quarta-feira, 7 de março de 2012

"Lampião" redivivo nos sertões nordestinos

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Bando traz terror ao Sertão de Alagoas relembrando os tempos do Cangaço

por Sérgio Campos*

Um bando que age com uma média de 15 homens, divididos em pelo menos cinco veículos, vem trazendo pânico aos sertanejos e já preocupa a cúpula da segurança pública de Alagoas.

Com ações rápidas e audaciosas, os ataques do bando também se caracterizam pela violência e pressão psicológica em suas vítimas.

Atentos às causas que levam à violência, sabemos que os ataques em bando já são bastante conhecidos dos habitantes dos sertões nordestinos. Entre as décadas de 20 e 30 cangaceiros agiam em vários estados do Nordeste, e, para que os ataques chegassem ao fim, as polícias das regiões atingidas se uniram numa caçada implacável aos vários grupos de cangaceiros, e no dia 28 de julho de 1938, depois de uma ação conjunta entre as polícias de Alagoas, Sergipe e Bahia, o principal nome do Cangaço, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, tombou na localidade de Angicos, sertão sergipano, depois de ser surpreendido durante a madrugada.

Corre por aí que Lampião e seu bando não entravam em Santana do Ipanema, limitando-se a apreciar a cidade lá do Alto do Cruzeiro. Entretanto, lendo a obra do escritor Breno Accioly, nosso conterrâneo, constatamos que o famoso Rei do Cangaço fazia regulares visitas "ao município" e que Breno, ainda menino, "foi mandado para a casa do Pe. Francisco Macedo, em Palmeira dos Índios, por causa de Lampião". Daí podemos deduzir que provavelmente Lampião, por um certo período, adentrava à nossa cidade.

Sai o cavalo e entra o carro

Mais recentemente, na década de 90, Alagoas, Pernambuco, Sergipe, e Bahia voltaram a se juntar para combater o banditismo. Daquela vez os sertanejos estavam sendo vítimas do bando de José Marcos Gama Correia, ou “Marcos Capeta”, o qual, segundo algumas de suas vítimas, se caracterizava pela violência na hora de seus assaltos. Durante alguns anos Capeta conseguiu enganar as polícias dos estados citados, sempre com ações rápidas e fugas para regiões diferentes, mas sempre no semi-árido.

Depois de algumas prisões e várias perseguições, Marcos Capeta foi morto em 99 com 22 tiros, em uma troca de tiros com a polícia baiana.

Novo bando

O novo bando que vem atacando no Sertão alagoano, e parte do Agreste, se caracteriza pela violência, rapidez e mudança de localidade.

Nas últimas ações criminosas o bando decidiu pelo ataque a residências, onde famílias são feitas reféns, e jóias, dinheiro e celulares são lavados, não antes de muita ameaça e ataques de fúria dos integrantes da quadrilha, com socos e coronhadas de pistola.

No último sábado (4) os bandidos atacaram a residência da prefeita de Santana do Ipanema, Renilde Bulhões, que é casada com o ex-conselheiro do Tribunal de Contas de Alagoas, Isnaldo Bulhões. Neste ataque, além do casal, outras pessoas foram feitas reféns enquanto os integrantes do bando buscavam por pertences pelos cômodos da casa. Uma das vítimas disse à nossa reportagem que sofreu agressão e ameaça de morte.

Antes do ataque à residência da prefeita de Santana do Ipanema, a polícia já havia tido informações de que outras residências nas cidades de Carneiros, São José da Tapera e Senador Rui Palmeira tinham sido atacadas. Nesses casos o bando teve como alvo alguns comerciantes.

Outras ações criminosas, com as mesmas características estão sendo atribuídas a este bando, como, por exemplo, a que ocasionou a morte do professor da Ufal, Sharlyton Harryson Barbosa da Silva, de 29 anos, no dia 07 de janeiro deste ano. Depois de tentar escapar de um cerco dos bandidos, o veículo do professor foi alvejado por vários disparos de arma de fogo, tendo sido atingido por três disparos e morrendo no local. Na ocasião o bando ainda teria tentado roubar outro veículo e chegou a usar uma família como refém, depois de balear a mão de um homem.

Nas ações criminosas os bandoleiros usavam vários veículos, todos tomados em assaltos e abandonados em seguida.

“Estamos tratando com um bando articulado, que conhece a região, e por isso escapa rapidamente”, disse um agente policial que preferiu não se identificar.

Violência entre as partes

Desde os tempo de Lampião que se fala de violência causadas por ambas as partes: polícia e bandido.

Como conta a história, Lampião teria entrado na vida do cangaço após ter tido seu pai morto de forma cruel e por motivo fútil por um rico fazendeiro de Serra Talhada, em Pernambuco. De acordo com alguns historiadores, após a morte do pai, Lampião, ainda apenas Virgulino, teria se juntado com seus irmãos e depois de procurar a Justiça se desiludiu e buscou a vingança, matando toda a família do fazendeiro que assassinou seu pai, em Mata Grande.

De acordo com informações, passadas à nossa redação por uma das vítimas do assalto à residência da prefeita de Santana do Ipanema, um dos assaltantes ameaçou matar o vigia da casa, depois de desconfiar que se tratava de um policial. “Não gosto de policiais e nem de advogado, pois quando estive preso ninguém foi me defender”, teria dito o assaltante.

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*Sergio Campos é servidor público e faz parte da equipe que mantém o site Alagoas na Net.
Colabora, eventualmente, com esta nossa Agência Assaz Atroz.
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Agora fiquem com um forró bom danado!


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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons (A charge lampião foi copiada de PoisÉ: jornaleco de opiniões e picuinhas )


PressAA

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terça-feira, 6 de março de 2012

Cadê a indústria que tava aqui?

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O Serra pode ser criticado por muitos motivos. Mas num ponto é preciso concordar com ele: o Brasil está num proceso de desindustrialização. Logo no início do governo Dilma, publiquei aqui um modesto artigo que tocava nesse ponto – lembrando os alertas lançados por dois importantes economistas: Delfim Neto e Marcio Pochmann.

A CartaCapital dessa semana traz, na capa, exatamente o tema da desindustrialização. Ou seja: nesse ponto, Serra está bem acompanhado. O que não ajuda muito o tucano é o fato de ter sido ministro (do Planejamento) num governo que adotou a doutrina ultraliberal feito dogma, abrindo a economia sem nenhum tipo de freio, expondo a indústria (e o país) à tal “âncora cambial” – que servia para frear a inflação e consolidar o Real, mas que teve um papel nefasto para o Mercado Interno.

Agora, Dilma diz – na Alemanha, que Brasil vai se proteger da guerra cambial.

Lembro bem que, durante o governo FHC, a cada reclamação do setor industrial, gente ligada ao tucanato ia pra imprensa e chamava o prédio da FIESP de “grande monumento ao custo Brasil”. Quase na galhofa. Os tucanos (ou parte deles, porque havia gente ajuizada como Bresser, que não achava graça nenhuma em jogar fora o Capital nacional) pareciam ter um desejo sádico de quebrar a indústria nacional, arrebentar esse patrimônio construído a duras penas desde o governo Vargas.

O tucanato podia-se dar a esse luxo. Afinal, na ampla coalizão que sustentava FHC, o setor financeiro era claramente hegemônico (basta ver onde foi trabalhar o Ministro Malan, após deixar o governo).

Lula/Dilma mantiveram o setor financeiro na grande aliança que sustenta o governo. Isso é inegável. Mas a ênfase mudou. Lula cumpriu o velho programa dos “economistas do PMDB”, que passaram anos e anos lutando para que o Brasil priorizasse o mercado interno de massas e crescesse dividindo o bolo. Isso só pôde ser feito em aliança com a indústria. Lula pôs em prática também a velha tese do partidão: a famosa “aliança do operariado com a burguesia industrial”. Lula fez isso, e ao mesmo tempo incorporou vinte milhões de miseráveis ao mercado. E – ufa! - sem desagradar a Banca. Ficou de fora do grande arranjo lulista a classe média tradicional (ou “pequena-burguesia”, como diziam os petistas quando ainda estavam sob influência do marxismo) - não é à toa que dela parte a oposição mais virulenta a Dilma/Lula.

Mas essa é outra história… Quero me concentrar em outro ponto. O compromisso de Lula com o setor produtivo industrial, de certa forma, era sinalizadao pela presença de um “capitão da indústria” na vice-presidência. José Alencar passou oito anos brigando pra derrubar os juros. Era a forma de Lula equilibrar o jogo, ainda que no primeiro mandato a balança tenha pendido mais para o núcleo duro financista, representado pela dupla Palocci/Meirelles.

No segundo mandato, a presença de Mantega na Fazenda foi decisiva para que, na crise de 2008, Lula adotasse uma saída “expansionista” pra enfrentar a crise. Uma das medidas para fazer o Brasil resistir à crise foi a redução de alíquotas de imposto pros carros. Isso mostra o papel dinâmico da indústria. Mostra porque é fundamental preservar o imenso patrimônio industrial brasileiro. Lula manteve a aliança com a banca. Mas deu mais ênfase ao mercado interno e à indústria. No governo Lula, ninguém chamava a FIESP de “monumento ao custo Brasil”…

Mas o fato é que “mudar a ênfase” é muito pouco. Do contrário, qualquer dia vamos acordar, olhar pro lado e perguntar: cadê a indústria que tava aqui? A China comeu.

O Brasil hoje é vítima de sua estabilidade. Mais que isso: dólares não param de chegar, deixando o Real cada vez mais forte. Por que? Porque nossos juros altos atraem capital. E há muito dinheiro voando por aí. Os EUA detêm a famosa “maquininha de imprimir papel-moeda”. Os tolos liberais brasileiros sempre disseram que política expansionista era um erro. E que era preciso “enxugar” a economia, e “fazer a lição de casa” e blá-blá-blá. O Federal Reserva não acredita na cantilena liberal. Na crise, inundou o mundo de dólares. Qual o objetivo? Os produtos dos EUA precisam ficar mais baratos! É uma tentativa desesperada de recuperar a indústria dos EUA – dizimada pelos chineses.

Como diz meu colega Azenha: Reagan iniciou o processo de exportar empregos industriais para a China e o México. Os EUA queriam ficar apenas com a “economia limpa”, do setor de serviços. Agora, os EUA descobrem que só os “serviços” não seguram o país na hora da crise. E também se perguntam: cadê a indústria? A China comeu!

Do outro lado do mundo, a China segura a cotação do yuan. É o que explica – em parte – os preços imbatíveis dos produtos industriais chineses.

E o Brasil?

