quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

"Mensalão": o grotesco midiático se anuncia

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Em um sistema de dominação é essa, e nenhuma outra, a função da "mídia": induzir o espírito de manada, o não-pensar, o abrir mão da razão e aderir entusiasticamente à insensatez programada pelos que puxam os cordões. Os fracassos recentes não nos permitem desdenhar do capital simbólico que as corporações ainda detêm para defender os seus interesses e o das frações de classe a ela associadas.

Gilson Caroni Filho*

A manchete do jornal O Globo, em sua edição de 15 de fevereiro de 2012 ("Marcos Valério é o primeiro condenado do Mensalão"), não deixa dúvidas quanto ao espetáculo que dominará páginas e telas depois do carnaval: à medida em que se aproxima o julgamento do processo que a imprensa chama de "escândalo da mensalão", velhos expedientes são reeditados sem qualquer cerimônia que busque manter a aparência de jornalismo sério.

A condenação do publicitário por crimes de sonegação fiscal e falsificação de documentos públicos seria, mesmo que não surjam provas de conduta delituosa por parte dos réus, a senha para o STF homologar a narrativa midiática e não ficar maculado pela imagem de "pizza" que uma absolvição inevitavelmente traria à mais alta corte do país. Essa é a intimidação diária contida em artiguetes e editoriais.

Como destaca Pedro Estevam Serrano, em sua coluna para a revista Carta Capital, "o que verificamos é a ocorrência constante de matérias jornalísticas em alguns veículos que procuram nitidamente criar um ambiente de opinião pública contrária aos réus, apelando a matérias mais dotadas da verossimilhança dos romances que à verdade que deveria ser o mote dos relatos jornalísticos". Os riscos aos pilares básicos do Estado Democrático de Direito são nítidos na empreitada. Serrano alerta para o objetivo último das corporações:

"E tal comportamento tem intenção política evidente, qual seja procurar criminalizar o PT e o governo Lula, pois ao distanciar o julgamento de sua concretude por relatos abstratos e simbólicos o que se procura pôr no banco dos réus não são apenas as condutas pessoais em pauta mas sim todo um segmento político e ideológico."

A unificação editorial em favor da manutenção dos direitos do CNJ em votação de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) não revela apenas preocupação com o indispensável controle externo do poder judiciário, mas o constrangimento necessário de juízes às vésperas de um julgamento que envolve, a construção política mais cara à mídia corporativa. No lugar do contraditório, a imposição de uma agenda. Ocupando o espaço da correta publicidade dos fatos, a recorrente tentativa de manipulação da opinião pública. A trama, no entanto, deve ser olhada pelo que traz de pedagógico, explicitando papéis e funções no campo jornalístico.

O pensamento único, para o ser, não basta ser hegemônico; tem que ser excludente. Não apenas de outros pensamentos, mas do próprio pensar. Parafraseando Aldous Huxley, "se o indivíduo pensa, a estrutura de poder fica tensa". Na verdade, na sociedade administrada não pode haver indivíduo. Apenas a massa disforme, cujo universo cognitivo e intelectivo é, de alto a baixo, subministrado pelos detentores do poder social. É nessa crença que se movem articulistas, editores e seus patrões.

Em um sistema de dominação é essa, e nenhuma outra,, a função da "mídia": induzir o espírito de manada, o não-pensar, o abrir mão da razão e aderir entusiasticamente à insensatez programada pelos que puxam os cordões. Os fracassos recentes não nos permitem desdenhar do capital simbólico que as corporações ainda detêm para defender os seus interesses e o das frações de classe a ela associadas.

Nesse processo, o principal indutor é o "Sistema Globo", que o falecido Paulo Francis, antes de capitular, apropriadamente crismou como "Metástase", pois de fato suas toxinas se espalham por todo o tecido social. Seus carros-chefe, que frequentemente se realimentam reciprocamente, são o jornal da classe média conservadora e, principalmente, o Jornal Nacional, meticulosamente pautado "de [William] Bonner para Homer [Simpson]" que, de segunda a sábado, despeja ideologia mal travestida de notícia sobre dezenas de milhões de incautos

E o que "deu" no Jornal Nacional "pauta" desde as editorias dos jornais impresso-, O Globo por cima e o Extra por baixo- e das revistas, "da casa" ou de uma "concorrência" cujo único objetivo é ser ainda mais sensacionalista e leviana. Algumas vezes, o movimento segue o sentido inverso: uma publicação semanal produz a ficção que só repercute graças à reprodução da corporação.

Os outros instrumentos de espetaculosidade complementam o processo, impondo suas versões de pseudo-realidade: o Fantástico, ersatz dominical do JN; as novelas "campeãs de audiência", com seus "conflitos" descarnados e suas "causas sociais" oportunisticamente selecionadas como desconversa; e, culminando, o Big Brother Brasil, a celebração máxima da total vacuidade.

Processo análogo vem sendo usado, há mais de duas décadas, para esvaziar e despolitizar a política, reduzindo-a às futricas de bastidores, ao "em off" e aos "papos de cafezinho"; e, em época eleitoral, à corrida de cavalões das pesquisas de intenção de voto que ocupam as manchetes, o noticiário, as colunas – ah, as colunas! – e até mesmo a discussão supostamente acadêmica. A não menos velha desconversa nacional: olha todo mundo pra cá, e pela minha lente, para que ninguém olhe pra lá.

Falar-se em "opinião pública", nesse cenário, é um escárnio. "Opinião" pressupõe um espaço interno, em cada indivíduo, para reflexão, ponderação, crítica e elaboração, não controlado pelo poder social. "Pública" requer que exista uma esfera pública, de discurso racional entre iguais, aberto ao contraditório e não subordinado aos ditames do "mercado" ou subministrado de fio a pavio pelo braço "midiático" do mesmo poder. Nem uma nem outra condição pode existir em ambiente que tenta subjugar "corações e mentes", induzindo-o sistemática e deliberadamente à loucura social.

Avançamos bastante, mas não nos iludamos: o que vem por aí é uma luta renhida. De um lado, o espetáculo autoritário.. E, de outro, a cidadania e o Estado de Direito como permanente construção.

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*Gilson Caroni Filho, sociólogo, mestre em ciências políticas, professor titular de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), é colunista da Carta Maior. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz.

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

PressAA

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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Miguel, um português urbano: "A crise, iniciada nos EUA, alastrou-se pela Europa"

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“O socialismo do futuro terá as cores das sociedades que por ele optarem”

Miguel Urbano Rodrigues acredita que um socialismo humanizado abrirá ao homem a possibilidade de desenvolver todas as suas potencialidades e de se realizar integralmente, liberto das forças que o oprimem há milênios.

Nilton Viana

da Redação

“O mundo está num caos em conseqüência da crise global do capitalismo”. Assim, o jornalista e escritor português Miguel Urbano Rodrigues define o atual cenário mundial. Para ele, a crise atual do capitalismo é estrutural. Segundo o escritor, a crise, iniciada nos EUA, alastrou à Europa e as medidas tomadas por Bush, primeiro, e Obama depois, em vez de atenuarem a crise, agravaram-na. “Os EUA, polo do sistema que oprime grande parte da humanidade, mostram-se incapazes de controlar os colossais défices do orçamento e da balança comercial”.

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Urbano diz que o grande capital pouco alterou as práticas criminosas e fraudulentas que originaram a crise. Para ele, a fatura é paga pelos trabalhadores que tiveram os seus salários brutalmente diminuídos e suprimidas conquistas históricas. Taxativo, afirma que as guerras fazem parte das alternativas imperialistas e que as agressões militares são sempre precedidas de uma campanha midiática de âmbito mundial. Embora avesso a profecias, Urbano acredita que o socialismo do futuro terá as cores das sociedades que por ele optarem de acordo com as suas tradições, cultura e peculiaridades de cada uma.

Brasil de Fato – O mundo vive hoje uma de suas maiores crises financeiras. Que avaliação o senhor faz dessa crise que tem se agudizado principalmente nos Estados Unidos e na Europa?

Miguel Urbano Rodrigues – O mundo está num caos em conseqüência da crise global do capitalismo. É uma crise estrutural. Nos países centrais a teoria da acumulação não funciona mais de acordo com a lógica do capitalismo e, na busca de uma solução, os Estados Unidos, polo hegemônico do sistema, multiplicam as guerras contra países do Terceiro Mundo para saquear os seus recursos naturais.

As medidas tomadas pelos governos, a seu ver, resolvem os graves problemas dessa crise? E o agravamento dessa crise, que é estrutural do capitalismo, a seu ver, irá enfraquecer ainda mais o imperialismo?

A crise, iniciada nos EUA, alastrou à Europa. As medidas tomadas por Bush, primeiro, e Obama depois, em vez de atenuarem a crise, agravaram-na. O objetivo foi salvar a banca, as seguradoras e grandes empresas à beira da falência como as da indústria do automóvel. Mais de mil bilhões foram investidos pelo Estado Federal nessa estratégia com resultados medíocres. Um volume gigantesco de dinheiro (os dólares emitidos) foi encaminhado para os responsáveis pela crise, enquanto a principal vítima, os
trabalhadores estadunidenses, foi esquecida. Centenas de milhares de famílias perderam as suas casas, e o desemprego aumentou muito em consequência de despedimentos maciços. O grande capital pouco alterou as práticas criminosas e fraudulentas que originaram a crise. É significativo que o atual secretário do Tesouro, Thimothy Geithner, que goza da total confiança de Obama, seja um homem de Walt Street comprometido com as políticas de desregulamentação que tiveram efeitos funestos.

