terça-feira, 22 de dezembro de 2009

"Avatar"

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CRIMINOSO

Filme traz o que existe de mais desprezível na sociedade e funciona como uma máquina de entorpecer mentes a fim de deixá-las conformadas frente à realidade que as cerca.

- por André Lux, crítico-spam

Existem duas maneiras de se ver um filme como “Avatar”. A primeira é como pura peça de entretenimento da indústria cultural estadunidense e aí encher o texto com termos como “revolução digital” e outras tecno-baboseiras que vem junto com as suas campanhas publicitárias milionárias e são repetidas mundo afora pelos patéticos profissionais da opinião vendidos ao sistema. Outra é analisá-lo como o produto cultural de uma sociedade decadente e doente.

Eu prefiro a segunda. Assim, a partir dessa visão, “Avatar” traz tudo que existe de mais desprezível e grotesco nessa sociedade e funciona como uma verdadeira máquina de ludibriar e entorpecer mentes a fim de deixá-las conformadas e amorfas frente à realidade que as cerca.

O filme poderia ser resumido como “Pocahontas encontra Dança Com Lobos na Matrix” e tem uma história que não apenas é a mais batida de todos os tempos, como ainda por cima é altamente ridícula e absurda. Homem branco que vai viver no meio dos “bons selvagens” e, depois de muita dificuldade e desconfiança, torna-se um deles, apaixona-se pela mocinha e luta com seus novos amigos contra seus próprios “irmãos” de raça, que querem destruir tudo em nome do lucro. Assim, os vilões do filme são os malvados executivos de uma corporação capitalista e, claro, os militares. Os primeiros querem devastar o planetinha dos bondosos aliens azuis para minerar suas terras e os segundos, bem, querem jogar prazerosamente o maior número de bombas em tudo e em todos. Clichês dos clichês!

Mas não seria essa uma mensagem ótima, ainda mais quando enfia no meio um monte de jargões ambientalistas que estão na moda atualmente? Poderia até ser, se tudo não fosse embalado por uma resolução catártica e redentora das mais podres que eu já vi na vida. É como se o diretor James Cameron tivesse investido 15 anos de sua vida na parafernália eletrônica que dá vida ao filme e cinco minutos na criação do roteiro. Mas, como eu disse antes, não é nem isso o que mais incomoda. O que é realmente repugnante é a maneira como todos esses clichês são elencados na tela até o final feliz abismal, que nos ensina que os bonzinhos sempre vencem e conseguem, inclusive, botar o terrível exército dos EUA para correr (como se eles não fossem voltar dali a um mês ao planeta e explodir tudo com bombas atômicas!).

E qual o sentido disso, o que está por trás desse tipo de mensagem? Algo que ninguém parece perceber (ou prefere fingir não perceber): a necessidade de nublar a mente das pessoas e deixá-las entorpecidas e acomodadas aos valores morais mais torpes e hipócritas que existem, já que podem ver realizados na tela do cinema todos os sonhos e desejos de redenção e vitória que nunca se realizariam no mundo real. Ainda mais quando tudo vem embalado com louvor a crendices sobrenaturais (que alguns chamam de “religião”), do tipo "reze bastante que um dia você será atendido"!

A serviço dessa mensagem obscena temos o que há de mais avançado em tecnologia digital disponível. E daí? Como bem disse minha esposa arquiteta, um projeto de arquitetura ruim não vai melhorar só porque foi apresentado no programa de maquetes eletrônicas mais poderoso que existe, certo? “Avatar” não passa então de um desenho animado feito em computador que vai ficar obsoleto daqui a alguns meses quando inventarem algo mais “revolucionário”.

Enquanto isso, somos ensinados por gente mal intencionada ou simplesmente ingênua (de boas intenções o inferno está cheio, vide os igualmente catastróficos "Diamantes de Sangue" e "Wall-E") como James Cameron que não é preciso lutar contra o conformismo e as injustiças na vida real como fizeram Che Guevara e Ghandi, pois no mundo dominado pelo “american way of life” todos os seus problemas serão resolvidos no cinema – de preferência embalados por uma trilha musical grotesca de James Horner (que após esse filme deveria se aposentar) e um óculos 3D na cara. Depois você pode sair do cinema, esquecer tudo o que viu e ganhar um bonequinho do filme ao comer no McDonald’s.

Criminoso.

Cotação: *





http://tudo-em-cima.blogspot.com/2009/12/filmes-avatar.html

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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A tapetada da ignorância ou os ovos da serpente

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Luís Carlos Lopes

As mídias vêm divulgando a nova moda, que contaria com muitos adeptos e admiradores. Ela consiste em enrolar os tapetes dos automóveis, transformando-os em cassetetes improvisados. Estes são manejados por jovens, que se divertem com os efeitos dos golpes desferidos no corpo de desavisados, pedestres ou ciclistas que circulam no espaço público. A ‘brincadeira’, fortemente ofensiva, consiste em fazer o outro sentir uma dor intensa. Pelo menos em um caso, a tapetada foi acompanhada de outras agressões racistas feitas a um homem negro.

Os alvos são os passantes, aqueles que ousam dividir o espaço das cidades com os demais membros da população. Os eventos são filmados e depois divulgados na Internet, com muito orgulho e sensação do dever cumprido. Os tapeteiros têm muitos fãs, como se pode ver nas redes de relacionamento. Ao que parece, eles se acham o máximo e desconhecem qualquer regra de convivência e respeito social. Existem os que fazem, os que ajudam e os que aprovam tal barbaridade. Eles batem em moças – Será que existe algum teor sexual no comportamento deles? –, rapazes e em qualquer outro alvo que lhes pareça ‘merecedor’ de uma tapetada.

Estes novos agressores criptofascistas nada tem a ver com a sapatada iraquiana em Bush e com o doido que agrediu o Berlusconi. Não são atos cometidos por pessoas insatisfeitas com a ordem. Ao contrário, os tapeteiros têm mais a ver com os que agridem verbalmente ou fisicamente mulheres, negros, índios, mendigos e homossexuais. São filhos de um certo humor televisivo baseado no preconceito e no sofrimento do outro. Acreditam que estão acima de todos e podem fazer o que bem entendem. Divertem-se com a dor alheia, tal como todos que conseguem achar graça das diferenças, das tragédias e das misérias humanas.

Certamente, eles têm automóveis e alguns recursos. Há provas que vários são estudantes de nível superior de escolas privadas. Alguns freqüentam cursos que lhes darão diplomas impossíveis de serem acessados pela maioria dos estudantes brasileiros. Moram, comem e bebem sem nenhum problema. Eles têm tempo livre à vontade para vadiar por aí, buscando encontrar um sentido, mesmo que negativo, para suas vidas. Vão da ação violenta à sua divulgação na Internet em minutos.