Não há saída. Agora não bastam mudanças cosméticas. Não basta baixar IPI aqui ou ali. Nossa indústria está sendo dizimada. Não se trata de “choradeira da Fiesp”. Conheço duas pessoas – empresários de pequeno porte – que trabalham com exportação de produtos brasileiros. Os dois estã com a corda no pescoço. A duras penas, seguram os clientes que ainda não se mandaram; não conseguem novos clientes. O mundo quer comprar barato da China.

Ok, talvez não consigamos concorrer com os chineses, a não ser aqui na América Latina, o que já não seria pouco…

Mas o principal, agora, é fazer a defesa de nosso mercado interno. Isso é urgente. O governo precisa adotar medidas duras pra conter a valorização do dólar e pra impedir a entrada dos produtos chineses.

Recentemente, entrevistei o profesor Bresser Pereira, e ele foi claro. O Brasil precisa controlar a entrada e saída de dólares. Se Dilma não fizer isso agora, o estrago pode ser definitivo.

O que nos consola é: esse não é um drama (apenas) brasileiro. O mundo vive a tal “guerra cambial”. EUA e China usam suas armas. Precisamos usar as nossas, lembrando sempre da velha frase do Mario Henrique Simonsen: “a inflação aleija, mas o câmbio mata.”

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Artigo copiado de Escrevinhador - por Rodrigo Vianna

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Leia também, em Quem Tem Medo da Democracia?

“General, tortura nunca foi usos e costumes, nem no Brasil nem em lugar algum.”

O general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva, em entrevista a Miriam
Leitão, das Organizações Globo, disse ontem que a Comissão da
Verdade, prevista em lei sancionada pela Presidência da República em
Novembro de 2010, é “maniqueísta” e parcial porque seu objetivo é “promover
o esclarecimento de torturas, mortes, desaparecimentos forçados e ocultação
de cadáveres”. Acha ele que, para assegurar a imparcialidade da comissão,
ela também deveria investigar atos de violência cometidos por aqueles que
combatiam a ditadura.

(...)

Ao indagar, mais adiante, “Quando é que não houve tortura no Brasil?”, o
general tenta justificar em sua entrevista os martírios que foram
perpetrados pela ditadura deixando entender que torturar é uma atividade
legitimada e consagrada pelos usos e costumes nacionais.

(...)

General, tortura nunca foi usos e costumes, nem no Brasil nem em lugar
algum. Sempre foi e é a violação do império da lei, que condena quem
tortura. Tanto que a nossa Constituição Federal é taxativa ao determinar que
“ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”
(art.5º, inciso III). E impor o respeito à lei – não vi olá-la – é o dever
precípuo mais básico dos agentes do Estado. Esses agentes estão cobertos
pelo manto institucional, portanto exercem um poder infinitamente maior que
qualquer outro cidadão.

(...)

Instituto Vladimir Herzog

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons (o cartum "indústria" foi copiado de MexicoTop)

PressAA

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segunda-feira, 5 de março de 2012

O que a esquerda deveria aprender com os evangélicos

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"As massas de homens que nunca são abandonadas pelos sentimentos religiosos então nada mais vêem senão o desvio das crenças estabelecidas. O institnto de outra vida as conduz sem dificuldades ao pé dos altares e entrega seus corações aos preceitos e às consolações da fé." (Alexis de Tocqueville, "A Democracia na América" (1830), p. 220)

No Brasil, um novo confronto, na forma como dado e cada vez mais evidente e violento, será o mais inútil de todos: o do esclarecimento político contra o obscurantismo religioso, principalmente o evangélico, pentecostal ou, mais precisamente, o neopentecostal. Lamento informar, mas na briga entre os dois barbudos – Marx e Cristo – fatalmente perderemos: o Nazareno triunfa. Por uma razão muito simples, as igrejas são o maior e mais eficiente espaço brasileiro de socialização e de simulação democrática. Nenhum partido político, nenhum governo, nenhum sindicato, nenhuma ONG e nenhuma associação de classe ou defesa das minorias tem competência e habilidade para reproduzir o modelo vitorioso de participação popular que se instalou em cada uma das dezenas de milhares de pequenas igrejas evangélicas, pentencostais e neopentecostais no Brasil. Eles ganharão qualquer disputa: são competentes, diferentemente de nós.

Muitos se assustam com o poder que os evangélicos alcançaram: a posse do senador Marcello Crivela, também bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, no Ministério da Pesca e a autoridade da chamada “bancada evangélica” no Câmara dos Deputados são dois dos mais recentes exemplos. Quem se impressiona não reconhece o que isso representa para um a cada cinco brasileiros, o número dos que professam a fé evangélica ou pentecostal no Brasil. Segundo a análise feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), a partir dos microdados da Pesquisa de Orçamento Familiar 2009 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a soma de evangélicos pentecostais e outras denominações evangélicas alcança 20,23% da população brasileira. Outros indicadores sustentam que em 1890 eles representavam 1% da população nacional; em 1960, 4,02%.

O crescimento dos evangélicos não é um milagre, é resultado de um trabalho incansável de aproximação do povo que tem sido negligenciado por décadas pelas classes mais progressistas brasileiras. Enquanto a esquerda, ainda na oposição política, entre a abertura democrática pós-ditadura e a vitória do primeiro governo popular no Brasil, apenas esbravejava, pastores e missionários evangélicos percorreram cada canto do país, instalaram-se nas regiões periféricas dos grandes centros urbanos, abriram suas portas para os rejeitados e ofereceram, em muitos momentos, não apenas o conforto espiritual, mas soluções materiais para as agruras do presente, por meio de uma rede comunitária de colaboração e apoio. O que teve fome e dificuldade, o desempregado, o doente, o sem-teto: todos eles, de alguma forma, encontraram conforto e solução por meio dos irmãos na fé. Enquanto isso, a esquerda tinha uma linda (e legítima) obsessão: “Fora ALCA!”.

"O crescimento dos evangélicos não é um milagre,é resultado de um trabalho incansável de aproximação com o povo"




O mapa da religiosidade no Brasil revela nossa incompetência social: os evangélicos e pentecostais são mais numerosos entre mulheres (22,11% delas; homens, 18,25%), pretos, pardos e indígenas (24,86%, 20,85% e 23,84%, respectivamente), entre os menos instruídos (sem instrução ou até três anos de escolaridade: 19,80%; entre quatro e sete anos de instrução: 20,89% e de oito a onze anos: 21,71%) e na região norte do país, onde 26,13% da população declara-se evangélica ou pentecostal. O Acre, esse Estado que muitos acham que não existe, blague infantilmente repetida até mesmo por esclarecidos militantes de esquerda, tem 36,64% de evangélicos e pentecostais. É o Estado mais evangélico do país. Simples: a igreja falou aos corações e mentes daqueles com os quais a esquerda nunca verdadeiramente se importou, a não ser em suas dialéticas discussões revolucionárias de gabinete, universidade e assembleia.

O projeto de poder evangélico não é fortuito. Ele não nasceu com o governo Dilma Rousseff. Ele não é resultado de um afrouxamento ideológico do PT e nem significa, supõe-se, adesão religiosa dos quadros partidários. Ele é fruto de uma condição evangélica do país e de uma sistemática ação pela conquista do poder por vias democráticas, capitalizada por uma rede de colaboração financeira de ofertas e dízimos. Só não parece legítimo a quem está do lado de fora da igreja, porque, para cada um dos evangélicos e pentecostais, estar no poder é um direito. Eles não chegaram ao Congresso Nacional e, mais recentemente, ao Poder Executivo nacional por meio de um golpe. Se, por um lado, é lamentável que o uso da máquina governamental pode produzir intolerância e mistificação, por outro, acostumemo-nos, a presença deles ali faz parte da democracia. As mesmas regras políticas que permitiram um operário, retirante nordestino e sindicalista chegar ao poder são as que garantem nas vitória e posse de figuras conhecidas das igrejas evangélicas a câmaras de vereadores, prefeituras, governos de Estado, assembleias legislativas e Congresso Nacional. O lema “un homme, une voix” (“um homem, uma voz”) do revolucionário socialista L.A. Blanqui (1805-1881), “O Encarcerado”, tem disso.

Afora a legitimidade política – o método democrático e a representação popular não nos deixam mentir – a esquerda não conhece os evangélicos. A esquerda não frequentou as igrejas, a não ser nos indefectíveis cultos preparados como palanques para nossos candidatos demonstrarem respeito e apreço pelas denominações evangélicas em época de campanha, em troca de apoio dos crentes e de algumas imagens para a TV. A esquerda nunca dialogou com os evangélicos, nunca lhes apresentou seus planos, nunca lhes explicou sequer o valor que o Estado Laico tem, inclusive como garantia que poderão continuar assim, evangélicos ou como queiram, até o fim dos tempos. E agora muitos militantes, indignados com a presença deles no poder, os rechaçam com violência, como se isso resolvesse o problema fundamental que representam.

"A esquerda nunca dialogou com os evangélicos, nunca lhes apresentou seus planos, nunca lhes explicou sequer o valor do Estado Laico"




Apenas quem foi evangélico sabe que a experiência da igreja não é puramente espiritual. E é nesse ponto que erramos como esquerda. A experiência da igreja envolve uma dimensão de resistência que é, de alguma forma, também política. O “não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito” (Paulo para os Romanos, capítulo 12, versículo 2) é uma palavra de ordem poderosa e, por que não, revolucionária, ainda que utilizada a partir de um ponto de vista conservador.

Em nenhuma organização política o homem comum terá protagonismo tão rápido quanto em uma igreja evangélica. O poder que se manifesta pela fé, a partir da suposta salvação da alma com o ato simples de “aceitar Jesus no coração como senhor e salvador”, segundo a expressão amplamente utilizada nos apelos de conversão, transforma o homem comum, que duas horas antes entrou pela porta da igreja imundo, em um irmão na fé, semelhante a todos os outros da congregação. Instantaneamente ele está apto a falar: dá-se o testemunho, relata-se a alegria e a emoção do resgate pago por Jesus na cruz. Entre os que estão sob Cristo, e são batizados por imersão, e recebem o ensino da palavra, e congregam da fé, não há diferenciação. Basta um pouco de tempo, ele pode se candidatar a obreiro. Com um pouco mais, torna-se elegível a presbítero, a diácono, a liderança do grupo de jovens ou de mulheres, a professor da escola dominical. Que outra organização social brasileira tem a flexibilidade de aceitação do outro e a capacidade de empoderamento tal qual se vêem nas pequenas e médias igrejas brasileiras, de Rio Branco, das cidades-satélite de Brasília, do Pará, de Salvador, de Carapicuíba, em São Paulo, ou Santa Cruz, no Rio de Janeiro? Nenhuma.