Na União Europeia, que é um gigante econômico mas um anão político, a estratégia adotada para enfrentar a crise foi diferente. A fragilidade do euro é inseparável do fato de o dólar ser, na prática, a moeda universal cujas emissões são incontroláveis. O Banco Central Europeu não pode imitar Washington.

A crise atingiu primeiro países periféricos, como a Irlanda, a Grécia e Portugal. A Alemanha e a França, que põem e dispõem em Bruxelas, sobrepondo-se à Comissão Europeia e às instituições comunitárias em geral, impuseram a esses três países “políticas de austeridade” orientadas para a redução drástica dos défices orçamentais e a salvação da banca. A fatura foi paga pelos trabalhadores que tiveram os seus salários brutalmente diminuídos, suprimidas conquistas históricas como os subsídios de Natal e de férias, enquanto setores sociais como a Educação e a Saúde eram duramente golpeados.

A Itália e a Espanha encontram-se também à beira de um colapso, na iminência de pedirem à Comissão Europeia e ao FMI uma “ajuda” que agravaria extraordinariamente as condições de vida da classe trabalhadora. Na Espanha o desemprego ultrapassa já os 21%.

A chanceler Merckel e o presidente Sarkosy estão, porém, conscientes de que os efeitos da crise atingem também perigosamente os seus países. O Reino Unido, fora da zona euro, não é exceção; teme igualmente o agravamento da situação.

Neste contexto o futuro do euro e da própria União Europeia apresentam-se sombrios. São a cada semana mais numerosos os políticos e economistas que preconizam a saída do euro de alguns países.

Obviamente, as tensões sociais na contestação ao sistema assumem características explosivas, sobretudo na Grécia, em Portugal, na Espanha e na Itália.

Os EUA e as grandes potências da União Europeia puseram fim às guerras interimperialistas, substituindo-as por um imperialismo coletivo. O senhor poderia explicar como têm se dado guerras?

O imperialismo evoluiu nas últimas décadas para responder à crise do capitalismo. As guerras interimperialistas que na primeira metade do século 20 devastaram a Europa e a Ásia não vão repetir-se; remotíssima essa hipótese. As contradições entre as potências imperialistas mantêm-se. Mas não são hoje antagônicas.

Um imperialismo coletivo – a expressão é do argentino Cláudio Katz – substituiu o tradicional.

Os seus contornos principiaram a definir-se na primeira guerra do Golfo e tornaram-se nítidos com as agressões aos povos do Afeganistão, do Iraque e da Líbia.

Hegemonizada pelos Estados Unidos, formou-se uma aliança tática de que participam o Reino Unido, a Alemanha e a França, além de sócios menores como a Itália, a Espanha, o Canadá e a Austrália, inclusive países da Europa do Leste, ex-socialistas.

Então é esse bloco imperialista que comanda o mundo hoje e fomenta as guerras?

A superioridade militar e tecnológica do bloco imperialista permite-lhe, com um custo de vidas reduzido, atacar e ocupar países do Terceiro Mundo para saquear os seus recursos naturais, nomeadamente os petrolíferos.

Isso ocorreu já no Afeganistão, no Iraque e na Líbia. Atinge agora a África com a intervenção militar dos EUA em Uganda. O Africa Comand, por ora instalado na Alemanha, anuncia a criação de um exército permanente para o continente africano, previsto para 100 mil homens.

Obama já afirmou que a “ajuda militar” (leia-se intervenção) ao Sudão do Sul, ao Congo e à República Centro Africana depende de um simples pedido a Washington.

As guerras têm sido as saídas para o capitalismo. Com essa crise, teremos novas guerras?

As agressões militares são sempre precedidas de uma campanha midiática de âmbito mundial. A receita tem sido repetida com algum êxito. Para impedir a solidariedade
internacional com os povos a serem alvo de agressões previamente planejadas e semear a confusão e a dúvida em milhões de pessoas nos países desenvolvidos, os Estados Unidos e seus aliados promovem campanhas de satanização de líderes apresentados como ditadores implacáveis, ou terroristas que ameaçam a humanidade. A invasão do Afeganistão foi precedida da diabolização de Bin Laden – definido como inimigo número 1 dos EUA – e a guerra do Iraque, da satanização de Sadam Hussein. No caso da Líbia, Kadafi , que um ano antes era recebido com todas as honras em Paris, Londres, Roma e Madri, e tratado com deferência por Obama, passou de repente a ser apresentado como um monstro sanguinário que submetia o seu povo a uma opressão cruel. O desfecho é conhecido: a aprovação pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) de uma “zona de exclusão aérea” para “proteger as populações”. Logo depois começaram os bombardeios de uma guerra que durou sete meses, definida como “intervenção humanitária”. Sabe-se hoje que a “insurreição” de Benghasi foi preparada com meses de antecedência por comandos britânicos e agentes da CIA, dos serviços secretos britânicos e franceses, e da Mossad israelense.

Como o senhor avalia as consequências dessa crise para os países pobres, do chamado Terceiro Mundo?

O custo destas agressões imperiais para os países por elas atingidos tem sido altíssimo. Não há estatísticas credíveis sobre as destruições de infraestruturas e o saque de bens culturais e sobre o número de mortos civis resultante das guerras no Afeganistão, no Iraque e na Líbia. Mas o saldo dessa orgia de barbárie ocidental ascende – segundo grandes jornais da Europa e dos EUA – a centenas de milhares.

A satanização de Bachar Assad e do seu exército gera o temor de que a intervenção imperial na Síria esteja iminente. Mas o grande “inimigo” a abater é o Irã. Motivo: é o único entre os grandes países muçulmanos que não se submete às exigências do imperialismo.

Israel ameaça atacar e incita os EUA a bombardear as instalações nucleares de Natanz. Obama conseguiu que o Conselho de Segurança aprovasse vários pacotes de sanções ao Irã, mas o Pentágono hesita em envolver-se numa nova guerra contra um país que dispõe de uma capacidade de retaliar ponderável. A invasão terrestre está excluída e o bombardeio das instalações subterrâneas de Natanz com armas convencionais poderia, na opinião dos especialistas, ser ineficaz.

O balanço das guerras do Afeganistão e do Iraque não é animador para a Casa Branca. O presidente Obama ao anunciar a retirada das últimas tropas estadunidenses do Iraque sabe que mentiu aos seus compatriotas. Num discurso eleitoreiro, triunfalista, que pode ser qualificado de modelo de hipocrisia, afirmou que os Estados Unidos alcançaram ali os objetivos previamente fixados. Na realidade a resistência prossegue e dezenas de milhares de mercenários substituíram as forças do Exercito e da Força Aérea. Mas qualquer previsão sobre futuras agressões é desaconselhável. Tudo se pode esperar da engrenagem do sistema imperial, comandado por um presidente elogiado como humanista e defensor da Paz quando, na realidade, a sua estratégia de dominação planetária configura uma ameaça sem precedentes à humanidade.

Como o senhor avalia o papel de organismos como a ONU, o FMI, o Banco Mundial e a OMC?

O Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (BM) e a Organização Mundial do Comércio (OMC) são instrumentos do sistema imperial, criados para o servir. Quanto à Organização da Nações Unidas (ONU), há que estabelecer a distinção entre a Assembleia-Geral e o seu órgão executivo, o Conselho de Segurança. A primeira, representativa de quase 200 Estados, é uma instituição democrática, mas as suas resoluções somente produzem efeito se referendadas pelo Conselho de Segurança. Ora este, manipulado pelos EUA, com o apoio do Reino Unido e da França, funciona há muito como instrumento da vontade dos três, até porque a Rússia e a China, os outros membros permanentes, não têm exercido o direito de veto, com raríssimas exceções.

Como o senhor vê os protestos e as mobilizações que têm ocorrido em vários países, na chamada Primavera Árabe, na Grécia e nos Estados Unidos?

Em primeiro lugar é útil esclarecer que a expressão “Primavera Árabe”, muito divulgada pelos governos ocidentais e pela mídia é, por generalizante, fonte de confusão. Os levantamentos populares no Egito e na Tunísia foram espontâneos e inesperados para o imperialismo. Triunfaram ambos, provocando a queda de Hosni Mubarak e de Ben Ali.

No caso da Tunisia, a vitória de um partido islamista moderado nas recentes eleições não representa um problema para o imperialismo. Tudo indica que as relações dos Estados Unidos e os grandes da União Europeia com Tunis serão cordiais como eram com o governo da ditadura.

No Egito tudo permanece em aberto, porque o povo não aceitou o governo dos militares comprometidos com o imperialismo e continua a exigir a sua renúncia.

No Bahrein e no Iémen não houve qualquer “primavera”. Washington e os seus aliados abstiveram-se de criticar os regimes que eram alvo dos protestos populares. No tocante ao Bahrein, base da IV Frota da US Navy, os EUA manobraram de modo a que tropas sauditas e dos Emirados do Golfo invadissem o pequeno país e reprimissem com violência as manifestações.

Os protestos populares na Europa e nos Estados Unidos contra regimes de fachada democrática, que na prática são ditaduras da burguesia e do grande capital apresentam também características muito diferenciadas.

O acampamento inicial dos indignados em Madri funcionou como incentivo a movimentos similares em dezenas de cidades da Europa e dos EUA. Esses jovens sabem o que rejeitam e os motiva a lutar, mas não definem com um mínimo de precisão uma alternativa ao capitalismo.

Inspirado pelos espanhóis, o acampamento de Manhattan, realizado sob o lema “Ocupem Wall Street”, alarmou a engrenagem do poder. A solidariedade de intelectuais progressistas como Noam Chomsky, Michael Moore e James Petras contribuiu para que o movimento alastrasse a muitas cidades.