Eles não conhecem o real significado da expressão direitos humanos e têm raiva de quem lembra da mesma. Acham que são mais brasileiros do que os que agridem, não demonstrando qualquer culpa ou remorso. Mesmo assim, como são, em sua maioria, brancos e socialmente bem situados, conseguem ter um tratamento diferencial quando são pegos. Não há registro que suas famílias deixem de apoiá-los ou exerçam qualquer tipo de controle de seus comportamentos violentos. Flutuam na atmosfera de uma sociedade baseada na diferença extrema, na baixa cultura e na falta de inteligência e de compaixão.

Estes jovens são os novos ovos da serpente. Representam o que há de pior na sociedade brasileira. Aqueles que, dependendo da evolução da história do país, estarão prontos para tentar impedir qualquer mudança e para garantir seus privilégios de classe. Estão sendo chocados e se preparando para um possível embate no futuro. O que fazem hoje, talvez seja uma pequena amostra do que poderão fazer em outro contexto. Só é possível evitar isto, se desde hoje a vigilância democrática esteja atenta para as manifestações ainda líquidas de um fascismo que poderá se solidificar, dependendo de quem estiver no poder central.

O estímulo à leitura e ao consumo da obra de arte de qualidade - popular e erudita - são antídotos a ser considerados. A Internet, por exemplo, é um meio de comunicação, onde há de tudo um pouco. Eles trafegam no lixo, mas poderiam usar o mesmo meio para acessar as conquistas da filosofia, das artes e das ciências. É tecnofobia demonizar o meio. O problema está no modo que eles são capturados para usá-lo.

Na verdade, eles vieram do consumo de uma televisão de baixíssima qualidade e de outras mídias também pouco edificantes. Hoje, estes jovens encontram na Internet os mesmos vícios e problemas, potencializados pela interatividade. Não é difícil que eles acreditem que o mundo é só o que eles e suas redes intersubjetivas imaginam como o único e possível.

Eles pouco ou nada ouvem, vêem ou lêem comunicando o combate aos preconceitos tradicionais da sociedade brasileira. Não sabem o que são exatamente o racismo, o sexismo, a homofobia, o idadismo e o terrível e secreto preconceito contra a inteligência. Certamente, não compreendem que a pobreza não é um destino e sim um problema político.

Há razões de sobra para desconfiarem de tudo que cheire a política e para imaginarem que qualquer um interessado nisto é um ladrão. Em suma, estão apartados de um instrumental básico para compreender o mundo em que vivem. São alienados, manipulados pelos mais fortes e manipuladores dos mais fracos que conseguem alcançar.


Luís Carlos Lopes é professor e autor do livro "Tv, poder e substância: a espiral da intriga", dentre outros

http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4492



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domingo, 20 de dezembro de 2009

A crise ético-política demotucana




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DESMITIFICANDO LULA - 2

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Raul Longo

Como já contei antes (DESMITIFICANDO LULA -1), meu amigo Príamo não só concorda com as principais instituições e estadistas internacionais, além dos mais afamados órgãos de imprensa de todo o mundo, reconhecendo inteligência em Lula; como, inclusive, percebe que ele “Teve perseverança, paciência, dedicação e competência para atingir os seus objetivos”.

Mas para Príamo: “Quando chegou lá é que começaram as contradições”. E aponta como primeira dessas contradições, em seu entender: a) Nomeou um número muito grande de funcionários, inchando a folha de pagamentos.

Há que se debruçar nestas considerações para desvendar esse ser mitológico prosaicamente apontado como Lula, pois Príamo tem razão: na história do Brasil ninguém teve a mesma perseverança, paciência e dedicação para alcançar o cargo da Presidência do país, antes de Lula.

Nem mesmo Ruy Barbosa, que antecedeu Lula em projeção internacional como inteligência política. Ruy candidatou-se à Presidência pela primeira vez em 1894 e ficou em 4º lugar. Voltou a se candidatar em 1905, mas acabou retirando-se da disputa para apoiar Afonso Pena. Em 1910 perde para Hermes da Fonseca, e em 1913, convencido de ser derrotado, em um manifesto à nação renuncia da candidatura à eleição de março no ano seguinte quando, ainda assim, teve considerável votação contra o candidato único: Wenceslau Brás.

Em 1919 concorreu pela 5ª e última vez, perdendo pra Epitácio Pessoa. Lula também concorreu 5 vezes, mas ao contrário do Ruy não desistiu em nenhuma. O que faltou ao Ruy? Dedicação? Mas logo o Ruy Barbosa, tão afamado e admirado por sua esmerada aplicação!

Também não se pode sequer cogitar que lhe tenha faltado competência, pois foi o que o Barão de Macaúbas reconheceu no pupilo já aos 11 anos de idade e com que se destacou desde seu início na vida política do Brasil ainda Império; até alçar vôos internacionais como a Águia de Haia. Portanto, ainda que não tenha perseverado, desistindo antes do pleito em duas eleições, não lhe faltou paciência (já que concorreu tantas vezes quanto Lula) nem dedicação ou competência. Como explicar?

Talvez pelos objetivos. Quais seriam os objetivos de Ruy Barbosa?

Na mitologia das elites, Ruy é o arquétipo da sabedoria, honra e justiça. Seria nossa Palas Atena, se gregos fossemos. Ou Minerva, se romanos. Xangô para os adeptos de candomblé, mas nunca houve muitos admiradores de Ruy Barbosa nos segmentos populares, embora tenha sido um abolicionista.

Entre os mais cultos, cita-se com toda pompa e circunstância sua famosa frase sobre um futuro próximo em que se terá vergonha de ser honesto; mas se o eleitorado da época já não se deixou impressionar pelo belo fraseado barbosiano, ainda menos hoje em dia, quando a frase se faz tão assídua na boca dos piores canalhas. Seria a tal da ética tão evocada por estes mesmos canalhas hodiernos, os objetivos que por 5 vezes moveram Ruy Barbosa à candidatura presidencial?

Se sim, porque não haveria o povo de elegê-lo em nenhuma?

Haverá no povo brasileiro uma genética aversão ou alergia à honestidade? Uma compulsão nata à trapaça? Ao ludíbrio? Uma desonestidade intrínseca?

Algo em nosso clima ou natureza tropical haveria afetado a honorável retidão moral dos colonizadores europeus? Teriam sido insidiosamente influídos pela espertalhice, ladinagem e voluptuosa corruptibilidade do indígena?

Ó augustas linhagens dos Sás, Coelhos e Mendonças! Dos Gonzagas e Paes Leme! Tão pobros Albuquerques, Almeidas, Prados, Mellos e Cardosos que descuidosamente apenas vieram por um pau-brasil aqui outro ali, atraídos por algumas pepitas, touceiras de cana e pés de café.

