16/12/2013
O andarilho se transforma e permanece idêntico a si mesmo
Uma antiga (e idílica) tradição utópica parece encontrar a reconciliação dos homens consigo mesmos Na natureza selvagem (2008), filme de Sean Penn.

Uma antiga (e idílica) tradição utópica parece encontrar
a reconciliação dos homens consigo mesmos Na natureza selvagem (2008),
filme dirigido por Sean Penn. Eis a conclusão a que chega Christopher
McCandless, jovem promissor e recém-graduado que abre mão de sua carreira para
se transformar em Alexander Supertramp, o andarilho que se moverá de leste a oeste
dos Estados Unidos para, ao fim e ao cabo, encontrar Utópolis (e seu túmulo) no
Alasca.
Romper com o materialismo coisificado do capitalismo tentando encontrar uma pureza natural, um Éden ainda não conspurcado, parece ser a leitura daqueles que não refletem dialeticamente. Como se a busca pelo “exótico”, pelo “totalmente outro”, não fosse inteiramente mediada pela civilização que asfalta a natureza e a transforma em insumo; como se o materialismo pudesse ser superado fora de suas contradições – como se o sistema mundo do capital permitisse a existência de um “fora”. (A não ser que falemos daquilo que já não vale a pena ser explorado.)
Feitas essas ressalvas, gostaria de convidar o leitor e a leitora para refletirmos sobre um matiz outro que o filme de Sean Penn traz à tona: a distância que propicia a reflexão sobre si e o encontro consigo mesmo. (Um eu que, na verdade, já não conseguirá coincidir consigo mesmo durante e após sua jornada.)
Os andarilhos não encontramos apenas o novo e o outro quando cruzamos o Atlântico ou nos embrenhamos pela Cordilheira dos Andes. O distanciamento de nosso epicentro parece cristalizar os conflitos, transformá-los em tipos ideais. Um velho provérbio chinês sentencia que o lugar mais escuro fica justamente embaixo da lâmpada. Mas, ora, a distância não arrefece a luz? Como é possível então que o deslocamento nos ajude a ressignificar a mágoa? Talvez os andarilhos sintamos a efetividade do fluxo das coisas com a locomoção. (O perdão também não significa deixar passar?) Quem muito se enraíza não pode abrir mão. A posse conforma o sentido (e o ressentimento) das relações. Os andarilhos temos mais chances de nos confrontar com um eu-outro na sucessão dos dias – um dia aqui, outro lá, acolá o tempo é nuançado pelo espaço; não à toa o mochileiro se surpreende:
− Será mesmo que só se passaram três meses da minha partida?
A filosofia durante séculos refletiu sobre o par (supostamente) antípoda que envolve o sujeito e o objeto. Como se pudéssemos pensar em entidades que se estruturam fora de relações. A pergunta “como você se chama?” vem sempre a posteriori. Como primeiramente fui chamado começa a me ensinar que o real é relacional. Sujeito-objeto, portanto. Quando olhamos para uma pedra, a pedra também nos confronta. O adjetivo pétreo deriva dessa relação que me traz a dimensão, a rugosidade – e o silêncio. É preciso encontrar a pedra em meio às camadas de mediação da minha experiência. O imediato, portanto, jamais nos apresenta a coisa em si. Os andarilhos temos a possibilidade de expandir a empiria quando reconhecemos, pela multiplicidade das vivências refletidas, que a pedra jamais coincide consigo mesma. A pedra – e os homens.
O adulto é um prolongamento da criança – ou sua mais completa ruptura? A disjuntiva “ou”, implicitamente resignada, cinde fossos entre as expectativas do menino e o realismo enregelado do pai de família. Não percebemos que há sempre pontes entre nossas identidades. O homem se transforma e permanece idêntico a si mesmo.
Quem melhor do que o andarilho pode sentir que as mesmas perguntas são postuladas de formas diversas? Apenas o dogmatismo que teme o movimento, a contradição e o movimento da contradição pode considerar que se trata das mesmas questões e das mesmas formas. Apenas a pedra insciente sobre si mesma permanece fiel à própria imutabilidade. É nesse momento que a relação sujeito-objeto nos revela o quanto nós projetamos sobre o mundo – e, reciprocamente, o quanto do mundo nos vai plasmando. Sujeito-objeto, eu-outro. Mundo.
