bola de gude, do tipo que tantos de nós usamos nos jogos lúdicos da infância, solta no espaço, inflando, crescendo, expandindo-se contínua e eternamente. Considerando a infinitude do Universo, ela jamais estancaria seu processo de dilatação. E tudo que existisse no seu interior acompanharia seu crescimento: os espaços entre as partículas elementares que formam a sua massa cresceriam na razão direta do crescimento do seu volume total; consequentemente, as próprias partículas se reproduziriam, ocupando tais espaços, combinando-se, formando átomos, moléculas, células e tecidos necessários à composição de matérias orgânicas e inorgânicas.

Se ocorresse o contrário, a bola de gude comprimindo-se contínua e eternamente, ela jamais se tornaria Nada, seria sempre, por toda a eternidade, um corpo compacto, o qual, visto do nosso ponto de observação imaginária, manteria toda a sua massa original; e os espaços entre suas partículas elementares diminuiriam na razão direta da diminuição do seu volume total.

Também podemos concluir que um corpo em expansão na infinitude universal não ocupa o espaço de outro corpo, assim como um corpo submetido à eterna compressão não cede espaço para que outro corpo o ocupe; pois, se o espaço é infinito, não há criação nem extinção de espaço. Na verdade, considerando que qualquer ponto, parte ou porção do Universo-infinito é, ao mesmo tempo, seu começo e fim, é o seu Centro, assim, não há propriamente partes a se considerar; só, o Todo.

O espaço-tempo é uma unidade quadrimensional ou hexadimensional?

O conceito einsteiniano sobre a bidimensão espaço-tempo trata de uma unidade quadrimensional, pois, ao espaço tridimensional (altura, profundidade e largura), foi acrescentado o tempo. Porém, se consideramos a tridimensionalidade do espaço, teremos que entender o transcorrer do tempo igualmente tridimensional, visto que o espaço e o tempo se expandem ou se contraem inseparavelmente.

Como não podemos conceber o infinito espacial e a eternidade em separados, também não devemos estabelecer a junção do espaço com o tempo considerando o primeiro tridimensional e o segundo unidimensional, visto que todo espaço pressupõe um tempo necessário para percorrê-lo em todos os seus sentidos. Daí, podemos formular conceitos de infinito e eternidade:

Infinito é o espaço que necessita da Eternidade para ser totalmente percorrido.

Eternidade é o tempo necessário para se percorrer o espaço Infinito.

São grandezas inseparáveis, portanto, as dimensões atribuídas a uma devem ser, obrigatoriamente, conferidas à outra.

Espaço: altura, profundidade e largura.

Tempo: passado (espaço percorrido), presente (espaço em que se está percorrendo) e futuro (espaço a ser percorrido).

Portanto...

Se o espaço e o tempo são indissociáveis, o evento espaço-temporal é hexadimensional, formado pela soma das tridimensionalidades de ambos.

Se o Universo é concebivelmente infinito, haveremos de compreender que qualquer porção deste Universo é infinita.

Se qualquer porção do Universo é concebivelmente infinita, conforme exemplo da bola de gude expandindo-se ou comprimindo-se eternamente, assim, haveremos de compreender que qualquer fração do tempo é eterna.

A eternidade pode ser compreendida pela incessante ação do presente absorvendo o futuro e, instantaneamente, transformando-o em passado.

Daí concluímos que Deus joga dados, sim, mas, na condição de ser onisciente, onipresente e onipotente, conhece de antemão o resultado, portanto Deus só não joga pra perder.

(*)Fernando Soares Campos é escritor, autor de "Fronteiras da Realidade - contos para meditar e rir... ou chorar" - Chiado Editora - Portugal - 2018.



.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Turismo esportivo e de aventura nos sertões nordestinos

.