No caso estadunidense, os protestos foram uma surpressa? Como o senhor analisa a reação do governo dos Estados Unidos a estas manifestações?

A reação da administração Obama foi inicialmente de surpresa. Mas perante a amplitude assumida pelo movimento recorreu a uma repressão brutal. As conseqüências dessa opção foram inversas das esperadas pelo governo. Os acontecimentos de Oakland, na Costa do Pacífico, demonstraram que a contestação é agora dirigida contra a engrenagem capitalista responsável pela crise que afeta 99% dos cidadãos e beneficia a apenas 1% , tema de um slogan que já corre pelo país. A profundidade do descontentamento popular é transparente. Uma certeza: alarma Obama e Wall Street.

Paralelamente aos protestos espontâneos referidos, desenvolvem-se na Europa outros, promovidos pelos sindicatos e por partidos revolucionários.

A greve geral de novembro, em Portugal, e as grandes manifestações de protesto ali realizadas traduziram não só a condenação de políticas de direita impostas por Bruxelas e a submissão ao imperialismo, com perda de soberania, como a exigência de uma política progressista incompatível com a engrenagem capitalista.

É sobretudo na Grécia que as massas exprimem em gigantescas e permanentes concentrações populares a sua determinação de lutarem contra o sistema capitalista até a sua destruição Quinze greves gerais num ano, empreendidas sob a direção de uma Frente Popular na qual o papel do Partido Comunista da Grécia é fundamental, os trabalhadores da pátria de Péricles batem-se hoje com heroísmo pela humanidade inteira.

Frente a esse cenário de crise mundial do capitalismo, qual a alternativa para os povos? Como o senhor vê o futuro da Humanidade?

A única alternativa credível à barbárie capitalista é o socialismo. O capitalismo conseguiu superar desde o século 19 sucessivas crises. Desta vez, porém, enfrenta uma crise estrutural para a qual não encontra soluções. Os EUA, polo do sistema que oprime grande parte da humanidade, mostram-se incapazes de controlar os colossais défices do orçamento e da balança comercial. Forjaram um tipo de contracultura monstruosa que pretendem impor a todo o planeta. Mas o declínio do seu poder é transparente e irreversível.

Por si só, as gigantescas reservas de dólares e os títulos do Tesouro norte-americano que a China e o Japão acumularam, estimados aproximadamente em dois mil bilhões de dólares, são esclarecedores da fragilidade da economia dos Estados Unidos, um colosso com pés de barro, hoje o país mais endividado do mundo.

Sou avesso a profecias de qualquer natureza. Mas creio que o socialismo do futuro terá as cores das sociedades que por ele optarem de acordo com as suas tradições, cultura e peculiaridades de cada uma – um socialismo humanizado que abrirá ao homem a possibilidade de desenvolver todas as suas potencialidades e de se realizar integralmente, liberto das forças que o oprimem há milênios.

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BRASIL DE FATO: Miguel Urbano Rodrigues é jornalista e escritor português. Redator e chefe de redação de jornais em Portugal antes de se exilar no Brasil, onde foi editorialista principal do jornal O Estado de S. Paulo e editor internacional da revista brasileira Visão. Regressando a Portugal após a Revolução dos Cravos, foi chefe de redação do jornal do Partido Comunista Português (PCP) Avante!, e diretor de O Diário. Foi ainda assistente de História Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, presidente da Assembleia Municipal de Moura, deputado da Assembleia da República pelo PCP entre 1990 e 1995 e deputado da Assembleias Parlamentares do Conselho da Europa e da União da Europa Ocidental, tendo sido membro da comissão política desta última. Tem colaborações publicadas em jornais e revistas de duas dezenas de países da América Latina e da Europa e é autor de mais de uma dezena de livros publicados em Portugal e no Brasil.

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Matéria recebida por e-mail da redecastorphoto

Outras matérias que estiveram hoje sob o crivo dos pauteiros desta nossa Agência Assaz Atroz:

É só clicar...

"Os novos cães de guarda"

"Manual de redação: 10 regras da “grande imprensa” ao abordar movimentos sociais"

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

PressAA

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Filme: "O método de fazer merda"

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Filmes: "Um Método Perigoso"

AMORFO

Apesar do tema interessante, filme resulta no trabalho mais frio e distanciado de Cronenberg até hoje

André Lux*, crítico-spam

O diretor David Cronenberg é conhecido por seus filmes chocantes ou, no mínimo, contundentes. Muitos deles de terror explícito repletos de efeitos especiais (o mais notável sendo “A Mosca”). É verdade que em seus últimos filmes demonstrou uma maturidade surpreendente, fugindo do gênero que o consagrou, nos fortes suspenses policiais “Marcas da Violência” e “Senhores do Crime”. Mesmo assim, é difícil entender porque resolveu realizar este “Um Método Perigoso”, que resultou em seu trabalho mais frio e distanciado até hoje.

O maior defeito do filme é que ele simplesmente não tem foco narrativo definido. Não decide se está contando a história da amizade entre os pais da psicanálise Jung e Freud (que depois se tornariam inimigos) ou da paciente Sabina Spielrein, a qual sofria de histeria e, depois de tratada por Jung, tornou-se ela também uma importante psicanalista. O roteiro do badalado Christopher Hampton, baseado em sua própria peça teatral que por sua vez é inspirada em fatos reais, é muito picotado, pulando de um evento para outro sem muita coerência. Isso deixa o filme episódico e mal amarrado, impedindo o envolvimento na história e deixando até as conversas entre Jung e Freud enfadonhas.

Outros pontos negativos do filme são as interpretações de Keira Knightley (principalmente no começo, quando faz umas caretas constrangedoras) e de Viggo Mortensen como Freud, numa atuação posada e artificial. Tudo isso acaba destruindo qualquer boa intenção do projeto, que tem excelentes recriação de época, fotografia e música (de Howard Shore, colaborador constante de Cronenberg), além das boas atuações de Michael Fassbender como Jung e de Vincent Cassel como Otto Gross.

É uma pena que um assunto tão interessante tenha resultado num filme tão amorfo e indiferente.

Cotação: * *

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*André Lux, jornalista, presta assessoria na área de Comunicação Social, crítico-spam, administra o blog “Tudo em Cima”. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz.

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Bandido bom é bandido meu, meu!

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Veterano diplomata americano questiona a narrativa sobre a Síria


Sharmine Narwani, Al-Akhbar, Beirute “Veteran US Diplomat Questions Syria Storyline”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O problema da política dos EUA para o Oriente Médio é que ela atualmente só está operando no nível político: longe vão os dias em que havia especialistas pesos-pesados nos centros de decisão, capazes de considerar o contexto histórico, as relações sociais e de levar em conta essas nuances nas decisões políticas.

Hoje, o que se vê são grupos de interesses monolíticos, projetos comerciais, e o impacto sempre presente das eleições, em todas as decisões. Só se vê o quadro de curto prazo: muita tática e nenhuma estratégia, nessas abordagens de ou branco ou preto. Como campanha de publicidade de alta octanagem, todas as discussões se fazem em frases-slogans, em cenários e segundo narrativas inventadas.

Nas últimas semanas, a Síria não saiu das manchetes, em repetição ensurdecedora: o governo massacra a oposição em Homs; China e Rússia são os bandidos; um generoso Conselho de Segurança da ONU, que só pensa em salvar os sírios; o massacre de Hama, de 1982, ressuscitado; e uma embaixadora dos EUA que se declara “disgusted”, ante o atrevimento de outros embaixadores, que vetam, de pleno direito, desejos declarados dos EUA.

Mas se se baixa o volume da histeria, e se se devolve o debate à voz de observadores mais experientes e comedidos, logo se encontra uma narrativa mais consistente. No fim de semana, tive o privilégio de receber um e-mail que me fez lembrar o tempo em que havia especialistas mais bem qualificados no Departamento de Estado dos EUA, capazes de produzir relatos objetivos dos fatos em campo, o que, no mínimo, possibilitava que se tomassem decisões menos ensandecidas.

A mensagem vem assinada por um ex-diplomata norte-americano que serviu na Síria, e que pede para não ter seu nome publicado. Publico aqui seu e-mail, para benefício dos leitores:

“Tenho graves restrições ao que se tem dito sobre intervenção militar na Síria. Todos, sobretudo a imprensa, parecem só contar com informações de ativistas da oposição. Como se sabe que ontem o regime sírio matou 260 pessoas em Homs? O número parece saído do que dizem figuras da oposição. Duvido muito desses números.

Servi durante três anos na Embaixada dos EUA em Damasco e sei o quanto é difícil separar fatos e boatos naquela sociedade política fechada. Cuidávamos de sempre verificar todos os boatos que circulavam sobre assassinatos, prisões de opositores políticos, etc., e nesse trabalho de verificação de boatos estava incluída a CIA, que recebia informação tão pouco confiável como nós todos. Hoje, temos lá um esqueleto de embaixada, que com certeza é mantida sob estrita vigilância, com pessoal reduzido, sem condições de andar pelas ruas e ver o que de fato está acontecendo. Estive em Damasco há dois anos, vi a carência de fontes com que a Embaixada trabalha, e não tive boa impressão do modo como compreendia-se, na Embaixada, a dinâmica do que acontecia na Síria. Posso dizer o mesmo, das conversas que tenho tido com funcionários do Departamento de Estado.