O silêncio aterrador da natureza. O silêncio da insciência. Quando Christopher McCandless Alexander Supertramp começa a projetar sua vida sobre a estepe que o circunda, estamos diante da natureza social do homem. Ao conversar consigo mesmo, ao afagar a memória, os andarilhos descobrimos que, essencialmente, a consciência veda a solidão. No limite, sou um outro para mim mesmo. O pensamento sempre se configura em relação a algo. Sentir-se sozinho, então, é ter dificuldade para dialogar consigo mesmo.
Como é possível que alguém possa entender mais sobre o próprio pai ao estar distante dele? Talvez pelo fato de uma fronteira não ser mero marco arbitrário. Ela nos cinde, ela nos divide, ela nos desafia com o pensamento sobre a mudança – e a permanência. Se a distância persiste, a proximidade não cicatrizou. Eis a reflexão que o distanciamento bem pode discernir – e aceitar. E, aqui, aceitação não quer dizer resignação. Na verdade, a aceitação pode ser um grande mote para a mudança. A percepção das formas efetivas pelas quais as contradições se apresentam nos pode levar, no contraste com a realidade, a novas tentativas de contraposição. É por isso que o andarilho não quer e não pode parar. A sanidade de sua neurose que não se quer cooptada depende da utopia que se move.
Para Tatiana Lima Faria
___
Flávio Ricardo Vassoler é escritor e professor universitário. Mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é autor de O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios). Todas as segundas-feiras, às 19h, apresenta, ao vivo, oEspaço Heráclito, um programa de debates políticos, sociais, artísticos e filosóficos com o espírito da contradição entre as mais variadas teses e antíteses – para assistir ao programa, basta acessar a página da TV Geração Z: www.tvgeracaoz.com.br. Periodicamente, atualiza oPortal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, e o Subsolo das Memórias,www.subsolodasmemorias.blogspot.com, páginas em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.
Romper com o materialismo coisificado do capitalismo tentando encontrar uma pureza natural, um Éden ainda não conspurcado, parece ser a leitura daqueles que não refletem dialeticamente. Como se a busca pelo “exótico”, pelo “totalmente outro”, não fosse inteiramente mediada pela civilização que asfalta a natureza e a transforma em insumo; como se o materialismo pudesse ser superado fora de suas contradições – como se o sistema mundo do capital permitisse a existência de um “fora”. (A não ser que falemos daquilo que já não vale a pena ser explorado.)
Feitas essas ressalvas, gostaria de convidar o leitor e a leitora para refletirmos sobre um matiz outro que o filme de Sean Penn traz à tona: a distância que propicia a reflexão sobre si e o encontro consigo mesmo. (Um eu que, na verdade, já não conseguirá coincidir consigo mesmo durante e após sua jornada.)
Os andarilhos não encontramos apenas o novo e o outro quando cruzamos o Atlântico ou nos embrenhamos pela Cordilheira dos Andes. O distanciamento de nosso epicentro parece cristalizar os conflitos, transformá-los em tipos ideais. Um velho provérbio chinês sentencia que o lugar mais escuro fica justamente embaixo da lâmpada. Mas, ora, a distância não arrefece a luz? Como é possível então que o deslocamento nos ajude a ressignificar a mágoa? Talvez os andarilhos sintamos a efetividade do fluxo das coisas com a locomoção. (O perdão também não significa deixar passar?) Quem muito se enraíza não pode abrir mão. A posse conforma o sentido (e o ressentimento) das relações. Os andarilhos temos mais chances de nos confrontar com um eu-outro na sucessão dos dias – um dia aqui, outro lá, acolá o tempo é nuançado pelo espaço; não à toa o mochileiro se surpreende:
− Será mesmo que só se passaram três meses da minha partida?