Turismo esportivo e de aventura nos sertões nordestinos



por Fernando Soares Campos(*)
Milhões de brasileiros conhecem as coisas do Nordeste apenas de "ouvi falar" ou "li em algum lugar". São pessoas que nunca pisaram naquelas terras dotadas de beleza natural ímpar e povo e cultura igualmente singulares, mas que pretendem um dia turistar por aquelas bandas. Costumam planejar a viagem com muita antecedência, depositando mensalmente uma pequena parcela de seus salários numa conta poupança, o suficiente para cobrir despesas extras, pois geralmente financiam passagens e hospedagens através de cartões de crédito, em suaves prestações.
Em geral, essas pessoas são atraídas pelos cartões postais que retratam as mais belas praias brasileiras, baías, enseadas, ilhas, arrecifes, piscinas naturais, as cores do mar em diferentes matizes. A própria gastronomia baseada em frutos do mar, peixes e correlatos, preparados ao coco e apimentados, é mais um atrativo nordestino que atende ao paladar de muita gente.
Além disso, o litoral, onde se localizam as cidades mais desenvolvidas, como ocorre em todo o Brasil, conta com as mais monumentais obras de infraestrutura, as melhores rodovias da região, aeroportos mais complexos e de maior capacidade de atendimento, hotéis de padrão internacional, marinas, atracadouros, terminais marítimos, urbanizações temáticas das orlas marítimas. Tudo apropriadamente construído para atrair turistas, seja o doméstico ou os estrangeiros que nos visitam.
Para os brasileiros de outras regiões, existem dois nordestes: este das maravilhas litorâneas e o outro, o do Polígono das Secas, onde, supostamente, o número de pessoas que formam as camadas sociais abaixo da linha de pobreza se sobrepõe à soma das que ocupam as demais posições da estratificação social na região.
Entre os que pretendem fazer turismo no Nordeste, apenas uma pequena parcela destina-se ao interior dos estados nordestinos. São os que buscam turismo de evento, principalmente as festas juninas, em cidades que se destacam por oferecer os melhores "São João" do mundo! Há também um interesse pelo turismo religioso, que tem seu ápice na cidade de Juazeiro do Norte, conhecida como "A Meca Nordestina", na Região Metropolitana do Cariri, Ceará. Para outras modalidades turísticas, resta apenas uma pequena parcela do fluxo turístico no Nordeste do Brasil.
Turismo sustentável
Quando nos referimos a turismo sustentável, é comum tratarmos sobre as modalidades de turismo relacionados com a natureza. O turismo rural, por exemplo, proporciona um eventual relacionamento das pessoas oriundas de ambientes urbanos com os trabalhos rurais, as atividades agropastoris, artesanais, pequenas indústrias, hotéis fazenda. Nesse caso, o turista busca interagir com a cultura e as relações sociais do campo. O ecoturismo, em que o turista se entrega à observação e contemplação de acidentes geográficos e, em muitos casos, se envolve física e emocionalmente com o ambiente.
"Segundo a OMT o turismo sustentável deve ser aquele que salvaguarda o ambiente e os recursos naturais, garantindo o crescimento econômico da atividade, ou seja, capaz de satisfazer as necessidades das presentes e futuras gerações.
"Portanto, o desenvolvimento turístico deve pautar por "economizar os recursos naturais raros e preciosos, principalmente a água e a energia, e que venham a evitar, na medida do possível a produção de dejetos, deve ser privilegiado e encorajado pelas autoridades públicas nacionais, regionais e locais". (Artigo 3 Código de Ética - OMT).
"O Turismo Sustentável deve acima de tudo buscar a compatibilização entre os anseios dos turistas e os das regiões receptoras, garantindo não somente a proteção do meio ambiente, mas também estimulando o desenvolvimento da atividade em consonância com a sociedade local envolvida." ("O que é turismo sustentável", Rita de Cássia P. F. Ramos, maio de 2013.)
Para a adoção do turismo sustentável, há necessidade do desenvolvimento de estruturas apropriadas para o acesso do turista às áreas que lhe interessam, mas de forma que se preserve o meio ambiente. Turismo sustentável é incompatível com os turismos de massa, como ocorre no caso das romarias religiosas e visita a monumentos históricos. Isso também nos chama a atenção para a separação entre "turismo esportivo" e "turismo de evento esportivo". O primeiro pode ser relacionado com o turismo sustentável, enquanto o segundo tem relação direta com atração de massas turísticas: apresentação dos esportistas e assistência formada por apreciadores ou mesmo torcedores.
