domingo, 7 de março de 2010

A COTIA RISONHA RI DE QUEM?

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O juiz aposentado do Tribunal de Justiça do Amazonas, José Raphael Siqueira Filho, carrega, desde sua infância, o apelido de Cotia Risonha. O ‘risonha’ é um enigma. Mas cotia, todo mundo sabe por quê. É que seu colega na escola primária, o Nininho, gostava de se divertir, pedindo-lhe:

- Siqueirinha, repete: paca, tatu, cotia não!

Siqueirinha sempre se confundia e reproduzia a frase inteira. Nem desconfiava que em Epitácio ‘p’ soa. Por isso, todo mundo passou a chamá-lo de Cotia. O apelido colou. Tem tudo a ver com ele. A cotia é um mamífero e ainda por cima roedor, ou seja, gosta de mamar e de roer o que encontra pela frente. Tem as pernas finas, os olhos arregalados e as unhas afiadas e cortantes. Apesar da aparente leseira pra certas coisas, é um animal esperto, que vive fuçando o chão, buscando vorazmente o que comer.

Tudo bem! Está explicada a origem e justificada a propriedade do substantivo ‘cotia’. E o qualificativo ‘risonha’, de onde veio? Em que momento foi acrescentado? De quem, afinal, a Cotia Risonha está rindo? Essas perguntas podem ser respondidas, analisando a amizade do Siqueirinha com Nininho.

Os dois cresceram unha-e-carne, mamando e roendo. Nininho, menino inocente que saiu de Eirunepé para fazer a primeira comunhão na capital, assumiu várias vezes a Prefeitura e o Governo do Estado, com o nome de Amazonino Mendes (PTB, vixe, vixe!). Siqueirinha se tornou juiz, pronunciou algumas sentenças polêmicas e se aposentou. Mas a amizade continuou.

Coisa bonita, a amizade! Para onde vai, Amazonino leva Siqueirinha, indicando-o para diversos cargos, como a presidência da Companhia Energética (CEAM), a presidência do Detran, a Superintendência da Companhia do Estado do Amazonas (CIAMA). Dizem que até o cargo de cônsul honorário da Coréia no Amazonas, exercido por Siqueirinha, foi indicação do amigo. Na atual administração, ele ocupa presidência do Instituto Municipal de Trânsito e Transporte Urbano (IMTT).

Casca de tucumã

Não é uma amizade qualquer, ela está cimentada por interesses comuns e cumplicidades, como conta o combativo vereador Marcelo Ramos (PSB). O ‘Cotia Risonha’ “é o tipo de amigo daqueles que descasca tucumã, que tira o caroço da pupunha e entrega a partida de dominó só para agradar. Também, intimida jornalistas, agride pessoas ou faz qualquer outro trabalho sujo que Amazonino precise”.

Um desses trabalhos ocorreu recentemente. O sorriso de Siqueirinha ganhou contornos enigmáticos de Mona Lisa, quando em julho de 2009 o prefeito Amazonino aumentou inexplicavelmente em 12,5%, a passagem de ônibus em Manaus, que era de R$ 2,00 e subiu para R$2,25. O protesto dos usuários e a proximidade das eleições levaram Amazonino a reduzir, nove meses depois, o aumento para R$2,10.

O prefeito, todo farofeiro, todo bacabeiro, deu, então, uma entrevista coletiva, mas em vez de dizer que estava corrigindo o aumento da passagem, anunciou que estava baixando o seu preço. Parece até a Gol, que em seus vôos está cobrando agora dos passageiros R$10,00 por um sanduíche e R$3,00 por um cafezinho e anunciou cinicamente:

“Viajar agora tem um sabor especial. A Gol não pára de inovar. E para deixar a sua viagem ainda mais gostosa, está oferecendo uma novidade em alguns de seus vôos domésticos: a venda de sanduíches e bebidas. É um novo conceito que a Gol disponibiliza aos passageiros no Brasil”.

Amazonino também não pára de oferecer novidades aos usuários de ônibus, “para deixar a viagem mais gostosa”. Na entrevista em que explicou seu “novo conceito” de tarifas estava ladeado pelo ‘Cotia Risonha’ e pela secretária municipal de Comunicação Social, Celes Calpúrnia Borges Melo, que sem qualquer pudor orientavam os jornalistas: “pergunta isso, pergunta aquilo”. Foi ai que a jovem repórter deste Diário do Amazonas, Vanessa Brito, decidiu perguntar o que está na garganta de todos:

- Quais os critérios para determinar o preço da passagem? Se o prefeito reconhece hoje que o aumento dado em julho do ano passado foi exorbitante, as empresas vão devolver aos usuários de ônibus o que cobrou indevidamente?

A reação da intrépida trupe foi surpreendente. Amazonino suava como se estivesse em uma sauna. O Cotia deixou de sorrir e fuzilou com os olhos a repórter. Tentou impedir que ela se manifestasse. Seu olhar, juro, mete medo. Chamou Celes Calpúrnia e ordenou: “Anota o nome dela”. Calpúrnia – que vergonha! - respondeu: “Ela é do Diário”. Foi tudo gravado e pode ser acessado no You Tube (htttp://bit.ly/agzSQF).

Vanessa, a jovem repórter que encostou o Cotia na parede dizendo – “Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor”, é uma esperança de que o jornalismo no Amazonas não será chapa branca. Siqueirinha ficou com dor de dente, como naquela música que as crianças cantavam: “A cotia está com dor de dente, e é de tanto, tanto, comer doce quente”.

Fioforum cotiae

O amigo Amazonino, no entanto, fez voltar o sorriso do Cotia, segundo denúncia publicada em O Globo (04/03/2010) e pelo Estado de São Paulo, intitulada: “Indenização milionária em Manaus. Desapropriação rende R$6,5 milhões a secretário municipal”. A matéria informa que “o prefeito de Manaus, Amazonino Mendes (PTB) assinou ontem um acordo extrajudicial que permite o pagamento de R$6.577.166,07 ao juiz aposentado Raphael Siqueira, que é secretário municipal e exerce o cargo de presidente do IMTT”.

A notícia está incompleta porque não diz, numa linguagem que um ex-juiz entende, que “hic culum cotiae sibilare”, isto é, aqui é que o fiofó da cotia começa a assoviar. O vereador Marcelo Ramos fez suas contas e descobriu que numa só jogada entre amigos, o Cotia Risonha embolsou muito mais. Foram R$8,5 milhões pagos com dinheiro público, “a título de indenização por um terreno que em momento algum prova que é seu”.

Amanhã, Marcelo Ramos, que é advogado, entra com Ação Popular para solicitar que a dupla Amazonino e Siqueirinha sejam condenados a devolver todo o dinheiro público que embolsaram. Amazonino, em novembro do ano passado, foi cassado pela juíza Maria Eunice, em primeira instância, sob a acusação de comprar votos.

Por quem os sinos dobram? A Cotia Risonha ri de quem? De nós, leitores, que somos otários e estamos repassando para os bolsos de dois espertalhões recursos públicos que deviam ser usados para melhorar os serviços de saúde, educação e transporte. Agora, é rezar para que saia vitoriosa a Ação Popular contra essa operação escandalosa que clama aos céus e pede a Deus vingança.

José Ribamar Bessa Freire é professor universitário (Uerj), reside no Rio há mais de 20 anos e assina coluna no Diário do Amazonas, de Manaus, sua terra natal, e mantém o blog Taqui Pra Ti
http://www.taquiprati.com.br/home/index.php

Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

Ilustração: AIPC – Atrocious International Piracy of Cartoons
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sábado, 6 de março de 2010

O SER REFLEXO/ESPELHO

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Laerte Braga*

A foto do governador José Collor Arruda Serra entre Aécio Neves e José Alencar na inauguração do centro administrativo do governo de Minas dá a sensação que o governador paulista é apenas um papagaio pirata em meio aos outros dois. Sorrindo um sorriso que não é seu, com uma aparência de humildade que não tem, acaba soando um espantalho atormentado por bicadas de pássaros espertos que percebem que ali está apenas um monte de palha vestido de gente.