A filosofia durante séculos refletiu sobre o par (supostamente) antípoda que envolve o sujeito e o objeto. Como se pudéssemos pensar em entidades que se estruturam fora de relações. A pergunta “como você se chama?” vem sempre a posteriori. Como primeiramente fui chamado começa a me ensinar que o real é relacional. Sujeito-objeto, portanto. Quando olhamos para uma pedra, a pedra também nos confronta. O adjetivo pétreo deriva dessa relação que me traz a dimensão, a rugosidade – e o silêncio. É preciso encontrar a pedra em meio às camadas de mediação da minha experiência. O imediato, portanto, jamais nos apresenta a coisa em si. Os andarilhos temos a possibilidade de expandir a empiria quando reconhecemos, pela multiplicidade das vivências refletidas, que a pedra jamais coincide consigo mesma. A pedra – e os homens.
O adulto é um prolongamento da criança – ou sua mais completa ruptura? A disjuntiva “ou”, implicitamente resignada, cinde fossos entre as expectativas do menino e o realismo enregelado do pai de família. Não percebemos que há sempre pontes entre nossas identidades. O homem se transforma e permanece idêntico a si mesmo.
Quem melhor do que o andarilho pode sentir que as mesmas perguntas são postuladas de formas diversas? Apenas o dogmatismo que teme o movimento, a contradição e o movimento da contradição pode considerar que se trata das mesmas questões e das mesmas formas. Apenas a pedra insciente sobre si mesma permanece fiel à própria imutabilidade. É nesse momento que a relação sujeito-objeto nos revela o quanto nós projetamos sobre o mundo – e, reciprocamente, o quanto do mundo nos vai plasmando. Sujeito-objeto, eu-outro. Mundo.
O silêncio aterrador da natureza. O silêncio da insciência. Quando Christopher McCandless Alexander Supertramp começa a projetar sua vida sobre a estepe que o circunda, estamos diante da natureza social do homem. Ao conversar consigo mesmo, ao afagar a memória, os andarilhos descobrimos que, essencialmente, a consciência veda a solidão. No limite, sou um outro para mim mesmo. O pensamento sempre se configura em relação a algo. Sentir-se sozinho, então, é ter dificuldade para dialogar consigo mesmo.
Como é possível que alguém possa entender mais sobre o próprio pai ao estar distante dele? Talvez pelo fato de uma fronteira não ser mero marco arbitrário. Ela nos cinde, ela nos divide, ela nos desafia com o pensamento sobre a mudança – e a permanência. Se a distância persiste, a proximidade não cicatrizou. Eis a reflexão que o distanciamento bem pode discernir – e aceitar. E, aqui, aceitação não quer dizer resignação. Na verdade, a aceitação pode ser um grande mote para a mudança. A percepção das formas efetivas pelas quais as contradições se apresentam nos pode levar, no contraste com a realidade, a novas tentativas de contraposição. É por isso que o andarilho não quer e não pode parar. A sanidade de sua neurose que não se quer cooptada depende da utopia que se move.
Para Tatiana Lima Faria
___
Flávio Ricardo Vassoler é escritor e professor universitário. Mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é autor de O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios). Todas as segundas-feiras, às 19h, apresenta, ao vivo, oEspaço Heráclito, um programa de debates políticos, sociais, artísticos e filosóficos com o espírito da contradição entre as mais variadas teses e antíteses – para assistir ao programa, basta acessar a página da TV Geração Z: www.tvgeracaoz.com.br. Periodicamente, atualiza oPortal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, e o Subsolo das Memórias,www.subsolodasmemorias.blogspot.com, páginas em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.
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Na Natureza, os diferentes não simplesmente "se atraem", eles "se completam", e os iguais não "se repelem", eles "se expandem". O mesmo se dá (apesar de algumas aparências contrárias) nas relações humanas.
Na Natureza, os menos nobres não "se sacrificam" para proteger os mais nobres; eles se unem a estes e se tornam igualmente nobres. O mesmo ainda NÃO se dá nas relações homanas, em que os "menos nobres", até o momento, se sacrificam pelos "mais ou menos nobres". (Fernando Soares Campos, Editor-Assaz-Atroz-Chefe.)
As pedras também amam
(Texto revisado e corrigido em alguns trechos, visto que, quando da publicação original, este autor não percebeu alguns erros de continuidade)
Sem a diferença entre os seres, não
haveria por que se falar em evolução. Todos comungariam com o mesmo pensamento
e com mesma consciência. Seria a inércia total.
