sábado, 30 de junho de 2007

Quiçá, em Alfa Centauro

Gênio. Este era praticamente o outro nome de Mellquiadhes Ollivyettho. Ele estava na moda, tornara-se o economista mais badalado dos últimos tempos. Todos abriam o jornal diretamente na sua coluna diária -Wall ß$treet i$ here-, o restante era tão-somente o restante.

A partir das listas de favoritos de muitos milhares de assinantes, ocorria uma verdadeira romaria diária ao seu sítio (pronuncia-se "site", do inglês saite). Sua presença era a garantia do sucesso de qualquer evento, fosse qual fosse o ramo do conhecimento humano em debate. Agenda lotada, nenhuma chance de contratação para os próximos dois anos. Para os raros felizardos que privavam de sua intimidade, ele era simplesmente Mell - apesar daquele seu ar bilioso, demonstrando menosprezo pelos reles mortais que o bajulavam.

Mell (isto não quer dizer que já privei de sua intimidade) tinha a mania de dizer que não tinha manias. Afirmava isso em todas as entrevistas, mesmo que o entrevistador não lhe perguntasse sobre seus hábitos ou possíveis vícios.

Superstição? "Nenhuma!", garantia. A fitinha do Bonfim, o patuá na correntinha do pescoço, a ferradura atrás da porta, a figa no chaveiro, a carranca no canto da sala, tudo isso, pra ele, não passava de estilo decorativo ou moda. Considerava-se despojado de qualquer sentimento machista: "Não tenho qualquer tipo de preconceito contra as mulheres. Reconheço que, hoje, com o corretor ortográfico dos computadores, a mulher está bem mais preparada para ser uma boa secretária".

Semanalmente Mell recebia, em média, trinta livros de novos autores que solicitavam sua opinião, ansiosos pela aprovação e elogios do mestre. Sua secretária respondia a todos através de uma mensagem modelo. Vez ou outra encaminhava uma dessas obras ao patrão, principalmente as que se desmanchavam em elogios às suas lucubrações sobre o futuro sócio-político-econômico do país.

No Clube dos Orquidófilos de Caraguatatuba, ninguém conhecia Dona Rosa Oliveira pelo nome, para todos ela era apenas a mãe de Mellquiadhes Ollivyettho, porém nunca entendeu por que tratavam seu filho Malaquias por aquele estranho apelido. Seus filhos também eram reconhecidos apenas como "os filhos de Ollivyettho". Enfim, todas as pessoas que tinham algum parentesco com "o Mago da Economia" perdiam a identidade própria e se tornavam apenas irmãos, tios, netos, primos ou cunhados de Mellquiadhes Ollivyettho.

Há muito tempo Mell vinha tentando emplacar um neologismo com a sua marca registrada. Não se cansava de repetir: "Vivemos hoje a pós-globalização, o que já faz do momento atual a Era da Pré-Planetarização Cultural" - repetiu essa expressão 289 vezes no seu último livro: "Pré-planetarização cultural - a nossa música nas sondas espaciais" (500 mil exemplares na primeira edição).

Quando foi anunciada a primeira viagem espacial de um brasileiro, Mell procurou fazer contato imediato com o astronauta escolhido. Escreveu para o cosmonauta informando-lhe:

"Contam que Santos Dumont, enquanto realizava seu primeiro vôo com um aparelho mais pesado que o ar, assobiava uma marchinha de carnaval. Esse foi, sem dúvida, o princípio de uma nova era. Considero que este fato marca a largada para o que ocorre nos dias de hoje: a Pré-Planetarização Cultural, cujo acontecimento mais marcante ocorreu quando o robô da sonda Sojounerum acordou-se, em solo marciano, ao som da música 'Ô coisinha tão bonitinha do pai', do cantor-compositor brasileiro Jorge Aragão. Portanto, com o propósito de ampliar a nossa vanguarda colonizadora interplanetária, solicito que V.Sa., ao participar da expedição do programa espacial russo, possa levar consigo um exemplar da minha última obra sócio-científica, 'Pré-planetarização cultural - a nossa música nas sondas espaciais', e, em se oportunizando ocasião, faça com que o exemplar seja lançado no espaço sideral em direção a distantes galáxias. Assoma-me à alma a esperança de que ele venha a ser interceptado por seres inteligentes, que logo entenderão a importância de um sistemático intercâmbio cultural entre os habitantes do Universo. Atenciosamente. Mellquiadhes Ollivyettho, PhD em Sociocultura Interplanetária."

Mell não recebeu resposta do astronauta brasileiro, porém acreditou que ele estaria preparando-lhe uma surpresa, certamente viria a anunciar, lá do alto, o lançamento do seu livro. O primeiro lançamento (lato sensu) de uma obra literário-científica humana no espaço sideral, em direção a galáxias distantes...

- Poderá vir a encabeçar a lista dos mais vendidos em... nem precisa ser muito distante, talvez, Alfa Centauro... - delira Mell numa enfermaria do Pinel.

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3 comentários:

Zeca disse...

O que tem de PhD em Sociocultura Interplanetária neste mundo, não está no gibi. Que o diga Bush e alguns personagens da política e do jornalismo brasileiro.
Abs!

antenor Emerich disse...

gOSTEI MUITO DO TEXTO, não sei se entendi exatamente de quem voce se refere, mas parece não haver dúvidas. Gostei muito memso e sou apartir de hoje, visitante assíduo do seu blog

aldoluiz disse...

Grande Fernando.
Excelente esta homenagem ao eminente Mellquiadhes Ollivyettho, PhD em Sociocultura Interplanetária que é também um dos mais ilustres membros sócios fundadores da SociedadeAmericanFHCMundial&
Quejandos para o bem do Universo pósgloboplanetização ad nausea. Parabéns!