Para atrapalhar, na foto mais publicada, dentre várias, Aécio estica a mão em direção a José Alencar (Serra está ao meio) apontando o vice-presidente com o indicador. É como se estivesse dizendo que aqui estamos nós dois, o terceiro, Serra, é só um acidente de percurso.

Na edição de quarta-feira o jornal THE GLOBE, em sua versão em português O GLOBO, traz como manchete de primeira página que o PSDB quis ampliar os benefícios do programa bolsa família, mas o governo foi contra. O jornal e os seus principais articulistas, toda a NET GLOBE (rádios, tevês, jornais do grupo) passaram todo o governo Lula criticando o programa e o que chamam de “uso eleitoral” do bolsa família.

Neste momento, engajados na campanha de José Collor Arruda Serra o bolsa família aparece como tábua para o náufrago desesperado diante das dificuldades que enfrenta por todos os lados.

François Mitterrand, ex-presidente da França, disse a jornalistas que uma campanha eleitoral hoje se assemelha a uma luta de boxe. A televisão domina o cenário com os debates, onde o mais importante é a aparência e não o que vai ou está sendo dito, o rádio, os jornais e revistas complementam o show.

Mitterrand disse isso após um debate em que era candidato a presidente. “Sinto-me como um boxeur”. O que levou o presidente francês a essa constatação foi uma simples pesquisa, imediata ao debate, onde as opiniões eram em sua esmagadora maioria sobre a aparência dos candidatos, o modelo do terno usado, a forma como olhavam para as câmeras, as pegadinhas em cima do adversário. Idéias? Menos de dois por cento (“O ESTADO DO ESPETÁCULO, Roger-Gérard Schawartzenberg, Difel, 1978)

Derrotado por John Kennedy em 1960 depois de um desastrado debate e uma aparição pior ainda na tevê, Richard Nixon volta oito depois e seus marqueteiros têm um candidato diferente. Vitorioso, capaz de estar presente na casa de cada norte-americano no momento de necessidade e invulnerável à kryptonita. Derrota a Huber Horacio Humprey, vice-presidente de Johnson e considerado, à época, um dos mais competentes políticos da história contemporânea dos EUA.

Huber pensa e expressa seus pensamentos. Nixon aprendeu com a derrota de 1960, transformou-se num produto. Num paralelo com a campanha presidencial de 1989 no Brasil, no debate em que Collor afirmou que não tinha um aparelho de som como o de Lula, era pobre, Nixon repete 1952, quando foi eleito vice-presidente ao lado do general Eisenhower. À época afirma que sua mulher Pat sequer tinha “casaco de vison”. Terminou como Collor, renunciando para não sofrer o impedimento.

A vista da secretária de Estado do governo Barack Bush Obama ao Brasil tinha um objetivo claro. O de abrir o debate público sobre o Irã e fazer com que o governo brasileiro engolisse o novo presidente de Honduras, produto de um golpe militar. E objetivos ocultos, evidente, favorecer com isso a um candidato de oposição, no caso José Collor Arruda Serra, assegurar o pré-sal para empresas de seu país, tentar minar a eventual aliança entre PT e PMDB para as eleições presidenciais, criar uma situação política difícil e melindrosa para o presidente Lula, muitos outros, como bombardear o governo da Venezuela, vender aviões caças de fabricação norte-americana para o Brasil, um monte.

Quando Hillary Clinton saiu dos EUA já havia, lógico, toda uma agenda programada para a sua viagem a diversos países latino-americanos e particularmente o Brasil. Entre os eventos dos quais a secretária participaria prevista uma palestra a estudantes de uma universidade em São Paulo. A palestra foi gravada e apresentada pelo canal GLOBONEWS, do grupo THE GLOBE, mediada pelos jornalistas Ana Maria Beltrão e William Waak. Um memorando do Departamento de Estado ao departamento de jornalismo da GLOBO determinava que assim o fosse. É o papel da mídia, no caso da maior rede de comunicação do Brasil, subordinada a interesses estrangeiros.

De um lado uma versão melhorada (pouco, mas melhorada) de Ana Maria Braga, para o toque de humor leve, o ser igual ao espectador, de outro um agente treinado para missões como essa, falo Ana Maria Beltrão e de William Waak.

No dia seguinte ao encontro de Hillary com o presidente Lula só o ESTADO DE SÃO PAULO (que acredita que D. Pedro II ainda governe o Brasil e que a escravidão não foi abolida) tratou do assunto e assim mesmo com uma manchete bem cretina na suposta ingenuidade, diante do fracasso dos objetivos pretendidos por Hillary. Lá estava – “EUA ACREDITAM QUE IRÃ ENGANA O BRASIL”.


Os demais tiveram dificuldades em noticiar o encontro Lula-Hillary com o destaque que pretendiam. Imaginavam poder colocar o presidente do Brasil nas cordas, pronto a ser nocauteado pela secretária de Estado. E nem tanto pelo que aconteceu, mas pela impossibilidade de noticiar o que Lula disse a Hillary sobre sanções e o programa nuclear iraniano:

“O Brasil apóia o programa nuclear iraniano e considera um direito do povo do Irã alcançar desenvolvimento através dessa tecnologia. Se os Estados Unidos podem, por que os outros não podem?”

Façam o que eu falo e não o que eu faço?

A frase precisa ser digerida com mais tempo e aí então vai começar o pipocar da metralhadora made in USA. Foi isso que William Bonner quis dizer quando não noticiou determinado fato no JORNAL NACIONAL e explicou – “contraria os nossos amigos americanos” –, para em seguida rotular o telespectador de Homer Simpson.

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É necessário encontrar um piloto para colocar a culpa como no caso do acidente com o avião da TAM.

Estão tentando imputar ao presidente Chávez ligações com o narcotráfico. Guardaram os documentos da CIA que mostraram que esse vínculo é privilégio do presidente colombiano Álvaro Uribe, aliado incondicional dos EUA.

As sucessivas campanhas eleitorais em países como os Estados Unidos, França, Inglaterra e outros, despertaram a atenção dos partidos políticos no Brasil. A necessidade de transformar cada candidato num produto, num sabão capaz de tirar manchas definitivamente e sem deixar vestígios.

José Roberto Arruda é um exemplo disso. Esteve envolvido na violação do painel de votação eletrônica do Senado Federal, renunciou para não ser cassado e anos depois se elegeu primeiro deputado federal, em seguida governador de Brasília, ia formar a dupla “vote num careca e leve dois” com José Collor Arruda Serra e está posto em recesso na Polícia Federal por conta de propinas.

“O candidato reflexo”, o “homem comum”. Foi o momento que se percebeu que “depois da estrela-ídolo, e da estrela modelo, vem a estrela reflexo”. “A estrela agora é um ser qualquer... o homem comum”. O candidato passa a ser “seu intérprete fiel, um mero reflexo”.

“Em harmonia com o sentimento democrático e igualitário” (o mesmo “O ESTADO DO ESPETACULO” citado acima).

“Essa constante da economia capitalista que é a baixa tendencial do valor de uso desenvolve uma nova forma de privação dentro da sobrevivência ampliada. Esta não se torna liberada da antiga penúria, pois exige a participação da grande maioria dos homens, como trabalhadores assalariados, na busca infinita de seu esforço; todos sabem que devem submeter-se a ela ou morrer. É a realidade dessa chantagem: o uso sob sua forma mais pobre (comer, morar) já não existe a não ser aprisionada na riqueza ilusória da sobrevivência ampliada, que é a base real da aceitação da ilusão geral no consumo das mercadorias modernas. O consumidor real torna-se consumidor de ilusões. A mercadoria é uma ilusão efetivamente real, e o espetáculo é sua manifestação geral” (“A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO”, Guy Debort, Contraponto, 1997).

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Aécio Neves nunca escondeu o que pensa e sente em relação a José Collor Arruda Serra e seu guru, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. “Arrogantes, se acham os donos da verdade”. Dias antes da inauguração do centro administrativo do governo de Minas disse a quem quisesse ouvir que Serra havia pedido para vir e não porque fora convidado.