Uma das características fundamentais do turismo sustentável é a opção por atendimento a pequenos grupos, formados por pessoas interessadas na preservação dos recursos naturais e, não raro, praticantes de alguma modalidade esportiva, destacadamente esportes de aventura, modalidades esportivas que envolvem, por exemplo, escaladas, trilhas e montanhismos, mas também os adeptos dos chamados esportes radicais, tais como voo livre, por asa delta e parapente. Limito-me a citar esses exemplos, visto que pretendo me situar nas condições naturais, apropriadas para a prática de turismo esportivo, que podem ser desenvolvidas, de imediato, ou a curto prazo, na região sertaneja do Estado de Alagoas.
O complexo geográfico da região sertaneja do Estado de Alagoas compreende extensas planícies e variadas formações montanhosas: serras e colinas, em cujos cumes se descortinam deslumbrantes panoramas, além de oferecerem condições de formação de rampa para decolagem de voo livre. E as planícies garantem, em termos de segurança, as condições ideais de pouso para essa prática esportiva.
Na região Serrana do Estado do Rio de Janeiro, os praticantes de voo livre (parapente e asa delta) reclamam que possuem muitos pontos de salto e raros para o pouso, quase sempre precisam de autorização de donos de pequenas extensões de terreno plano, o que nem sempre conseguem.
Nos sertões nordestinos, os ventos quentes também contam a favor do esporte aéreo. Além do voo, as subidas por trilhas íngremes para alcançar as rampas são, por si mesmas, aventuras adrenalínicas.
Santana do Ipanema é a cidade-sede da Região Metropolitana do Médio Sertão do Estado de Alagoas (RMMS-AL). Os outros oito municípios que participam da formação dessa micro região sertaneja são: Dois Riachos, Olivença, Olho d'Água das Flores, Carneiros, Senador Rui Palmeira, Poço das Trincheiras, Maravilha e Ouro Branco.
Todos os municípios que compõem a RMMS-AL têm as características geográficas e sócio-culturais idênticas. Diferenciam-se basicamente no que diz respeito à intensidade das atividades econômicas. Santana do Ipanema, na condição de capital regional, conta com atividades comerciais mais intensas e oferece maior diversificação em prestação de serviços, contando hoje com um hotel classificado como padrão turístico (3 estrelas): Hotel Privillege. "Em cada um dos 53 charmosos quartos há uma decoração em tons terrosos em homenagem ao sertão alagoano e quadros que retratam a história da cidade de Santana do Ipanema. É parte da política de responsabilidade socioambiental do hotel a adoção de medidas sustentáveis, onde mais de 50% dos chuveiros dos apartamentos são abastecidos com energia solar, 70% das lâmpadas são de LED, contribuindo com um baixo consumo de energia, e 98% do seu quadro funcional é composto por cidadãos santanenses", diz a apresentação no site do hotel (https://www.hotelprivillege.com.br/).
A cidade também oferece hospedagens em pousadas de variados padrões. Conta com bares, restaurantes, padarias, postos de abastecimento de combustível, além de rede bancária suficiente e comércio diversificado. Atendimento emergencial socorrista, a cargo de Grupamento Bombeiro Militar. A emergência hospitalar fica por conta do maior hospital da região. Também dispõe de clínicas particulares e consultórios de diversas especialidades médicas, credenciados para atendimento através dos mais importantes planos de saúde.
Santana do Ipanema e região têm as condições geográficas, culturais, sociais, mercantis e econômicas para atender demanda de turismo sustentável, sob as modalidades "turismo esportivo" e "turismo de aventura", necessitando, porém, da criação de pequenas empresas prestadoras de serviço nessas áreas e do apoio do poder público para a implantação da infraestrutura básica, necessária ao atendimento da clientela visitante, além do treinamento e habilitação de cicerones com formação em segurança do trabalho, o que pode ser feito em parceria com o empresariado local e as faculdades públicas e privadas instaladas no município.
(*)Fernando Soares Campos é escritor, autor de "Fronteiras da Realidade - contos para meditar e rir... ou chorar" - Chiado Editora - Portugal - 2018.
.

sábado, 26 de maio de 2018

88ª Feira do Livro de Lisboa

.