A imprensa, e em certa medida também o governo [Obama], personalizaram o conflito sírio, como se só se tratasse de Bashar Assad e sua família. Todos tem subestimado, praticamente sempre, a natureza sectária do conflito naquele país. De modo algum se trata só de Bashar Assad e família, que se agarram ao poder a qualquer custo: trata-se de todo o sistema alawita de controle do país, que inclui os militares, os serviços de segurança e o Partido Baath. Creio que os alawitas creem firmemente que, se perderem o poder, os sunitas os massacrarão. Essa é uma das razões pelas quais Hafez e seu irmão Rifaat foram tão impiedosos em Hama há trinta anos. E, no ocidente, todos esquecem, muito convenientemente, a campanha de assassinatos e suicidas-bombas comandada, três ou quatro anos antes de Hama, pela Fraternidade Muçulmana em todo o país. Testemunhei pessoalmente um desses ataques a bomba, do qual resultaram várias centenas de mortos. Por mais curta que seja a memória histórica do Departamento de Estado, da CIA e de outros órgãos do governo dos EUA, os sírios não esquecem facilmente.

Encontram-se poucas análises sérias sobre o conflito na Síria. Com exceção do que o jornalista Nir Rosen e o International Crisis Group têm publicado, a maioria dos relatos são superficiais e tendenciosos a favor da oposição ao regime sírio. Assim, não há base de informação a partir da qual propor políticas, sobretudo se Washington considera a possibilidade de algum tipo de intervenção militar. Seria como abrir uma caixa de Pandora dos conflitos sectários, que facilmente se espalhariam para o Líbano, Israel, as áreas curdas do Iraque e por toda a região.

Uma das ironias da situação atual, se comparada à situação de trinta anos passados, é o papel do Iraque. Naquele momento, tínhamos informação satisfatoriamente confiável de que Saddam Hussein
[Atroz: "Quando era bandido bom, meu!"] fornecia armas e explosivos à Fraternidade Muçulmana e facilitava o contrabando desses itens através da fronteira Síria-Iraque. Hoje, o governo Maliki em Bagdá parece apoiar o regime de Assad. E há trinta anos, também tínhamos informação de que os líderes da Fraternidade Muçulmana contavam com a proteção do rei Hussein e dos sauditas, que lhes garantiam santuário na Jordânia e na Arábia Saudita.

Não me parece que os EUA saibamos como jogar nessa arena, assim como tampouco sabemos como jogar na arena do Afeganistão-Paquistão. A intervenção militar norte-americana, embora disfarçada como intervenção da OTAN, ou sob qualquer outro guarda-chuva, pode ter consequências graves e não previstas para os EUA, a Europa e a região. Os funcionários em Washington deveriam receber lições sobre a lei das consequências não previstas, marteladas na cabeça, todos os dias."


...

São pensamentos de um diplomata dos EUA, com experiência recente e direta na Síria. Por que não se ouvem avaliações assim sóbrias, da boca dos que mandam, em Washington? Parte da razão, é claro, é a super politização do processo de tomada de decisões, que há muito tempo foi sequestrado da mão dos especialistas e entregue no colo dos falcões linha-dura, de ideólogos, de candidatos e de jornalistas “marketeiros” especialistas em campanhas eleitorais.

Deve-se lembrar que muitos dos motivos pelos quais o governo dos EUA está focado na Síria derivam da fixação no Irã. Ao apoiar a ideia do Irã, de que é preciso pôr fim à hegemonia dos EUA e de Israel no Oriente Médio, a Síria pôs-se no centro das prioridades das políticas dos EUA.

David Sanger, do New York Times, escreveu, pouco depois de a Primavera Árabe ter devorado os primeiros dois ditadores, Zine El Abidine Ben Ali da Tunísia, e Hosni Mubarak do Egito:

“Cada decisão – da Líbia ao Iêmen, do Bahrain à Síria – está sendo examinada sob o prisma de como afetará o que era, até meados de janeiro, o projeto dominante na estratégia regional do governo Obama: como conter o progresso nuclear no Irã e acelerar ali as oportunidades de um levante bem sucedido.”

Os esforços para minar o governo de Bashar Assad estão há muito tempo entre os principais objetivos políticos do governo, desde bem antes de as revoltas populares começarem no Oriente Médio em geral, em 2011. WikiLeaks revelou uma verdadeira mina de informações sobre as intervenções dos EUA na Síria, inclusive o financiamento direto, dos EUA, a grupos de oposição [1].

Política suja e dificuldades geopolíticas à parte permanece, no coração dessa questão, um problema que é fundamental para que se proponham melhores políticas, em todos os casos: em que momento narrativas apenas oportunistas convertem-se em mentiras ativas, que geram políticas cada vez piores?

Um telegrama publicado por WikiLeaks, de 2006, ilustra os esforços de Washington para identificar “oportunidades” para expor “vulnerabilidades” no regime sírio e provocar divisão sectária/étnica, discórdia dentro do aparelho militar/de segurança e dificuldades econômicas. Como os EUA fariam isso? O telegrama lista uma série de vulnerabilidades sírias a serem exploradas e recomenda:

“Essas propostas têm de ser dissecadas e convertidas em ações, e temos de estar prontos para nos movimentar rapidamente e extrair vantagens dessas oportunidades. Muitas de nossas sugestões destacam o uso de Diplomacia Pública e de meios mais indiretos para enviar mensagens que influenciem o círculo interno [do poder sírio]”. [2]

Propaganda dirigida à opinião pública nos EUA

“Diplomacia Pública” significa, de fato, “propaganda” – a qual, nos termos da lei Smith-Mundt, de 1948, especifica os termos nos quais o governo dos EUA pode disseminar informação para públicos estrangeiros. Em 1972, a lei proibiu que cidadãos norte-americanos tivessem acesso a informação orientada para públicos estrangeiros; em outras palavras, é ilegal, nos EUA, que o governo norte-americano faça propaganda dirigida a cidadãos norte-americanos.

Mas Washington encontrou meios para burlar a lei. Afinal, os cidadãos norte-americanos têm de “vir junto” nas muitas aventuras militares além-mar empreendidas por sucessivos governos. Como, então, o governo dos EUA consegue, sem infringir a lei, inundar a sociedade com propaganda, e obter que os norte-americanos abracem tantas guerras (Iraque, Afeganistão, talvez o Irã), aceitem a venda de armas a aliados questionáveis (Arábia Saudita e Israel) e aceitem as muitas violações de direitos humanos (Guantánamo, ataques com aviões-robôs, os drones, a civis)?


A falsa história das armas de destruição em massa que haveria no Iraque, prontas a serem usadas contra os EUA e seus aliados, foi a parte crucial da narrativa que resultou na intervenção militar no Iraque. Impossível esquecer o depoimento do então secretário de Estado Colin Powell, em que disse que havia provas de que Saddam possuía armas de destruição em massa; e o discurso “State of the Union” do presidente Bush, quando mentiu, ao dizer que o Iraque obtinha urânio enriquecido do Niger. A imprensa acabou por revelar as duas mentiras [embora não a tempo de impedir a guerra do Iraque]: a lei proíbe divulgar propaganda mentirosa ao povo norte-americano.

Quando narrativas oportunistas convertem-se em mentiras ativas, que geram políticas viciosas?

Há meios pelos quais é possível escapar à lei Smith-Mundt. O meio mais rápido, para distribuir informação imprecisa, viciosa e às vezes absolutamente falsa, são os “vazamentos”. Basta pesquisar em qualquer jornal ou revista em Washington, New York ou Los Angeles, e facilmente se encontram, nas sessões de política internacional, inúmeros “vazamentos”, em que “autoridades” ou funcionários do governo, “vazam” frases diretamente aos jornalistas.

A internet também é excelente veículo para disseminar desinformação. O alcance planetário, os milhões de blogs com diferentes graus de credibilidade – todos sempre podem servir ao jogo da propaganda, ou “Diplomacia Pública”.

Em abril de 2010, o coronel Lawrence Wilkerson, ex-chefe de gabinete de Powell – mais um coronel e ex-funcionário, dos vários que falaram com franqueza sobre política e os atalhos que há no processo, depois de deixar o posto – disse-me, pessoalmente:

“[O secretário de Defesa Donald] Rumsfeld e outros, por exemplo, simplesmente ignoraram a lei. Mandavam o que queriam que fosse publicado, por exemplo, para um jornal de Sydney, que publicava; em seguida, pela internet, mandavam de volta a “notícia publicada na Austrália”, para os EUA. Fizeram, sim, propaganda dirigida aos cidadãos norte-americanos.”

Wilkerson insiste:

“Temos um conflito de leis, que tem de ser corrigido – a lei diz que não se podem misturar as coisas: há “relações públicas”, dirigidas ao público norte-americano; e há “diplomacia pública”, dirigida a públicos não norte-americanos. Falta uma lei que proíba a propaganda, e ponto final. É importante informar a verdade. Entendo que não se possam publicar segredos de Estado. Mas por que não publicar a verdade?”

O problema das relações internacionais, particularmente no Oriente Médio é, em síntese, quem constrói as decisões – sempre ideólogos, com agendas fixas: contra o Irã e a favor de Israel; contra o “ditador” sírio, mas a favor dos ditadores sauditas, bahrainis, iemenitas, qataris; contra o Irã ter capacidade nuclear, mas a favor de Israel manter suas 200 bombas atômicas; abusar do direito de veto no Conselho de Segurança (os EUA vetaram mais de 80 propostas de resolução no CS!), e apresentar como se fosse crime, o exercício do mesmo direito de veto quando é exercido por outros membros do mesmo Conselho. E a lista é longa.

“Está rachado – é absolutamente disfuncional” – disse Wilkerson, sobre o processo de tomada de decisões no governo dos EUA: “Metem os ideólogos no processo, para encurralar, chantagear, orquestrar, manipular, enganar, confundir os funcionários civis dentro do governo, até que todos façam o que os ideólogos dizem que tem de ser feito”.

De volta à Síria.