“O homem é um homem porque ele ri, porque ele espera e porque ele vive” (Herbert Gronemeyer, numa de suas canções, citado por Roberto Misik, em “MARX PARA OS APRESSADOS”, Edições Alva, Brasília, 2006).

“Rir, esperar, viver, amar são restos de humanidade que se rebelam contra a comercialização e que precisamente por isso vendem muito bem” (idem Misik).

Vem ai show das eleições. Já ouvi de algumas pessoas que a aparência de Dilma não é agradável, dá a sensação de autoritária. E a algumas delas perguntei se votariam em Lula novamente e todas foram unânimes em dizer que sim. Que seria o ideal. Mostraram repugnância por tucanos até na expressão com que respondem sobre o que pensam desse grupamento de agentes estrangeiros atuando no Brasil.

São contradições deliberadas e planejadas, minuciosamente montadas pela mídia para vender um produto de péssima qualidade, podre e fétida. O governador de São Paulo José Collor Arruda Serra.

Sabão em pó embalado para tirar manchas e vestígios que possam significar qualquer perspectiva de soberania nacional, de justiça social, de liberdade.

O tal “ser reflexo/espelho”, que saiu de Minas, longe do distinto eleitorado, do Homer Simpson, referindo a esse povo como “bando de vagabundos a repetir o que esse cheirador do Aécio mandou que dissessem”.

E são aliados.

Aguarda-se o pronunciamento do jornalista Juca Kfoury, porta-voz do governador Arruda Serra em matéria de pós e que tais.

*Laerte Braga, jornalista, colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

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sexta-feira, 5 de março de 2010

ARNALDO JABOR E EU: QUEM É O BOÇAL?

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Raul Longo*

Eu, claro. Afinal, ainda que filho de operária, me tornei um classe-média. E o Arnaldo Jabor conhece muito da contumaz boçalidade da classe média.

A meu ver Jabor fez um único filme realmente notável: "Tudo Bem". Mas é tão bom que apesar da produção posterior do que chamou “trilogia do apartamento” ser de enredo paupérrimo e péssima direção, “Tudo Bem” justifica o longo aprendizado de Jabor sobre a classe média brasileira.

“Tudo Bem” é um verdadeiro tratado sobre a incapacidade de raciocínio e de percepção da realidade que o circunda, pelo cidadão comum de classe média. Mas a concepção farsista de nossa pequena-burguesia sobre o país e sobre si mesma, já despertara a atenção do Jabor há muito mais tempo, como se verifica em seu primeiro longa-metragem de 1967: “A Opinião Pública”. Um documentário onde, através de um mosaico de depoimentos, Jabor possibilita à própria classe média a exposição de seu empedernido atrasismo fascistóide e moralista, ao apoiar a ditadura militar instaurada pelo golpe de 64.

Em sua primeira produção ficcional, “Pindorama” de 1970, através de alegórica representação da irracionalidade e alienação da classe média através de uma personagem feminina viciada e manipulada pela Igreja, Militares, Políticos e o poder econômico dos verdadeiros burgueses; Jabor transpõe a atualidade dos anos 60 ao Brasil do século XVI.

Todo esse interesse e análise desenvolvida ao longo de uma década de críticas mordazes e profundas, em 1978 se concretizam em um dos mais atilados tratados sociais já produzidos sobre o segmento médio dos estratos sociais brasileiro, o “Tudo Bem”.

Nem da Casa Grande nem da Senzala, sempre excluída e menosprezada pelos clãs dos Donos do Poder, a classe média nunca mereceu maiores atenções de nossos mais destacados historiadores, cientistas e analistas sociais. Até mesmo os modernistas que dela se originaram, não dedicaram mais do que breves ironias. E os que alguma vez tentaram enaltecê-la, nunca superaram as rimas pobres como aquelas das “bandeiras de 13 listas que marcam conquistas de paulistas trabalhistas”.

Além de Machado de Assis no início do século passado e de Nelson Rodrigues nos meados, só Roberto Carlos e sua turminha da jovem guarda buscaram interpretar as pequenezes e comezinhas vicissitudes desta classe que nunca se destacou por nenhum maior envolvimento com o país e seu povo. Apenas deixaram se enganar por duas campanhas promovidas por Assis Chateaubriand, entregando relíquias familiares e acreditando no Ouro Para o Bem do Brasil (que o Brasil nunca viu) e a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em prol da ditadura militar.

Interessaram somente aos publicitários e estrategistas comerciais que chegaram a contratar os irmãos Paulo e Marcos Vale para compor um hino ao “Corcel cor de Mel e o Mustang cor de sangue”, e ao marketing da ditadura que versou o “America love or leave” para “Brasil ame-o ou deixe-o”, ao que seus integrantes que ainda preservavam algum senso crítico completavam com “E o último a sair apague a luz do aeroporto”.

Ridicularizada por si mesma e menoscabada pelas esquerdas, mais interessadas nas classes produtivas em cultura ou em contribuições ao desenvolvimento da civilização brasileira; é essa pobre classe média que Jabor denuncia em “Tudo Bem” como sintoma de um capitalismo tardio; cruelmente tratando-a como bocas inúteis a serem alimentadas pelos que ela despreza e ocupante de espaços adaptados para conter o vácuo, o vazio, o nada.

O filme resgata de Lima Barreto a ironia às inócuas boas intenções de um Policarpo Quaresma adaptado e reinterpretado por Paulo Gracindo em anacrônica preservação do Integralismo, contracenando com a divina Fernanda Montenegro reproduzindo uma patética esposa incapaz de incluir-se na própria realidade, mas ridiculamente disposta a ensinar sobre o que não consegue ver e sequer ter qualquer noção do que seja.

Antes da instalação da primeira indústria automobilística brasileira Noel Rosa já reclamara da operária que atendia ao apito da fábrica, embora surda à buzina de seu carro. E Newton Mendonça fotografou numa alemã Roleiflex a ingratidão composta pelo Jobim e cantada pelo João Gilberto; mas analisar, estudar, descobrir os medos, os segredos, inseguranças, vazios... Os pequenos engodos que utiliza para enganar-se a si mesma e as vãs fantasias cotidianas, ninguém antes reproduziu tão bem quanto o Jabor.

Se alguém descobrir alguma razão para conhecer em profundidade essa grande falácia que é a pequena burguesia urbana brasileira, não terá como fugir. Obrigatoriamente haverá de consultar a obra do cineasta, pois assim como não se conhece o sertanejo sem ler Guimarães Rosa, não é possível conhecer nossa classe média sem Jabor.

Mas a questão que resta é que enquanto o sertanejo continua sendo uma matéria riquíssima, seja para o teatro e a literatura de um Ariano Suassuna, para a música de um Elomar, ou o espetáculo de um Antônio Nóbrega; qual a utilidade de todo o conhecimento que Jabor reuniu sobre a classe média?

Para o próprio Jabor não teve nenhuma, pois quando se deu conta das restrições de conteúdo de seu objeto de estudo e resolveu tirar proveito com algum retorno financeiro, é que acabou quebrando a cara.

Ao explorar as emoções baratas da classe média através de suas típicas crises existenciais e conseqüentes reflexos sexuais, tudo o que fez foi produzir dois fracassos brochantes: “Eu te Amo” em 1980 e “Sei que vou te amar” em 1986.

Tim Maia, emérito frasista, dizia que o Brasil é o único país onde traficante se vicia e prostituta se apaixona pelo freguês. Quando Chico Anísio casou com a Zélia Cardoso, o Macaco Simão da Folha de São Paulo completou a relação com o humorista que casa com a piada. No caso do Jabor, podemos adicionar o intelectual que se tornou tão estúpido quanto a estupidez que ironizou. Como Jabor foi cometer a burrice de tentar ganhar dinheiro com a classe média brasileira reproduzindo a própria nulidade desse grupo social, é incompreensível. Como, apesar de duas décadas de estudos e análises, não percebeu que a colonizada classe média brasileira desconhece e despreza a si mesma, apenas reconhecendo e valorizando sua congênere estadunidense, por mais idênticas que sejam.