Se esqueçam dos megacultos paulistanos televisionados a partir da Av. João Dias, na Universal, ou da São João, do missionário R.R. Soares. Aquilo é Broadway. Estamos falando destas e outras denominações espalhadas em todo o território nacional, pequenas igrejas improvisadas em antigos comércios – as portas de enrolar revelam a velha vocação de uma loja, um supermercado, uma farmácia – reuniões de gente pobre com sua melhor roupa, pastores disponíveis ao diálogo, festas de aniversário e celebrações onde cada um leva seu prato para dividir com os irmãos. A menina que tem talento para ensinar, ensina. O irmão que tem uma van, presta serviços para o grupo (e recebe por isso). A mulher que trabalha como faxineira durante a semana é a diva gospel no culto de domingo à noite: canta e leva seus iguais ao júbilo espiritual com os hinos. A bíblia, palavra de ninguém menos que Deus, é lida, discutida, debatida. Milhares e milhares de evangélicos em todo o país foram alfabetizados nos programas de Educação de Jovens e Adultos (EJAs) para simplesmente “ler a palavra”, como dizem. Raríssimo o analfabeto que tenha sido fisgado pela vontade ler “O Capital”, infelizmente. As esquerdas menosprezaram a experiência gregária das igrejas e permaneceram, nos últimos 30 anos, encasteladas em seus debates áridos sobre uma revolução teórica que nunca alcançou o coração do homem comum. Os pastores grassaram.

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Matéria copiada do site SENSHO POTERREUS

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A propósito do texto acima, assista a este vídeo que recebemos por e-mail da redecastorphoto



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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

PressAA

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sábado, 3 de março de 2012

LEONOR E PETEL

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Petel e Leonor. Leonor e Petel. Deixa-me, desocupado(a) leitor(a), colocar os dois assim, agarradinhos, bem juntinhos, um ao lado do outro, pelo menos no papel, já que na vida, Deus - ou sei lá quem, talvez o destino - decidiu mantê-los separados. Que aquilo que o poeta uniu, nenhum deus possa jamais separar! Já dizia Camões: "Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta!". O que se alevanta é um amor, tão impossivel como o de Romeu e Julieta, cuja história te conto, agora, no aniversário de 77 anos da Leonor.

Começo te apresentando Leonor Pimentel, nascida em Óbidos (PA), no dia 01 de março de 1935. Ainda pequena, durante a II Guerra Mundial, mudou para Manaus, onde residia sua tia, dona Maria, mãe do ortopedista Edmilson Vilar de Aguiar. Foi ai que conheceu três irmãos: João Camilo, Sindoka e Petel, filhos da dona Geraldina Silva, que morava na Rua Carolina Neves, o popular Beco da Bosta, no bairro de Aparecida. Um deles conquistaria o coração da jovem paraense. Não foi Petel, o caçula.

Foi João, o taxista, que gamou pela Leonor, uma uva. (Na época, gatinha era "uva" ou "brotinho"). Depois de umas voltinhas de taxi com ela, ele engatou uma quarta, atolou o pé no acelerador e a pediu em casamento, celebrado na igreja de Aparecida. Ganharam de presente nupcial uma rádio-vitrola telefunken a válvulas, com olho mágico, último modelo, numa época em que ninguém no bairro tinha toca-disco. Foi a primeira vitrola que entrou no beco, colocada na sala da casa, em lugar nobre, ao lado da geladeira a querosene, exposta aos olhos curiosos de quem passava na rua.

Acontece que toca-disco só toca se tiver disco. Não havia nenhum. Era como se o taxi do Camilo não tivesse gasolina. E é precisamente aqui que entra o Petel: com a gasolina. Perdido de amor por sua cunhada, ele dá a ela de presente o LP do Waldick Soriano "Quem es tú?", com vinte músicas, que por ser o único disco, durante algum tempo, tocava de manhã, de tarde, de noite, de madrugada, povoando o silêncio do beco. A música estrondava dentro da nossa casa, vizinha a da Leonor. Era o hit atravessando paredes com Tortura de amor:

- Volta / fica comigo / só mais uma noite / Quero viver junto a ti / Vooolta meu amor / Fica comigo / Não me desprezes / A noite é nooooossa / E o meu amoooor / pertence a ti.

Cacho da bananeira

A noite não era nossa, era do Petel. O disco estava pra furar. Deitado na minha rede, todas as noites eu dormia embalado por Waldick cantando na casa ao lado. Quer dizer, a voz era do Waldick, mas quem estava torturado de amor, mandando um recado, era o Petel. Honesta e fiel, Leonor nem dava confiança, como ficou evidente na quermesse de Aparecida quando Jefferson de Souza, o Bibi, leu no alto falante o seguinte Telegrama no ar:

- Alô-alô! Alô-alô! Você que se encontra passeando neste arraial, vestindo saia plissada azul e blusa de organdi branco, de mangas arredondadas, alguém que muito te ama, oferece a melodia Angústia. Assinado: Camilo Três.

A única ali, de saia plissada, era Leonor. A música, indubitavelmente, era endereçada a ela. Mas uma questão intrigava: quem se escondia detrás do pseudônimo de Camilo Três? O João Camilo, seu marido, não era, estava longe, numa corrida para o aeroporto de Ponta Pelada. Para complicar, alguém viu o Petel chorar como um bezerro desmamado, no arraial, quando a voz rascante de corno ferido do Waldick cantou no Serviço de Amplificação A Voz Quermesse de Aparecida:

- Angústia / de esperar por ti / tormento / de esperar-te amor / Contigo / se foi a ilusão / angústia / feriu meu coração.

O mistério só seria desfeito meses depois no Estádio da Colina, onde por pouco não ocorreu uma tragédia, com o suicídio de Romeu, digo do Petel.Te conto já já, mas antes veremos a Leonor, preocupada com as despesas da casa, que foram aumentando à medida em que as crianças iam nascendo: João Camilo Filho (Joreca), Leonildes (Tica), Socorrinha, Marlon Brando (Marlinho), Ronaldo (Naldinho), Carla e Cláudia. Foram 7 filhos, 16 netos e 4 bisnetos, o que obrigou Leonor a se virar para complementar a economia doméstica.

Leonor bananeira.Começou a vender banana e verdura, num quiosquezinho improvisado na sala de sua casa. Trabalhou ainda como apontadora do jogo do bicho, era lá que o Geraldão ia sempre fazer sua fezinha. Finalmente, abriu um salão de beleza na sala de sua casa, que funciona até hoje, com clientes fiéis que cortam o cabelo e aparam a barba: Tuta, Umberto Bacurau, Armando da Padaria, Jorge, Boneco, Fernando Porcão, além da Cecília, dona Marta, Dile e muita gente boa. O Lethinha, mesmo depois de rico, só pinta o cabelo de acaju no Salão Leonor Fashion Hair.

Leonor enviuvou cedo, mas educou todos os filhos pequenos com seu trabalho, vendendo banana, cortando cabelo. Hoje, a Tica é contadora profissional e o Naldinho, advogado da Caixa Econômica Federal, ambos moram há mais de trinta anos em Natal (RN). A Corrinha é funcionária do Tribunal de Justiça do Amazonas. O Joreca morreu, o Marlinho seguiu - digamos assim - o seu rumo, mas teve uma filha que mora nos Estados Unidos e é motivo de orgulho para a avó.

O tempo passou. Os sobrinhos foram crescendo, mas o Petel não desistia nunca de sua obsessão pela cunhada. Ele esnobou a Ceuzinha, divorciada, que vivia dando em cima dele. Fiel à Leonor, Petel soluçava e gemia de dor, cantando boleros do novo LP Waldick Sempre Waldick, lançado em 1967:

- Quem eu quero não me quer / quem me quer, mandei embora / É por isso que eu não sei / O que será de mim agora... / Não sou capaz de ser feliz / Nos braços de um amor qualquer / Ah! Se uma fosse a outra / Eu amo tanto essa mulher!

Camilo Três

A Leonor não dava a menor bola. Na véspera do Dia dos Namorados, dia 11 de junho de 1967, Petel, desesperado, atravessou o igarapé de catraia e foi assistir a decisão do campeonato amazonense de futebol: Rio Negro x Nacional, o famoso RIO-NAL no Estádio da Colina, que estava lotado. Aos quinze minutos, o Rio Negro fez 1 a 0, gol de Thomaz Passa-Fome. Antes do gol de empate do Edson Piola, um torcedor do Nacional subiu num poste de iluminação, e lá, no topo, fazia perigosas piruetas, desviando para si o olhar do público: mais de 12 mil pessoas.

Era o Petel, cheio do chá, que lá de cima gritava: "Leonor, eu te amo, vou morrer por ti". Começou a cantar e a sua voz era a do Waldick: "Se eu morresse amanhã / alguém talvez sofreria / ao saber que foi culpada / deste amor desesperado / que causou-me agonia". Aí, afinava a voz e imitava o coro de vozes femininas do estribilho: - "Alguém talvez sofreria / Alguém talvez sofreria".

Chamaram a polícia, os bombeiros. Eles nada conseguiram. Petel, lá de cima, desafiava o mundo, esgotando o repertório do Waldick para uma platéia que delirava e para quem o jogo já não tinha mais qualquer importância: "Quem despreza um grande amor, não merece ser feliz" - ele cantava, jurando: "Eu não sou cachorro não". Chamaram o SNI, a CIA, o FBI e a Scotland Yard. Todo mundo pedia para ele descer. Petel respondeu entoando A Carta:

- Renunciaaaar, seria a solução / Mas não apagaria / de nossas almas / cruel paixão / Espero que um dia / tudo se consiga / e a quem ama não seja negado/ o direito de ser amado".

Chamaram, então, dona Geraldina, sua mãe. Ela veio, de catraia. Chegou e gritou, debaixo do poste: "Deixa de palhaçada. Desce, Manuel Camilo". Ele desceu. Foi aí que o mundo soube que Petel se chamava Manuel Camilo. Nascida no dia 14 de julho, dona Geraldina era devota de São Camilo de Lelis, um ex-boemio, cachaceiro, viciado em jogo, que se converteu depois que curou uma ferida braba no pé. Virou santo e se tornou protetor dos doentes e dos hospitais. Por isso, ela batizou os tres filhos de João Camilo, Sindoval Camilo e Manuel Camilo.

Estava desvendado o mistério. Camilo Três era o Petel, que morreu solteiro, em julho de 2008, aos 71 anos, fiel ao amor à sua cunhada, sem jamais ter namorado outra mulher. Leonor diz que tudo isso é invenção minha. Como invenção? Tá certo, confesso: sou um mentiroso profissional, mas nessa história aqui quero ver minha mãe mortinha no inferno, se estiver mentindo, quero que Santa Luzia me cegue.