Uma jornalista de uma grande rede ocidental de notícias escreveu-me, por e-mail, voltando de viagem à Síria:

“Voltei de Homs, mês passado, sem estar convencida de que havia algum levante popular contra o regime de Assad. E muito longe de estar convencida de que haveria por lá algum “mocinho” contra “bandidos”.

De fato, sabe-se praticamente nada sobre o que se passa no país. E não necessariamente porque a imprensa seja controlada: o relatório da missão da Liga Árabe lista 147 órgãos da imprensa ocidental e árabe[3] que estão presentes na Síria.

A razão pela qual continuamos sem nada saber sobre o que está realmente acontecendo em Homs é que está em curso uma feroz batalha pela narrativa dominante. E a narrativa hoje dominante é a que Washington criou. A mesma Washington que, como se lê na notícia direta, colhida de fonte primária, que WikiLeaks publicou, desde 2006 trabalha para colher todas as “oportunidades” de explorar as “vulnerabilidades” e minar o governo de Bashar Assad.

Não oferecer informação correta é uma coisa. Mas outra coisa, bem diferente, é trabalhar para atingir objetivo político sobre o qual os cidadãos dos EUA não foram consultados nem discutiram, porque foram mantidos à margem, sem conhecer os fatos.


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Notas dos tradutores

[1] Ver, por exemplo, telegrama 06DAMASCUS760, 9/2/2012, “EUA trabalha com a oposição na Síria, desde 2006” (em português)


[2] Telegrama 04 DAMASCUS 005399, (em inglês).

[3] A relação completa dos 147 órgãos da imprensa ocidental e árabe que estão trabalhando na Síria (entre as quais a BBC, a Associated Press, a rede CBS, a TV estatal italiana, o jornal Guardian, a rede CNN, a rede EFE espanhola, o Financial Times, a rede NBC e mais de uma centena de outros) pode ser lida diretamente do Relatório da Missão da Liga Árabe que visitou a Síria, (em inglês).Sobre o Relatório da missão da Liga Árabe na Síria, ver 3/2/2012, Pepe Escobar – “Vazou! A agenda da Liga Árabe para a Síria” (em português)

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domingo, 12 de fevereiro de 2012

O MANÍACO DO PARQUE

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O velho, como era seu hábito diário, caminhava em ritmo acelerado pelas alamedas do Campo de São Bento - uma área de 40.000 metros quadrados que ocupa um quarteirão inteiro do bairro de Icaraí, em Niterói. De repente, parou debaixo da mangueira, se abaixou e recolheu uma manga do chão. Examinou-a. Viu que não estava mordida por morcego ou passarinho. Cheirou, acariciou a fruta madura e resmungou num tom de quase lamento:

- Essas são as últimas mangas da estação!

Parecia que ele estava falando sozinho, mas na realidade conversava com as árvores. – “O velho está ficando tantã” – comentou o vendedor de água de coco que, de camarote, assistia “aquela presepada”. As mangueiras, mudas, nada comentaram. Acostumadas a frutificar, anualmente, entre o natal e o carnaval, encerram a temporada sempre por volta de fevereiro. Agora, ouviam as queixas apresentadas pelo velho, que cada ano tinha a voz menos firme e os cabelos mais ralos e mais brancos.

Com a careca protegida do sol pelo infalível bonezinho azul que tinha o escudo do Vasco na viseira, ele prosseguiu sua marcha debaixo das árvores centenárias e frondosas do parque. Passou pelas imponentes palmeiras imperiais e, em seguida, pela calabura, cujos galhos em escadinha proporcionam sombra refrescante e atraem borboletas coloridas, alegres bentevis e sanhaços saltitantes, que passeiam em volta de suas flores brancas salpicadas de sementes amarelas.

Depois, o velho foi costeando os canteiros de flores, onde algumas pombinhas se deslocavam em voo rasante. Deu a volta no lago que tem um chafariz, atravessou a pequena ponte, transpôs o caramanchão coberto de trepadeiras, lianas e cipós, cruzou o laguinho onde patos e gansos se banhavam, passou pelo parquinho de diversões e parou diante do coreto. Fingiu que não ouviu o rapaz dizer, em voz baixa, à namorada:

- Disfarça que lá vem o velho maníaco.

Ninho de plástico

Além de maluco, ele ficou com a fama de maníaco do parque. Aconteceu no tempo em que ainda fazia suas preleções aos jovens do Colégio Estadual Joaquim Távora, que se reuniam no coreto para matar aulas e, às vezes, para fumar um baseado. Por acreditar na educação como redentora da humanidade, o velho fazia longos discursos aos estudantes, tentando despertar neles uma consciência socioambiental. Insistia na responsabilidade individual, de cada um, em relação ao lixo, e apontava para o parque coberto de sujeira.

Seu tom de voz era de um missionário. Dizia que aquele era um combate desigual travado por um exército de garis, que perdia todas as batalhas para os usuários do parque, responsáveis por tanta imundice. Diariamente “jogavam no mato” garrafas de plástico e de vidro, copos e sacos de plástico, papel plastificado, latas de cerveja e de refrigerantes, embalagens plásticas e de papel de alumínio, pontas de cigarro e todo tipo de entulho.

Em seu discurso inflamado, o velho mostrava como o lixo pode ser altamente prejudicial ao meio ambiente, à saúde humana e à vida urbana, entupindo bueiros, provocando alagações, mortes, desabamentos. Discorria sobre o tempo de decomposição de muitos resíduos sólidos, sobretudo dos 800 bilhões de objetos de plástico que são produzidos anualmente no mundo, muitos dos quais acabam chegando aos rios e oceanos, matando peixes e aves por asfixia.

- Vocês não viram no Jornal Nacional aquela baleia que morreu com mais de 800 kg de sacos de plástico dentro do estômago? – ele perguntava num exercício de retórica. Exibia a foto que havia tirado, ali mesmo, no Campo de São Bento, de um ninho de bentevi - uma bola de lixo presa entre os galhos, feita com retalhos de plástico misturados com capim.

Os jovens ouviam tudo em profundo silêncio, numa atitude aparente de reverência e atenção. Mas quando o velho virava as costas, debochavam, faziam teatrinho, imitando-o e, pior, continuavam emporcalhando os canteiros de flores sobre os quais era atirada diariamente uma enxurrada de detritos, embora existam dezenas de lixeiras espalhadas por todo o Campo de São Bento – um patrimônio público cujo paisagismo original é de autoria do arquiteto belga Arsênio Puttmans contratado, em 1908, pelo então prefeito João Pereira Ferraz.

Xerife do parque

Diante da inutilidade da palavra, o velho se autonomeou, então, xerife do Campo de São Bento e resolveu partir para a ação, a guerrilha e o terrorismo. Um dia, viu uma senhora de classe média, vestida com roupa de butique, atirar garrafas pet num canteiro de flores. Deu um grito: - “Ei, minha senhora, não faça isso, vai matar as plantinhas”. Ela peitou o velho: “Não é da sua conta”. Ele, então, aos berros, a chamou de porca, de criminosa. Duas velhinhas que assistiram tudo, o censuraram por ter sido excessivamente agressivo.

Mas a gota d’água foi quando ele viu uma jovem mãe, bonita, cheirosa e gostosa, caminhando com seu filho de uns três anos para o parquinho de diversão, onde as crianças se divertiam no carrossel ou no bate-bate com seus carros elétricos coloridos. Depois de jogar um saco de pipoca vazio no chão do rinque de patinação, a mãe atirou um potinho de iogurte com um canudinho sobre um canteiro de flores, dando belo exemplo ao filho.

O velho perdeu a esperança na humanidade. Foi aí que sua fama de maníaco do parque se consolidou. Já que não podia mudar o mundo, não deixaria que o mundo o mudasse. Concentrou todas as suas energias num combate solitário, mas sem trégua, aos canudinhos de plástico, a quem devota um ódio supino, porque são tantos espalhados pelo parque, que os garis deixaram de recolhê-los, concentrando-se no lixo mais grosso.

Cada um tem sua mania. A do velho passou a ser recolher todos os canudinhos de plástico que diariamente infestam o parque, entopem os bueiros e matam as plantas. Em sua caminhada diária, vai catando o que encontra. É uma guerra, na qual o inimigo se disfarça até mesmo usando uniforme camuflado. Os malditos fabricantes passaram a produzir um canudinho de cor verde, vendido pelos quiosques do parque, difícil de ser visto entre as folhas, sobretudo para o velho, cujo olho direito afetado por um princípio de catarata está com um embaçamento visual.

Nessa cruzada santa contra o lixo, o plástico e os canudinhos - uma calamidade pública não assumida ainda pela sociedade - o velho se tornou uma espécie de tropa auxiliar de gari. Mandou várias cartas para a Rede Globo, sugerindo que as novelas abordem corajosamente “o maior crime do planeta”:

– Em vez de mostrar personagens que cometem crimezinhos mequetrefes e vagabundos, eliminando um indivíduo aqui, outro ali, como faz a Tereza Cristina, de Fina Estampa, deviam mostrar o crime dos crimes, a tentativa de assassinar a própria mãe, a mãe terra – ele escreveu, achando que se pudermos nos ver como num espelho é possível reverter o dano.