Quiçá não foram as cadeiras de mulatas e livres tetas de cafuzas que insidiosamente os enredaram em tentações de miscigênia, degenerando-nos neste povo imoral e sem caráter, onde triunfam as nulidades das quais falava Ruy Barbosa, a quem nunca se escolheu para presidente.

Por outro lado, se superarmos os mitos étnicos, por mais secular certeza que tenhamos na inferioridade de nossa gente perante a almejada pureza racial da civilização européia, haveremos de cogitar a possibilidade de que talvez o povo brasileiro não tenha confiado nos objetivos de Ruy Barbosa pelo fato de ele ter defendido os privilégios de interesses como o da Cia d’Eclairage da Bahia, ou os dos Misteres William Reid e Alexander Mackenzie na transferência de exploração energética na cidade do Rio de Janeiro, da Société Anonyme du Gaz do Rio de Janeiro, da Cia. Light and Power, da The Rio de Janeiro Tramway Ligth & Power Company Limited, entr’outros.


Isso tudo sem citar a morosidade de um código civil pendurado por anos a fio de pendengas gramaticais entre Ruy Barbosa e Clóvis Beviláqua, para resultar em exorbitante desequilíbrio entre os plenos direitos da minoria das elites e os totais deveres da turba ignara da maioria do povo. Povo que, se além da preservação da própria vida não tinha outra razão para votar nos coronéis adversários do Águia; tampouco em seus vôos por objetivos além fronteiras.

Aforante, o liberal abolicionista já se indispusera com a população e a história brasileira em mais remotas passagens de sua proficiente biografia, quando Ministro da Fazenda em 1890 mandou queimar os registros de posse e movimentação patrimonial envolvendo todos os escravos do país. A queima do histórico daquela maioria da população brasileira impede que hoje identifiquemos as origens de nosso biótipo, costumes, identidade cultural, etc.

Todo negro norte-americano pode pesquisar o saber da região africana de seus antepassados, entendendo porque é alto e magro, ou porque é pequeno e gordo. Por quais razões mais se identifica com instrumentos de sopro ou percussão. Ou ainda, de quais atavismos ancestrais lhe saiu o jeito de contador de histórias, escultor, esportista ou pintor. E até, em alguns casos, quais princípios ativos melhor se coadunam com seu metabolismo.

Já eu, por exemplo, tenho de viver numa brutal indefinição, sem saber se sambo como sambo por minha tataravó ter vindo de Angola, Moçambique ou Benin? Se o soubesse, poderia pesquisar, explorar melhor os movimentos próprios e típicos da cultura daquela minha ancestral mulata.

Há mais diferenças entre Masais, Ashantis e Samburus ou quaisquer outros povos negros, do que entre normandos e saxões, todos com a mesma ausência de pigmentação e desprotegida sensibilidade à irradiação solar.

Já não bastando ter herdado essa pele que se avermelha como urucum, de meus antepassados italianos, por culpa do Sr. Águia de Haia não tenho como reconhecer as origens dos atavismos de minha personalidade negra que tanto me agrada e preservo!

Qual a vantagem de ser itálico se só o que me difere dos anglos é o falar mais alto e estabanado? O mitológico poliglota baiano não pensou nessa frustração que afeta a mim e a mais da metade dessa mestiça população?



Não! Apenas justificou-se alegando que pretendera apagar "a mancha" da escravidão do passado nacional. Mas seus próprios colegas do movimento abolicionista acusaram-no de pretender inviabilizar o cálculo de eventuais indenizações que vinham sendo pleiteadas pelos antigos proprietários de escravos, protegendo a monarquia em detrimento do povo que alardeava defender. De fato, 11 dias depois da Abolição a UDR da época apresentou projeto de lei à Câmara, por esse ressarcimento. Se, segundo o próprio Fernando Henrique Cardoso, Carlos Lacerda é seu líder espiritual, Ruy Barbosa foi o precursor do empurrar sujeira pra debaixo do tapete. Ou pro fundo da gaveta.

Um Geraldo Brindeiro de seu tempo, aquele Ruy!

Mas o que se pretende aqui é desmitificar Lula, não Ruy Barbosa, que nem investiu tanto pela presidência quanto Fernando Henrique Cardoso no confesso (pelo Sérgio Mota), porém nunca investigado, mensalão da reeleição.

Não! Disso não se pode acusar o Ruy. Como FHC vendeu-se, sim, aos interesses estrangeiros, mas, ao contrário daquele, até onde se saiba, Ruy nunca comprou ninguém! Tanto assim que não ganhou eleição alguma naqueles tempos de voto de cabresto, quando o que definia a preferência do eleitor era o medo de uma tocaia ou o apadrinhamento pela côdea de pão aos filhos.

Já Lula foi duas vezes eleito à presidência. Se não apenas pela “perseverança, paciência, dedicação e competência” apontadas por Príamo e compartilhadas pelo jurista baiano, só nos resta definir as diferenças de objetivos entre o mito da história e o da mídia?

A julgar pelas aparências, mesmo sem querer igualar uns a outros, podemos arriscar o palpite de que Ruy Barbosa já então apresentaria os mesmos objetivos de honestidade, resgate da moralidade, da ética e da probidade, apresentados por todos os demais candidatos à presidência depois dele, inclusive os ditadores. E também Adhemar de Barros, Jânio Quadros, Paulo Salim Maluf, Collor de Melo e, na continuidade, FHC, Alckimin e José Serra:

Daí a filharada do Zé Povo ficava tentando imaginar por onde é que se começa a comer esse troço de ética ou probidade?

Sim! Porque o problema maior do filho do Zé Povo nunca foi a ética, mas sim a fome! Há muito o mundo inteiro sabe que o problema concreto do filho do Zé Povo brasileiro sempre foi a fome, pela qual éramos apontados como um dos mais altos índices internacionais de mortalidade infantil. Mas elegíamos mitos abstratos que distribuíam rações de conceitos éticos e morais em palanques de comícios eleitorais.

E o que o Gringo tinha a ver com isso? Nada! Azar do Zé Povo que votou no abstrato, porque o Gringo o que quer é arroz, feijão, soja, carne, milho, algodão, metal, petróleo... O que haja de concreto! Barriga de gringo não se enche de mitologia como a do brasileiro, e já que o brasileiro se alimentava das éticas e honestidades prometidas, o Gringo se acostumou a levar o que produzíamos de mais concreto.

Por outro lado, em quem o Zé Povo brasileiro iria votar se todos objetivavam a mesma subjetiva ética, moralidade, probidade e blá-blá-blá?

Até que um dia apareceu um pretensioso de um Zé do povo daqueles, e começou a falar em coisas concretas, em fome, em realidades e falta de oportunidades para mudar a realidade. Falou até em objetivos!