Além disso, tem testemunhas idôneas.Umberto Bacurau, Tuta, Rubem Rola e Zé Buchinho ouviram quando Petel um dia me confessou na banca de tacacá de dona Alvina: - "Babá, Leonor rima com amor". Podem perguntar deles, que estão vivos, não mentem, são íntegros, não passam nem 'gato' no dominó. "Só não compreende o Petel quem desconhece o sabor de amar uma cunhadinha" - diz o Rubem Rola.

Dizem que Petel ficava brechando a cunhada pelo banheiro coletivo de ripas que ficava no quintal. Mas isso sim, é pura fofoca. Podem conferir com a Leonor, que hoje, 4 de março, comemora seu aniversário com um tambaqui na brasa, em frente à sua casa, Rua Elisa Bessa, 30. De sobremesa, um creme de cupuaçu oferecido por sua vizinha, Regininha, mulher do Tuta.

A Leonor continua gatinha, "parece conservada em formol", diz sua amiga Regina Nakamura. É que ela se cuida, participa das atividades físicas e lúdicas, orientada por Sandra Barros, uma profissional competente do Centro de Convivência do Idoso da Rua Wilkens de Matos. Mantém dieta equilibrada, só come peixe frito, com farinha e muita pimenta. Com todo o respeito, se o Petel Montecchio fosse vivo, baixava na Leonor Capuleto e lhe dava umas traulitadas.

Mas Leonor não é Julieta, Petel não é Romeu, e eu não sou Shakespeare, apenas o bardo do Beco da Bosta, que faço essa modesta homenagem a Leonor, no dia de seu aniversário, agradecendo a penca de bananas que ela enviou para mim quando eu vivia exilado na França.

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José Ribamar Bessa Freire é professor universitário (UERJ), reside no Rio há mais de 20 anos, assina coluna no Diário do Amazonas, de Manaus, sua terra natal, e mantém o blog Taqui Pra Ti. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons (a charge do Duke foi copiada de PORTAL 5 ESTRELAS )

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"Negro de alma branca" e os demônios de cada um de nós

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A equipe que faz esta nossa Agência Assaz Atroz acredita que, se Paulo Henrique Amorim leu o artigo que se segue, deve ter dado um branco (epa!) nesse crioulo doido da Record!
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Paulo Henrique Amorim, o “negro de alma branca” e os demônios de cada um de nós,

Cirandeiras, em Outro Olhar, de Idelber Avelar, por Ana Maria Gonçalves


Sempre fico com um pé atrás ao ler/ouvir afirmações enfáticas do tipo “Eu não sou racista”, ou “Fulano não é racista”. Ela já é perigosa quando dita sobre si mesmo, e mais ainda quando dita sobre o outro, que é o único que deveria saber de si. Racismo, assim como o machismo ou a xenofobia, é um tipo de sentimento que facilmente contamina quem é exposto a ele, de maneira ostensiva ou velada. É herdado, não tem muito para onde escapar. Principalmente em sociedades como a nossa que, durante muito tempo, lutou para esconder a discrepância entre prática e teoria, entre evidências de racismo e manutenção e construção de um modelo de democracia racial que nunca existiu. O que precisamos fazer é estar atentos a qualquer pensamento racista e combatê-lo ali, no nascedouro, não deixando que se naturalize e domine nosso modo de agir e de pensar. Acho que só assim podemos, brancos e negros, acabar de fato com o racismo (e outros ismos): de maneira individual, consciente e, acima de tudo, honesta. Não é através de leis ou de ações afirmativas, que defendo e acho mais do que necessárias para que sirvam de proteção e escada enquanto não somos capazes dessa revolução interna. É o trabalho de cada um, doloroso e vigilante, que pode avançar cada vez que um caso atinge proporções midiáticas, porque nos faz refletir à partir de situações que colocam figuras públicas no ambiente privado, vivenciando situações nas quais às vezes podemos nos reconhecer. Como humanos e imperfeitos que somos. Falo agora do recente caso envolvendo os jornalistas Paulo Henrique Amorim e Heraldo Pereira.

Esse é um caso emblemático para entender a manifestação do racismo no Brasil, e que ele também pode ser praticado por pessoas consideradas “do bem”. Aliás, quase sempre é. Com raras excessões, nosso racismo é do tipo cordial, daquele que não necessariamente origina leis segregacionistas ou atos de ódio explícito, e por isso é difícil chamá-lo pelo nome que tem. Racistas convictos ou esporádicos somos todos nós. É sempre bom lembrar de uma pesquisa realizada pela USP : à pergunta “Você tem preconceito?”, 96% dos entrevistados responderam “não”; à pergunta. “Você conhece alguém que tenha perconceito?”, 99% responderam que sim, e quando perguntados quem eram esses perconceituosos, eles disseram que eram amigos próximos, pais, irmãos. Então, racistas são nossos pais, tios, primos, amigos, namorados, vizinhos. E não há razões para acreditarmos que somos muito diferentes deles, mesmo porque também somos pais, tios, primos, amigos, namorados ou vizinhos de alguém. Racistas podem ser pessoas das quais gostamos e pelas quais somos capazes de fazer vista grossa em relação a um ou outro ato que, do nosso ponto de vista, é computado com um deslize, um momento de descontrole, uma atitude isolada. Para quem não é alvo do ato, é simples assim: um átimo, um momento “não era eu quem estava agindo”. Para quem o sofre, as consequências podem durar uma vida inteira, como podemos perceber em um trecho do “The envy of the world”, de Ellis Cose:

“Eu me lembro alguns dos incidentes da minha infância que me acordaram para a verdade, incidentes que, algumas vezes de modo doloroso, me apresentaram a diferença entre branco e preto. (…) Eu tinha ido a Marshall Field Company, uma grande loja de departamentos em Chicago, para comprar um presente para a minha mãe. Enquanto eu circulava na loja imponente, calculando o que meu dinheiro podia comprar em um lugar tão caro e intimidante, percebi que estava sendo seguido – e que meu seguidor era membro da segurança da loja.

De uma seção para outra da Marshal, o guarda me fazia sombra, com sua vigilância marcante e odiosa. Determinado a não me sentir intimidado, continuei a circular, tentando com todas as minhas forças ignorar o homem que estava caminhando praticamente nos meus calcanhares. Finalmente, incapaz de me conter, virei-me para encará-lo. Gritei alguma coisa – não me lembro mais o que – um uivo de orgulho ferido e ofensa. Ao invés de responder, o homem se manteve firme, encarando-me com uma expressão que combinava diversão e desdém.

Devemos ter nos encarado por vários segundos, até que me toquei de que eu não era mais páreo para ele e seu desprezo do que um rato era para um gato. Corri pra fora, concedendo a ele a vitória (…) Décadas após aquele dia, lembro precisamente das minhas emoções – a raiva impotente, o ressentimento que fere, a vergonha, a decepção intensa comigo mesmo (por não me manter firme frente ao ataque silencioso do homem, por permitir que um intolerante fizesse eu me sentir um idiota, por não ser capaz de arranhar a auto-confiança arrogante do guarda.)”

Essa é uma situação mais comum do que se poderia desejar, pela qual já passou a grande maioria dos negros, principalmente meninos negros. É, é uma memória da qual boa parte deles nunca vai conseguir se livrar, porque geralmente marca o início de sua relação com um mundo que vai tratá-los de maneira hostil apenas pelo fato de serem negros. Alguns conseguem transformar essa mistura intragável de sentimentos em força para o ativismo e lutam para que não muitos depois deles passem por situções semelhantes. Outros não. Por isso é prepotente e insensível dizer a alguém o que se deve fazer ou deixar de fazer por se ser quem é. Ou seria o caso de sairmos por aí cobrando que todas as mulheres estejam o tempo todo louvando as mulheres que, no passado, lutaram pelos direitos das mulheres e para que violência doméstica e estupro, por exemplo, fossem considerados crime. Militância é para quem pode, quer, aguenta, tem tempo e estômago e, sobretudo, paciência para lidar com os absurdos que são capazes de dizer e fazer aqueles que ainda não conseguiram ou não querem se livrar de certos preconceitos porque, direta ou indiretamente, querendo ou não, sendo ou não complacentes, se beneficiam deles. Mesmo sendo Heraldo Pereira um negro alienado, como o acusa Paulo Henrique Amorim, o que especificamente confere a Paulo Henrique Amorim o direito de julgá-lo nesse sentido? É bom que se faça essa pergunta e se pense muito sobre ela, levando em conta o fato de já termos sido uma sociedade escravagista, antes de tomar partido nesse caso.

Armando-se do direito de julgar a negritude de Heraldo Pereira como falsa ou verdadeira, Paulo Henrique Amorim escreveu, em 05/09/2009:

“Enquanto isso, o Ali Kamel submete o jornal nacional a um longo exercício diário de onanismo. Por conta dos 40 anos do jornal nacional, William Bonner entrevista repórteres. A propósito, William Bonner, na sua ilimitada mediocridade, poderia poupar o espectador de usar ‘bonito’ ou ‘bonita’. Ontem, por exemplo, o funcionário de Gilmar Dantas (**) Heraldo Pereira, que faz um bico na Globo, fez uma longa exposição para justificar o seu sucesso. E não conseguiu revelar nenhum atributo para fazer tanto sucesso, além de ser negro e de origem humilde. Heraldo é o negro de alma branca. Ou, a prova de que o livro do Ali Kamel está certo: o Brasil não é racista. Racista é o Ali Kamel.”

(Vou deixar Ali Kamel, seu livro e Gilmar Mendes de fora, porque são outros assuntos e outros processos, atendo-me aqui apenas ao processo de Heraldo Pereira, tendo salientado na frase acima as partes que o tocam, o que já é assunto mais do que suficiente)

Dos artigos que li sobre o assunto, gostei mais do de Sueli Carneiro, que explica bem porque a expressão “negro de alma branca”, dita em qualquer contexto, por qualquer pessoa, é racista (grifos meus):

“Nas eleições de 1996 para a prefeitura de São Paulo, a então candidata de nosso coração Luiza Erundina em discurso inflamado, bradou que Celso Pitta era um negro de alma branca e que ela era a verdadeira representante do movimento negro. Posto que as bandeiras que ela representava eram as que contemplavam as necessidades e interesses dos negros de São Paulo. Essa velha militante negra que vos fala, veio a público para contestar a então candidata lembrando-a de que uma das dimensões do racismo é negar a plena humanidade das pessoas e por plena humanidade entendemos a possibilidade de sermos, brancos e negros, do bem, ou do mal. Assim são os seres humanos.