88ª Feira do Livro de Lisboa

26.05.2018 | Fonte de informações: Pravda.ru

Neste ano mais 25 editoras estrearão suas participações na 88ª Feira do Livro de Lisboa. O número de pavilhões também será maior do que no ano passado, serão instalados mais oito novos pontos de exposição e venda de livros, totalizando 294 pavilhões, com a participação de 626 editoras e chancelas. O público terá 23 mil metros quadrados para circular em busca de seus autores preferidos, serão três mil a mais do que no ano passado.

O escritor cabo-verdiano Germano Almeida, vencedor da 30ª edição do Prêmio Camões, 2018, marcará presença, mantendo contato com os leitores e autografando seus livros, o que ocorrerá no último fim de semana. Destacamos Germano Almeida por ter sido ele, neste ano, o vencedor do mais importante prêmio para autor de língua portuguesa pelo conjunto da sua obra; entretanto, durante todo o evento, o público contará com a presença de muitos outros escritores nacionais e estrangeiros.   

Se você vai estar em Lisboa entre 25 de maio e 13 de junho, visite a 88ª Feira do Livro de Lisboa, que se realiza no Parque Eduardo VII.  A entrada é gratuita e os horários são os seguintes: de segunda-feira a quinta-feira das 12h30 às 22h00; sexta-feira das 12h30 às 00h00; sábados das 11h00 às 00h00; e domingos e feriados das 11h00 às 22h00. 

Aproveite e dê uma chegada ao pavilhão D37, o stand da Chiado Editora, que acaba de publicar o livro de contos "Fronteiras da Realidade - contos para meditar e rir... ou chorar", do escritor brasileiro Fernando Soares Campos, ativista em defesa da liberdade de expressão e das causas sociais, um autor engajado nas questões que envolvem garantias dos direitos fundamentais, direitos e deveres individuais e coletivos. Dono de grande acervo de obras literárias, muitos dos seus trabalhos estão publicados aqui no Portal Pravda.


.

sábado, 12 de maio de 2018

O Imperador Magá no portão do Paraíso

.



O Imperador Magá no portão do Paraíso

por Fernando Soares Campos
 
"Eu tenho o governador, os três senadores, 95% dos prefeitos, 30 dos 39 deputados federais, e me mostre alguém que tenha um poder como este onde faz política." 
Senador Antonio Carlos Magalhães, (1927-2007),
referindo-se à força política que possuía no Estado da Bahia. 
"Valor Econômico", 02/05/2000.
 
Morre o Imperador Magá, cujo nome de batismo foi Antônio Carlos, do clã dos Magalhães da Bahia de Todos os Santos e Pecadores Aliados, também conhecido como ACM ou Toninho Malvadeza, dono daquela capitania hereditária no Nordeste do Brasil. O falecido se apresenta nos portões do Paraíso, acreditando merecer o descanso eterno entre os justos. 
 
São Pedro consulta o Livro da Vida e acaba informando àquela alma senadora que os registros sobre a sua passagem na Terra não lhe são favoráveis. 
 
São Pedro: — Vossa ex-Excelência queira nos desculpar, mas aqui no Livro da Vida consta que o senhor cometeu seis dos sete pecados capitais: gula, luxúria, avareza, ira, soberba e vaidade, portanto não podemos admitir que uma pessoa assim possa usufruir os mesmos direitos que, por exemplo, Madre Teresa de Calcutá conquistou. Não dá para admiti-lo aqui entre os justos. Sorry. 
 