Zé Povo olhou aquilo e estranhou: “Esse cara tá maluco ou tá mentindo!” Claro! Se mudar a realidade fosse fácil, porque os íntegros, honestos e éticos nunca a mudaram?

Pois o tal sujeito tão paciente e dedicadamente perseverou, teve tanta competência para esclarecer o que o Zé Povo nunca conseguiu entender – pois, apesar de todos os poliglotismos dos Ruys, nunca houve quem falasse língua de gente brasileira -- que um dia, por fim, Zé Povo se resolveu pela única lógica que lhe restava: “Mentir, todos mentem mesmo... Se for mais um, esse pelo menos mente diferente e dá pra entender o que está falando”. E assim Lula foi eleito, por mais mitificado pela mídia e pelas elites fundiárias e empresariais.

Mas afinal, o sujeito tinha mesmo seus objetivos concretos ou é mais um abstrato quanto qualquer outro mito da nossa história?

Podemos encontrar a resposta embutida já na primeira contradição apontada por Príamo (depois analisamos as demais): o inchaço da folha de pagamento.

Só que, para concordar com Príamo de que houve inchaço da folha de pagamento do estado brasileiro e isso tenha sido contraditório aos objetivos concretos apresentados por Lula enquanto apenas perseverante, paciente e dedicado; precisaremos de alguns esclarecimentos:

a) – Quando e onde foi que Lula prometeu que o estado brasileiro iria continuar dando vazão descontrolada ao dinheiro público e ao arrecadado em empréstimos ao exterior?

Fundamental essa compreensão, porque isso de manter o estado a custas de empréstimo não faz mesmo necessário muitos funcionários para controlar o que entra, por onde entra, nem o que e por onde sai.

É só ter um estafeta pra ir até lá, tirar os sapatos para ser revistado no aeroporto, pegar a grana, tirar os sapatos outra vez e tomar o próximo vôo pra casa. Aí põe o dinheiro no banco e está resolvido. Se o banco ia falir, era só inventar um PROER daqueles, e pronto. Acabou a história, guardou a viola! Não precisava de funcionários nem responsabilidade de especialistas. Congelando por 8 anos o salário dos imprescindíveis para abrir porta e servir café, se mantinha uma folha de pagamento enxutinha e esbelta.

Mas quando um matuto daqueles atravessa léguas em cima de pau-de-arara, transpira a alma dentro de um macacão debaixo de um telhado de zinco de oficina de fábrica e porque deixou um dedo no torno vai pro sindicato; e lá no sindicato põe na cabeça que tem de negociar melhores salários pros seus companheiros, a coisa complica! Complica porque vai que o sujeito cisma de tirar o povo da merda; aí é difícil. É difícil porque isso de gente do povo achar de ter objetivo na vida, sempre deu problema. Veja o Zumbi dos Palmares! Hoje há quem diga que Zumbi é um mito, mas Palmares resistiu 100 anos por quê? Porque a negrada achou de ter objetivo!

E o perigo maior é quando o teimoso ainda tem a competência e petulância de convencer os outros de seus objetivos. Pra piorar, esse ainda encontrou outros com os mesmos objetivos. E gente da alta: artistas, intelectuais, acadêmicos, e até burgueses cansados das subjetividades e abstracionismos dos mitos.

Agora, uma coisa é certa -- caro Príamo e demais que pensam aqui comigo, juntos -- quem tem esses objetivos sabe que país nenhum consegue tirar o povo da merda enquanto estiver devendo para as potências estrangeiras. E Príamo, que é empresário, seguramente sabe que para sanar uma empresa deficitária não basta apenas demitir funcionários, menos ainda deixar do jeito que está, só mantendo os mesmos salários.

Como bom empresário que é, Príamo sabe que esse negócio de contenção de despesas é faca de dois gumes. Conter despesas não é apenas congelar. Sabe que conter despesas é demitir os funcionários que não correspondem às necessidades de produção, mas é também contratar funcionários que melhorem essa produção. E que é necessário gratificar o desempenho do bom funcionário para que ele produza melhor e produzindo melhor auxilie no resgate da empresa do buraco. E quando o empregado bem pago consome na própria empresa, ainda melhor, pois ganhando mais faz com que o capital gire mais, produzindo mais capital. Esse é um princípio do capitalismo, que os próprios capitalistas brasileiros se negam a compreender, mas os do resto compreendem muito bem, e acredito que se Príamo prismar melhor seu ponto de vista, perceberá que nesse aspecto não há a contradição criada pela mitomania do véu da mídia nacional.

Poderíamos ainda nos estender por diversas alíneas de questões para que Príamo melhor esclarecesse onde encontrou a alegada contradição. Por exemplo:

b) – Quando e onde foi que Lula prometeu que o país continuaria com sua produção estagnada por falta de incentivo do poder público?

c) – Quando e onde foi que Lula prometeu que a imagem do Brasil se manteria tão negativa perante o mundo, a começar pela ausência de fiscalização e contenção do desmatamento amazônico?

d) – Quando e onde foi que Lula prometeu que largaria a infra-estrutura de vez, permitindo outro apagão como o do final do governo anterior que nos acumulou um prejuízo de mais de 45 bilhões de reais?

e) – Quando e onde foi que Lula prometeu que não combateria a criminalidade e a corrupção, mantendo a inoperância do Ministério Público e da Polícia Federal que em 8 anos realizou apenas 28 operações.

Se entre 2003 e 2007 foram mais de 500, imaginável que tenha sido por algum aumento de efetivo, não? Mas se ocorreram tais promessas, sem dúvida o número de funcionários contratados é muito grande e a contradição apontada seria verossímil. No entanto, há ainda uma infinidade de questões que dificilmente cobririam todos e tantos aspectos em que esse país se faz diferente daquilo que foi há apenas 7 anos atrás. Apontar aqui alguma contradição se torna uma denúncia tão vazia quanto assim se definir qualquer outra ação, inclusive inversa.

Meu amigo Príamo, que sei bastante dotado de senso administrativo, se levantar uma pontinha do véu mitômano da mídia logo se lembrará de que não se pode denominar “inchaço” ao crescimento da folha de pagamento de uma empresa que, mais do que triplicar o faturamento, paga todas as dívidas e cria uma reserva inédita em sua história, tornando-se credora de seus antigos cobradores. Investimento, bom senso administrativo, perceptividade, seriam conclusões mais condizentes aos fatos, por menos perseverantes, pacientes e dedicados que sejamos às informações para as quais nem mais é preciso saber espanhol ou inglês. Muito menos alemão, francês ou italiano.

É só descobrirmos um pouco a cabeça. Retirarmos por alguns momentos o opressivo véu dos mitos midiáticos e respirar um pouco de ar puro, deixando oxigenar o cérebro, permitindo o escoar livre das evidências para se conseguir estabelecer as conexões lógicas e inalienáveis entre acontecimentos de proporções tão transoceânicas que se tornaram inegáveis até aos brasileiros.