Existiam, na época, razões políticas de sobra para criticar a candidatura de Celso Pitta, a única imprópria era tratá-lo de “negro de alma branca” por pertencer ao campo ideológico adversário e seu comprometimento com suas práticas políticas e administrativas deletérias, que são de conhecimento público. Um negro pode ser corrupto, se posicionar contra os interesses de sua gente. O que podemos fazer diante disso, é lamentar e combatê-lo politicamente, jamais atribuir essa característica à sua condição racial. Aí mora o racismo, ao tentar encontrar a razão da “falha” na negritude da pessoa ou na suposta ausência dessa negritude em um@ negr@ como propõe a frase, negro de alma branca.”

Li vários outros artigos tentando defender Paulo Henrique Amorim, e todos fazem malabarimos históricos e semânticos para justificar o ato racista. Entristece-me ver frases como “A expressão “negro de alma branca”, por mais cruel que possa ser, é a expressão, justamente, do anti-racismo (…)”, dita por jornalista que sempre achei, no mímino, sensato. Porque é simples assim: Paulo Henrique Amorim usou a cor de Heraldo Pereira para atacá-lo. É racismo e ponto. Tá na lei. Quem não concorda deve brigar para mudar a lei, e não para que Paulo Henrique Amorim esteja acima dela. Que o defendam porque o acham bom amigo, bom jornalista, bom ser humano; mas que entendam que pessoas assim também podem ter atitudes racistas. Pelo que li até agora, Paulo Henrique Amorim tem histórico na defesa de causas das militâncias negras, o que torna o caso ainda mais trágico, e triste, mas não excludente. Ele pode sim, com sinceridade, ser um dos poucos jornalistas de grande audiência a denunciar racismo e defender cotas, mas também ter cometido um ato racista, como o que cometeu, como o que Luiza Erundina cometeu, talvez num momento de raiva ou de guarda baixa. Esses são momentos perigosos, pelos quais podem passar, por exemplo, aquela nossa tia velhinha, rata de igreja, voluntária em programas sociais, que trata a empregada negra como “alguém da família”, tendo até a intenção de deixar-lhe algo em testamento pelos bons e longos anos de serviço prestados, e é capaz de berrar um “sua negrinha ……” para alguma negra que lhe contrarie fora de casa. Quero de verdade acreditar que foi isso que aconteceu com Paulo Henrique Amorim, ou, caso contrário, resta-me perguntar: o que foi mesmo que ele aprendeu em todos esses anos ao lado dos movimentos negros? Até que ponto esse engajamento foi realmente sincero ou jogo de cena? Porque, numa breve visita aosite dele, observa-se a arrogância, a prepotência e, sobretudo, a cegueira e a falta de respeito com que vem tratando o assunto, tentando fugir à responsabilidade e à gravidade do que disse. Ele disse algo que, pelos longos anos de militância que alega em sua defesa, deveria saber que não poderia ter dito. Se não sabia, está na hora de aprender, desculpar-se e seguir em frente. Tem a chance de fazê-lo nas retratações que publicará nos jornais; caso contrário, deveria tomar muito cuidado em não parecer demagogo e oportunista, militando por uma causa pela qual não demonstra respeito e acima da qual tenta se colocar: há anos os movimentos negros vêm lutando para que qualquer alusão depreciativa à cor seja punida. Sua defesa é um enorme desserviço a essa causa.

A defesa de Paulo Henrique Amorim

Uma das coisas que mais me irrita nos argumentos contrários às cotas é a apropriação e distorção de discursos de líderes negros. Todos fazem isso, principalmente com o famoso discurso “Eu tenho um sonho”, de Martin Luther King. Comentando o uso desonesto desse recurso em uma matéria da Veja, Liv Sovick escreve no excelente “Aqui ninguém é branco”:“(…) Salta aos olhos o uso descontextualizado do sonho de King, que muitas vezes é enaltecido para o estatuto de pensador utópico e não político. King se dirigia aos manifestantes, em sua maioria negros. Falou do propósito de estarem concentrados ali: cobrar a justiça econômica e social. Quando ele se voltou para o público nacional em geral, quatro minutos depois de começar um discurso que durou dezesseis, disse: “Também viemos a esse lugar sagrado para lembrar a América da urgência feroz do agora. Não é o momento de se dar ao luxo de esfriar os ânimos ou tomar a droga tranquilizante do gradualismo.” Retoma no parágrafo seguinte: “Seria fatal para a nação ignorar a urgência do momento”. As palavras famosas sobre o sonho de liberdade de um povo oprimido, motivo de uma esperança utópica dos negros, são enunciadas para confortar aqueles que apanharam e foram presos pela causa dos direitos civis, aqueles que iam voltar a enfrentar dificuldades. Na Veja as palavras são usadas como se descrevessem o atual estado brasileiro das coisas.” Antes, Liv tinha citado o trecho da revista: “Um absurdo ocorrido em Brasília veio em boa hora. Ele é sinal de que o Brasil está enveredando pelo perigoso caminho do tentar avaliar as pessoas não pelo conteúdo de seu caráter, mas pela cor de sua pele.”

É exatamente isso que fazem todos os que citam o discurso de King para justicar o ataque às cotas: tentar nos fazer acreditar que, vivo e nos dias de hoje, King estaria do lado daqueles que negam a existência do racismo como fator de divisão sócio-econômica da sociedade, e não do lado dos negros que estão lutando de fato por essa igualdade, sofrendo as consequências do racismo e necessitando de ferramentas auxiliares para vencê-lo. Trazendo o caso mais para a nossa realidade, situação mais grave ainda é o da historiadora Isabel Lustosa, em relação a Luiz Gama, no descuidado, para ser boazinha, livro “Divisões Perigosas – Políticas raciais no Brasil contemporâneo“. Luiz Gama foi o primeiro escritor brasileiro a se assumir negro em seus escritos, tendo sido filho de uma africana, que ele diz ser Luisa Mahin, e de um português. Nascido livre mas vendido pelo pai como escravo aos 10 anos de idade, mais velho Gama consegue a liberdade, torna-se jornalista, poeta, advogado e protetor de escravos em fuga, respeitado por todos os intelectuais de sua época e um dos nossos mais importantes abolicionistas, entrando para a História como grande exemplo a ser seguido pelas gerações negras vindouras. Ele chegou a dizer em júri, escandalizando muitos dos abolicionistas com quem se relacionava: “Todo escravo que matar o senhor, seja em que circunstância, mata em legítima defesa”. Essa tese destaca a fala da principal estudiosa da obra de Luiz Gama no Brasil, a professora Lígia Fonseca Ferreira, que analisa um pouco do trabalho de Gama a partir de seu principal poema, na introdução do livro “Primeiras trovas burlescas e outros poemas”: “A bodarrada [138 versos] cristalizou a imagem de um Luís Gama em cruzada contra o branco”. Mas Gama, com sua poesia ácida e sátirica, atacava também a Igreja, a sociedade, o mulato que negava sua raízes negras, o preconceituoso, não poupando nem a si mesmo, como nos conta a tese do link. São os versos finais desse poema, que Isabel Lustosa reproduz e dos quais se vale para escrever: “Nessa matéria de raça a minha posição coincide com a de Luis Gama, personagem ele mesmo de uma infame história de escravidão. Com seu senso de humor e ceticismo crítico, ele relativizou a questão das diferenças de raça no Brasil, ainda em 1873, quando publicou no jornal paulista A Reforma o poema “A bodarrada”.” (pág. 143)

Ou seja, ao dizer que relativiza a questão das diferenças de raça no Brasil, Isabel Lustosa não tem a menor vergonha de simplesmente ignorar a história e o histórico de luta de Luiz Gama. Ela não poderia terminar o artigo sem convocar um negro, usando-o em favor da causa que defende e que, possivelmente, seria contrária a dele, pois antes escreveu, ao comentar que tinha sido convidada por colegas do meio acadêmico a assinar o manifesto contra as cotas: “Sugeri a eles que procurassem intelectuais negros e pardos representativos para reforçar a causa.” (pág. 139) De fato procuraram e, na entrega do documento no Senado, fizeram questão de levar o ativista do Movimento Negro Socialista José Carlos Miranda que, ouso conjecturar, não teria sido levado se não fosse negro. Essa estratégia de usar negros que estejam dispostos a falar mal e ir contra lutas históricas dos movimentos negros é antiga nos EUA. Veja o espaço cedido por veículos de extrema direita, como Fox News, a intelectuais negros representativos como Thomas Sowell ou Walter Williams, que também já começam a ser louvados e cada vez mais citados no Brasil. Essa técnica de usar negros para ir contra os interesses dos próprios negros, ou de usar negros para atestar a idoneidade de um branco em um processo contra um negro, como fez Jair Bolsonaro, que convocou o cunhado negro para depor a seu favor e contra Preta Gil, Paulo Henrique Amorim também aplica, fazendo questão de ter negros entre suas testemunhas. Em uma defesa com a qual nem sei se todos eles concordariam.

A primeira estratégia é apresentar Paulo Henrique Amorim como um grande defensor da igualdade racial no Brasil, ocupando quase cinco páginas com citações de matérias publicadas em seu site, anexadas no final. A partir daí, tenta provar que não houve crime algum, primeiro dizendo que o acusado estava na verdade falando da “subserviência da Rede Globo” e não do jornalista Heraldo Pereira (ver item 57). Mais adiante, temos:

61.Portanto, a questão principal de que se tratava não era a condição de negro do jornalista Heraldo Pereira, mas a postura da emissora em que ele trabalha, produzindo entrevistas e matérias!

62. A questão racial foi tratada pelo acusado porque, como sobejamente comprovado, ele se dedica ao tema há muito tempo, apontando a existência de racismo no Brasil e combatendo-o, inclusive defendendo a adoção de políticas públicas que permitam ao negro “abrir a porta da oportunidade”, como discursou Lyndon Johnson.

É bem complicado entender o que quiseram dizer no item 66:

66. E foi exatamente nesse contexto que o acusado afirmou que o jornalista Heraldo é um “negro de alma branca”, ou seja, o negro bem-sucedido, que desmente a necessidade das políticas públicas formentadoras da igualdade racial e corrobora a tese de Ali Kamel, de que o Brasil não é racista.

Esse trecho afirma que, por ser negro e bem sucedido, e apenas por isso, Heraldo desmente a necessidade de ações afirmativas? Ou há declarações de Heraldo nesse sentido? Sendo bem sucedido e negro, apenas por isso, Heraldo corrobora a tese de Ali Kamel? É isso? E esse argumento só vale para o Heraldo ou para qualquer negro? Se vale para qualquer negro, nenhum negro pode ser bem sucedido para não corroborar a tese de que não existe racismo no Brasil?

