domingo, 17 de junho de 2007

Unidades diferenciais cósmicas

O amor de Élcio por Luci só podia ser comparado ao amor de Luci por Élcio. Não deveria existir, em todo o Rio de Janeiro, outro casal tão apaixonado quanto aquele. Moravam na Tijuca, onde nasceram, criaram-se, estudaram, namoraram e se casaram.

Depois de casados, instalaram, num shopping da Barra da Tijuca, uma loja especializada em confecções, componentes e acessórios apropriados para esportes náuticos. Para não destoar dos estabelecimentos vizinhos, a loja exibia nas suas vitrines algumas expressões em inglês: surf wear, sale, até mesmo delivery. Contudo o seu nome comercial não podia ser outro: "Élcio & Luci", e tinha como logotipo as iniciais "E" e "L" artisticamente grafadas, entrelaçadas no centro de um coração escarlate.

Conjecturando a possibilidade de terem nascido ambos com o mesmo sexo, concluíram que, ainda assim, seriam amantes. Mesmo porque, já naqueles dias, esse tipo de relacionamento seria razoavelmente tolerado pela sociedade. Ele preferia que, nesse caso, fossem mulheres. Ela inclinava-se pela condição masculina. Mas isso não implicava algum tipo de polêmica entre eles. Acreditavam que, em qualquer circunstância, teriam nascido um para o outro.

Adeptos de seitas esotéricas, os dois estavam sempre buscando signos e caracteres que revelassem os princípios daquele arrebatado amor. Consultavam horóscopo, mapa astral, tarô, vidente e chegaram até a participar de sessões de projeção de vidas passadas, com o intuito de se conhecerem mais a fundo. Entretanto foi através de um místico do Engenho de Dentro, bairro da linha principal da Central do Brasil, que descobriam um dado curioso (para eles, cabalístico!) a respeito de suas vidas.

O vidente, que era versado, entre outras ciências, em numerologia, observou, praticamente em todos os dados pessoais de Élcio, a ocorrência de uma unidade a mais que nos tópicos correspondentes em sua mulher. A isso o mago denominou Unidade Diferencial Cósmica (UDC).

A começar pela idade: ele era um ano mais velho que ela. Além disso, nascera no dia 11 de maio; Luci, a 12 de junho. E as suas certidões de nascimento ainda indicavam um expressivo detalhe: ele veio ao mundo às 03h45; ela às 04h45. Portanto a diferença era, precisamente, de um ano, um mês, um dia e uma hora. No entanto as coincidências... melhor, as UDC's do mago não paravam por aí. Na altura, Élcio media exatamente um centímetro a mais que Luci. Calçava 39; ela, 38. Até as cinco letras do nome dele, em relação às quatro do dela, não seriam resultado de mera casualidade. De acordo com o adivinho, seus pais foram imperativamente influenciados por aquele princípio determinista no momento da escolha dos nomes dos filhos ("Luci" era nome próprio, não se tratava de abreviação carinhosa).

Segundo o místico, essa incidência de UDC's não conferia ao marido nenhum fator de superioridade; para ele, elas tinham valor apenas distintivo, sem qualquer sentido de graduação. Mesmo assim estimulou o casal a provocar tal ocorrência em diversos âmbitos, garantindo que esta seria sua principal Via de Absorção de Energias Cósmicas (VAEC).

Assim, seguindo recomendações do mestre e padecendo sacrifícios dietéticos, procuravam manter o peso a 1kg de diferença a favor de Élcio (ou seria contra, por tratar-se de peso a mais?).

Mesmo vivendo um aparente mar de rosas, Luci tinha sempre em mente um conselho de sua mãe: "No casamento, como na vida em geral, um olho na missa, outro no padre".

Graças ao proverbial alerta da mãe, certa ocasião ela percebeu que o seu marido fazia olho comprido pra cima de Aline, a dona da floricultura em frente à sua loja no shopping.

Algumas semanas depois de ter notado o possível flerte do marido com a florista, as suas suspeitas finalmente se confirmaram: descobriu que as saídas de Élcio, invariavelmente à tarde, nem sempre se destinavam às pesquisas de mercado, como ele as justificava; na maioria das vezes, saía para se encontrar com Aline.

No começo, Luci padeceu a angústia dos traídos, porém guardava silêncio sobre a questão, não externava qualquer sinal de lamúria. Fazia de tudo para dissimular aquele inferno astral. Não queria que o marido percebesse seu sofrimento. Pretendia resolver o problema da maneira menos traumática.
Já considerava seu casamento uma causa perdida, até que resolveu consultar o numerologista do Engenho de Dentro.

Diante do problema, o vidente chamou sua atenção para as tais Unidades Diferenciais Cósmicas.

Desculpando-se pela sua indiscrição, o místico quis saber:

- Com quantos parceiros você mantém relações sexuais, minha jovem?

Ela, fidelíssima esposa, vivendo sua monogâmica paixão, naturalmente respondeu:

- Com um, mestre, somente com um! Ele é a única pessoa com quem transo. Juro!

E o sapiente guru observou:

- Então, minha filha, não compreende que isso esclarece tudo?!

Fez-se a luz! Luci entendeu que tudo não passava do fatalismo das UDC's, o que isentava o marido de qualquer culpa. "Pelo contrário, agindo assim ele contribui para equilíbrio da nossa vida conjugal, através da nossa principal VAEC", pensou e voltou para casa consciente de que deveria aceitar seu carma com resignação.

Com a juda de um consultor especializado em Feng Shui, Luci restaurou o fluxo da energia chi em sua casa e na loja. Até se tornou amiga de Aline, sem nunca lhe dar a entender que sabia do seu relacionamento com Élcio. Tornaram-se confidentes.

Quando Aline, enciumada, fez a amiga saber que seu marido investia em mais um caso amoroso (agora andava de caso também com Michelle, uma das vendedoras da floricultura), Luci não se abalou, finalmente, tendo Élcio duas amantes, ela pôde ceder às cantadas de Astrogildo, o mago do Engenho de Dentro, agora seu amante... quer dizer, o homem que restabeleceu as UDCs do casal.

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3 comentários:

aldoluiz disse...

Oautor amigo e seu ótimo conto, fizeram-me lembrar das aulas de filosofia em que o professor gostava de repetir para a audiência, o que agora podemos entender melhor através das UDC's em questão. "_ O resultado é inseparável do processo que a ele conduz!"
Parabéns!CQD

Clei disse...

Olha, isto me fez lembrar um monte de coisas: 1)quando você citou Élcio e Luci, logo lembrei da Física da USP, onde Élcio e Luci(ana) eram professor e aluna. Um professor reacionário, é verdade, porém o admiro muito, e uma aluna "puxa-saco". mas logo percebi que não se tratava de um texto político. 2)uma dezena de histórias de infidelidade masculina, porém a mulher "não pára no tempo". um exemplo "clássico" é o caso entre o príncipe charles e a lady di. 3)tb mostra a mulher perdendo a ingenuidade, mesmo ela não sendo virgem, ela continuava ingênua, acreditando que só há um caminho na vida, que ambos sempre teriam a mesma fisionomia, que ela seria casada com apenas um parceiro "até que a morte os separe". também entra neste tópico quando o ser não acredita mais em papai noel. encontrei tudo isso sem citar as UDCs, não que este seja um assunto supérfluo, mas que achei o texto bem agradável.

Zeca disse...

Tudo tão simples! Prá que complicar?