Por Fernando Soares Campos
Há quem creia na existência de um Deus fora de nós, uma psique
ultra-sublime, ou extra-sublime, o criador e fabricante de psiques etéreas (as
almas), dotando-lhes de corpos materiais para se locomover e se comunicar entre
si por um curto período nesta condição; em seguida, depois de esgotado o prazo
de validade (a morte) da máquina material, as psiques sobreviveriam
independentes, livres das máquinas tangíveis.
Nesse estado, o criador/fabricante separaria as psiques que funcionaram
bem, obedecendo às regras de sua empresa, das que se comportaram mal, as que
infringiram as regras. As primeiras permaneceriam sob seus eternos cuidados; as
segundas sofreriam eternamente as conseqüências de não haverem se comportado
bem. Ou expurgariam, por um longo período, suas infrações menores, passando a
merecer habitar entre as psiques obedientes às regras da empresa divina.
É como se as psiques fabricadas pelo seu criador (criação teria sido
apenas a idéia inicial, a partir daí ocorreria a produção em série, e as
psiques seriam produzidas e dotadas de máquinas conforme modelos disponíveis:
as etnias) fossem submetidas a um período de teste de qualidade, através dos
quais o fabricante avaliaria a resistência, capacidades e, principalmente,
comportamentos éticos.
Porém, no processo de fabricação (reprodução) das máquinas que serviriam
de teste para as psiques, às vezes ocorreriam acidentais falhas e as máquinas
apresentariam defeitos de fabricação: membros atrofiados, órgãos debilitados,
ou mesmo a falta de algumas dessas peças, obrigando a que algumas psiques
utilizassem suas máquinas deficientes ou desistissem da prova ali mesmo, no
final da linha de produção. Outras, durante a fase de provas, sofriam
acidentes, os quais encerrariam seus testes muito antes de esgotar o prazo de
validade da máquina.
Vem daí a idéia de que a nossa massa encefálica é tão-somente o veículo
de um suposto ser psíquico e que existiria “totalmente” desvinculada desse hipotético ser etéreo. É como
se o psiquismo fosse um ente imaterial cuja dependência do material denso fosse
apenas o de se fazer comunicar como outros seres psíquicos, igualmente etéreos,
que usariam suas próprias máquinas durante a fase de teste (a existência
encarnada). Quem assim pensa acredita que a massa encefálica tem apenas a função
de veicular as manifestações mentais, espirituais, voluntárias ou programadas
para manter a máquina (as atividades involuntárias).
Religiosos acreditam que a “alma do corpo
material” seja alguma coisa que possa, em outra
dimensão cósmica, manifestar-se independente, livre, dissociada de qualquer
tipo de matéria. Isso provavelmente decorre do fato de que nós consideramos a
matéria bruta um elemento inferior, um objeto tangível, identificável pelos
sentidos básicos que a alma manifesta quando está utilizando a máquina humana,
matéria visível através dos olhos, os canais materiais; enquanto a alma, a
psique, o psiquismo seria “imaterial”, apesar de ser um ente sublime, intocável,
venerável, a única manifestação divina, o sagrado, acho que até mesmo para os
ateus, que acreditam apenas na dissolução desse ser.
Ainda não nos desvinculamos das sensações que a matéria densa
proporciona à mente aparentemente “aprisionada”, temos a impressão de que o ser eminentemente
psíquico parece somente se manifestar usando a matéria densa, mas que um dia se
“libertará” dessa matéria (a
morte do corpo físico). Este é um estágio do ser ainda bastante rudimentar,
imbuído de preconceitos em relação à “matéria bruta”. Mero preconceito.