A defesa continua:

67. A propósito, a expressão “negro de alma branca” tem raízes históricas e não tem cunho racista, como se sustentou na denúncia.

E traz, no item 68, uma tradução para “Zumbi” que eu nunca tinha visto. Perguntei de sua existência ao Nei Lopes e ele também desconhece. Está lá que Zumbi quer dizer “Deus negro de alma branca”, definição que creditam a Leila Dias, de quem reproduzem uma fala que distorcem para concluir (item 69): “(…) Ou seja, a expressão “alma branca” está, na verdade, relacionada à pureza do espírito e à coragem para lutar contra a opressão, e não à alegada superioridade da “raça branca” em detrimento da “raça negra”, estampada na denúncia.”

Bem, se “alma branca” está ligada a atributos positivos, “alma negra” seria seu inverso?

E se a defesa aqui quer nos fazer acreditar que o “alma branca” usado por Amorim é na verdade uma coisa boa, ele estava elogiando e não criticando Heraldo Pereira? Isso fica ainda mais interessante quando, no item 71, citando matérias em que o acusado e Mino Carta chamam Pelé de “negro de alma branca”, a defesa nos pergunta: “Onde está a ofensa?”

A defesa parece concluir isso mesmo, que Heraldo nunca deveria ter se sentido ofendido:

75. Portanto, no caso dos autos, a leitura das matérias demonstra que ainda que quisesse atribuir à expressão “negro de alma branca” conotação ou significado negativo (que não tem, conforme esclarecido), o contexto em que foi empregado demonstra que Heraldo Pereira foi assim denominado em razão de seu grande sucesso numa sociedade na qual, via de regra, aqueles de pele branca atingem tal status, tal notoriedade.

Aqui, eu já começo a achar que essa defesa também merece um processo. Pela cara de pau, o assassinato da língua portuguesa!! (sim, há pontos de exclamação duplos em várias frases), e o descuido com que resvala, ela própria, no racismo que tenta descaracterizar. Entendo os motivos de ter perdido (não ter razão nem argumentos sérios), levando o acusado a fazer o acordo. Vejam a decisão de recebimento de denúncia e concluam vocês mesmos onde isso ia terminar.

O outro lado da história

É bem importante, para entender esse caso, assistir ao vídeo a que se refere Paulo Henrique Amorim, exibido em 04/09/2009.

Queria destacar dois momentos nos quais, a não ser que Paulo Henrique Amorim acuse Heraldo Pereira de trabalhar no departamento de dramarturgia ao invés de no de jornalismo, Heraldo não me pareceu ser o “preto de alma branca” de que Amorim o acusa. Visivelmente emocionado, ao assisitir a uma reportagem que fez sobre João do Pulo, Heraldo Pereira faz questão de dizer:

“Foi um momento que me marcou muito. Eu, repórter, fazendo uma cobertura para o Jornal Nacional, e o João do Pulo era um herói da minha geração. Negro, como eu, do interior de São Paulo, como eu, de uma família humilde, como eu. Eu o tinha como um ídolo.”

Outro momento é quando fala da cobertura das viagens do presidente:

“Eu estive em todos os continentes com o presidente da República, mas o que mais me marcou foi eu estar no continente africano. Eu estive na África, em Angola, estive num local, era um porto, um antigo porto de escravos, de onde vinham os escravos para o Brasil. Provavelmente, alguns dos meus antepassados podem ter saído dali para vir ao Brasil. Isso me marcou muito. (…) Também tive um outro momento nessa mesma viagem à África, quando estive na África do Sul, o Nelson Mandela tinha sido libertado, e pude, ainda durante o regime do apartheid, eu como um jornalista negro, brasileiro, fazer uma reportagem na África do Sul. Eu frequentava as áreas de negros e a equipe tinha brancos que frequentavam a área destinada a brancos. Ainda quando a África do Sul tinha aquela situação, eu fui um repórter que esteve lá no apartheid.”

Foi esse vídeo, no qual Heraldo Pereira aproveita dois momentos que não me pareceram estar no script dos apresentadores Fátima Bernardes e William Bonner para falar de sua condição de negro, de seus ídolos negros e de duas reportagens que o marcaram, abordando a questão racial, que Paulo Henrique Amorim usa para chamá-lo de “negro de alma branca”. Não faz sentido. Essa defesa absurda de Paulo Henrique Amorim, feita por brancos e negros, alegando armação de inimigos políticos e pedindo que “negros e pessoas bem-intencionadas não se confundam: uma ação contra o racismo jamais viria de alguém da Rede Globo, a maior propagadora de racismo deste país”, abre um dos precedentes mais perigosos na luta contra o racismo no Brasil. Primeiro, porque concordam que um branco, no caso Paulo Henrique Amorim, pode duvidar da palavra de um negro quando ele diz que se importa sim com as questões raciais, como acabamos de ver Heraldo fazendo no vídeo em questão. Segundo, porque concordam que um branco pode dizer o que o negro precisa fazer para ser um verdadeiro negro. Terceiro, porque concordam que um branco podem dizer a um negro com o que ele pode ou não se ofender. Quarto, porque concordam que um branco pode distorcer o sentido racista histórico de uma expressão como “negro de alma branca” apenas por causa do lugar onde o negro ofendido trabalha e do tipo de profissão que exerce. Faço parte dos que não confiam no departamento de jornalismo da Rede Globo, por causa de situações como essas e de outras mais recentes, como a polêmica CNE X Monteiro Lobato, na qual estive diretamente envolvida. Mas nem por isso acho que o fato de Heraldo Pereira trabalhar lá autorize que ele seja vítima de ataques racistas e julgamentos em relação a como deve ser sua negritude. Quem fala sobre isso, e vale a pena ler, porque ela também aponta a amizade de Heraldo Pereira com um dos mais importantes jornalistas e ativistas negros do país, Hamilton Cardoso , é a jornalista negra Rosângela Malachias. Ou seja, será Heraldo Pereira realmente é tão alienado quanto querem nos fazer acreditar? Alguém já pensou em dizer ao Paulo Henrique Amorim como ele deve se comportar e onde deve trabalhar para ser um branco verdadeiro? Aliás, qualquer pessoa que ache justo atacar Heraldo apenas porque ele trabalha na Globo (eu não acho), sendo branca ou negra, e que tenha pelo menos um pouquinho de respeito pelas religiões de matriz africana como a umbanda e o candomblé, deveria aplicar o mesmo princípio e se lembrar imediatamente de que Paulo Henrique Amorim, aliado e defensor das causas dos movimentos negros, trabalha na Rede Record desde 2003.

A Rede Record é propriedade do bispo Edir Macedo, tem em seu quadro de diretoria vários bispos, e faz parte de um negócio bastante rentável chamado Igreja Universal do Reino de Deus. Nos seus templos são feitos sucessivos ataques a terreiros e à reputação de filhos, pais e mães de santo de todo o Brasil, inclusive com incitação à violência, pelos quais e Rede Record já foi condenada judicialmente. Seria interessante ler, caso ele as possa fazer, as declarações públicas do militante Paulo Henrique Amorim em relação a casos como esses:

1 – A expansão das igrejas pentecostais brasileiras pelo continente angolano, principalmente a Igreja Universal do Reino de Deus, que já adquiriu vários meios de comunicação locais. Isso é um perigo principalmente nas aldeias mais isoladas, de onde crianças estão sendo expulsas acusadas de serem feiticeiras. Seria interessante se Paulo Henrique Amorim fizesse reportagens para a Record denunciando isso, isso ou isso. Ou então nos esclarecendo o que de fato significam isso e isso, que são notícias bem preocupantes.

2 – O que Paulo Henrique Amorim tem a dizer sobre soldados que torturam mãe de santo fazendo-a se sentar em formigueiro e arrastando-a por seiscentos metros porque, segundo eles, ela estava com “o diabo no corpo”, ao incorporar Oxóssi?

3 – O que Paulo Henrique Amorim tem a dizer do best-seller (mais de 3 milhões de exemplares vendidos), Orixás, Caboclos e Guias: Deuses ou Demônios?, livro de autoria do dono da emissora na qual trabalha, bispo Edir Macedo? Muitos dos argumentos usados pelos fiéis da Universal para atacar terreiros e praticantes de religões de matriz africana são tirados desse livro e do que os pastores tem propagado durante os cultos, baseados nos ensinamentos do bispo-mor. Coisas como:

“A alma da mãe de santo, por exemplo, é vendida ao orixá. Há uma chantagem diabólica nesse meio que obriga a pessoa que “faz santo” a renunciar, enquanto vive, a todas as coisas, inclusive a própria salvação. Ameaças são feitas de tal maneira que há um temor imenso entre os praticantes dessas seitas em deixá-las. (fl. 25).”

“No Brasil, em seitas como o Vodu, Macumba, Quimbanda, Candomblé ou Umbanda, os demônios são adorados, agradados ou servidos como verdadeiros deuses.”

“Na nossa igreja temos centenas de ex-pais-de-santo e ex-mães-de-santo, os quais foram enganados pelos espíritos malignos durante anos a fio. (fl. 25). Decepcionaram-se ao constatar que os mais fortes “protetores” com quem contavam não passavam de demônios. Impressionaram-se ao ouvir os próprios orixás e caboclos confessarem diante da multidão que não passavam de demônios, cuja missão é enganar, arrasar e destruir os seus “cavalos”. (fl. 26).

Tirei esses trechos do processo movido pela Procuradoria da República da Bahia, do qual deixo o link para quem quiser conhecer um pouco mais do pensamento preconceituoso do dono da emissora na qual trabalha Paulo Henrique Amorim. Insuflados por esse tipo de pensamento, os fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus (que provavelmente contribuem para o pagamento do salário dos funcionários da emissora) invadem terreiros, destroem altares de oferendas, “exorcisam” frequentadores, torturam pais e mães-de-santo. Procurem por isso no Google e vão encontrar diversas notícias.

4 – Outro processo interessante também é esse que condenou a Rede Record a exibir um direito de reposta, baseado em intolerância religiosa e ataques às religiões de matriz africana. Leiam e tenham uma breve ideia do que vai ao ar na programação da emissora de Paulo Henrique Amorim . O processo ainda está correndo porque a Record apelou. Estou tentando conseguir mais informações e publico atualizações, caso consiga. Aliás, seria interessante, como repórter da casa, Amorim tentar saber lá dentro o que está acontecendo, os motivos pelos quais a Record se nega a dar declarações sobre o caso e, princicpalmente, porque embargou o belíssimo vídeo produzido como direito de resposta.

