

Comecemos pelo começo, desenhando o cenário e apresentando os personagens. Foi assim... Tudo começou há mais de quarenta anos, com o golpe militar que levou ao exílio milhares de brasileiros. O Chile acolheu um sem-número deles que, evitando a prisão e a tortura, fizeram o caminho de Santiago em duas ondas de exilados: uma em 1964, a outra em 1969.
Da primeira faziam parte ministros, deputados, jornalistas, professores como Fernando Henrique Cardoso, Almino Afonso, Plínio Arruda Sampaio, Paulo Freire, e tantos outros, entre os quais José Serra, ex-presidente da UNE, que se qualificou no exílio cursando mestrado em Economia na Escolatina da Universidade do Chile. Com boa formação acadêmica, ocuparam cargos bem remunerados no Governo chileno e em organismos internacionais, da OEA e da ONU, sediados naquele país.
A segunda onda era composta, em sua maioria, por peixe pequeno: militantes, estudantes, profissionais jovens em começo de carreira, gente que atravessou a fronteira do Uruguai, a pé, sem dinheiro, sem passaporte e de lá foi de ônibus ou avião para o Chile. Entre eles estava o ator Euclides Coelho de Souza, o repórter Tarcisio Lage e esse que digita essas mal traçadas linhas. Quando em outubro de 1969, com a diferença de alguns dias, chegamos à capital chilena, nenhum de nós três tinha onde cair morto. Quem matou nossa fome foi a Caixinha. Bendita Caixinha!
A Caixinha
Caixinha foi o nome que os exilados deram a uma instituição criada no Chile por brasileiros, destinada a ajudar os compatriotas enquanto não encontravam trabalho. Aqueles que tinham altos cargos em organismos internacionais, com salário em dólares, contribuíam mensalmente e pagavam, assim, a hospedagem dos desempregados. Desta forma, tínhamos casa e comida. Roupa lavada? Cada um cuidava pessoalmente da sua.
A primeira pensão que nos hospedou, de propriedade da dona Adriana, ficava na Calle Michimalongo, onde a comida servida pela Juanita era muito boa: sopa de aspargos, alcachofra, porotos granados, empanadas, caudillo de congrio. Mas a repressão no Brasil se acirrou e com ela cresceu a enxurrada de exilados que chegavam aos potes, desequilibrando as finanças da Caixinha. Fomos, então, transferidos para uma pensão muito mais barata na Calle Grajales. Lá, um dia sim e o outro também, nos serviam rim cortado em cubinhos com cheiro de carne mijada.
Foi lá, na pensão da Grajales, que a ‘seleção brasileira’, formada pelo pessoal da Caixinha, se concentrou antes da partida decisiva contra a ‘seleção chilena’, no campeonato de pelada que rolava todos os sábados num campinho de um colégio jesuíta. O nosso half direito Euclides, o Dadá, era uma peça ofensiva fundamental. Rápido e habilidoso, tinha forte arrancada, bom drible, realizava cruzamentos mortais e ainda por cima recuava para defender.
Acontece que Dadá não podia jogar por uma razão prosaica: não tinha calção, nem dinheiro para comprá-lo. Procuramos a Caixinha que, como todo banco, era controlado por um mineiro: o escritor Edmur Fonseca. Embora generoso, ele alegou inexistência de fundos para aquisição de supérfluos. Acionamos outros mineiros: o advogado Antônio Romanelli e os jornalistas Guy de Almeida e José Maria Rabelo. Tudo em vão.
Foi aí que Teodoro Buarque de Holanda, primo do Chico, doou à ‘seleção brasileira’ um jeans velho, mas de marca, comprado em boutique. A Adair Therezinha Chevonika, mulher do Dadá, pegou uma tesoura, cortou as pernas e transformou o jeans num bermudão. Quando o Dadá entrou em campo, vocês podem não acreditar, mas José Serra, que dava uma de técnico improvisado, gritou:
– Quem estraga uma calça cara só para jogar futebol é porque tem dinheiro, deve ser muito rico, não precisa da Caixinha. Você não deve mais receber ajuda.
Índios en la costa
Meninos, eu vi, e ouvi. Se fosse nos Estados Unidos, o Dadá processava o Serra por danos morais e ganhava uma grana preta. Mas naquelas condições, no Chile, ele ficou arrasado, sem condições psicológicas. A ‘seleção brasileira’, com seu half direito moralmente contundido, perdeu de 4 x 0. Dadá fez até gol contra. Serra organizou essa derrota do Brasil? Só Deus sabe.
No dia seguinte – meninos, essa eu não vi, mas circulou entre os exilados – Tarcisio Lage chamou Serra de “reacionário” nos corredores da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais (FLACSO), onde ambos trabalhavam. Serra reagiu:
– Você é um maoísta sectário e fanático, Tarcísio. Você faz parte da esquerda pueril!
– Vai-te pra pqp – respondeu Tarcisio, que é bom de rima. Os dois se engalfinharam, verbalmente, e quem desapartou a briga foi Fernando Henrique Cardoso, ajudado pelo professor Deodato Rivera, que sonhava em fazer o maior fichário de ciências sociais do mundo. Meu amigo Tarcísio, que hoje vive na Holanda e mantém um blog (http://www.anarco.net/) pode confirmar a história, que talvez nos ajude a entender a contradição do Serra.
Um lado do Serra é generoso; o outro é pão-duro e sovina. Na quinta-feira, em debate na Confederação Nacional de Agricultura, o lado mesquinho emergiu. Para puxar o saco da senadora Kátia Motoserra Abreu, Serra se manifestou contra a distribuição de cesta básica para o MST: “Não quero que o governo gaste dinheiro com isso”. A cesta do MST é o bermudão do Dadá.
Serra, Dilma, Marina e Plínio – qualquer um deles tem competência e biografia para exercer a presidência da República. O diabo é que os dois mais cotados nas pesquisas não podem renunciar ou morrer no cargo. Imaginem o Brasil governado pelo mordomo de vampiro, o Michel Temer, o rei do fisiologismo, ou por essa caricatura, esse paspalhão sub-collorido – o Índio da Costa, envolvido com desvio da merenda escolar no Rio de Janeiro!
Dizem que nessa sexta-feira, depois do primeiro tempo Brasil x Holanda, comunicaram ao Felipe Mello que Índio da Costa foi escolhido para ser o vice de Serra. O jogador ficou tão baratinado como o Dadá. Deu no que deu. Essas alianças vergonhosas com o DEM e a parte podre do PMDB representam grande risco para o país. Como dizem os espanhóis para advertir uma situação de perigo: Atenção, Brasil, hay moros en la costa.
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José Ribamar Bessa Freire é professor universitário (Uerj), reside no Rio há mais de 20 anos, assina coluna no Diário do Amazonas, de Manaus, sua terra natal, e mantém o blog Taqui Pra Ti
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Ilustração: AIPC – Atrocious International Piracy of Cartoons
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