O vazio é o mesmo, o mesmo nada, mas com uma diferença fundamental: a classe média norte-americana, conhecida como “maioria silenciosa”, ainda que silenciosa é muito orgulhosa de si: do seu chiclete, da sua coca-cola, dos seus carros, do seu sanduíche e de sua calça jean. A brasileira tem o mesmíssimo orgulho, mas do chiclete, coca-cola, carros, sanduíches e jeans deles, dos norte-americanos.

Difícil imaginar de onde o Jabor tirou que os brasileiros médios dariam o mesmo valor para uma porcaria de filme produzido aqui, que dão às porcarias de filmes produzidos lá; mas nem por isso se pode dizer que Jabor seja um boçal.

Não! Pois apesar do fracasso como cineasta, Jabor logo descobriu outra forma de utilizar seus conhecimentos sobre a boçalidade da classe média brasileira, colocando-os a serviço do maior grupo de comunicação do país. Deu um pouco de azar, coitado, pois resolve fazer isso justo quando o tal grupo inicia um processo de decadência e perda de público, mas isso Jabor não tinha como imaginar, porque apesar de seu convívio com Glauber Rocha, de povo ele entende muito pouco ou praticamente nada.

Ainda assim, e graças as suas pontas no jornalismo da Globo, as madeixas do Jabor conseguiram algum sucesso entre as senhoras da mesma classe que ele tanto desprezou, ironizou, satirizou e menoscabou através de seus longa-metragem.

Foi o também cineasta César Cavalcanti quem me chamou a atenção para o detalhe da cor da gravata diária no Jabor na TV: vermelha! E vermelha continuou cotidianamente desde a vitória eleitoral de Luís Ignácio Lula da Silva, até o anúncio da indicação de Gilberto Gil para o Ministério da Cultura. Talvez um pouco mais, na esperança de biscoitar algum alto cargo de confiança, mas a medida que o estafe se definiu em todo o Ministério, Jabor mudou de vez a cor da gravata e, de lá pra cá, não há o que o faça perdoar Lula. E nem deve! Pois se não for o que recebe dos Marinhos pra falar mal do governo Lula, vai viver do quê?

Difícil a situação do Jabor! Mas não se pode dizê-lo boçal, afinal está tirando algum proveito de tantas décadas de áridas análises e estudos sobre a classe média. Boçal sou eu que tento demonstrar a essa mesma classe média quanto o Jabor a trata como fruto da mais pura e refinada boçalidade.

Reconheço que sou boçal, pois jamais o típico pequeno-burguês do Brasil será capaz de enxergar algum valor em sua gente, em seu país, em sua história e em si mesmo. Muito pelo contrário! Sente-se afagado pelo William Bonner quando confessa que faz jornal para Hommer Simpsons, o personagem idiota do famoso seriado animado dos norte-americanos. Idiotas, sim, mas idilicamente idiotas norte-americanos!

Lembrando disso é que me contive quando vi o Jabor comentando a notícia do outro, o William Waack, culpando o Presidente Lula – evidentemente! – pela morte do prisioneiro cubano. Dizia a notícia que o presidente brasileiro negligenciara um pedido por sua intervenção, emitido pelo grupo do Orlando Zapata Tamayo de dento da prisão.

Aí aparece Lula negando ter recebido tal pedido, afirmando que se houvesse recebido até conversaria a respeito com os mandatários cubanos, mas que não fora protocolado. E então, para meu espanto, surge o Jabor especulando sobre a desumanidade do Lula ao exigir que o moribundo Zapata, fraco e com fome, ainda protocolasse o tal pedido.

Naquele momento não me contive e considerei o Jabor um boçal por desconhecer que qualquer pessoa que pretenda se dirigir por escrito a uma autoridade de onde for no mundo, terá de fazê-lo através de um registro protocolar, exatamente para preservar o direito de comprovar a intenção de se comunicar com a autoridade.

Se sou mal atendido por um assessor de serviço público e pretendo me queixar com seu titular, não adianta pôr uma cartinha no correio, pois o secretário, diretor ou o que seja, simplesmente poderá alegar que a missiva não lhe foi entregue. Jabor pode até cogitar que o governo cubano não entregou o pedido ao protocolo da embaixada brasileira, mas em meu imediato entender proferiu evidente boçalidade ao cogitar sobre desumana exigência burocrática a um moribundo em greve de fome. Afinal quem protocola não é o que emite o comunicado e, sim, o órgão que o recebe. Assim se atesta o recebimento de qualquer documento ao longo da história.

Muito fácil qualquer um dizer que entregou um documento a Lula, mas somente aquele que apresentar o protocolo de recebimento desse documento pela chancelaria de Lula poderá prová-lo. Qualquer pessoa com um mínimo de informação sabe disso e só o ignoram os muito desinformados ou boçais.

Mas então me lembrei da filmografia do Jabor. Lembrei quanto conhece bem de seu público, quanto sabe de suas fantasias e da facilidade de sugestioná-lo. Jabor sabe com o que e com quem está lidando, afinal passou quatro décadas analisando, documentando e ridicularizando a pasmaceira daqueles que hoje o adoram.

Não! Sem nenhuma sombra de dúvida, Jabor não é um boçal. Está ganhando para fazer o que faz.

Boçal sou eu que, sem ganhar coisa alguma, fico aqui perdendo meu tempo na tentativa de impedir que a classe média seja tratada tal qual é afeita, acostumada, e com tanto gosto e enrosco.


Raul Longo é jornalista, escritor e poeta, colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz
www.sambaqui.com.br/pousodapoesia
Ponta do Sambaqui, 2886
Floripa/SC

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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quinta-feira, 4 de março de 2010

RECEITA PARA A LIBERDADE DE EXPRESSÃO

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Urariano Mota

“Em seminário promovido pelo Instituto Millenium em SP, representantes dos principais veículos de comunicação do país afirmaram que o PT é um partido contrário à liberdade de expressão e à democracia. Eles acreditam que se Dilma for eleita o stalinismo será implantado no Brasil”, assim começava o esclarecedor texto de Bia Barbosa, no site Carta Maior, esta semana.

Por isso, decido expor aqui uma receita para a liberdade de expressão que nos salve de Stalin na imprensa brasileira. Como toda boa receita de bolo, há que se começar pelos ingredientes. Que são, saudáveis:

O povo, com todos seus tentáculos
Fascismo, com o nome de Princípio Ativo do Capital
Mão forte, para o golpe
Democracia, no gênero defesa do mercado
Liberdade, para quem sempre a possuiu
Ovos de crocodilo, para as lágrimas
Ovos de serpente, para o veneno
E farofa, muita farofa, de preferência pronta na saliva.


Modus operandi, ou modo de fazer o cremoso criminoso:

Na batedeira dos noticiários, bata as claras dos ovos de serpente primeiro, bem unidas, a ponto de se tornarem venenosas só de serem vistas. Faça o mesmo com as claras dos ovos de crocodilos, que devem ficar no ponto do close de lágrimas na imagem e na tinta de pesar dos obituários. Acrescente o açúcar de voz melosa, suave, beatífica, de apresentadoras que de tão boazinhas, puras e pulcras viram santas no Vaticano. Bata por mais 3 minutos em cada flash de exposição dessa matéria.

Agora ponha as gemas de crocodilos e serpente em deliciosa mistura, junte a Democracia do mercado, Liberdade da classe mais A do Brasil, mais o Princípio Ativo do Capital, que jamais se chamará de Fascismo, e, para dar o gosto e o sabor do passado, da tradição que não falha, agite a mistura com Mão Forte, com golpes rápidos e de surpresa, à semelhança dos ladrões e assaltantes. Isso até formar uma massa homogênea, unida, submetida pela força e pela persuasão da força.

Por último, ponha o fermento bem armado e bata e bata, e bata, e golpeie. Despeje a massa numa forma de classe média bem untada de valores familiares e de nossa classe contra o resto do mundo. Asse em frigideiras de reputação bem aquecidas, até fazer a massa dourar pela aceitação do fogo. Reforce o fogo.