- Uma só novela da TV pode transformar o Brasil numa enorme Curitiba educada, limpa e saudável – diz o velho que ganhou fama de maníaco, de doido. Pobre planeta! As mangas de fevereiro são as últimas da estação ou as últimas da história da burrice e da estupidez humana?
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José Ribamar Bessa Freire é professor universitário (UERJ), reside no Rio há mais de 20 anos, assina coluna no Diário do Amazonas, de Manaus, sua terra natal, e mantém o blog Taqui Pra Ti. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz
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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

"O comunismo é a ideia da emancipação de toda humanidade"

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O filósofo francês Alain Badiou é um homem que não teme riscos: nunca renunciou a defender um conceito que muitos acreditam ter sido queimado pela história: o comunismo. Em entrevista à Carta Maior, Badiou fala da “ideia comunista” ou da “hipótese comunista”. Segundo ele, tudo o que estava na ideia comunista, sua visão igualitária do ser humano e da sociedade, merece ser resgatado em um mundo onde tudo passou a ter um valor mercantil. Pensador crítico da modernidade, Badiou define o processo político atual como uma “guerra das democracias contra os pobres”.




Eduardo Febbro - Direto de Paris (Carta Maior)

Paris - Alain Badiou não tem fronteiras. Este filósofo original é o pensador francês mais conhecido fora de seu país e autor de uma obra extensa e sem concessões. Filosofia, matemática, política, literatura e até o amor circulam em seu catálogo de produções e reflexões. Sua obra, de caráter multidisciplinar, traz uma crítica férrea ao que Alain Badiou chama de “materialismo democrático”, ou seja, um sistema humano onde tudo tem um valor mercantil.

Este filósofo insubmisso é também um homem de riscos: nunca renunciou a defender um conceito que muitos acreditam ter sido queimado pela história: o comunismo. Em sua pena, Badiou fala mais da “ideia comunista” ou da “hipótese comunista” do que do sistema comunista em si. Segundo o filósofo francês, tudo o que estava na ideia comunista, sua visão igualitária do ser humano e da sociedade, merece ser resgatado.

Defensor incondicional de Marx e da ideia de uma internacionalização positiva da revolta, o horizonte de sua filosofia é polifônico: seus componente não são a exposição de um sistema fechado, mas sim um sistema metafísico exigente que inclui as teorias matemáticas modernas – Gödel – e quatro dimensões da existência: o amor, a arte, a política e a ciência. Pensador crítico da modernidade numérica, Badiou definiu os processos políticos atuais como uma “guerra das democracias contra os pobres”.

O filósofo francês é um teórico dos processos de ruptura e não um mero panfletário. Ele convoca com método a repensar o mundo, a redefinir o papel do Estado, traça os limites da “perfeição democrática”, reinterpreta a ideia de República, reatualiza as formas possíveis e não aceitas de oposição e coloca no centro da evolução social a relegitimação das lutas sociais.

Alain Badiou propõe um princípio de ação sem o qual, sugere, nenhuma vida tem sentido: a ideia. Sem ela toda existência é vazia. Com mais de 70 anos, Badiou introduziu em sua reflexão o tema do amor em um livro brilhante e comovedor, no qual o autor de “O ser e o acontecimento” define o amor como uma categoria da verdade e o sentimento amoroso como o pacto mais elevado que os indivíduos podem firmar para viver. Sua lucidez analítica o conduz inclusive a dizer que o amor, porque grátis e total, está ameaçado pelo mundo contemporâneo.

Revoluções árabes, movimento dos indignados, mobilização crescente dos grupos que estão contra a globalização, a luta ou a oposição contra as modalidades do sistema atual se multiplicaram e sofisticaram. Analisando o que ocorreu, o que você diria hoje a todos esses rebeldes do mundo para que sua ação conduza a uma autêntica construção?

Eu diria a eles que, para mim, mais importante que a consigna da anti-globalização, a qual parece sugerir que, por meio de várias medidas, pode-se re-humanizar a situação, incluindo a re-humanização do capitalismo, é a globalização da vontade popular. Globalização quer dizer vigor internacional. Mas essa globalização internacional necessita de uma ideia positiva para uni-la e não só a ideia crítica ou a combinação de desacordos e protestos. Trata-se de um ponto muito importante. Passar da revolta à ideia é passar da negação á afirmação. Somente no plano afirmativo poderemos nos unir de forma duradoura.

Um dos princípios de sua filosofia consiste em dizer que uma vida que não está regida pelo signo da ideia não é uma vida verdadeira. Agora, como defender hoje essa ideia sob a ameaça do hiper-consumo, das falsidades e injustiças da democracia parlamentar e em um mundo onde nossa relação com o outro passa pela relação com o objeto e não com as ideias ou com os indivíduos? No mundo contemporâneo, a ideia é o produto e não a relação humana.

A verdadeira vida é uma vida que aceita estar sob o signo da ideia. Dito de outro modo, uma vida que aceita ser outra coisa do que uma vida animal. Alguns dirão que há valores transcendentes, religiosos, e que é preciso submeter o animal; outros dirão, ao contrário, que devemos nos libertar desses valores transcendentes, que Deus está morto, que viva os apetites selvagens. Mas, entre ambas, há uma solução intermediária, dialética, que consiste em dizer que, na vida, através de encontros e metamorfoses, pode haver um trajeto que nos liga à universalidade. Isso é o que eu chamo “uma vida verdadeira”, ou seja, uma vida que encontrou ao menos algumas verdades.

Chamo "ideia" esse intermediário entre as verdades universais, digamos eternas para provocar um pouco os contemporâneos, e o indivíduo. Que é então uma vida sob o signo da ideia em um mundo como este? Faz falta uma distância com a circulação geral. Mas essa distância não pode ser criada só com a vontade, faz falta algo que nos ocorra, um acontecimento que nos leve a tomar posição frente ao que se passou. Pode ser um amor, um levante político, uma decepção, enfim, muitas coisas. Aí se põe em jogo a vontade para criar um mundo novo que não estará baseado na ordem do mundo tal como é, com sua lei de circulação mercantil, mas sim em um elemento novo de minha experiência.

O mundo moderno se caracteriza pela soberania das opiniões. E a opinião é algo contrário à ideia. A opinião não pretende ser universal, é minha opinião e vale tanto quanto a opinião de qualquer outra pessoa. A opinião se relaciona com a distribuição de objetos e a satisfação pessoal. Há um mercado das opiniões assim como há um mercado das ações financeiras. Há momentos em que uma opinião vale mais do que outra; mais tarde essa opinião quebra como um país. Estamos no regime geral do comércio da comunicação no qual a ideia não existe. Inclusive se suspeita da ideia e se dirá que ela é opressiva, totalitária, que se trata de uma alienação. E por que isso ocorre? Simplesmente porque a ideia é grátis. Ao contrário da opinião, a ideia não entra em nenhum mercado. Se defendemos nossa convicção, o fazemos com a ideia de que é universal. Essa ideia é, então, uma proposta compartilhada, não se pode colocá-la à venda no mercado. Mas como tudo o que é grátis, a ideia está sob suspeita.

Pergunta-se: qual é o valor do que é grátis? Justamente, o valor do grátis é que não tem valor no sentido das trocas. Seu valor é intrínseco. E como não se pode distinguir a ideia do preço do objeto a única existência da ideia está em um tipo de fidelidade existencial e vital para a ideia. A melhor metáfora para isso é encontrada no amor. Se queremos profundamente a alguém, esse amor não tem preço. É preciso aceitar os sofrimentos, as dificuldades, o fato de que sempre há uma tensão entre o que desejamos imediatamente e a resposta do outro. É preciso atravessar tudo isso.

Quando estamos enamorados, trata-se de uma ideia e isso é o que garante a continuidade desse amor. Para se opor ao mundo contemporâneo pode-se atuar na política, mas estar cativado completamente por uma obra de arte ou estar profundamente enamorado é como uma rebelião secreta e pessoal contra o mundo contemporâneo. Esse é o principal problema da vida contemporânea. Estabeleceu-se um regime de existência no qual tudo deve ser transformado em produto, em mercadoria, inclusive os textos, as ideias, os pensamentos. Marx havia antecipado isso muito bem: tudo pode ser medido segundo seu valor monetário.

Você é um dos poucos filósofos que defende o que você mesmo chama “a ideia comunista”. Como é possível defender a ideia comunista quando seu conteúdo histórico foi desastroso.

Penso que o conteúdo histórico das ideias sempre pode ser declarado desastroso. Os democratas nos falam da democracia, mas se olhamos de perto a história das democracias, ela está cheia de desastres. Para tomar o exemplo mais elementar, se tomamos a Primeira Guerra Mundial, ela foi lançada por democratas, democratas alemães, ingleses e franceses. Foi um massacre inimaginável, o qual já se demonstrou esteve ligado a apetites financeiros nas colônias africanas, apetites que não diziam respeito aqueles que seriam massacrados mais tarde. Houve milhões de mortos e de sacrificados em condições espantosas e, aceite-se ou não, isso é parte da história das democracias. Se interrogamos o conjunto das experiências históricas veremos que todo o mundo tem sangue até as orelhas.

No que se refere à palavra “comunista” em si, da mesma maneira que ocorre com a palavra “democracia”, sempre se pode argumentar que ambas tem sangue até as orelhas. Mas, por acaso, é preciso sempre inventar outra palavra? Tomemos, por exemplo, o cristianismo. O cristianismo é São Francisco de Assis, a santidade verdadeira, o advento da ideia de uma verdadeira generosidade para com os pobres, a caridade, etc.,etc. Mas, do outro lado, também é a inquisição, o terror, a tortura e o suplício. Por acaso vamos dizer que é um crime alguém se chamar de cristão? Ninguém diz isso. Eu defendo uma espécie de absolvição dos vocábulos. Eles têm o sentido dado pela sequência histórica da qual falamos.

De fato, o comunismo conheceu duas sequências histórias. A sequência histórica do século XIX, quando a palavra foi inventada e propagada para designar uma esperança histórica humana fundamental, a esperança da igualdade, da emancipação das classes oprimidas, de uma organização social igualitária e coletiva. Depois há outra sequência muito diferente onde se experimentou o comunismo, ou seja, se construiu uma forma de poder particular que buscou coletivizar a indústria e essas coisas, mas que, no final, se tornou uma forma de Estado despótico.