Maior do que essas evidências, só a contradição daqueles que as negam para continuar medrosamente cultuando velhos e gastos mitos.

Raul Longo
pousopoesia@gmail.com
www.sambaqui.com.br/pousodapoesia
Ponta do Sambaqui, 2886
Floripa/SC


Raul Longo, jornalista, poeta e escritor, colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz
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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

FOGOS DE ARTIFICIO – Os olhos do menino

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Urda Alice Klueger

(Para Evo Morales Ayma)


Aquilo era tão fascinante que eu nem tinha coragem de espiar os fogos de artifício que cobriam a praça como se fosse noite de ano novo. Mal e mal dei uma espiadinha com o rabo dos olhos, só para ter certeza de que não me enganava, bobagem minha, pois não precisava me certificar de nada, era só olhar para o deslumbramento daqueles olhos de menino que espiavam para a maravilha!

Decerto um dia, nos longos anos da infância de pouca comida, ele tinha sonhado com coisas magníficas, como naquele ano em que só houve parco milho na mesa da sua casinha de adobe, de manhã, de tarde e de noite. Que teria sido magnífico então? Talvez sonhasse com um pouco de leite, ou de manteiga, quem sabe com um pedacinho de carne… talvez sonhasse com tais maravilhas não só para sua mesa de menino que tinha muita fome – talvez pensasse que tais maravilhas poderiam acontecer a todos os meninos das terras do seu campo, do seu cerro, quiçá de toda a sua província… Era muito pequeno e faminto o seu mundo, então, para que pudesse imaginar que talvez pudesse haver carne, e leite, e batatas nas mesas de todo o país…

Eu penso que ele não tinha, ainda, o entendimento do que era país…

Por fora, aquele menino cresceu em tamanho e sabedoria, e se agarrou a todas as oportunidades de aprender e de se alimentar, e criou dentro de si um coração enorme que passou a pensar em termos de país, e de sonhar em termos de país, e de se maravilhar com as possibilidades de fazer muitas coisas por cada pessoa, por cada mesa, por cada coisa do seu país, até que chegou um dia em que o país entendeu que aquele homem adulto poderia ser mesmo o mago de que precisava e, corajosamente, elevou-o autoridade máxima, e ele foi sagrado em Tiauanaco como o Grande Chefe, e depois tomou posse do seu cargo também na Plaza de Armas, como tantos antes dele o tinham feito, no tempo em que sua gente era sacrificada por fome e maus-tratos até a morte nas minas de prata de Potosi, aos milhões, aos muitos milhões…

Aquele homem empunhou seu cetro ferreamente, e lutou contra todas as forcas que não aceitavam que um índio que um dia que passara tanta fome na infância, ou mesmo não o aceitavam simplesmente porque era um índio, pois por mais de três séculos tinham dito ao invasor que índio sequer tinha alma – como entender um índio no poder agora, mandando no pais inteiro? Pois aquele índio segurou seu cetro com tal força, sabedoria e habilidade que ninguém diria que um dia fora um menino que comera cascas de laranja jogadas pela janela de um ônibus que passava como se fosse uma iguaria preciosa, tamanha a sua fome, que muito mais gente se somou a gente que um dia já o elegera para presidente do país, e a sua segunda vitoria nacional foi estrondosa!

Eu estava lá, por horas e horas em pé naquela Plaza de Armas que se chama Murillo, espremida dentro de uma imensa multidão que o esperava, por tantas horas que os meus pés formigavam de dormência, mas enfim ele veio com o seu séquito, e era inegavelmente o séquito de um rei, e como um rei ele falou uma fala de concórdia e de bem para o seu pais e a sua gente, e eu achei que era mesmo um rei adulto, como aqueles velhos reis das historias infantis – mas então começaram os fogos de artifício, e ele fitou a beleza deles explodindo no céu, e então foi que pude ver, dentro dele, através dos seus olhos de adulto, os seus olhos de menino, e um menino inteiro que havia dentro dele, um menino maravilhado com a beleza daqueles fogos, e tanto o homem de fora quanto o menino de dentro sorriam de tanta beleza e encantamento, e pensei, por um momento, como alguém podia não entender que ele era o mago e o príncipe que era! Mas pensei só um pouquinho, pois a mim também os fogos me encantavam – só que não me virei para vê-los. Bastava-me olhá-los refletidos nos olhos daquele menino que estava por dentro do Príncipe, e se os fogos eram lindos, a maravilha dos olhos do menino o eram muito mais!

Os minutos se emendavam e o homem que tinha o menino por dentro sorria e luzia os olhares de criança e de adulto, a ponto de eu já não saber quem ele era, se o adulto ou a criança - só sabia que aquilo era uma das coisas mais bonitas que eu já tinha presenciado na minha vida!

Então, como que para me aclarar, o menino fez o que só meninos fazem quando vivem maravilhas: enquanto os fogos de artifício iam para o final, com naturalidade ele bocejou como os meninos bocejam quando está na hora de ir dormir, e então meu encanto aumentou, pois me certifiquei que o menino de um dia sobrevivera dentro do Príncipe e estava ali, atento, para depois de um soninho de nada, acordar refeito e sonhar com a sua gente todos os sonhos que ela merecia. Um dia talvez seus sonhos tivessem sido o de algumas batatas e de um pedacinho de carne – agora seus sonhos são enormes, de uma dignidade que esta transformando todo um país e o amor- próprio do seu povo.

Evo Mago, Evo menino, como valeu a pena vir até aqui te ver!

Cochabamba/Bolivia, 09 de dezembro de 2009.

Urda Alice Klueger
Escritora e historiadora
Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

DESMITIFICANDO LULA - I

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Raul Longo

Recebo imeiu de um amigo, onde expõe algumas impressões que alimenta sobre o Presidente Luís Ignácio Lula da Silva. Como essas impressões coincidem com a de uma parcela de meus correspondentes, respondo-o generalizando o envio de meus comentários. Acredito que, conhecendo-me, o amigo não irá se importar com isso, mas não cometerei o descuido de me referir ao seu nome. Confiro-lhe um pseudônimo: Príamo.

Explico: Príamo era o Rei de Tróia, quando sitiada pelos gregos. Pai de Heitor e Páris, os heróis troianos da Ilíada. O nome original de Príamo era Podarge, mas depois de livrar-se de ser morto por Hércules escondendo-se sob um véu dourado, adotou como nome a palavra que em português traduz-se por “Resgatado”: Príamo.

Hércules, ou Héracles para os gregos, é o mesmo afamado semideus de força descomunal como as que há décadas vêm construindo o mito Lula. Ao contrário da lenda, como Príamo é meu amigo, me sinto na obrigação de tentar resgatá-lo de sob o véu de conceitos que nos impedem o reconhecimento de nossa própria sabedoria e capacidade de discernimento das evidências.