Os ingredientes da cobertura são simples: farofa e os ovos de serpente que sobraram.

Modus operandi da cobertura:

Retire as claras para que sejam batidas às escuras, em off. Deixe-as respirar em papel de jornais e revistas, bem expostas na sala durante o tempo dos informativos na televisão. Depois, adorne a cobertura com a frase “eu tenho medo”, em todos os espaços livres da liberdade de expressão. Sirva-a com palavras dramáticas e lágrimas de Regina Duarte.

Sei que a esta altura devem estar perguntando: e o povo, e o povo com todos os seus tentáculos, como está escrito lá em cima nos ingredientes? O que fazer com o povo? Ora, o povo entra nesta receita por figuração estética. É simples. Usa-se o povo e se joga fora.

Esta é a nossa receita para a liberdade de expressão, conforme o seminário promovido pelo Instituto Millenium. Jornalistas, editores e donos do pensamento em geral poderão ter com ela a certeza de evitar a eleição da Dilma Roussef. É possível que a receita não seja digerível por estômagos mais humanos. Mas com a certeza dará um belo bolo.


Urariano Mota, escritor e jornalista, autor de “Soledad no Recife” (Boitempo – 2009) seu último romance, indicado como um possível livro do ano pelo conceituado site Nova Cultura, elaborado e administrado na Alemanha, com os destaques literários da CPLP - Comunidade de Países de Língua Portuguesa. É colunista do site Direto da Redação, edita o blog SAPOTI DE JAPARANDUBA http://urarianoms.blog.uol.com.br/

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quarta-feira, 3 de março de 2010

A turma do funil declarou guerra à turma do barril

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Nota Assaz Atroz

Conhece a marchinha carnavalesca “Turma do funil”?

Pois nós somos a “Turma do Barril”.

Chegou a turma do BARRIL
Todo mundo bebe
Mas ninguém dorme no ponto
Ai, ai ninguém dorme no ponto
Nós é que bebemos
E eles que ficam tontos

O refrão da marchinha, assim com um toque parodístico, expressa o que está acontecendo em termos de democracia das comunicações no Brasil: “Nós é que bebemos, e eles que ficam tontos”.

Com a internet, passamos a beber em fontes diversas e com elas interagimos. Contamos com, pelo menos, este grande canal de comunicação verdadeiramente democrático.

Acontece que, neste caso específico, nossa turma enfia a cara no barril, bebe direto na fonte e até produz o próprio rum, vodca, uísque, cerveja, cachaça e até refrigerantes.

Agora, só quem usa o funil é a turma de outro bloco, um bloquinho de meia dúzia, mas com o poder de afunilar a passagem dos nossos foliões, multidões, dificultando nosso acesso às vias públicas (os canais midiáticos mais populares) e jogando todas as cartas para evitar que entremos em contato imediato com o público midiotizado pela turma do funil.

Editor-Assaz-Atroz-Chefe

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Grande mídia organiza campanha contra candidatura de Dilma

Em seminário promovido pelo Instituto Millenium em SP, representantes dos principais veículos de comunicação do país afirmaram que o PT é um partido contrário à liberdade de expressão e à democracia. Eles acreditam que se Dilma for eleita o stalinismo será implantado no Brasil. “Então tem que haver um trabalho a priori contra isso, uma atitude de precaução dos meios de comunicação. Temos que ser ofensivos e agressivos, não adianta reclamar depois”, sentenciou Arnaldo Jabor.

por Bia Barbosa

Se algum estudante ou profissional de comunicação desavisado pagou os R$ 500,00 que custavam a inscrição do 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, organizado pelo Instituto Millenium, acreditando que os debates no evento girariam em torno das reais ameaças a esses direitos fundamentais, pode ter se surpreendido com a verdadeira aula sobre como organizar uma campanha política que foi dada pelos representantes dos grandes veículos de comunicação nesta segunda-feira, em São Paulo.

Promovido por um instituto defensor de valores como a economia de mercado e o direito à propriedade, e que tem entre seus conselheiros nomes como João Roberto Marinho, Roberto Civita, Eurípedes Alcântara e Pedro Bial, o fórum contou com o apoio de entidades como a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), ANER (Associação Nacional de Editores de Revista), ANJ (Associação Nacional de Jornais) e Abap (Associação Brasileira de Agências de Publicidade). E dedicou boa parte das suas discussões ao que os palestrantes consideram um risco para a democracia brasileira: a eleição de Dilma Rousseff.

A explicação foi inicialmente dada pelo sociólogo Demétrio Magnoli, que passou os últimos anos combatendo, nos noticiários e páginas dos grandes veículos, políticas de ação afirmativa como as cotas para negros nas universidades. Segundo ele, no início de sua história, o PT abrangia em sua composição uma diversidade maior de correntes, incluindo a presença de lideranças social-democratas. Hoje, para Magnoli, o partido é um aparato controlado por sindicalistas e castristas, que têm respondido a suas bases pela retomada e restauração de um programa político reminiscente dos antigos partidos comunistas.

“Ao longo das quatro candidaturas de Lula, o PT realizou uma mudança muito importante em relação à economia. Mas ao mesmo tempo em que o governo adota um programa econômico ortodoxo e princípios da economia de mercado, o PT dá marcha ré em todos os assuntos que se referem à democracia. Como contraponto à adesão à economia de mercado, retoma as antigas idéias de partido dirigente e de democracia burguesa, cruciais num ideário anti-democrático, e consolida um aparato partidário muito forte que reduz brutalmente a diversidade política no PT. E este movimento é reforçado hoje pelo cenário de emergência do chavismo e pela aliança entre Venezuela e Cuba”, acredita. “O PT se tornou o maior partido do Brasil como fruto da democracia, mas é ambivalente em relação a esta democracia. Ele celebra a Venezuela de Chávez, aplaude o regime castrista em seus documentos oficiais e congressos, e solta uma nota oficial em apoio ao fechamento da RCTV”, diz.

A RCTV é a emissora de TV venezuelana que não teve sua concessão em canal aberto renovada por descumprir as leis do país e articular o golpe de 2000 contra o presidente Hugo Chávez, cujo presidente foi convidado de honra do evento do Instituto Millenium. Hoje, a RCTV opera apenas no cabo e segue enfrentando o governo por se recusar a cumprir a legislação nacional. Por esta atitude, Marcel Granier é considerado pelos organizadores do Fórum um símbolo mundial da luta pela liberdade de expressão – um direito a que, acreditam, o PT também é contra.

“O PT é um partido contra a liberdade de expressão. Não há dúvidas em relação a isso. Mas no Brasil vivemos um debate democrático e o PT, por intermédio do cerceamento da liberdade de imprensa, propõe subverter a democracia pelos processos democráticos”, declarou o filósofo Denis Rosenfield. “A idéia de controle social da mídia é oficial nos programas do PT. O partido poderia ter se tornado social-democrata, mas decidiu que seu caminho seria de restauração stalinista. E não por acaso o centro desta restauração stalinista é o ataque verbal à liberdade de imprensa e expressão”, completou Magnoli.

O tal ataque

Para os pensadores da mídia de direita, o cerco à liberdade de expressão não é novidade no Brasil. E tal cerceamento não nasce da brutal concentração da propriedade dos meios de comunicação característica do Brasil, mas vem se manifestando há anos em iniciativas do governo Lula, em projetos com o da Ancinav, que pretendia criar uma agência de regulação do setor audiovisual, considerado “autoritário, burocratizante, concentracionista e estatizante” pelos palestrantes do Fórum, e do Conselho Federal de Jornalistas, que tinha como prerrogativa fiscalizar o exercício da profissão no país.

“Se o CFJ tivesse vingado, o governo deteria o controle absoluto de uma atividade cuja liberdade está garantida na Constituição Federal. O veneno antidemocrático era forte demais. Mas o governo não desiste. Tanto que em novembro, o Diretório Nacional do PT aprovou propostas para a Conferência Nacional de Comunicação defendendo mecanismos de controle público e sanções à imprensa”, avalia o articulista do Estadão e conhecido membro da Opus Dei, Carlos Alberto Di Franco.