Entretanto este ser “etéreo” está evoluindo e alcançará estágios em que saberá
distinguir perfeitamente as manifestações mentais totalmente “desvinculadas” de um corpo de “matéria densa”, identificará a
matéria em seus múltiplos estados, suas funções e perceberá como alcançou
autoconsciência, como ocorreu a sua evolução. Perderá o preconceito e
considerará a matéria “bruta” tão-somente um
estado natural, igualmente “divino”, quando comparada ao “ente etéreo”, a psique “imaterial”. A matéria “bruta” é a concentração de
elementos do Universo conhecido. O ente psíquico, a alma, nunca se manifestará
independente do ente material, mesmo porque não há como separar. Porém o
ente psíquico é eterno, indestrutível, evolui; a matéria “bruta” é eterna, indestrutível,
transforma-se.
[N.A. para esta republicação: Veja nisso, caro leitor, uma esperança:
o Nada não existe, simplesmente porque o Nada é exatamente isso: Nada. Eu
acreditei, ainda criança, em Lavoisier: "Na Natureza, nada se cria nada se
perde, tudo se transforma". Se Lavoisier se referia à Natureza como sendo
apenas o mundo material, mas ele conhecia os fenômenos produzidos por essa
Natureza, e vemos hoje que também esses fenômenos se transformam na medida em
que a matéria se transforma: a matéria poluída se transforma, se expande em
processo físico e reage quimicamente; e os fenômenos evoluem ou involuem (nesse
caso, consulte a einsteiniana Lei da Relatividade, ou avalie baseado nos
valores que cada um de nós cultiva). Portanto, caro materialista, se você
considera que o religioso-fanático está errado quando adora uma imagem
material, acreditando que ela foi criada por um ente puramente etéreo, divino,
então, em verdade vos digo: você está igualmente errado quando pensa que o ser
psíquico é criação do ser material e o coloca em seu quimérico altar, adorando-o
até a morte: São Intelectualismo! Santa Erudição! Rogai por nós, que recorremos
a vós!]
Deus, um conceito.
O conceito que define a palavra “Deus” como um ser divino, eterno, infinito, princípio
absoluto de todas as coisas, está intrínseco ao entendimento de três condições
fundamentais: onipresença, onipotência e onisciência. Somente através destas
condições reconhecemos a Perfeição de Deus, ou o Deus Perfeito.
Reino Mineral
Na matéria bruta, densa, aparentemente inerte, observamos a presença de
Deus através da manifestação “Em si” (onipresença), a matéria tangível. A manifestação “Para si” (onipotência) pode
ser observada através da expansão da matéria bruta, movimento e, com ele, o
surgimento da noção dimensional, o espaço. E o “Por si” revela-se através do Calor, que corresponde à
alma, à psique (onisciência). É o estado mais rudimentar do ser inteligente, o
qual caracteriza o chamado Reino Mineral. Na consciência humana, este é o que
se pode entender como o estado mais atrasado na escala de evolução dos princípios
inteligentes na Natureza.
A matéria que reconhecemos através dos elementos do chamado Reino
Mineral, em simples estado de expansão, não tem consciência de seu trabalho
fundamental: movimento e ocupação do espaço (ela é apenas “Em si”). Portanto não teria
consciência de “tempo decorrido”. É a matéria chamada “inorgânica”. Entretanto nela
consideramos a existência do potencial (onipotência de qualquer matéria, o “Por si”) e uma alma (a
essência, onisciência, pois é tudo que a matéria precisa “Para si” nesse estado), que,
de tão primitiva, não podemos chamar de psique, apesar de promover uma
atividade (movimento e ocupação de espaços: a expansão) regida por um princípio
inteligente, a causa motora. Neste caso específico, podemos reconhecer o Calor
como essa causa motora. Temos, assim, a máquina (os elementos tangíveis da
matéria) e a sua psique (o Calor), realizando um trabalho (a expansão:
movimento e espaço).
Essa é a matéria bruta, a mais rudimentar entre as matérias, que, na
verdade, existe em infinitos estados e porções: infinitos se considerarmos que
o Nada é Tudo que está além do nosso poder cognitivo. O conceito de um ser ao
alcance dos nossos sentidos imediatos, no estado evolutivo em que nos
encontramos, é, portanto, de coisa finita (que tem começo e fim). Por isso
mesmo, até este momento de nossa evolução, não podemos nem mesmo imaginar
algumas “formas” de matéria, mas
podemos imaginar suas existências, seus espaços, suas dimensões, por dedução,
indução, hipótese, inferência .
