
Urariano Mota*

Essa reflexão me veio esta manhã ao ouvir a última piada de um pobre. Ele, o eterno a dar vexame, estava no aeroporto – lugar onde não devia estar, a não ser lavando o chão – e desprevenido foi à lanchonete e pediu uma coxinha. Ao se dirigir ao caixa, soube do preço: 7 reais. Então recusou a tantalizadora, tenra e crocante coxinha. Mas o melhor da piada, o maravilhoso desfecho vem agora: ao se ver olhado por outros que estavam onde sempre estiveram, porque ambientes de luxo lhes é familiar, o pobre comentou num acesso de verdade:
– Muito caro. Isso é um Prato Feito no Piauí.
Ridículo. Ai dos pobres que cedem ao rompante, à generosidade da fala verdadeira. Então me veio à lembrança um dos meus personagens mais conhecidos, que adolescente viajou em um navio rumo à cidade maravilhosa, mais conhecida pelo nome de Rio de Janeiro. Pobre, suburbano, e de navio. Ah, foi uma sucessão de piadas e gags, que Chaplin jamais filmou, que Cantinflas com o seu rabinho à guisa de cinto nunca pôs no cinema. Na mesa do restaurante do navio, diante do garçom, o jovem pede um abuso de culinária na sobremesa:
– Me dê um champanhe.
E o garçom, sério como um Buster Keaton:
– O jovem se refere ao refrigerante.
– Sim, um guaraná champanhe da Antártica.
Depois, mal refeito, pede um bife com macarronada. Perdoem, mas este autor não é um humorista. Pois vem o macarrão e o jovem, à sua maneira, tenta comer a iguaria que, feito de matéria elástica, não sobe completa à boca: desce em fios gordurosos pelo queixo. Então um senhor classe média, comovido e comovente, como todo bom cristão, insinua um fim àquele desespero gastronômico:
– Não sei em Pernambuco, mas nós, em São Paulo, comemos assim.
E se pôs a cortar antes o macarrão no prato, com a paciência de quem não vive com fome, que come com modos civilizados desde a corte francesa. Então o jovem, bom aluno, responde:
– Gostei do modo paulista de comer macarrão.
Todo o pobre é sempre uma piada. Ou ele é a empregada doméstica que fala a todos, sem cerimônia, que teve um câncer e amputou um seio, ou é um homem cego, em cadeira de rodas, que urina diante de visitas em plena sala. Os cegos não veem, vocês já percebem a piada. Todo pobre é ridículo. Dizem que eles, como os negros, ou fazem na entrada, ou fazem na saída. Então me lembrei de outra piada.
Um dia houve que um menino e sua mãe não tinham dinheiro nem comida para a principal refeição do dia. Comer, para toda a gente, mas principalmente para os pobres, é razão fundamental de viver. O pai do menino passara dois dias sem voltar para casa, e assim procedia porque se entregara a nova paixão. Estava de novo amor. Talvez, quem sabe, porque a mãe do menino estivesse uma senhora gorda, a disputar em programas de auditório no rádio o prêmio de igualar o peso de uma cantora ainda mais gorda. E, verdade, tantas vezes conseguiu igualar o peso da estrela que terminou por receber um prêmio de consolação, um corte de fazenda para fazer um vestido, que nunca fez, porque o vendeu. Para quê vestido, se comer era mais importante?
Mas assim como um temporal que chega sem aviso, um portador trouxe para a mãe, como prova de que o marido não fugia aos deveres do matrimônio, quando tudo era aflição, eis que um anjo lhe traz uma nota de duzentos cruzeiros. Sim, uma cédula que trazia no verso o Grito do Ipiranga. E o que ele mais lembra: mal o portador se ausentou, a mulher puxou o filho. E o que ele mais lembra, fundamente, como a sua mais íntima e guardada pele: a mãe pulava, rolava pela cama, e sua alegria era tamanha que chorava de felicidade. Nos olhos vermelhos, nas bochechas subitamente róseas, a alegria dela não se continha, pronta a gritar, a anunciar para a rua:
– Hoje temos almoço! Hoje temos galinha!
Como dizia antes, os pobres são ridículos.
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O livro de Urariano Mota publicado pela Boitempo, Soledad no Recife, já está à venda em versão eletrônica (ebook), agora com novo preço: R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.
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*Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz.
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Sexta-feira, 16 de março de 2012
A ditadura brasileira aparece na Itália
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- Como você teve a inspiração para escrever Os Corações Futuristas?
- A inspiração, nesse caso, se houve, não foi um estalo. Não veio assim de repente, caída no cérebro sem que se esperasse. Os Corações Futuristas é um romance de formação, é a narrativa de uma geração que se fodeu e quis amar sob a pior ditadura brasileira. É o romance de uma época do lema ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’. E nós amávamos muito, muito e muito o Brasil. Disse ‘nós’ como num ato falho. Isso é esclarecedor porque Os Corações Futuristas é um livro que veio sendo escrito, sem que disso eu tivesse consciência. A vida vinha escrevendo-o comigo e para mim. Às vezes, eu dizia, numa brincadeira e meio sério, ‘no dia em que eu escrever um livro sobre a militância, ela não vai gostar’. Mas não foi bem assim, porque depois, durante a escrita, vi que meu olhar alcançava tanto a crueldade quanto a compreensão. É o livro sobre a melhor juventude que eu conheci. Uma gente generosa a ponto de jogar a vida pela força das idéias. Mas, ao mesmo tempo, assim impunha a verdade, que eu não podia alisar a cabeça, vendo-a só no heroísmo. Gente capaz de covardias também, de traições sórdidas, porque é dessa massa que a vida é feita.
(Leia mais clicando no título)
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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons ( Tem mais charges sobre pobres aqui )
PressAA
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