“Tínhamos um partido que passou 20 anos fazendo guerra de valores, sabotando tentativas, atrapalhadas ou não, de estabilização, e que chegou em 2002 com chances de vencer as eleições. E todos os setores acreditaram que eles não queriam fazer o socialismo. Eles nos ofereceram estabilidade e por isso aceitamos tudo”, lamenta Reinaldo Azevedo, colunista da revista Veja, que faz questão de assumir que Fernando Henrique Cardoso está à sua esquerda e para quem o DEM não defende os verdadeiros valores de direita. “A guerra da democracia do lado de cá esta sendo perdida”, disse, num momento de desespero.

O deputado petista Antonio Palocci, convidado do evento, até tentou tranqüilizar os participantes, dizendo que não vê no horizonte nenhum risco à liberdade de expressão no Brasil e que o Presidente Lula respeita e defende a liberdade de imprensa. O ministro Hélio Costa, velho amigo e conhecido dos donos da mídia, também. “Durante os procedimentos que levaram à Conferência de Comunicação, o governo foi unânime ao dizer que em hipótese alguma aceitaria uma discussão sobre o controle social da mídia. Isso não será permitido discutir, do ponto de vista governamental, porque consideramos absolutamente intocável”, garantiu.

Mas não adiantou. Nesta análise criteriosa sobre o Partido dos Trabalhadores, houve quem teorizasse até sobre os malefícios da militância partidária. Roberto Romano, convidado para falar em uma mesa sobre Estado Democrático de Direito, foi categórico ao atacar a prática política e apresentar elementos para a teoria da conspiração que ali se construía, defendendo a necessidade de surgimento de um partido de direita no país para quebrar o monopólio progressivo da esquerda.

“O partido de militantes é um partido de corrosão de caráter. Você não tem mais, por exemplo, juiz ou jornalista; tem um militante que responde ao seu dirigente partidário (...) Há uma cultura da militância por baixo, que faz com que essas pessoas militem nos órgãos públicos. E a escolha do militante vai até a morte. (...) Você tem grupos políticos nas redações que se dão ao direito de fazer censura. Não é por acaso que o PT tem uma massa de pessoas que considera toda a imprensa burguesa como criminosa e mentirosa”, explica.



O “risco Dilma”

Convictos da imposição pelo presente governo de uma visão de mundo hegemônica e de um único conjunto de valores, que estaria lentamente sedimentando-se no país pelas ações do Presidente Lula, os debatedores do Fórum Democracia e Liberdade de Expressão apresentaram aos cerca de 180 presentes e aos internautas que acompanharam o evento pela rede mundial de computadores os riscos de uma eventual eleição de Dilma Rousseff. A análise é simples: ao contrário de Lula, que possui uma “autonomia bonapartista” em relação ao PT, a sustentação de Dilma depende fundamentalmente do Partido dos Trabalhadores. E isso, por si só, já representa um perigo para a democracia e a liberdade de expressão no Brasil.

“O que está na cabeça de quem pode assumir em definitivo o poder no país é um patrimonialismo de Estado. Lula, com seu temperamento conciliador, teve o mérito real de manter os bolcheviques e jacobinos fora do poder. Mas conheço a cabeça de comunistas, fui do PC, e isso não muda, é feito pedra. O perigo é que a cabeça deste novo patrimonialismo de estado acha que a sociedade não merece confiança. Se sentem realmente superiores a nós, donos de uma linha justa, com direito de dominar e corrigir a sociedade segundo seus direitos ideológicos”, afirma o cineasta e comentarista da Rede Globo, Arnaldo Jabor. “Minha preocupação é que se o próximo governo for da Dilma, será uma infiltração infinitas de formigas neste país. Quem vai mandar no país é o Zé Dirceu e o Vaccarezza. A questão é como impedir politicamente o pensamento de uma velha esquerda que não deveria mais existir no mundo”, alerta Jabor.

Para Denis Rosenfield, ao contrário de Lula, que ganhou as eleições fazendo um movimento para o centro do espectro político, Dilma e o PT radicalizaram o discurso por intermédio do debate de idéias em torno do Programa Nacional de Direitos Humanos 3, lançado pelo governo no final do ano passado. “Observamos no Brasil tendências cada vez maiores de cerceamento da liberdade de expressão. Além do CFJ e da Ancinav, tem a Conferência Nacional de Comunicação, o PNDH-3 e a Conferência de Cultura. Então o projeto é claro. Só não vê coerência quem não quer”, afirma. “Se muitas das intenções do PT não foram realizadas não foi por ausência de vontades, mas por ausência de condições, sobretudo porque a mídia é atuante”, admite.

Hora de reagir

E foi essa atuação consistente que o Instituto Millenium cobrou da imprensa brasileira. Sair da abstração literária e partir para o ataque.
“Se o Serra ganhasse, faríamos uma festa em termos das liberdades. Seria ruim para os fumantes, mas mudaria muito em relação à liberdade de expressão. Mas a perspectiva é que a Dilma vença”, alertou Demétrio Magnoli.

“Então o perigo maior que nos ronda é ficar abstratos enquanto os outros são objetivos e obstinados, furando nossa resistência. A classe, o grupo e as pessoas ligadas à imprensa têm que ter uma atitude ofensiva e não defensiva. Temos que combater os indícios, que estão todos aí. O mundo hoje é de muita liberdade de expressão, inclusive tecnológica, e isso provoca revolta nos velhos esquerdistas. Por isso tem que haver um trabalho a priori contra isso, uma atitude de precaução. Senão isso se esvai. Nossa atitude tem que ser agressiva”, disse Jabor, convocando os presentes para a guerra ideológica.

“Na hora em que a imprensa decidir e passar a defender os valores que são da democracia, da economia de mercado e do individualismo, e que não se vai dar trela para quem quer a solapar, começaremos a mudar uma certa cultura”, prevê Reinaldo Azevedo.

Um último conselho foi dado aos veículos de imprensa: assumam publicamente a candidatura que vão apoiar. Espera-se que ao menos esta recomendação seja seguida, para que a posição da grande mídia não seja conhecida apenas por aqueles que puderam pagar R$ 500,00 pela oficina de campanha eleitoral dada nesta segunda-feira.

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16414


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terça-feira, 2 de março de 2010

NA CASA DOS KARAMABLOCH

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Rui Martins

De repente me lembrei de uma promessa não cumprida. E já faz tempo. Tinha comprado, em Santos, na livraria Realejo, no Gonzaga, o livro Os Irmãos Karamabloch e prometera comentá-lo, coisa nunca feita.

Ora, a Manchete surgiu num momento quase dramático, em Paris, quando depois de uma frustrada ida, como professor de jornalismo para Orã, na Argélia, vivia com minha companheira e filha de um ano no limite da miserabilidade. E tudo aconteceu no estilo telenovelesco.

Ao fazer a entrega de encomendas para a livraria Sciences Politiques, na rue St. Guillaume, estacionei a furgonete (com a qual ganhava um mínimo para comermos) Citroen perto da Cour Albert I, e decidi ir visitar um amigo da época, o jornalista carioca Carlos Freire, da equipe da Editora Bloch. A editora alugava um enorme apartamento, numa área de prestígio da rive droite parisiense.

Subi as escadas atapetadas, num vermelho vivo, e me abriu a porta a secretária portuguesa. Perguntei pelo amigo e me disse que « já lá não estava mais ». Surpreendi-me, pois estivera com ele, alguns dias antes no Quartier Latin, e manifestei minha estranheza. « Pois foi demitido hoje de manhã. Mas entre, quem sabe quer falar com o novo diretor ».

Lá dentro, pedi que me explicasse o que acontecera. Soube, então, ter havido uma demissão coletiva da equipe, tanto do texto como das fotos. - O senhor Adolpho chegou hoje do Rio, de surpresa – contou-me ela, ambos ainda de pé no salão de entrada vazio e silencioso – por volta das nove e meia, disse-me bom-dia e foi nas salas dos redatores e do fotógrafo. Como não havia ninguém, exceto o contador e encarregado da publicidade, perguntou onde estavam. Já vão chegar, disse o contador Silvio Silveira, antigo músico e cozinheiro, reconvertido em vendedor de espaço na Manchete para empresas parisienses.