O Imperador Magá faz a sua defesa: 
 
Magá: — Como meu santo falou, cometi seis dos sete pecados capitais: gula, luxúria, avareza, ira, soberba e vaidade, mas não pequei pelo sétimo, a preguiça. Trabalhei feito um louco para obter meu primeiro mandato de deputado federal, labutei ainda mais para assumir a governança do meu Estado em três mandatos, mas nem mesmo o primeiro, uma concessão do governo militar, foi tão fácil de conseguir. Pra chegar ao Senado, Vossa Santidade sabe quanto suor temos que verter. Lá embaixo me ensinaram que quem trabalha merece descanso, assim sendo, na condição de secretário de Jota Cristo, Vossa Apostólica criatura conhece o Sermão da Montanha, e lá foi dito: "Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus"E, pelo muito que trabalhei, sei que sou merecedor de grande recompensa.
 
São Pedro: — É um caso a ser analisado minuciosamente, é um daqueles que a gente precisa consultar o Chefe, pois, apesar dessa sua virtude, a de ser um trabalhador incansável, aqui está escrito que o senhor apoiou uma mórbida ditadura militar, em que muitos inocentes foram torturados e até friamente assassinados.
 
Magá: — Não nego, pois não sou de negar o que realmente fiz. Posso ter apoiado essa tal ditadura, mas depois dela, já que não quiseram fazer de mim o chefe da nação brasileira, eu poderia ter mandado matar o presidente da República, mas não mandei; poderia ter mandado, como Hitler fez com outros povos, muitos milhões de nordestinos para os fornos crematórios, mas não mandei; poderia ter invadido o Piauí, como Bush no Iraque, mas não invadi; poderia ter transformado Sergipe em territórios ocupados pelo meu reino, mas não transformei... Todo mundo sabe que uma das maiores virtudes do ser humano está no fato de se esforçar e evitar o cometimento de atos que possam trazer dor e sofrimento ao seu semelhante. E assim eu me comportei na maioria das vezes em que sentia vontade de livrar alguém do inferno terrestre e mandá-lo para o inferno além-túmulo...
 
São Pedro (cofiando a barba): — Hum! Deixa eu dar mais uma espiadinha no Livro da Vida  — folheia algumas páginas e se detém no capítulo "Brasil", corre o dedo verificando os subitens "Bahia" e "Governos", até identificar novamente a biografia de ACM —. É, aqui só fala dos pecados cometidos, não cita aqueles que, por algum motivo que só Deus sabe, foram evitados ou impossibilitados de serem realizados...
 
ACM: — Então, com a vossa autoridade papal, é possível que já possa reconhecer que tenho cá os meus méritos...
 
São Pedro: — Devagar com o andor, que o santo é de barro! O nosso regulamento interno estabelece que, para ser admitido nesta sublime morada do Senhor, a alma pleiteante deve ter sido muito corajosa nos tempos que viveu na Terra...
 
ACM (rindo): — Se fosse só por isso, meu santo, a gente nem precisava ter jogado tanta conversa fora, pois todo mundo sabe que fui uma pessoa arrojada, fiz da coragem o lema de minha vida.
 
São Pedro: — Não duvido, aqui diz até que chegou esmurrar a mesa do gabinete do presidente da República, com ele sentado do outro lado.
 
ACM: — Mas isso aí não tem muito merecimento, pois o presidente era o FHC, um frouxo, que comia na minha mão. Eu já disse numa entrevista que, com ele, só não fiz sexo — gargalhando.
 
São Pedro: — Contenha-se, ex-Excelência Senatorial, guarde essas suas indiscretas afirmações para quando estiver conversando com seus parceiros demistas e tucanos.
 
ACM: — Como assim, venerável criatura?! Se vou ser admitido no Paraíso, provavelmente, a partir de agora, não terei mais oportunidade de estar cara a cara com nenhum daqueles corruptos! Por tudo que aqui discutimos, podemos concluir que tenho direito à entrada no Céu garantido pela Legislação Divina, que estabelece a conduta moral de ser humano na Terra...
 
São Pedro: — Pode ser...
 
