sábado, 14 de agosto de 2010

SANATÓRIO GERAL

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Fernando Soares Campos

Quem não sabe a verdade é apenas ignorante; mas quem sabe e a esconde é criminoso” – frase atribuída a Bertold Brecht, alemão, poeta, dramaturgo, filósofo nas horas cheias e humanista. Porém, naquele 16 de dezembro de 1988, dia em que eu completava 39 anos de idade, quem estava me fazendo recordar essa máxima brechtiana, nas páginas da Folha de Pernambuco, era um rapaz chamado Valdir Isidoro, à época colaborador-articulista do jornal.

Antes daquele dia, eu acreditava que não esconder a verdade consistia apenas em espalhar a nossa verdade aos quatro cantos do mundo, tentando fazer prosélitos que nos acompanhasse sob os encantos da verdade nossa de cada espelho. Bom, isso aí, conforme aquilo que recente eu havia compreendido, não passa de intelectualismo pedante, metido a cavalo do cão que pasta livros e ditos, e arrota regras, planos, metas, direitos e deveres, comportamentos, éticas e moralismos, que deveriam ser religiosamente aceitos e praticados... pelos outros, claro.

Eu conhecia essa e outras frases de Brecht, mas daquela vez estava lendo uma delas como se fosse pela primeira vez. Isso porque, tempos antes daquele dia, eu e meus amigos costumávamos citar o pensador alemão nas mesas de bar, entre chopes e xixis, acreditando que bastaria conhecer a verdade e dela falar para nos redimir de culpas ou nos omitir de responsabilidades diante da realidade em que vivíamos. No entanto, em meio à ressaca do dia seguinte, aceitávamos a cruel realidade da vida com as cores de uma verdade objetiva, pessoal e intransferível, como cada um de nós enxerga o mundo.

Cheguei ao Recife em 1984 com o ânimo de um sobrevivente de guerra resgatado de um campo de concentração, necessitando de cuidados especiais para reaver as perdas do corpo e da alma. Mas logo entendi que perdas, sob estados beligerantes, só se verificam no corpo. A alma perdidosa é aquela que se espoja nos prazeres de um corpo ganhador de bem-estar muito acima, e em detrimento, do estar-bem dos seus semelhantes.

Uma vez na capital pernambucana, eu e os membros do núcleo familiar que formamos aqui no Rio de Janeiro fomos morar na Bomba do Hemetério, nos tornando vizinhos de familiares e amigos de minha mulher-companheira da vez. Esta que me acompanha até os dias atuais.

Não demorou muito, e os bombemeterianos perceberam, conforme poderiam compreender, que a maneira como eu me comportava divergia, em muitos aspectos, da maneira como vivem os indivíduos adaptados ao que se convencionou chamar de regras sociais. Para os menos experientes, seria eu um indivíduo marcado por alterações comportamentais caracterizadas pelo descontrole dos mecanismos mentais que fazem um indivíduo humano adaptar-se ao meio em que vive. Ou seja, para quem ainda não compreende que somos todos diferentes uns dos outros, aqueles que lhe parecem muito diferentes são considerando doentes mentais, “doidos”. E doidos deveriam ser tratados por especialistas em doidices, também chamados de psiquiatras.

Por tudo isso, paguei um preço muito alto: fui internado numa clínica psiquiátrica chamada Dr. Luiz Inácio, onde me torturaram, doparam e até ensaiaram tentativas de me eliminar de vez. Escapei de morrer porque outros internos interferiram, me tirando das mãos de quem tentava me estrangular. Como as agressões aconteceram em momentos de descontração, sem qualquer motivo aparente, imaginei que aquilo era coisa mandada e arquitetada por mentes doentes que mantinham e dirigiam aquela casa de “saúde”.

Em 1986, recebi alta e voltei à convivência de familiares e amigos, na Bomba do Hemetério.

Em crônica de minha autoria, lida neste programa Violência Zero levado ao ar em 6 de fevereiro último, informo: “Fiquei dois anos e meio internado. Quando recebi alta, no final de 1986, não sabia o que fazer com a liberdade, havia perdido o hábito de conversar com as pessoas “normais”. Minha mulher, pernambucana, criada no Recife, tinha algumas amigas que costumavam vir nos visitar. Foi aí que uma dessas amigas de minha mulher me convidou para participar de um movimento comunitário, um grupo que se reunia na escola do bairro e que se denominava Movimento de Reivindicação da Bomba do Hemetério. Aquilo era tudo o que eu precisava.”

Além das experiências no âmbito da militância comunitária, o contato humano me ajudava a me harmonizar com a realidade e a verdade relativa dos fatos.

Foi aquela comunidade que me resgatou para a convivência saudável, isso de maneira gradativa e, de certa forma, traumática, como acontece em casos como este, me fazendo enxergar o mundo através de novos olhares, novas experiências, e consciente de que a verdade de cada um de nós só se torna verdadeira quando compreendemos e respeitamos as diferenças entre os indivíduos. E isso não significa nem mesmo que o indivíduo se adapte aos sistemas, mas que ele os compreenda e possa, em conjunto, produzir idéias, artes, técnicas e até novas normas de relacionamento.

Bom, gostaria eu de encerrar esse ligeiro striptease da alma dizendo o quanto sou grato ao povo da Bomba do Hemetério. Até gostaria de citar nominalmente alguns dos mais próximos, mas isso é praticamente impossível, pois são tantos que consumiria todo o tempo deste programa. Por isso escolho apenas um casal, de quem me lembro com o carinho que dedico a todos os bombemeterianos. Trata-se de Seu Manoel Gomes e Dona Eunice, estejam eles ainda morando no Alto Santa Terezinha ou bem mais ao Alto. Recebam, amigos, o meu abraço através dessas caridosas almas que dignificam a todos aqueles que tenham a felicidade de desfrutar de suas amizades.

P.S.: Quando esta crônica estiver sendo lida pela Sulamita, amanhã, no programa Violência Zero, levado ao ar pela Rádio Olinda, nas ruas da Bomba do Hemetério, eu estarei em Minas Gerais, visitando amigos. E isso provavelmente me poupará de derramar mais umas lágrimas, como aconteceu no fechamento deste texto. E eu sou lá bobo de ficar aqui ouvindo o frevo explodir em mil e um tons enquanto eu me derreteria em lágrimas?! Segura essa, maestro Gil!




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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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PressAA

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2 comentários:

José Ribamar Bessa disse...

Fernando,
PARABÉNS! Puta texto! 'Lamentavelmente textos como esse do sanatório geral não estão dando sopa por ai, não sáo encontráveis todos os os dias em todos os lugares, se fosse a vida seria muito diferente, porque textos como esse nos fazem ter esperança na espécie humana. Comecei a leitura porque foi você que escreveu, continuei porque lá estava o velho Brecht, cujo texto "as cinco formas de dizer a verdade" eu trabalhei muitos anos em sala de aula com alunos de jornalismo e depois não consegui mais sair. até agora
Grande grande abraço
Bessa

(Mensagem recebida por e-mail)

Aldo Luiz disse...

Pois é Fernando, a gente dá o que tem... "Só um doido pode entender outro doido." Já me disse o "seu" Zé quando eu lhe afirmava estar entendendo tudo o que ele estava me dizendo. Fica aqui meu sempre abraço por esta alma luminosa "estriptizada" e felizmente compartilhada com todos nós, os "doidos" e os outros doidos que se julgam sãos neste sanatório geral. Espero que todos se inspirem. Não há nada lá fora, it's all here in the mind.
Sinto muito, me perdoe,te amo, sou grato.