- Como às dez horas ainda não tivesse chegado ninguém, sentou-se naquela poltrona, nervoso, calado e com cara de poucos amigos, prosseguiu a secretária. Começaram a chegar, quase ao meio-dia, o Carlos, o fotógrafo (era Alécio de Andrade, que depois foi da Magnum e morreu quase na miséria), e, à medida que entravam, o senhor Adolpho os ia demitindo. Fora, fora – berrava - está despedido. E, assim, ao meio-dia e meia, só restamos eu e o senhor Sílvio como funcionários desta sucursal.

Silvio, gaúcho, de bigodinho, bem vestido, ouviu a conversa e veio ver quem era. Me cumprimentou, eu de sandália, calça lee, camisa esporte, cabelos compridos e me comunicou ter sido nomeado como novo diretor. Naquela função, eu tinha conhecido, numa visita bem anterior, o enorme Ney Sroulevich.

- Como vão trabalhar sem pessoal? arrisquei perguntar. Com agências, me respondeu. Mas, insisti, a revista tem reportagens com brasileiros em Paris, coisas exclusivas que as agências não fazem.

Senti que essa questão não lhe tinha passado ainda pela cabeça e me veio a inspiração que salvou a mim, mulher e filha, de morrermos de fome, naquela Paris do começo dos anos 70. Deixei meu endereço, onde estava morando de favor, não esquecendo de juntar em francês o correspondente a « aos cuidados de » e o nome de meus amigos, locatários de férias e me despedi sem qualquer esperança.

No dia seguinte, vejo um envelope na caixa do correio, pego para juntá-los às outras correspondências dos meus amigos, mas vejo o enorme M de Manchete, num fundo vermelho, e leio que é para mim. Naquela época, não havia email, mas em Paris se usava o pneumatique, correspondência circulando por vácuo dentro de tubos, como telegramas.

Foi assim que entrei para a família dos Karamabloch, no dizer de Arnaldo Bloch, sobrinho de Adolpho, e autor do livro. O clima era paternalista, vez ou outra Silvio fazia almoços e comíamos juntos numa enorme cozinha ou no salão, como se fôssemos uma família unida.

Free-lance, vivendo de sugestões aprovadas ou de pedidos de matérias do Rio, logo percebi o clima tenso, a insegurança, a extrema competição em que vivíamos. Adolpho, o amigo que poderia virar seu inimigo, sem ser possível saber o que poderia agradar ou desagradar o chefe. A revista comprometida com os militares, mas onde aparecia um cassado, JK, com seu sorriso e sua elegância. Um clima de criar úlcera e que só poderia mesmo terminar, como terminou, numa falência. Porque os Karamabloch viviam, entre eles, aquilo que conseguiam transportar para o cotidiano de seus empregados.

*Ex- correspondente do Estadão e da CBN, após exílio na França. Autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criou os Brasileirinhos Apátridas e propõe o Estado dos Emigrantes. Vive na Suíça, colabora com os jornais portugueses Público e Expresso, é colunista do site Direto da Redação. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

Para Rui Martins, o governo brasileiro deveria criar uma nova política de emigração a exemplo de Portugal, França, Itália e mesmo México e Equador.

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http://www.francophones-de-berne.ch/



http://www.estadodoemigrante.org/

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segunda-feira, 1 de março de 2010

OS DIREITOS HUMANOS TÊM MÃO DUPLA?

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Laerte Braga

Milhares de muçulmanos foram detidos em todas as partes do mundo e levados para a base norte-americana de Guantánamo, na reação do governo do então presidente Bush ao ataque às torres gêmeas do World Trade Center.

Suspeitos foram detidos sem qualquer observância aos menores princípios do direito e mantidos presos na base sem culpa formada, sem processo regular, sem direito a advogados, qualquer tipo de defesa até que, no final do governo Bush, um juiz assegurou o direito mínimo de defesa. Muitos, diante da absoluta falta de provas foram liberados anos depois com um simples pedido de desculpas.

Como disse o presidente de Cuba Raul Castro ao ser perguntado por um jornalista sobre os direitos humanos em seu país, ao lado do presidente Lula, só não existem direitos humanos ali, na área ocupada pelos norte-americanos, exatamente Guantánamo.

O presidente do Paraguai Fernando Lugo revelou há dias que uma das exigências do governo dos EUA para uma base militar no Paraguai, no governo anterior, foi a de que os militares norte-americanos tivessem imunidades diante da legislação internacional sobre direitos humanos.

As cenas de violência e boçalidade nas prisões do Iraque foram assistidas em todo o mundo e a encenação de julgar militares de baixa patente tentou mostrar um lado sadio numa nação doente, os Estados Unidos, com direito a efeitos especiais.

É recente um filme premiado em várias categorias, A IDENTIDADE BOURNE, sobre um capitão dos EUA que é atraído e apresenta-se como voluntário a um programa das agências de inteligência daquele país, que visava eliminar inimigos em qualquer parte do mundo.

O filme teve duas seqüência nas quais o agente percebe que foi usado de todas as formas possíveis, inclusive perdendo suas próprias referências, a partir do seu nome, da cidade onde nasceu, tudo para executar “missões patrióticas”.

Não é nenhuma obra prima, mas é um bom filme e exemplo da rotina dos serviços de inteligência dos EUA em qualquer lugar, na garantia da “democracia”, na observância dos “direitos humanos”.

Que direitos tiveram os afegãos mortos em bombardeios equivocados? Um bombardeio? Não, vários numa só semana.

O que a ex-secretária de Estado do governo Clinton, Madeleine Albright quis dizer quando respondeu que a morte de 500 mil crianças iraquianas por conta de um bloqueio político e econômico ao Iraque era um “preço que a democracia paga?”

O jornalista Waldo Cruz, da FOLHA DE SÃO PAULO, partícipe da ditadura militar (emprestava seus caminhões para a desova de cadáveres de presos políticos torturados no DOI/CODI de São Paulo), por pouco não levanta vôo num programa de televisão da GLOBO, em canal fechado, ao investir contra Cuba e contra o que chamou de “omissão” do presidente Lula sobre a morte de um prisioneiro que fez greve de fome em protesto contra sua condenação.

Sugiro inclusive que a rede disponibilize cintos de segurança nas cadeiras de vários entrevistados e vacina anti rábica para os casos mais graves, evitando problemas futuros. De repente um Waldo Cruz da vida levanta vôo, bate com a cabeça no teto, além do prejuízo existe ainda o risco de um traumatismo craniano e o vento que vai sair do cérebro contaminar um ou outro convidado que tenha alguma coisa na cabeça.

Quando o governo de Saddam Hussein foi deposto e um governo títere imposto ao povo iraquiano, um acordo foi assinado com os EUA, que excluía os norte-americanos de qualquer responsabilidade perante tribunais internacionais em caso de violações de direitos humanos ou crimes comuns. Seriam julgados mesmo que o crime fosse de furto, por exemplo, pela justiça militar norte-americana. Milhares de estupros de cidadãs iraquianas ficaram encobertos nessa cortina cínica do império que era de Bush e agora é gerido pelo cervejeiro Barack Obama.

Isso se aplica aos militares norte-americanos na Colômbia, no Afeganistão, em Honduras, nas mais de 300 bases espalhadas pelo mundo inteiro, inclusive na Europa.

É recente a ação de agentes do MOSSAD em falsificação de passaportes para entrar em Dubai e assassinar um líder do Hamas. Pressionados, os governos da Grã Bretanha, da Alemanha e outros não tiveram como negar o fato. É prática comum do governo terrorista de Israel.