Eu proponho que não se sacrifique a palavra “comunismo” por causa desta segunda sequência, mas sim que ela seja resgatada com base na primeira sequência, possibilitando assim a abertura de uma terceira sequência.

Nesta terceira sequência, a palavra “comunismo” significaria o que sempre significou: a ideia de uma organização social totalmente distinta da que conhecemos e que já sabemos que está dominada por uma oligarquia financeira e econômica absolutamente feroz e indiferente aos interesses gerais da humanidade. Eu proponho então voltar ao comunismo sob a forma da ideia comunista: a ideia comunista é a ideia da emancipação de toda a humanidade, é a ideia do internacionalismo, de uma organização econômica mobilizando diretamente os produtores e não as potências exteriores; é a ideia da igualdade entre os distintos componentes da humanidade, do fim do racismo e da segregação e também é a ideia do fim das fronteiras.

Não esqueçamos que as fronteiras são uma grande característica do mundo contemporâneo. O comunismo é tudo isso. Se alguém inventar uma palavra formidável para designar tudo isso, que não seja a palavra comunismo, eu aceito. Mas a história da política não é a história das palavras, mas sim a história dos novos significados que podem ter as palavras. Em geral se opõe a palavra “democracia” à palavra “comunismo”. Eu digo que uma palavra não é mais inocente do que a outra. Não lutemos pela inocência das palavras. Discutamos sobre o que significam e o que significa aquilo que eu digo.

Agora chegamos a Marx, ou melhor dizendo, aos dois Marx: o Marx marxista e o Marx de antes do marxismo. Qual dos dois você reivindica?

Marx e marxismo têm significados muito distintos. Marx pode significar a tentativa de uma análise científica da história humana com base nos conceitos fundamentais de classe e de luta de classe, e também a ideia de que a base das diferentes formas que a organização da humanidade adquiriu no curso da história é a organização da economia. Nesta parte da obra de Marx há coisas muito interessantes como, por exemplo, a crítica da economia política. Mas também há outro Marx que é um Marx filósofo, que vem depois de Engels e que tenta mostrar que a lei das coisas deve ser buscada nas contradições principais que podem ser percebidas dentro das coisas. É o pensamento dialético, o materialismo dialético. No concreto, há uma base material de todo pensamento e este se desenvolve através de sistemas de contradição, de negação. Este é o segundo Marx. Mas também há um terceiro Marx que é o militante político. É um Marx que, em nome da ideia comunista, indica o que fazer: é o Marx fundador da Primeira Internacional, é o Marx que escreve textos admiráveis sobre a Comuna de Paris ou sobre a luta de classes na França.

Há pelo menos três Marx e o que mais me interessa, reconhecendo o mérito imenso de todos eles, é o Marx que tenta ligar a ideia comunista em sua pureza ideológica e filosófica às circunstâncias concretas. É o Marx que se pergunta pelo caminho para organizar as pessoas politicamente na direção da ideia comunista. Há ideias fundamentais que foram experimentadas e que ainda permanecem e, em cujo centro, encontramos a convicção segundo a qual nada ocorrerá enquanto uma fração significativa dos intelectuais não aceite estar organicamente ligada às grandes massas populares. Esse ponto está totalmente ausente hoje em várias regiões do mundo. Em maio de 68 e nos anos 70, este ponto foi abandonado. Hoje pagamos o preço desse abandono que significou a vitória completa e provisória do capitalismo mais brutal.

A vida concreta de Marx e Engels consistiu em participar nas manifestações na Alemanha e em tentar criar uma Internacional. E o que era a Internacional? A aliança dos intelectuais com os operários. É sempre por aí que se começa. Eu chamo então a que comecemos de novo: por um lado com a ideia comunista e, por outro, com um processo de organização sob esta ideia que, evidentemente, levará em conta o conjunto do balanço histórico, mas que, em certo sentido, terá que começar de novo.

Caído, derrotado no abismo ou simplesmente ferido? Na sua avaliação, em que fase se encontra o capitalismo: em seu ocaso, como acreditam alguns, ou somente vivendo um recesso devido a suas enormes contradições internas?

O capitalismo é um sistema de roubo planetário exacerbado. Pode-se dizer que o capitalismo é uma ordem democrática e pacífica, mas é um regime de depredadores, é um regime de banditismo universal. E digo banditismo de maneira objetiva: chamo bandido a qualquer um que considere que a única lei de sua atividade é seu próprio proveito. Mas um sistema como este que, por um lado, tem a capacidade de se estender e, por outro, de deslocar seu centro de gravidade é um sistema que está longe de estar moribundo.

Não é o caso de acreditar que, pelo fato de estarmos em uma crise sistêmica, nos encontramos à beira do colapso do capitalismo mundializado. Acreditar nisso seria ver as coisas através da pequena janela da Europa. Creio que há dois fenômenos que estão entrelaçados. O primeiro é a derrocada da segunda etapa da experiência comunista, a falência dos Estados socialistas. Essa falência abriu uma enorme brecha para o outro termo da contradição planetária que é o capitalismo mundializado. Mas também abriu novos espaços de tensões materiais. O desenvolvimento capitalista de países do porte da China e da Índica, assim como a recapitalização da ex-União Soviética tem o mesmo papel que o colonialismo no século XIX. Abriu espaços gigantes de manobra, de clientela de novos mercados.

Estamos vivendo agora esse fenômeno: a mundialização do capitalismo que se fez potente e se multiplicou pelo enfraquecimento de seu adversário histórico do período precedente. Esse fenômeno faz com que, pela primeira vez na história da humanidade, se possa falar realmente de um mercado mundial. Esse é um primeiro fenômeno. O segundo é o deslocamento do centro de gravidade. Estou convencido de que as antigas figuras imperiais, a velha Europa, por exemplo, a qual apesar de sua arrogância tem uma quantidade considerável de crimes que ainda aguardam perdão, e os Estados Unidos, apesar do fato de ainda ocupar um lugar muito importante, são na verdade entidades capitalistas progressivamente decadentes e até um pouco crepusculares. Na Ásia, na América Latina, com a dinâmica brasileira, e inclusive em algumas regiões do Oriente Médio, vemos aparecer novas potências. O sistema da expansão capitalista chegou a uma escala mundial, mas o sistema das contradições internas do capitalismo modifica sua geopolítica. As crises sistêmicas do capitalismo – hoje estamos em uma grave crise sistêmica – não têm o mesmo impacto segundo a região. Temos assim um sistema expansivo com dificuldades internas.


Mas esses novos polos se desenvolvem segundo o mesmo modelo.
Sim, e não creio que esses novos polos introduzam uma diferenciação qualitativa. É um deslocamento interno ao sistema que dá a ele margem de manobra.

Há duas versões de um de seus livros mais importantes: trata-se do Manifesto para a Filosofia. O primeiro Manifesto foi publicado há vinte anos, o segundo há dois. Se levamos em conta as revoluções árabes e as crises do sistema financeiro internacional, o que mudou fundamentalmente no mundo e no ser humano entre os dois manifestos?

O que mudou mais profundamente é a divisão subjetiva. As escolhas fundamentais às quais estiveram confrontados os indivíduos durante o primeiro período estavam ainda dominadas pela ideia da alternativa entre orientação revolucionária e democracia e economia de mercado. Dito de outro modo, estávamos na constituição do debate entre totalitarismo e democracia. Isso exige dizer quer todo o mundo estava sob o influxo do balanço da experiência histórica do século XX. O primeiro Manifesto foi publicado em 1989, quase ao final do século XX. Em escala mundial, esta discussão, que adquiriu formas distintas segundo os lugares, se focalizou em qual poderia ser o balanço deste século XX. Por acaso, temos que condenar definitivamente as experiências revolucionárias? É preciso abandoná-las porque foram despóticas, violentas? Neste sentido, a pergunta era: devemos ou não nos unir à corrente democrática e entrar na aceitação do capitalismo como um mal menor?

A eficácia do sistema não consistiu em dizer que o capitalismo era magnífico, mas sim que era o mal menor. Na verdade, tirando um punhado de pessoas ninguém pensa que o capitalismo é magnífico. Mas o que se disse nesse período foi que a alternativa era desastrosa. Há 20 anos estávamos neste contexto, ou seja, a reativação da filosofia inspirada pela moral de Kant. Ou seja, não é o caso de ter grandes ideias de transformação política voluntaristas porque isso conduz ao terror e ao crime, mas sim velar por uma democracia pacificada dentro da qual os direitos humanos estarão protegidos. Hoje esta discussão está terminada e está terminada porque todo mundo vê que o preço pago por essa democracia pacificada é muito elevado. Todo mundo toma consciência que se trata de um mundo violento, com outras violências, que a guerra segue rondando todo o tempo, que as catástrofes ecológicas e econômicas estão na ordem do dia e que, além disso, ninguém sabe para onde vamos.

Podemos imaginar que esta ferocidade da concorrência e esta constante submissão à economia de mercado durem ainda vários séculos? Todo mundo sente que não, que se trata de um sistema patrológico. Foi revelado que este sistema, que nos foi apresentado como um sistema moderado, sem dúvida em nada formidável, mas melhor que todos os demais, é um sistema patológico e extremamente perigoso. Essa é a novidade. Não podemos mais ter confiança no futuro desta visão das coisas. Estamos em uma fase de transição e incerteza. Introduziu-se a hipótese de uma espécie de humanismo renovado que poderíamos chamar de humanismo de mercado, o mercado, mas humano. Creio que essa figura, que segue vigente graças aos políticos e aos meios de comunicação, está morta. É como a União Soviética: estava morta antes de morrer. Creio que, em condições diferentes e em um universo de guerra, de catástrofes, de competição e de crise, esta ideia do capitalismo com rosto humano e da democracia moderada está morta. Agora será preciso não mais escolher entre duas visões constituídas, mas sim inventar uma.