Em sua defesa oral, ele enfatiza: “MEU PROBLEMA COMO CIDADÃO DE UMA REPÚBLICA LAICA, ONDE DEVE IMPERAR A DEMOCRACIA, É, NO CASO EM TELA, NESTA ACUSACAO, COM A GLOBO”. O que tem feito então, dentro da própria emissora, cujos programas atacam todas as outras religiões que não a oficial da Igreja pertencente ao grupo?

Conhecendo um pouco o trabalho da Record, e levando isso em conta do mesmo jeito que estão levando o fato de Heraldo Pereira trabalhar na Globo, a alma de Paulo Henrique Amorim é de que cor mesmo? Branca ou negra? Do bem ou do mal? Engajada ou vendida? Ou será que esse tipo de classificação só vale pra negros? Se só vale pra negros, ainda assim, acham que não é racista? É bem complicado defender isso sem fazer colocações racistas, não é?

A turma de blogueiros e comentaristas que faz a defesa de Paulo Henrique Amorim, a faz em nome de um corporativismo limitador do pensamento e do diálogo, inimigo do avanço das lutas sociais. Assim como durante a ditadura militar os movimentos negros foram obrigados e se calar em nome do nacionalismo, para que o Brasil pudesse passar a imagem de ser democrático pelo menos na questão racial, eles agora querem nos fazer acreditar que a atitude racista de chamar alguém de “preto de alma branca” deve ser varrida pra baixo do tapete em nome de uma unidade da esquerda contra a direita perversa. Eu quero é estar no centro. No centro dessa luta contra o racismo. Se querem fazer disso uma luta política, mantenham a superficialidade e a hipocrisia típicas desse tipo de bandeira furada e briguem entre vocês, os que são brancos (com a alma de que cor mesmo?). Já tem preto demais machucado e sendo usado como bucha de canhão nessa história de racismo.

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Deprê em Porto Alegre, um paradoxo para ortodoxos

Kais Ismail - colaborador da PressAA

(Correspondência recebida por e-mail ao nosso Editor-Assaz-Atroz-Chefe)

Amigo Fernando, estou naquelas fases de maior deprê (situação financeira é o gerador). Ao mesmo tempo que tenho uma percepção triste e consigo enxergar os problemas (os meus e da humanidade), me sinto burro e impotente para qualquer tipo de reação. Estou chegando aos 50 anos de idade e percebendo que durante muito tempo agi como Dom Quixote, sem ter a loucura suficiente de ser um Dom Quixote. Por isso agora me sinto um tremendo fracassado. Fracassado profissionalmente, como pai e até mesmo como cidadão.

Já me decepcionei com todos os partidos politicos e politicos, como também me decepcionei com a Justiça brasileira. Aquele processo de indenização da justiça cearense, que aguardo há 16 anos, de certa forma me tranquilizava por saber que eu receberia um dinheiro e poderia enfim montar um negócio. Recentemente descobri que houve mudança na lei e o valor que devo receber agora mal chega a 10% do original e sem previsão de recebimento.

Ano passado, quando descobri que estou com enfisema pulmonar e hipertenso, a pedido da minha médica entrei na Justiça solicitando que a Souza Cruz revelasse quais são as 4.700 substâncias tóxicas que são anunciadas nos maços de cigarros. Só ela sabendo qual o veneno que o meu organismo está absorvendo é que poderia ministrar um antídoto. Um professor de direito da PUC pegou a causa, baseado no Código do Consumidor, que me garante o direito de saber o que estou consumindo. Além disso, também entrei em contato com a ouvidoria do SUS há mais de um ano, solicitando que me revelasse as substâncias para eu pudesse fazer o tratamento devido.

Tu acredita que já perdi em todas e agora estou recorrendo em Brasília? A Souza Cruz está alegando q isso é mito da Anvisa e que a Anvisa os obriga a divulgar esta mentira.

A Anvisa não se manifesta e nem a ouvidoria do SUS. A podridão é grande e já infestou todas as maçãs do cesto.

Quanto ao avaaz, pensei ter me enganado quando lançaram um baixo assinado a favor da Palestina. Mas, Fernando, o que são um milhão de assinaturas quando um milhão de pessoas morrem cruelmente de fome sem sensibilizar ninguém? Qual a força de um milhão de assinaturas de pessoas que não fazem força nem pra soltar um pum?

Já estamos dominados e controlados (?).

Entretanto, este controle de bilhões de pessoas, me parece que é apenas o resultado do tal "progresso" humano. Já havia sido previsto isso nas ficções e nada foi feito. Se nada foi feito, é porque a grande maioria desejava este tal "progresso". Se não desejavam, eram ignorantes para não perceberem o caminho que estavam trilhando. Enquanto tiverem apenas o controle, estamos vivendo. Porque, para nos matar, necessitam de exércitos e dificilmente conseguirão aliciar os humanos necessários para liquidar com os humanos indesejáveis. Ruim mesmo é quando tiverem exércitos de robôs, tais como nas ficções. Aí vai ser jogo duro

Forte abraço!

Kais Ismail - Porto Alegre

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Um final de semana alegre pra você também, Kais.

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons (a charge do PHA de Pinóquio foi extraída de PICICA - BLOG DO ROGELIO CASADO )

PressAA

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sexta-feira, 2 de março de 2012

ALZHEIMER NÃO É UMA PIADA, mas pode ser poesia de vida

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(Imagem extraída de Diálogos Políticos~ O Blog dos Bancários do Ceará)




Jorge Marcio Andrade (Texto recebido por e-mail da rede Blogueiros Progressistas)

Imagem publicada - uma foto da primeira mulher diagnosticada pelo médico que deu o nome à doença, Alzheimer. É uma foto cuja descrição não atingirá a força de sua gravidade e sofrimento, feita há mais de um século, da Sra. August D.; onde uma mulher de aparência depressiva e decadente, com olhar esvaziado como a sua mente e memória, vestindo uma provável roupa uniforme do Sanatório Municipal para Dementes e Epilépticos de Frankfurt, na Alemanha. É uma foto em cores ciano com uma mulher olhando para baixo, com as mãos entrelaçadas próximas do corpo, que se curva como as rugas que se pronunciam em sua fronte, anunciando um envelhecimento precoce e intensivo que lhe rouba toda vitalidade.

Maravilha-te, memória! (Fernando Pessoa)

Maravilha-te, memória!
Lembras o que nunca foi,
E a perda daquela história
Mais que uma perda me dói...

Os tempos anunciam a permanência/crença dos preconceitos. Começamos, recentemente, com a Casa dos Autistas que a mídia televisa grotescamente nos obriga ainda protestar, culminando com as piadas homofóbicas ou racistas. São equivalentes de manifestações fascistantes de deputados frustados com os novos tempos.

A hora da demolição dos preconceitos e das intolerâncias já foi anunciada. Não bastará o que chamam de politicamente correto. É o tempo de uma nova e construtiva seriedade ética, com respeito às diferenças e aos diferentes modos de ser, estar, viver, adoecer e morrer.

Por esse tempo é que me incomoda quando me dizem a frase: olha o Alemão está chegando?!, uma triste piada, já banalizada, nos diferentes meios para falar sobre Alzheimer. A vox populi já a naturalizou como uma ameaça da perda de memória. Uma perda a que, todos e todas, estamos submetidos, tanto as memórias coletivas como as individuais. Uma perda que é só um dos sintomas que anunciam uma doença devastadora.

Esta é uma referência a Alois Alzheimer (1864-1915) o médico que apresentou o primeiro caso desta demência. Ele descreveu o caso de uma paciente: a Sra August D.. No Congresso de 1906 Alzheimer apresentou sua conferência onde o definiu como “uma patologia neurológica, não reconhecida, que cursa com demência, destacando os sintomas de déficit de memória, de alterações de comportamento e de incapacidade para as atividades rotineiras".

E, apesar do século já vivenciado, esta continua sendo a descrição do ''Mal de Alzheimer''. Esta tão temida doença neurológica que ainda intriga e desafia todos os pesquisadores e neurocientistas.

O que então nos faz fazer piada de uma doença com tão devastadores sintomas e degragadação de um ser humano? Não sei a melhor resposta. Mas há uma possível implicação de nossas posturas psíquicas e históricas diante do sofrimento do Outro. Na maioria das vezes, por mecanismos de defesa, a moda de Freud, projetamos nos nossos semelhantes as nossas mais temidas fragilidades.

A memória perdida é um dos nossos mais temidos fantasmas. Eu pessoalmente os conheço desde a década de 80 quando confirmei o diagnóstico de minha própria mãe. Como muitos familiares e cuidadores conheci sua dura realidade...

Quem já vivenciou ou vivencia o convívio com as perdas que a doença produz pode avaliar por que digo que me incomodam, epidermica e profundamente, as piadas que temos de ouvir. Não sei da dor ou dos temores de outrem. Sei apenas que me causam um mal-estar e uma sensação de revolta, mas, principalmente, me refazem o temor dos que reconhecem na doença seu potencial de hereditariedade.

Aí me coloco na pele de quem não reconhece nem mesmo os que mais ama ou respeita. É quando alimento, como muitos, o desejo de uma possível solução ou cura, para além dos tratamentos atuais, que criem um horizonte, um futuro possível.

Uma matéria recente nos fala de uma região, em Medellin, Colômbia, onde os descendentes de um casal espanhol, emigrado no século XVIII, tem mais de cinco mil casos da doença. Segundo a reportagem: "Não se conhecem as identidades do homem e da mulher, mas o clã que fundaram apresenta uma peculiaridade genética: uma alteração no primeiro gene do cromossoma 14".

Aos que passam por temores por parentesco com a Doença de Alzheimer digo que esta é uma oportunidade de uma pesquisa sobre os fatores genéticos, hereditários, ambientais e sociais que podem ser desencadeadores ou as gêneses combinadas para o surgimento precoce de sintomas demenciais.

O que tem me feito bem ao meu coração escrevinhador é a possibilidade de que me um prazo de alguns anos as pesquisas trarão muitas descobertas no campo das demencias. Digo no plural pois são muitas as situações de demências ou doenças neurológicas graves que as ocasionam. O que mais conhecemos e falamos ainda é o quadro que, preconceituosamente, ainda é tratado, em especial nas mídias, como um Mal. Um mal que confirma a visão preconceituosa de temerosa criada em seu histórico secular.

Mas o que pretendem realizar em Medellin é uma experiência que transformará os descendentes do casal espanhol em um ''laboratório vivo''. A proposta é de que estes supostos portadores genéticos do ''mal'' se tornem ''cobaias humanas". O Banner Institute, uma organização americana e pioneira no estudo do Alzheimer, quer iniciar já em 2012 os testes a possíveis medicamentos para a doença.