A matéria densa, expandindo-se, portanto criando a noção de
movimento/espaço, sem autoconsciência de tempo, assume diversos estados que
partem do extremamente sólido ao gasoso (matéria em estados tangentes). E do
gasoso ao material energético (sensorial bruto, possível de impressionar os
cinco sentidos primários de um ser humano; exemplo: eletricidade). No estado
energético sensorial bruto, as reações podem ser apreciadas a olho nu, ou
através de aparelhos. Porém a matéria “Em si” possui muitos campos de fuga: a troca de energia
entre os seus diversos estados; umas se sacrificando [se unindo] pela
sobrevivência das outras (seleção natural), pólos: positivo e negativo. Nesse
estágio, pólos diferentes se atraem [se completam], pólos iguais se
repelem [se expandem], simplesmente para manter a vida, para manter
a troca. É a solidariedade universal no seu mais alto grau.
Reino Vegetal
Da experiência do “Em si” (onipresença), o “Para si” (a onipotência) cria
novos estados da matéria: porções individualizadas e organizadas em sistemas
dotados de razoável independência: a matéria orgânica vegetal, seres vivos sem
autonomia para locomoção, porém apresentando uma forma de expansão acelerada e
evolutivamente mais inteligente, o Por si (onisciência). Neste estado, a alma,
a psique, da matéria-indivíduo-vegetal possui uma rudimentar consciência de si,
pois o trabalho (movimento, ocupação do espaço, a expansão) lhe confere uma
avançada noção de “tempo” (ciclo de vida e
morte). A matéria-indivíduo-vegetal, através de seus instrumentos de evolução, “aprende” a sobreviver, troca
informações mais precisas com o universo.
No reino vegetal, a matéria já se expressa de forma mais inteligente: o
Em si e o Para si já podem ser observados em um só conjunto: o tangível (massa)
e o estético (formado pela diversidade de seus componentes). O Por si já
apresenta maior complexidade, pois, além do Calor, como no estado mineral, faz
uso de outras faculdades: reações químicas, físicas, orgânicas e sistêmicas.
O Em si e o “Para si” lhe conferem uma manifestação mais
explícita da sua onipresença e a explosão da onipotência; e o “Por si” revela uma autoconsciência rudimentar,
consciência de tempo, do ciclo de vida e morte do corpo organizado.
Reino animal
As três qualificações fundamentais da presença de Deus, em seu conjunto
(onipresença, onipotência e onisciência), somente podem ser instintivamente
percebidas pela matéria a partir do momento em que a matéria densa libera
porções animais. O trabalho (ciência) se torna consciente, necessário à
sobrevivência e infinita procriação. É um estágio de evolução muito avançado em
relação aos reinos mineral e vegetal.
Espírito, alma, psique, psiquismo...
A causa espiritual está intrínseca à própria matéria. A matéria é
divina, a matéria é Deus, a matéria densa é a revelação da existência da
matéria espiritual. A matéria densa “aspira”, eternamente, à eterificação. A primeira “manifestação inteligente” da matéria é o MOVIMENTO. O movimento eterno em
busca da eterificação (até os diamantes “evaporam”). Certamente o calor gera o movimento, o CALOR é a
manifestação “mental” (metal) da matéria
densa, a “causa espiritual”. A causa espiritual não cria a matéria, ela é um
dos seus atributos divinos: Ser “Em si”, “Para si” e “”Por si”.
O “desejo” de ser etéreo, o
desejo de libertar-se, expandir-se (o universo está em eterna expansão), o “desejo” de evoluir.
Tudo parte da perfeição para a “imperfeição” (o caos) e daí para outra perfeição. Ou: tudo
parte da perfeição aparentemente inerte (“Em si”, onipresença) para a perfeição dinâmica (“Para si”, onipotência),
passando por infinitos estágios. A infinitude dos estágios é o caminho da
evolução, que se processa de forma perfeita, eterna e perfeitamente caótica,
revelando o “Por si”, a onisciência.