Não acredito que terei sucesso nesse trabalho hercúleo, afinal não disponho dos meios homeopáticos de condicionamento que diariamente repetem, repetem, repetem mil vezes até que a mentira se torne uma verdade; conforme aprendeu o exército cotidiano da mídia com o mestre (deles) Joseph Goebbels.

Através desse processo Goebbels construiu um mito do qual era impossível resgatar o povo germânico, mesmo que ao resto do mundo se evidenciasse um desastre. Com o Presidente do Brasil ocorre coisa similar, ainda que em sentido inverso. Enquanto o mundo enxerga em Lula uma personalidade ímpar na história da política internacional, aqui se procurou caracterizá-lo com os mesmos contraditórios conceitos utilizados para classificar os judeus entre ladinos e estúpidos, ardilosos e ignorantes, sagazes e incapazes.

A quem a comparação parecer exagerada, é só consultar as referências a Lula na coleção da revista Veja disponibilizada pela internet e os materiais da propaganda anti-semita na Alemanha nazista, também disponível pela internet. Ou cotejar aquelas edições com as montagens e textos das páginas de grupos neo-nazistas nacionais ou estrangeiros que possibilitem tradução automática.

É preciso se estar atento ao fato de que não se constrói um mito do nada. Primeiro é preciso encontrar alguma pré-disposição ou indisposição popular, para daí se trabalhar com o imaginário. Um exemplo bem claro em nossa história recente foi Collor de Melo.

Conhecendo as indisposições da maioria do povo contra o segmento social que representam e pertencem, os fabricantes de mitos inventaram o tal “Caçador de Marajás”. Pegou! Sucesso meteórico é verdade, mas é assim mesmo: uma coisa é criar o mito e outra é mantê-lo. O do caçador não teve sustentação.

Apostou-se, então, no estereótipo do sábio acadêmico que acabou se comprovando personagem de conto do Machado de Assis: As Academias de Sião. No discurso, sal da terra e arroz da humanidade. Na prática: um camelo.

Aí só sobrou o Lula, apesar da aversão que até hoje persiste numa minoria da população. Os fabricantes de mitos acorreram aos seus conhecimentos por aversões e idiossincrasias populares: operário, nordestino, pau-de-arara, etc.


Não deu certo. Por que desta vez não deu certo?

Porque em todas as outras deu errado. Esse negócio de repetir e repetir e repetir uma mentira podia se tornar verdade lá no século passado, ou na cabeça do Goebbels e seus seguidores. Mas a maioria do povo brasileiro não é tão pouco inteligente como a imagina Príamo.

Além de que, para se entender o mito, é preciso antes perguntar: Será realmente ao Lula que não se admite? Será mesmo a pessoa do Lula que provoca medo, engulho e arrepio?

Percebo em meus correspondentes que ainda continuam mantendo pejos e ranços ao Lula, um mito anterior ao próprio Lula. Uma aversão que pode ser reconhecida no levantar da ponta do véu de meu amigo Príamo, já nos primeiros parágrafos de seu imeiu:

“Ele (Lula) sempre diz aos que lhe questionam a falta de um diploma universitário, que é inteligente; e é verdade. É muito mais inteligente que a grande maioria do nosso povo.”

Temo que o véu de Príamo não permita ao amigo o reconhecimento e a informação de que a grande maioria do nosso povo sempre foi mais inteligente do que as minorias dominantes. Para citar um exemplo, lembro de uma das primeiras revoltas populares ocorridas no Brasil: a dos Malês, na Bahia, provocada pela não sujeição daqueles negros islâmicos e alfabetizados ao senhor branco, prepotente e analfabeto.

Apenas um evento, um acaso histórico?

Muitos se repetem por nossa mesma história e com mais insistência do que as mentiras de Goebbels e seus discípulos. Se pensarmos um pouquinho, concluiremos por nós mesmos que os colonizadores não teriam sobrevivido para fazer sem a especialização do indígena que lhes mostrou os caminhos, curou-os com os conhecimentos da natureza tropical, ensinou-os a comer, a se proteger, plantar, colher, extrair e processar alimentos e derivados.

Sem os índios a lhes ensinar como dormir, teriam alimentado as onças. Foram nanados e mimados como crianças e nem mesmo por razões de maior ou menor inteligência. Mera questão de ambientação.

Não havia batata na Europa. Não havia mandioca, milho, farinha, fumo, ou quaisquer dos alimentos disponíveis e que sustentaram os colonizadores naquele início. Hoje tudo isso se incorpora ao cotidiano de seus descendentes que não mais se lembram de quando os avós tiveram de aprender a como se comportar nas chuvas, nos rios, com os ventos, a noite, o frio, o calor.

Foi preciso muita paciência do índio para ensinar o bronco e prepotente homem branco. Como uma vez afirmou um deles: “É difícil amansar o branco. Mas a gente amansa!”

É mesmo muito difícil! Têm dificuldade de aprender até com os mitos que eles próprios criaram para impor, entre si, alguma humanidade, alguma condição de convívio. Matam-se ao longo da história muito mais por seus símbolos divinos de paz, do que por qualquer outro motivo. Nada nunca provocou tantos conflitos e mortes quanto o conceito do deus único, seja chamado God, Gotte, Deus, Jeová, Alá ou que nome se dê ao que crêem como criador de tudo o que destroem.

O usam como mais uma das tantas hipocrisias arrumadas para disfarçar suas ganâncias e carências de dinheiro, terras e poder. Mas invariavelmente é, em nome do coitado do Deus, que trucidam crianças e promovem genocídios.

Somente no ano do Senhor de 1952 foi criada uma lei impedindo os cristãos de atravessar à Tasmânia para a caça ao aborígene. Quando esses cristãos chegaram à Austrália, os aborígenes dividiam-se em 500 tribos e utilizavam cerca de 200 dialetos. Hoje, lamentam o extermínio daqueles naturais e a inviabilização de suas culturas que os transformou em bêbados e alheios a si mesmos, como aqui se fez com nossos índios.


Lamenta-se porque ao longo de todos esses séculos os descendentes de europeus não conseguiram apreender como evitar a propagação de incêndios. A estreita área habitável ao leste do país, de maior proporção desértica, arde a cada final de ano porque não se teve inteligência para aprender o manejo da vegetação natural. As universidades tentam resgatar os conhecimentos dos extintos aborígenes, mas o véu de Príamo, na Austrália, não permitiu que se reconhecesse a refinada inteligência e especialização daquela gente.

Nunca foi e não será sob o manto de mitos que se esconderá a verdade. Não adianta querer justificar o crime e a omissão através de mitologias tão cômodas às consciências quanto insustentáveis perante as conseqüências, independente de teorias de migrações, reencarnações ou desprovimento de almas.