ACM: — E, além de tudo que discutimos, uma coisa está chamando a minha atenção.
 
São Pedro: O quê? 
 
ACM: — Olha lá, meu santo — aponta para um velhinho que passeia pelos jardins do Éden. — Tá vendo aquele velhinho ali? 
 
O Divino Porteiro do Paraíso avista o velhinho passeando e tocando sua harpa romana. 
 
São Pedro: — Sim, é o Tancredo Neves. E daí? 
 
ACM: — E daí que ele foi advogado e político. Chegou até a ser eleito presidente da República por um colégio eleitoral. Então, se ele entrou, eu também tenho meus direitos. 
 
São Pedro (agora coçando a barba): — Eu já falei pra Jesus que a jurisprudência vai acabar transformando isso aqui num inferno! 
 

.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Crônicas da minha aldeia

.


Crônicas da minha aldeia

por Fernando Soares Campos

"Fale de sua aldeia e estará falando do mundo" - Leon Tolstói

O próprio Tolstói também disse: “Quando as pessoas falam de forma muito elaborada e sofisticada, ou querem contar uma mentira ou querem admirar a si mesmas. Ninguém deve acreditar em tais pessoas. A fala boa é sempre clara, inteligente e compreendida por todos.” 

As histórias de batalhas e guerras, assim como as da política, das sociedades, das religiões, das revoluções, das civilizações, enfim, as histórias da humanidade, contadas pelos vencedores, têm quase sempre um falso brilho, em que se entremeiam ações supostamente heroicas com um aspirado moral superior e pretendida moral alicerçada em consagrados princípios éticos. Geralmente são redigidas de forma pretensamente "sofisticada", em linguagem rebuscada e até mesmo com argumentos inconclusivos, privando o leitor de uma clara compreensão, e este, por sua vez, costuma interpretar os textos sob suas ideologias e valores, num faz-de-conta que entendeu.

Porém, lendo o livro de crônicas "Santana: vivendo e contando histórias", do Dr. José Avelar Alécio, pediatra, com especialização em Saúde Pública, Medicina da Família e Homeopatia, lançado ano passado pelo SWA Instituto Educacional Ltda., reconhecemos, nas considerações de Tolstói, uma completa identificação com os escritos do autor, que se dedica a traçar alguns quadros históricos de nossa "aldeia", a cidade de Santana do Ipanema, localizada no Médio Sertão de Alagoas. Avelar o faz de forma "clara, inteligente e compreendida por todos", como bem recomenda o escritor russo.

"Fale de sua aldeia e estará falando do mundo", leia as crônicas de José Avelar e estará lendo histórias do comportamento humano em qualquer parte do Planeta. Com uma grande diferença em relação aos historiadores oficiais: Avelar não tem o objetivo de elevar personalidades à condição de heróis, "com um aspirado moral superior e pretendida moral alicerçada em consagrados princípios éticos". Entretanto ele reconhece naturalmente as contribuições de muitos santanenses para o progresso da cidade, nos âmbitos educacional, cultural, empresarial e, acima de tudo, moral, com exemplos de empreendedorismo social e luta reivindicatória. 

Os textos do médico-escritor José Avelar despertam o leitor... melhor, conduz o leitor para além da mera curiosidade. Pessoas como eu, nascidos e criados naquela cidade, testemunhas de muitos dos casos contatados no livro, em determinados momentos ficamos absortos, interrompemos a leitura e meditamos sobre nosso próprio papel na sociedade, seja na condição de pai, filho, amigo, estudante, trabalhador ou, como a maioria dos meus amigos, retirantes, ausentes, saudosos, aventureiros, dispersos pelo mundo afora.

No primeiro capítulo, intitulado "Santana dos anos sessenta e setenta", me detive na crônica "Os Cinemas de Santana". Tivemos três cinemas na cidade: O Cine Glória (o mais antigo), o Alvorada e o Cine Vanger. O primeiro ficava próximo à minha casa, no bairro do Monumento, o segundo, no centro da cidade, e o terceiro no bairro da Camoxinga. 