Deus é perfeitamente imperfeito, pois a imperfeição de Deus é a busca
eterna pela perfeição. Ou seja: Deus evolui! Por isso mesmo nos é
incompreensível, exigimos a existência de um Deus fora de nós sem necessidade
de evoluir, imaterial. A palavra “deus” nos soa como o final, o finito, ao qual
chegaríamos de fora, contemplando-o, um Deus personalizado. Quando alcançamos o
estágio de seres pensantes, passamos a não conceber um Deus impessoal; neste
estágio, nos consideramos apenas a semelhança de deus, e assim ocorrerá até o
momento que assumirmos a divindade que emana de nós mesmos, na condição de
matéria-etérea, e não de ser etéreo, imaterial.
Matéria e espírito são indissociáveis. Na matéria densa: o calor
produzindo o movimento; o espírito movimentando a matéria; a manifestação
inteligente na matéria densa busca a evolução, está em permanente evolução.
O Nada é o repositório da ignorância humana. O Nada é onde tudo existe.
O Nada é onde consideramos existir um deus sublimado. Porém somos deuses em
evolução, manifestando-se através de matéria, já conquistamos a consciência
disso; e, quando a consciência aflora, Deus é a parte mais profunda dessa
consciência. O Nada é onde os deuses querem chegar, para, daí, recomeçarem,
como acreditam terem começado na matéria densa que viria do Nada. O Nada é onde
guardamos todos os mistérios, todos os dogmas de todas as ciências. O Nada é
revoltante, pois é a sua ilusória noção quem revela a nossa ignorância. O Nada
é estúpido! O Nada é o infinito. Como não podemos conceber o infinito do
universo que hoje se nos revela, odiamos o Nada, onde tudo recomeça.
Do nada para o tudo e daí para o nada. E do nada para o tudo...
Quando o ser se descobre responsável pela criação, quando se revela a
consciência de que se é Deus, onipresente, onipotente e onisciente, mas incapaz
de usar todos esses atributos da matéria, sente-se incapaz de estabelecer o
finito e infinito, o começo e o fim, o tempo e a eternidade, aí acaba por
separar a onipresença, onipotência e a onisciência. A onipresença nos parece
local, inerte. A onipotência transforma-se em sacrifício pela sobrevivência, ao
invés de potência para viver, sobreviver. A onisciência se reconhece como
evolutiva, mas não reconhece a si mesma como onisciente, apenas como ciente,
ciência, mero conhecimento. “Em si”, “Para si” e “Por si” parecem perdidos no universo da psique, mas está
vivo no universo da matéria em si. Nesse estado, o “Por si” discrimina o “Para si”, considerando-o “inferior”, mas aceita
manifestá-lo pela sobrevivência. Porém não quer admitir que é também o “Em si”, um ser
aparentemente rudimentar, o mais inferior dos seres.
A meu ver, fala-se de Deus, descreve-se Deus, acredita-se em deus,
sempre a partir da consciência de si, do grau de evolução que este deus alcançou
dentro de si. Se eu não acredito em Deus, na verdade eu não acredito no deus
que as manifestações de Deus estão equivocadamente descrevendo. O ateu se sente
deus, deus de um mundo que acabará consigo no momento em que a organização
material densa de que ele faz uso hoje deixar de funcionar como sistema. O ateu
não que ser um “Em si” (a aparente
inércia), nem mesmo somente “Para si” (o aparente movimento/espaço/tempo), pois ele
pensa, vive o “Por si” (único, individual,
finito), pois ainda não percebeu que finito e infinito se fundem: o fim é o
começo. O Nada é o começo e o fim. Qualquer ponto no universo é o começo e o
fim possíveis de serem observados.
Talvez o ateu não conceba a matéria etérea manifestando-se de forma
inteligente e evoluída, capaz de sobreviver em outras dimensões, voltando a
viver nesta dimensão material densa como o mineral migra para o vegetal, daí
para o animal, volta ao mineral, percorre o vegetal, novamente o animal, num
ciclo que parece eterno, mas que, numa dessas passagens, pelo trabalho que
realizou, suas porções assumem a individualidade consciente e passa a fazer o
mesmo em reencarnações sucessivas até a sublimação da matéria para suas formas
quintessenciadas.