Os séculos de desumanidades promovidas na Ásia, na África, ou aqui mesmo nos sertões, nas cordilheiras, nos campos ou nas cidades desta nossa América, não serão respondidos com castigos mais infernais do que a realidade da violência dentro da própria casa, em cada rua, a cada esquina.

Nos evangelhos, Jesus Cristo é descrito como homem que vivia entre a gente mais simples do povo: pescadores, pastores, prostitutas, etc. Mas o cristão de nossa civilização tem dificuldades em reconhecer a igualdade de todos perante o mesmo deus a quem dirige seus anseios e individualismos. Tem dificuldade em reconhecer no homem comum do povo, no trabalhador braçal, no geral das gentes desse país, um seu semelhante e provido da mesma inteligência. Crê-se superior ou que seu Deus é mais, mas se prestasse atenção na realidade que o cerca perceberia que a maioria jamais sobreviveria através dos séculos de uma história tão adversa a qualquer desenvolvimento de criatividade, expressão, raciocínio ou manifestação de inteligência.

Fossemos tão pouco inteligentes quanto concebem aqueles que não conseguem se identificar com a maioria do povo brasileiro, já estaríamos tão extintos quanto os aborígenes australianos.

Príamo, tanto o de Tróia quanto o amigo para o qual emprestei o nome, são reconhecidos como homens sábios. E é verdade, mas mesmo aos sábios os véus midiáticos confundem. Em alguns casos fazem com que acreditem entre a gente do povo a generalização da ignorância e da estupidez. Se prestasse mais atenção, o da antiguidade não permitiria aos troianos aceitar o presente de grego que destruiu a cidade, tal qual, igualmente desatento os moderenos “Príamos” aceitaram outras falácias e charlatanismos.

Se prestarmos mais atenção à história de nossa evolução, poderemos nos resgatar dos medos que nos apequenam sob os véus dos conceitos impostos pelas elites dominadoras que, no Brasil e em toda parte, sempre tentaram impedir mudanças e inviabilizar propostas.

Evidente! Por que a elite fundiária brasileira haveria de querer a absolvição da escravatura? Fomos o último país das Américas a realizá-la e ainda somos um dos países do mundo onde mais se pratica o escravismo. Ainda hoje nossas leis não punem essa prática com a mesma rigorosidade dos crimes em que infere: seqüestro, cárcere privado, constrangimento moral, etc. Não se a considera crime hediondo e muitos dos quem sentam no Congresso Nacional, entre seus pares da conhecida bancada rural, são adeptos comprovados e flagrados.

Se a humanidade alcançou a evolução que hoje atingimos, é porque os insatisfeitos a impulsionaram e, evidentemente, insatisfeitos nunca são os que usufruem os benefícios da situação de domínio. Aos dominadores, claro, sempre mais interessou a estagnação para manutenção e permanência do domínio. Não é de admirar que Mario Amato temesse a Lula como Príamo a Hércules, mas, se na prática hoje a FIESP tem muito mais motivos para comemorar do que quando Lula era apenas candidato, porque é a nós, o povo, que falta inteligência?


Lula não é mito. É uma realidade à qual o resto do mundo há algum tempo está perfeitamente familiarizada. A imprensa brasileira, fomentadora do mito Lula, faz o que pode, mas, constrangida, vê as franjas do véu de seus preconceitos aparecendo sob a barra da saia justa, na impossibilidade de continuar escondendo a importância de honrarias e reconhecimentos internacionais; desde o Prêmio Príncipe Astúrias em 2003. Também lá, na Espanha, neste dezembro de 2009, lhe concederam o Miguel de Cervantes.

Fiquei muito contente! Já posso considerar Lula como meu colega em uma condecoração, mas a verdade é que no Brasil esse tipo de coisa não significa nada. Pelo menos nunca provocou interesse de alguma editora pelo que escrevo, e tampouco a imprensa brasileira deu alguma divulgação a homenagem pela ONU da Appeal of Conscience Foundation, que o considerou como Estadista do Ano de 2006. Mesmo reconhecimento que se repetiu há pouco, em Londres.

Na entrega do Prêmio Félix Houephouët-Boigny concedido pela UNESCO na França em 2008, Lula foi alertado de que, mais do que brasileiro, tornou-se um cidadão internacional com responsabilidades sobre toda humanidade. E como tal foi reconhecido por diversas vezes neste 2009, seja nos Estados Unidos onde lhe concederam o Prêmio Woodrow Wilson ou pela ONU, em solenidade de premiação ocorrida neste mês, na Itália.

Mas o que faz com que esse retirante nordestino que nunca freqüentou uma universidade, desde 2004 venha recebendo títulos de Doutor Honoris Causa em tantas instituições respeitáveis como a École d'Hautes Études en Sciences Sociales (França), Universidade Duke (Estados Unidos), Universidade de Santiago de Compostela (Espanha)? O que o torna o mais notável presidente de toda nossa história, em todo no mundo?

Exotismo passageiro ou paixão ao folclórico, como tentam interpretar os promotores do mito Lula? Ou será que o verdadeiro mito não é Lula, e sim o conceito de superioridade intelectual das classes privilegiadas brasileiras. Conceito muito antigo, mas ao qual o mundo tem dado nítidas demonstrações de discordância, como na recepção típica a um superstar num país que nunca nos deu grande importância, conforme todos os jornais da Alemanha reportaram a última visita do ex-metalúrgico ao país.

Como afirmei, meu amigo Príamo é sábio e não cai no ridículo de tentar negar uma evidência de tais proporções internacionais. Reconhece o brilhantismo de Lula, embora o véu de ouro ainda o impeça de superar o mito de que no geral o brasileiro seja um povo formado por uma maioria de tolos. Fáceis de serem enganados, suscetíveis a demagogias baratas, desmemoriados e inconscientes da própria realidade. “Caipiras” ou mais fedorentos do que os cavalos, como nos definiam anteriores presidências.

Impuseram-nos essa concepção de nós mesmos. No nordeste, por exemplo, ainda hoje não reconhecemos nossa condição humana e habituamos a nos tratar por “cabras”. Mas peço ao amigo que atente para a história ainda recente, desde o primeiro pleito democrático após mais de duas décadas de ditadura, quando quase metade desse povo já compreendia ao que Lula se propunha. E essa quase metade do povo brasileiro não trocou sua percepção pelos Cavalos de Tróia nem se abrigou sob os véus de ouro estendidos pela mídia para encobrir a realidade. Hércules não nos assustava e aguardamos confiantes de que os mitos construídos sobre Lula seriam superados e o real conteúdo dos falsos presentes ocos se revelaria.

Portanto, se o mundo só se deu conta da capacidade de Lula depois que eleito à presidência, muitos brasileiros já tinham certeza há três décadas.