Dia desses o JORNAL NACIONAL mostrou as imagens de uma cidadã palestina sendo revistada num posto de controle em território palestino ocupado por Israel, e William Bonner, com sua costumeira e prodigiosa capacidade de mentir sem piscar, é um robô, disse que a senhora havia investido com uma faca contra soldados de Israel. Não mostrou que os soldados de Israel, na revista, tinham apalpado os seios da cidadã palestina e apertado suas nádegas.

Como no golpe contra Chávez em 2002 que a tevê privada da Venezuela mostrou chavistas “atirando” contra “civis indefesos” e quando aberta a imagem se percebia que os francos atiradores eram os golpistas, a reação dos homens leais a Chávez era atirar a esmo num lugar onde não havia ninguém. Se a rede de tevê é punida por mentira contumaz, informação deturpada, práticas golpistas, chantagem, corrupção, tudo o que a GLOBO faz aqui, está se “violando a liberdade de expressão”.

O governo dos Estados Unidos não assinou o tratado internacional que constituiu um tribunal para julgar crimes contra os direitos humanos. Mas exige que países que não são signatários do tratado de prescrição de armas nucleares cumpram esse acordo, desde que o país seja o Irã. Israel não. Pode ter pelo menos 60 bombas nucleares para garantir o direito de seus soldados apalparem seios de palestinas.

Em sua campanha eleitoral Obama anunciou que fecharia a prisão de Guantánamo e considerou a base uma vergonha para o seu país. Tomou posse, foi enquadrado pelo poder sionista que governa os EUA e desistiu de fechar a base. Continua com presos sem culpa formada e sem qualquer direito, submetidos a todo o repertório de tortura que qualquer cidadão latino-americano que conhece história, conhece dos tempos das ditaduras militares. Os torturadores daqui eram treinados por agentes dos EUA.

Um documento da ANISTIA INTERNACIONAL, ONG que liga a seta para um lado e vira o carro para outro, condena a falta de direitos humanos em Cuba? Onde? Nas milhões de crianças que dormem pelas ruas espalhadas em todos os cantos do mundo, mas nenhuma é cubana?

No bloqueio político e econômico imposto pelos EUA ao governo e ao povo de Cuba?

Por trás de toda essa farsa montada pela mídia brasileira para culpar o presidente do Brasil por ter ido a Cuba e não ter dito nada sobre a morte de um preso cubano, existe o compromisso absoluto dessa mídia com a mentira. Com os interesses de Washington. De banqueiros, empresários e latifundiários.

Com a candidatura de José Collor Arruda Serra, o ano é eleitoral e querem retomar o poder a todo custo para que o BRASIL vire, definitivamente, BRAZIL.

A violência e a barbárie em escala mundial partem de Washington, passam por Tel Aviv e se espalham por todos os cantos na doença capitalista que o império impõe ao mundo.

Ou vale lembrar a frase de Nixon quando lhe disseram que o governo do ditador Medice violava os direitos humanos com tal brutalidade que era necessário dar um alerta. Nixon respondeu – “e uma pena, mas ele é um bom aliado, vamos deixar isso para lá” –.

O jornalista Waldo Cruz, ou jornalistas globais, já se preocuparam em levantar o número de homicídios praticados por traficantes colombianos travestidos de pára militares, aliados de Uribe contra adversários do governo e do narcotráfico?

Já contaram a história do acordo entre as FARCs e o governo colombiano. A guerrilha deixou a luta armada, disputou eleições, elegeu vereadores, prefeitos, deputados e senadores e foram todos assassinados para evitar quem em pouco tempo os colombianos elegessem um integrante do grupo para a presidência do país e acabasse com os cartéis que governam a Colômbia?

Que a decisão de voltar à luta armada foi conseqüência dessa vilania, dessa infâmia?

A falta de caráter da grande mídia brasileira e seus miquinhos amestrados (dar entrevista na GLOBO é aquele negócio de quinze minutos de fama) não tem limites e nem pudor.

Os assassinos de camponeses em Eldorado do Carajás continuam soltos. A luta para levar às barras dos tribunais e a cadeia os que mandaram e mataram Dorothy Stang é travada dia a dia para evitar que juízes e tribunais corruptos joguem os processos em escaninhos de almoxarifados onde vão para o limbo da prescrição?

O dia que a FOLHA DE SÃO PAULO, que chamou a ditadura militar de ditabranda confessar as barbáries das quais participava durante a ditadura terá moral para falar em direitos humanos. Até lá são criminosos travestidos de empresários.

O dia que os norte-americanos deixarem de usar armas químicas nas guerras que travam para controlar o mundo e abandonarem o poderio nuclear, reconhecerem o Estado Palestino, tal e qual decidiu a ONU em 1948, suspenderem o bloqueio contra Cuba, os assassinatos seletivos autorizados pelo governo contra os que consideram inimigos, nesse dia, se a FOLHA noticiar e a GLOBO também e VEJA mostrar que Bush e Obama são da mesma estirpe terrorista, difere o estilo, aí sim, poderão falar em direitos humanos.

O que fazem é mero jogo de interesses. Para eles direitos humanos têm mão dupla.

Laerte Braga, jornalista, colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

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Flash-back Assaz Atroz



(Jornal Público-Portugal)

Detidos usaram lençóis e toalhas para se enforcarem

Bush lança operação diplomática após triplo suicídio em Guantánamo
11.06.2006 - 09:18 Por AFP, AP

O Presidente norte-americano, George W. Bush, reagiu com "profunda inquietação" à morte de três reclusos na prisão americana de Guantánamo, em Cuba, informou a Casa Branca. Os três homens morreram na sequência do que foi descrito pelo Exército como um aparente "pacto suicida".

Os dois sauditas e um iemenita foram encontrados mortos ontem de manhã nas suas celas na base naval norte-americana de Guantánamo e ter-se-ão enforcado utilizando lençóis e toalhas, revelou o almirante Harry Harris. "Enforcaram-se com cordões feitos por eles mesmos com lençóis e toalhas", declarou o comandante da base em entrevista telefónica.

O almirante Harris disse que estas baixas foram as primeiras registadas entre centenas de reclusos - por suspeita de terrorismo - desde 2001. Todavia, acrescentou, "os suicídios não foram um acto de desespero, mas sim de guerra".

O Presidente norte-americano foi ontem alertado para o sucedido, às 07h45 locais (14h45 de Lisboa), em Camp David, onde está a passar o fim-de-semana. A informação chegou no âmbito da reunião diária para reportar informação sensível e Bush terá frisado a importância de um esforço diplomático para informar os países e organizações mundiais sobre o sucedido.

Guantánamo tem sido um problema de política externa para o Presidente dos Estados Unidos, no âmbito de uma política antiterrorista dura em que as questões de direitos humanos têm sido motivo de polémica.

Agora, segundo explicou o assessor de imprensa da Casa Branca, Tony Snow, "houve um esforço agressivo não só por parte do Pentágono, mas também da Casa Branca para começar a investigar“ os alegados suicídios. "É senso-comum. Guantánamo é obivamente um tema de alguma preocupação".

Como reflexo dos possíveis problemas diplomáticos que estas mortes podem gerar, a Casa Branca e o seu Conselho de Segurança, mas também o Departamento do Estado e os elos de ligação de Bush com o Congresso norte-americano puseram-se em campo para contactar as Nações Unidas, a União Europeia, a maioria dos países europeus a título individual, as embaixadas de países do Médio Oriente e Próximo Oriente, a Comissão Internacional da Cruz Vermelha e representantes internos no Congresso e no Senado, para apaziguar os ânimos.

"Ele quer assegurar-se de que isto é feito da forma correcta de todos os pontos de vista", disse Tony Snow ontem à noite sobre as intenções de Bush.

O Presidente americano pediu, segundo Snow, que os corpos sejam "tratados de forma humana e com sensibilidade cultural" em respeito das tradições fúnebres muçulmanas.

Em Guantánamo estiveram já detidas 759 pessoas e neste momento estão ali detidas 462. Nos últimos quatro anos e meio houve acima de 40 tentativas de suicídio na base americana em Cuba.

http://www.publico.pt/Mundo/bush-lanca-operacao-diplomatica-apos-triplo-suicidio-em-guantanamo_1260600

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