Avelar lembra que "O sinal sonoro que antecedia o início da sessão era aguardado por todos". Chamávamos de "prefixo". No Cine Glória tal prefixo era executado ao som de "Tema de Lara", um dos primeiros filmes exibidos ali, quando o cinema passou da propriedade de seu Domingos, para seu Tibúrcio Soares. Este foi o mais maravilhoso de todos os donos de cinema da cidade: bastava iniciar a sessão, cinema semi-lotado, a gente, guris na faixa de 10 a 12 anos, se esticava na bilheteria e pedia para entrar de graça. Ele nunca negava: fazia sinal para o porteiro e mandava entrar um por um. Em casa, geralmente a gente só recebia "verba" para uma sessão semanal; na maioria das vezes, para a matinê dos domingos.

Lembro-me de ter ido assistir a alguns filmes em companhia de minha mãe, mas o que mais me marcou foi "Diana, a caçadora". Em determinado momento, quando eu já estava ficando excitado com a imagem de uma mulher nua na tela (a atriz posando para um escultor), minha mãe estendeu o braço e tapou minha vista com a mão. 

Depois de pesquisa sobre esse filme no Google, encontrei o seguinte texto : "É sintomático que o primeiro artigo de Drummond tenha sido sobre um filme — Diana, a caçadora — em que discute a questão da moral no cinema, pois essa Diana aparece totalmente nua, tendo provocado severos protestos, tanto de jovens quanto de velhos, no Cinema Pathé, de Belo Horizonte". 

O moderníssimo Cine Alvorada, tela panorâmica, produções em CinemaScope, o fino do fino. Um empreendimento do generoso Tibúrcio Soares. Avelar lembra que nas paredes da sala de exibição existiam pinturas modernas retratando aspectos regionais. O pintor foi meu amigo e vizinho José Lima, Zezinho de dona Maria Ourives, irmão de Alberto "Benga", uma família de artistas.

Finalmente o Cine Vanger. Este não tinha lá uma boa reputação, pois funcionava numa garagem e apelava para exibições de filmes pornôs importados, os chamados "suecos". Acredito que, por isso mesmo, Avelar, que morava nas proximidades daquele cinema, deixa bem claro: "Nunca assisti a filme no Cine Vanger" (risos).

"Santana: vivendo e contando histórias", um livro de crônicas para santanenses ou qualquer outro habitante do Planeta, pois, segundo Leon Tolstói, "Fale de sua aldeia e estará falando do mundo".

Obrigado, Avelar, pela belíssima e importante obra.

.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Brilhantes mentes sombrias do Majestoso Império de Absurdil

.



Brilhantes mentes sombrias do Majestoso Império de Absurdil

por Fern
ando Soares Campos

Ali, precisamente em alguma área entre as regiões ártica e antártica, existia um reino do tipo que só conhecemos em contos de fada: o extraordinariamente vulgar Majestoso Império de Absurdil, governado, durante muitos séculos, pela dinastia Bundaleone. Ferdinando Bundaleone XXIV, o último imperador de Absurdil, era um monarca tão vaidoso que obrigou os seus súditos a reverenciá-Lo até nos pronomes oblíquos.

Sua Presunçosa Majestade parecia feliz com os resultados da política econômico-financeira do reino, seu fabuloso tesouro pessoal era invejado pelos soberanos de todo o mundo. Contudo Sua Faustuosa Majestade andava com o seu augusto saco cheio da monótona rotina: desvirginar as donzelas debutantes, assistir a enforcamento de ladrão de galinha, praticar tiro ao alvo em escravos e alimentar os crocodilos do fosso do castelo com bebês recém-nascidos, como forma de controle da natalidade.

Quase todos os dias, Bundaleone visitava o Museu Imperial, mesmo que fosse apenas para uma rápida passagem pelo setor Cabeças dos Traidores, onde Sua Macabra Majestade apreciava os rostos aterrorizados de inimigos decapitados — as cabeças eram mergulhadas em uma solução conservante e exibidas em vasos cristalinos.