Dessa ambivalência provém talvez a sensação de que as jovens gerações estão perdidas, sem confiança em nada?

Isso é o que sinto na juventude de hoje. Sinto que a juventude está completamente imersa no mundo tal como é, não tem ideia de outra alternativa, mas, ao mesmo tempo, está perdendo confiança neste mundo, está vendo que, na verdade, este mundo não tem futuro, carece de toda significação para o futuro. Creio que estamos em um período onde as propostas de ideias novas estão na ordem do dia, mesmo que uma boa parte da opinião não saiba disso. E não sabe porque ainda não chegamos ao final deste esgotamento interno da promessa democrática. É o que eu chamo de período intervalo: sabemos que as velhas escolhas estão acabadas, mas não sabemos ainda muito bem quais são as novas escolhas.

Vários filósofos apontam o fato de que os valores capitalistas destruíram a dimensão humana. Você acredita, ao contrário, que ainda persiste uma potência altruísta no ser humano.

Devemos olhar o que ocorreu nas manifestações dos países árabes. Nunca acreditei que essas manifestações iam inventar um novo mundo de um dia para o outro, nem pensei que essas revoltas apresentavam soluções novas para os problemas planetários. Mas o que me assombrou foi a reaparição da generosidade do movimento de passa, quer dizer, a possibilidade de agir, de sair, de protestar, de pronunciar-se independentemente do limite dos interesses imediatos e fazê-lo junto a pessoas que, sabemos, não compartilham nossos interesses. Aí encontramos a generosidade da ação, a generosidade do movimento de massa, temos a prova de que esse movimento ainda é capaz de reaparecer e reconstituir-se. Com todos os seus limites, também temos um exemplo semelhante com o movimento dos indignados.

O que fica evidente em tudo isso é que estão aí em nome de uma série de princípios, de ideias, de representações. Esse processo, obviamente, será longo. O movimento da primavera árabe me parece mais interessante que o dos indignados porque tem objetivos precisos, ou seja, a desaparição de um regime autocrático e o tema fundamental que é o horror diante da corrupção. A luta contra a corrupção é um problema capital do mundo contemporâneo. Nos indignados vimos a nostalgia do velho Estado providência. Mas volto a reiterar que o interessante em tudo isso é a capacidade de fazer algo em nome de uma ideia, mesmo que essa ideia tenha acentos nostálgicos. O que me interessa saber é se ainda temos a capacidade histórica de agir no regime da ideia e não simplesmente segundo o regime da concorrência ou da conservação. Isso para mim é fundamental. A reaparição de uma subjetividade dissidente, seja quais forem suas formas e suas referências, isso me parece muito importante.

Você publicou um livro sobre o amor, que é de uma sabedoria comovedora. Para um filósofo comprometido com a ação política e cujo pensamento integra as matemáticas, a aparição do tema do amor é pouco comum.

O amor é um tema essencial, uma experiência total. O amor está ameaçado pela sociedade contemporânea. O amor é um gesto muito forte porque significa que é preciso aceitar que a existência de outra pessoa se converta em nossa preocupação. No amor, o fundamental está em que nos aproximamos do outro com a condição de aceita-lo em minha existência de forma completa, inteira. Isso é o que diferencia o amor do interesse sexual. Este se fixa sobre o que os psicanalistas chamaram de “objetos parciais”, ou seja, eu extraio do outro alguns emblemas fetiches que me interessam e que suscitam minha excitação desejante. Não nego a sexualidade, pelo contrário. Ela é um componente do amor. Mas o amor não é isso. O amor é quando estou em estado de amar, de estar satisfeito e de sofrer e de esperar tudo o que vem do outro: a maneira como viaja, sua ausência, sua chegada, sua presença, o calor de seu corpo, minhas conversas com ele, os gostos compartilhados. Pouco a pouco, a totalidade do que o outro é torna-se um componente de minha própria existência. Isso é muito mais radical que a vaga ideia de preocupar-me com o outro. É o outro com a totalidade infinita que representa e com o qual me relaciono em um movimento subjetivo extraordinariamente profundo.

Em que sentido o amor está ameaçado pelos valores contemporâneos?

Está ameaçado porque o amor é gratuito e, desde o ponto de vista do materialismo democrático, injustificado. Por que deveria me expor ao sofrimento da aceitação da totalidade do outro? O melhor seria extrair dele o que melhor corresponde aos meus interesses imediatos e aos meus gostos e descartar o resto. O amor está ameaçado hoje porque é distribuído em fatias. Observemos como se organizam as relações nestes portais de internet onde as pessoas entram em contato: o outro já vem fatiado em fatias, um pouco como a vaca nos açougues. Seus gostos, seus interesses, a cor dos olhos, o corte dos cabelos, se é grande ou pequeno, loiro ou moreno. Vamos ter uns 40 critérios e, ao final, vamos nos dizer: vou comprar este. É exatamente o contrário do amor. O amor é justamente quando, em certo sentido, não tenho a menor ideia do que estou comprando.


E frente a essa modalidade competitiva das relações, você proclama que o amor deve ser reinventado para nos defendermos, que o amor deve reafirmar seu valor de ruptura e de loucura.

O amor deve reafirmar o fato de que está em ruptura com o conjunto das leis ordinárias do mundo contemporâneo. O amor deve ser reinventado como valor universal, como relação em direção da alteridade, daquilo que não sou eu e onde a generosidade é obrigatória. Se não aceito a generosidade, tampouco aceito o amor. Há uma generosidade amorosa que é inevitável. Sou obrigado a ir na direção do outro para que a aceitação do outro em sua totalidade possa funcionar. Essa é uma excelente escola para romper com o mundo tal como é. Minha ideia sobre a reinvenção do amor quer dizer o seguinte: uma vez que o amor se refere a essa parte da humanidade que não está entregue à competição, à selvageria; uma vez que, em sua intimidade mais poderosa, o amor exige uma espécie de confiança absoluta no outro; uma vez que vamos aceitar que este outro esteja totalmente presente em nossa própria vida, que nossa vida esteja ligada de maneira interna a esse outro, pois bem, já que tudo descrito acima é possível isso prova que não é verdade que a competitividade, o ódio, a violência, a rivalidade e a separação sejam a lei do mundo.

A política não está muito afastada de tudo isso. Para você, há uma dimensão do amor na ação política?

Sim, inclusive pode resultar perigoso. Se buscamos uma analogia política do amor eu diria que, assim como no amor onde a relação com uma pessoa tem que constituir sua totalidade existencial como um componente de minha própria existência, na política autêntica é preciso que haja uma representação inteira da humanidade. Na política verdadeira, que também é um componente da vida verdadeira, há necessariamente essa preocupação, essa convicção segundo a qual estou ali enquanto representante e agente de toda a humanidade. Do mesmo modo que ocorre no amor, onde minha preocupação, minha proposta e minha atividade estão ligadas à existência do outro em sua totalidade.

O que pode fazer um casal jovem e enamorado neste mundo violento, competitivo, onde o projeto do casal já está ameaçado pela própria dinâmica do consumo e da competição?

Creio que o projeto de um casal pode ser uma rama se não se dissolve, se não se metamorfoseia em um projeto que acabe se transformando, no fundo, na acumulação de interesses particulares. Na situação de crise e de desorientação atual o mais importante é segurar as mãos no timão da experiência pela qual estamos passando, seja no amor, na arte, na organização coletiva, no combate político. Hoje, o mais importante é a fidelidade: em um ponto, ainda que seja em apenas um, é preciso não ceder. E para não ceder devemos ser fieis ao que ocorreu, ao acontecimento. No amor, é preciso ser fiel ao encontro com o outro porque vamos criar um mundo a partir desse encontro. Claro, o mundo exerce uma pressão contrária e nos diz: “cuidado, defenda-se, não deixe que o outro abuse de ti”. Com isso está dizendo: “voltem ao comércio ordinário”.

Então, como essa pressão é muito forte, o fato de manter o timão no rumo certo, de manter vivo um elemento de exceção, já é extraordinário. É preciso lutar para conservar o excepcional que ocorre em nossas vidas. Depois veremos. Dessa forma salvaremos a ideia e saberemos o que é exatamente a felicidade. Não sou um asceta, não sou a favor do sacrifício. Estou convencido de que se conseguimos organizar uma reunião com trabalhadores e colocamos em marcha uma dinâmica, se conseguimos superar uma dificuldade no amor e nos reencontramos com a pessoa que amamos, se fazemos uma descoberta científica, então começamos a compreender o que é a felicidade. A felicidade é uma ideia fundamental. A construção amorosa é a aceitação conjunta de um sistema de riscos e de invenções.

Você também introduz uma ideia peculiar e maravilhosa: devemos fazer tudo para preservar o que nos ocorre de excepcional.

Aí está o sentido completo da vida verdadeira. Uma vida verdadeira se configura quando aceitamos os presentes perigosos que a vida nos oferece. A existência nos traz riscos, mas, na maioria das vezes, estamos mais espantados que felizes por esses presentes. Creio que aceitar isso que nos ocorre e que parece raro, estranho, imprevisível, excepcional, que seja o encontro com uma mulher ou o maio de 68, aceitar isso e suas consequências, isso é a vida, a verdadeira vida.

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Tradução: Marco Aurélio Weissheimer


Entrevista extraída do site Carta Maior


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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

PressAA

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