A ideia é selecionar entre os membros do clã colombiano voluntários que aceitem servir de cobaias durante vários anos. Uns receberão um medicamento, outros um placebo. Ninguém saberá o que recebeu, e nem todas as cobaias serão portadoras da tal alteração genética. Ao fim de dois anos ver-se-á se houve efeitos, e quais.

Nesse momento é que convido à reflexão sobre a banalização do termo ''Alzheimer". Quando um grupo de cidadãos colombianos pode vir a ser transformado, mesmo que voluntariamente, em objeto de pesquisa científica é hora de muita seriedade e pouquíssimas piadas. É hora de um alerta bioético.

É hora de reflexão sobre o que entendemos como consentimento livre e informado, e sobre o uso do corpo humano, dos Outros, em pesquisas científicas. Mesmo que estas possam significar um suposto avanço contra o que vem sendo chamado de ''mal dos séculos'', mesmo que isso alimente as minhas esperanças mais íntimas...

Piadas nos fazem rir, desde tempos imemoriais, mas também podem nos fazer chorar. E uma vez que você traga dentro de si uma chaga ou temor o riso de outros pode ser apenas estímulo para que sua ''memória'' ative alguma tristeza ou afeto. E, olhando para o futuro, o que sente um colombiano que poderá ter todas as suas memórias apagadas? Ele não sabe se tomou a medicação para preservá-las ou uma pílula placebo de açúcar que terá um gosto amargo de esquecimento depois.

Convido a quem gosta de falar no Dr. Alois Alzheimer, cuja alcunha hoje é o ''alemão'', que reflita sobre este ponto de vista ético e bioético antes de repetir, reproduzir e naturalizar a sua chegada a quem se queixa de esquecer as senhas do banco ou os compromissos e datas importantes. Convido para que assistam os filmes e documentários que estão sendo indicados, que possam se sensibilizar e reposicionar sobre o assunto.

Está na hora de revermos nossos preconceitos temerosos com o Dr. Alois. Um bom exercício é lembrar a universalidade da doença. Ela atinge desde uma sul-coreana, como no filme Poesia, até um homem catalão, Pasqual Maragall, que nos impressiona no documentário "Bicicleta, cuchara e manzana". Depois disso poderemos dizer que Alzheimer não é uma piada, mas pode vir a ser um redescoberta poética de nossas finitudes.

O meu apelo é na direção da sensibilidade. As mesmas sensibilidades que me inspiram os filmes de Chaplin. O sorrisos que me produziu, e ainda produzirá, são respeitosos com as denúncias que o ator-cineasta aponta nas tragicomédias que encantaram o mundo. O que sentiria Carlitos caso tivesse de representar, para além de um vagabundo e homeless, um homem que perdesse, progressivamente, todas suas preciosas memórias?

Talvez ele nos inspirasse a reconhecer o Grande Irmão (1984) ou o Grande Ditador como uma criação coletiva de todos nós. E nos faria sorrir ou chorar, sem ridicularizar, com o infindo, heterogêneo e múltiplo da condição mortal e frágil dessa "coisa" e Vida Nua chamada Ser Humano...

Vamos nos olhar/escutar/afetar, bio-eticamente, nos nossos próprios olhos/ouvidos/afetos? Como será nos encarar nos nossos espelhos antes de contarmos a próxima piada sobre negros, judeus, homossexuais, mulheres, estrangeiros, loucos, e, principalmente, sobre quem vivencia a doença de Alzheimer?

Não se esqueça(m) de lembrar!

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Síndrome de avestruz


por Fernando Soares Campos

Primeiro nós falamos "mamãe" ou "papai", e os dois aplaudiram; um deles um tanto decepcionado, pois queria ter ouvido o seu nome pronunciado primeiro que o do outro. Depois nos tornamos uma espécie de boneco de ventríloquo nas reuniões em que papai e mamãe participavam; e todos aplaudiam as nossas palreações.

No primeiro ano escolar, apaixonados, escrevemos a primeira poesia. Inicialmente apenas a professora aplaudiu. Bom, as menininhas que estariam apaixonadas por nós pensaram que elas teriam sido as nossas musas e também aplaudiram. Mas isso não conta, pois a verdadeira musa aplaudiu primeiro. Outros aplausos aconteceram em casa; mas só papai e mamãe castigaram as palmas das mãos, timidamente, para nos incentivar. A reação dos nossos irmãozinhos foi apenas o eco das chacotas dos coleguinhas no recreio da escola.


(Clique no título e leia texto completo)

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

PressAA

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quinta-feira, 1 de março de 2012

Passando por Juliaca - Peru

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(Excertos do livros "Viagem ao Umbigo do Mundo", publicado em 2006.)

Urda Alice Klueger*

A altitude, mesmo, não é para mim. Dormi por três vezes sobre a moto, naquela manhã, e por três vezes fui acordada pelo POC da batida no capacete da frente. Penso que já estava dormindo de novo quando vi todo o mundo parado e o carro de apoio com a porta aberta para eu subir:

- Dona Urda, já para o carro de apoio! – ordenava seu Chico, e eu não discuti nada. Tirei o capacete, enrodilhei-me no banco duro do Land-Rover, e como que desmaiei aos cuidados do Lobo Solitário! Estávamos a mais de 4.000 metros de altitude!

Seguíamos, então, em direção a Juliaca, mas antes de chegarmos lá o Dov sofreu sério acidente. Foi pouco antes de chegar a Santa Lúcia, depois de Imata, numa curva. As curvas, ali, eram muito inclinadas, e numa delas havia muito óleo derramado. Foi entrar no óleo e o Dov e o Kako caíram. Para Dov, mesmo, o acidente foi muito feio: caiu na vala cimentada do lado da estrada, arranhou-se muito, e sua moto ficou, para se usar um português bastante claro, estuporada. Há que se lembrar que o Dov era o que os harleyros chamam de road-capitain[1] da expedição, e mesmo todo “baleado” como estava, conseguiu sair da vala e voltar à estrada, onde postou-se antes da mancha de óleo, para que os demais companheiros que vinham atrás não caíssem nela também. Responsabilidades de capitão seguidas à risca!

Para falar a verdade verdadeira, eu quase não vi Juliaca, naquele quase desmaio de altitude em que estava. Lembro de ter ouvido alguém falar que estávamos em Juliaca, e então ter dado uma espiada desanimada para fora do Land-Rover – decerto passávamos por um subúrbio daquela cidade, e a rua em que seguíamos estava em obras, sendo calçada, com o solo muito revirado. Só mais tarde é que conheci Juliaca por fotos, a Cidade dos Ventos, mais de 3.800 metros acima do nível do mar – só tinha que estar assim desmaiadona mesmo! Andei lendo algumas coisas sobre Juliaca: como tudo, no Peru, tem ela uma longa História pré-colonial, e hoje há por lá muita pesquisa arqueológica, que se concentra num lugar chamado Huaynarroque. A antiga Juliaca, apesar das influências de Tiauanaco e Pucara[2], desenvolvera um estilo próprio de vida e, naquela altitude onde hoje as temperaturas variam entre 0 e 15 graus Centígrados, viveu ela no passado com uma economia já baseada na agricultura, criação de gado e pesca. Quase tudo o que li sobre o hoje de Juliaca sempre reportava aos grandes e pequenos Carnavais que lá acontecem, tendo, inclusive, lido que há quem ache os trajes das moças locais, durante os Carnavais, semelhantes aos das carnavalescas brasileiras. Fiquei pensando: será que naquele frio dá? Um dia assisti a um Carnaval em La Paz/Bolívia, e os trajes das moças de lá eram muito diferentes, pura lã e grosso veludo, mal e mal as pernas de fora, vestidas de meias. Descrevi aquele Carnaval paceño numa crônica chamada rio de Janeiro/La Paz, que também anda por aí correndo mundo, e até foi publicada em um livro.

Almoçamos nos arredores de Juliaca. Conseguimos comida num restaurante fora da cidadezinha, onde acabava de almoçar grande grupo de japoneses que atravessara o mundo para vir conhecer a História Inca bem de perto. Fora acordada para comer, e no restaurante dei de cara com os meus já conhecidos boizinhos que os peruanos tanto gostam, que costumam colocar sobre o telhado das suas casas, junto com cruzes, escadas, cravos, martelos, etc – os objetos da Paixão de Cristo. São boizinhos de cerâmica, e ali naquele restaurante eles eram usados como porta-guardanapos, e eram tão bonitinhos e bem decorados que pedi que se tirasse uma foto deles. Mas não curti muito aquele lugar, não – foi o tempo de comer e voltar a quase desmaiar no carro de apoio. Ainda vi alguma coisa da região de Juliaca, seus interessantes triciclos puxados a bicicleta, e às vezes, à motocicleta. Nunca soube de outro lugar do mundo onde houvesse daqueles veículos que lembravam um jinriquinxá[3], mas que eram carrinhos largos, com um amplo banco traseiro estofado e com encosto, onde caberiam duas ou três pessoas, que um ciclista puxava parecendo não fazer esforço. Eles funcionavam como táxi: podia-se alugar um triciclo daqueles e ir-se passear pela paisagem que ia se fazendo suave, com os delicados verdes daquela parte do Peru. Lembro de ter ficado observando uma suave descida onde diversos triciclos daqueles seguiam lentamente, com passageiros que talvez estivessem voltando das compras, ou quem sabe, namorando, mas logo a paisagem esvaneceu-se diante do meu sono. A maior parte daquela tarde dormi como morta enquanto o Lobo Solitário resistia à altitude e continuava dirigindo.

Quando acordei, a altitude diminuíra um pouco, e estávamos, creio, a uns 200 km de Cusco!

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[1] Road-capitain = eu traduziria por “puxador”, “guia”, ou algo assim. (Nota da autora.)
[2] Pucara : uma das muitas antigas culturas/civilizações que vicejaram no antigo Peru nos últimos 12.000 anos.
[3] Jinriquinxá : carrinho de duas rodas puxado por homens, usado no Oriente. (Dicionário Aurélio)

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Absurdo nacional, ou quem sabe multi?

por Elaine Tavares - jornalista




"Sinceramente eu não sou contra quem gosta da “longuineti”, mas é preciso que se deixe a escolha. Afinal, isso não é uma democracia? Caso fosse em Cuba que estivesse sendo implementada a ditadura da cerveja pequena já haveria grandes mobilizações em Miami. Mas como é no “mundo livre”, nada acontece. Vamos acompanhar esse caso, de interesse nacional, e se não houver uma mudança haveremos de ressuscitar o blumenauense Horácio Braun e todos os demais velhos compas cervejeiros para iniciar uma ofensiva radical."

Clique no título e leia artigo completo


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*Urda Alice Klueger: Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz.
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Ilustração - AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons ( A charge da cerveja foi copiada do Blog Vianensidades )

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