Enfadado com a mesmice do seu dia-a-dia, Sua Entediada Majestade mandou vir à Corte o seu ministro da Ignorância e Barbaria e ordenou que este lhe apresentasse um eficiente programa de manutenção do analfabetismo, pois um relatório do Serviço Absurdileiro de Informações e Delação Obrigatória (Sabido) indicava suspeitas de que alguns trabalhadores estavam aprendendo a ler e escrever. O ministro retirou-se garantindo à Sua Estúpida Majestade que iria intensificar todos os esforços do seu ministério para elaborar o mais eficiente plano de incremento da ignorância e barbaria de todos os tempos, em Absurdil.

Em seguida, Bundaleone convocou o seu ministro das Desinformações. Deste, ele exigiu que fossem tomadas providências para conter a queda de audiência do único canal de televisão do reino, a estatal TV Cubo. Relatório ultra-secreto do Sabido informava à Sua Esclarecida Majestade que, nas segundas-feiras, apenas 99,99% dos televisores permaneciam ligados até a meia-noite. O ministro tranquilizou Sua Preocupada Majestade, garantindo-lhe que apresentaria um infalível plano, desenvolvido em convênio com o Ministério da Aculturação, para obrigar todos os súditos a assistirem à programação da emissora estatal, durante todo o tempo em que não estivessem trabalhando no corte e moagem de cana, a monocultura do vulgarmente extraordinário Majestoso Império de Absurdil.

Finalmente, Sua Injustiçosa Majestade fez vir à sua presença o ministro da Injustiça. A este Bundaleone cobrou mais empenho no desrespeito aos direitos humanos; do contrário, ele próprio, o ministro, seria também chicoteado em praça pública, como qualquer dos súditos que eram mensalmente punidos por terem nascido miseráveis e não conseguirem alcançar o status de pobre ao se tornarem adultos, conforme determinava a lei; feito que qualquer trabalhador poderia facilmente realizar, bastando apenas triplicar o seu volume diário de corte de cana, durante a mesma jornada de trabalho a que estava submetido desde os cinco anos de idade: 20 horas diárias.

No dia seguinte os maquiavélicos ministros compareceram à Corte com os mais sórdidos planos. Os programas propostos para o incremento da ignorância e barbaria, desinformação e violação dos direitos humanos eram tão repulsivos que encantaram Sua Repugnante Majestade Bundaleone XXIV.

— Jamais, em nenhum outro reino, foi implementado um plano tão abominável! — festejou Sua Execrável Majestade. — A ignorância e a injustiça finalmente triunfarão para sempre no meu reino! — sentenciou.

Emocionado, Bundaleone observou seus desprezíveis assessores e sentiu a necessidade de recompensá-los pelos seus esforços. Súbito, brotou uma brilhante idéia sombria da saudável mente psicótica de Sua Mórbida Majestade. Assim, Ferdinando Bundaleone XXIV informou aos seus sabujos auxiliares que lhes prestaria uma homenagem sem precedente na História do Majestoso Império de Absurdil.

Os ministros regozijaram-se com o vergonhoso reconhecimento do soberano desavergonhado e, num gesto coreograficamente ensaiado, ajoelharam-se e, como mandava a tradição, beijaram os pés do escroto monarca, antecipadamente agradecendo-lhe a homenagem que lhes seria prestada.

Bundaleone mandou construir um suntuoso salão anexo ao Museu Imperial. Para a inauguração deste novo espaço cultural, Sua Diabólica Majestade mandou decapitar os três ministros autores dos eficientes planos de incremento da ignorância e barbaria, desinformação e injustiça. As cabeças dos homenageados, mergulhadas em solução conservante, acondicionadas em enormes vasos cristalinos, inauguraram a seção Brilhantes Mentes Sombrias do Majestoso Império de Absurdil.

***
Moral indecorosa: Em alguns casos, é prudente mandar representantes a eventos em que certos governantes pretendam homenageá-lo. 


.