Sem a diferença entre os seres, não haveria por que se falar em
evolução. Todos comungariam com o mesmo pensamento e com mesma consciência.
Seria a inércia total. Viveríamos como uma matéria talvez inconcebível: sem
qualquer expressão de inteligência, nem mesmo o movimento que gera a noção de
espaço, que geram a noção de tempo, que gera a noção de vida e morte, que geram
todo tipo de dúvida e certeza relativa ao estado evolutivo conquistado.
Fernando Soares Campos
BRASIL
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Textos do mesmo autor:
— Uma reflexão metafísica não dói —
Suponho que exista no corpo humano um ente material ínfimo, uma partícula infinitesimal na qual estaria registrada toda a ciência do universo. Seria a síntese de tudo o que existe: matéria e subjetividades da mente (um chip: corpo e alma). Para melhor entendimento do que pretendo expor, vou chamar essa partícula de Partícula Espírito-Matéria, ou simplesmente o Ser Integral.
Suponho que exista no corpo humano um ente material ínfimo, uma partícula infinitesimal na qual estaria registrada toda a ciência do universo. Seria a síntese de tudo o que existe: matéria e subjetividades da mente (um chip: corpo e alma). Para melhor entendimento do que pretendo expor, vou chamar essa partícula de Partícula Espírito-Matéria, ou simplesmente o Ser Integral.
Deus crê em Deus que crê em Deus que crê em Deus...
"Por certo são maravilhosas as conquistas da ciência moderna. Contudo, a melhor forma de conhecer os segredos da natureza não é inventar instrumentos, mas sim o investigador aperfeiçoar-se a si mesmo. O homem tem em si faculdades que eliminam a distância, e em grau muito maior do que os mais potentes telescópios e microscópios podem consegui-lo em comparação com o olho nu. Esses sentidos ou faculdades são os meios de investigação usados pelos ocultistas, sendo também por assim dizer, o 'abre-te Sésamo' na procura da verdade." (Max Heidel, em "Conceito Rosacruz do Cosmos - ou Cristianismo Místico", 1909.)
O Céu, o Inferno e a campanha dos ateus
Em meados dos anos 1990 (infelizmente não lembro precisamente mês e ano), fui convidado a participar da composição de uma mesa de debate no Seminário Arquidiocesano São José, localizado no bairro do Rio Comprido, aqui no Rio de Janeiro. O tema se reportava aos diversos conceitos de Céu e Inferno, conforme as orientações de religiões diversas. A plateia era composta de seminaristas, leigos católicos e convidados especiais. Os integrantes da mesa deveriam se posicionar como representantes de credos religiosos ou simplesmente praticantes de tal ou qual doutrina religiosa. Também participou um notável professor do Instituto, o qual se declarava ateu.
Estavam ali representantes do Candomblé, do Evangelismo Protestante, da Igreja Católica (evangelismo católico) do Ateísmo e eu, estudante da Doutrina Espírita. E na condição de mediador, um seminarista, destacado líder estudantil do Seminário Arquidiocesano São José.
Representando a Igreja Católica, ninguém menos que Dom Estêvão Bettencourt, teólogo, professor do Instituto Superior de Teologia da Arquidiocese do Rio de Janeiro.
Somos a semelhança de Deus; não, iguais a Ele; apenas semelhantes porque caminhamos para a perfeição. E, graças à perfeição da Justiça Divina, nunca chegaremos lá, jamais seremos iguais a Deus. Ser igual a Deus seria descortinar o infinito (impossível), tendo, por assim dizer, vencido a eternidade (igualmente impossível). Seria o fim, seria a inércia total do processo evolutivo. Ponto final. A morte, no seu mais amplo sentido. Precisamos compreender que o melhor da luta não é a vitória, o melhor de qualquer luta que empreendemos é ela própria, a luta em si. Vida é luta constante, ininterrupta. A vitória representa apenas a dilatação momentânea do prazer, um prêmio fugaz, um orgasmo. Os passos de uma caminhada deveriam ser moderada e continuamente prazerosos.
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Ilustração: AIPC – Atrocious International Piracy of Cartoons
Ilustração: AIPC – Atrocious International Piracy of Cartoons
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PressAA
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