Muitos! Quase a metade da população desse país.

Contrariando Goebbels, o povo foi percebendo a falácia das mentiras repetidas e começou a acreditar em si próprio. Como diz Lula, se nos recuperamos, resgatamos a dignidade perdida pelos playboys, pagamos as dívidas dos generais e doutos professores e superamos a crise internacional provocada pelos grandes especialistas econômicos de olhos azuis, foi exatamente graças a esse povo.

Lula pode ser muito inteligente, mas, pra quem sabe de onde saíram Aleijadinho, Gregório de Mattos Guerra, Machado de Assis, Cruz e Souza, Cosme de Farias, Lima Barreto, Milton Santos, Josué de Castro, Pixinguinha, Luís Gonzaga e toda uma infinidade de exemplos entre os que mais contribuíram para a formação e o reconhecimento internacional da cultura, da ciência e das artes brasileiras, não há nenhuma novidade.

Para o diário espanhol El País, um dos mais tradicionais e conceituados da Europa e que nesta semana escolheu entre 100 indicados a Personalidade Internacional do Ano, Lula é “El hombre que asombra El Mundo”; mas é o próprio Presidente Lula quem reiteradamente explica, como no programa do PT na semana passada, não ter feito tudo sozinho.

Quando não aponta sua equipe como responsável pelas conquistas brasileiras dos últimos sete anos, sempre reconhece naquilo que é, no que o distingue perante a comunidade das nações, a participação de duas entidades inalienáveis à sua formação: a mãe, Dona Lindu, e o povo brasileiro.

No Brasil há quem interprete nessas declarações uma manifestação de arrogância. Interessante observar que, para todo arrogante, invariavelmente não há nada mais arrogante do que o povo.

Nesses é compreensível a aversão ao Lula, mas em alguns de meus correspondentes percebo não ser esse o problema. Percebo que o que de fato os repugna não é o Lula, mas um mito além de Lula.

E para Príamo superar esse mito que lhe dificulta a compreensão de sua própria sabedoria, só é necessário se admitir como Podarge, tornar a ser Podarge para perceber que só há uma verdadeira força hercúlea, incomparavelmente maior do que a de Lula.

Quando se descobrir do véu que o esconde de si mesmo e puder reconhecer onde está o verdadeiro Hércules, enfim conseguirá integrar o real ao invés de se esconder do mito.

Raul Longo
pousopoesia@ig.com.br
pousopoesia@gmail.com
www.sambaqui.com.br/pousodapoesia
Ponta do Sambaqui, 2886
Floripa/SC

Raul Longo, jornalista, escritor e pousadeiro, colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

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PressAA

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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Manifesto pelo Desarquivamento e Federalização dos "Crimes de Maio de 2006"

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Fernando Soares Campos

Alguém aí já se esqueceu do Massacre de Maio de 2006, em São Paulo?

“Em uma cínica e mentirosa “onda de resposta” ao que se chamou na grande imprensa de ‘ataques do PCC’, foram assassinadas no mínimo 493 pessoas - que hoje constam entre mortas e desaparecidas. A imensa maioria delas - mais de 400 jovens negros, afro-indígena-descendentes e pobres – executados sumariamente. Sem dúvida, o maior Massacre da história brasileira recente.” [Leia o Manifesto pelo Desarquivamento e Federalização dos "Crimes de Maio de 2006", no final desta postagem]

O Massacre de Maio de 2006 foi utilizado politicamente. Virou discurso de palanque do PSDB-PFL (hoje DEM), mas não funcionou a contento.

Primeiro foi divulgado que tudo aquilo era coisa da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital ).

Segunda etapa: relacionar o PCC ao PT.

Com isso, tentava-se reverter a inevitável reeleição de Lula, elegendo Alckmin à Presidência e José Serra ao governo de São Paulo. Conseguiram, pelo menos, o governo de SP.

Acompanhe o caso, rememore os fatos e assine o Manifesto pelo Desarquivamento e Federalização dos "Crimes de Maio de 2006"

Depois do massacre, a imprensa que milita nas hostes do PSDB-PFL (hoje DEM), divulgou notas como as que se seguem:

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Sexta, 14 de julho de 2006, 09h12

Serra diz que há indícios de ligação PT e PCC

O candidato ao governo de São Paulo pelo PSDB, José Serra, afirmou ontem que há indícios de ligação do PT com o PCC ao lembrar que um inquérito policial registrou a proximidade de Jilmar Tatto, ex-secretário municipal de Transportes em São Paulo quando Marta Suplicy era prefeita, com perueiros ligados à organização criminosa. O candidato petista ao governo paulista, Aloizio Mercadante, respondeu que a afirmação é "absolutamente leviana" e revela "desespero político".
http://noticias.terra.com.br/brasil/guerraurbana/interna/0,,OI1069661-EI7061,00.html


Quinta, 13 de julho de 2006, 07h08

Bornhausen diz que desconfia de elo entre PT e PCC

O presidente nacional do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), lançou ontem a suspeita de envolvimento do PT nas ações comandadas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) contra policiais civis, prédios e veículos em São Paulo, informou o jornal Folha de S.Paulo. "O PT pode estar manuseando, manipulando essas ações". O senador teria afirmado ainda que o PT vive no submundo e nada mais o espanta no partido.

Leia nota completa...

http://noticias.terra.com.br/brasil/guerraurbana/interna/0,,OI1068598-EI7061,00.html


Quinta, 13 de julho de 2006, 15h44 Atualizada às 15h50

José Jorge relaciona ataques do PCC com pesquisas

Maria Clara Cabral
Direto de Brasília

O senador José Jorge (PFL-PE), candidato a vice-presidente na chapa de Geraldo Alckmin (PSDB), relacionou hoje os ataques da facção criminosa Primeiro Comando Capital (PCC) em São Paulo ao crescimento tucano nas pesquisas de opinião de votos. "Toda vez que surge uma pesquisa a favor de Alckmin, o PCC faz um movimento. Pode ser apenas coincidência, mas que tem relação tem", afirmou José Jorge.

http://noticias.terra.com.br/brasil/guerraurbana/interna/0,,OI1069080-EI7061,00.html

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Porém hoje podemos encontrar, internet adentro, matérias como estas:

O Governo Serra e o PCC

Por Leonildo Correa 14/05/2008

Outros artigos e textos no meu site e blog:
site - http://www.leonildoc.ocwbrasil.org/
blog - http://leonildoc.blogspot.com/

Em 2006 os tucanos acusaram o PT de ter ligação com o PCC. Uma grande mentira cabeluda. E agora descobriu-se que quem tinha ligação com o PCC eram eles, os tucanos, mais especificamente o assessor Malheiro do Joselito Serra.

Mas o mais interessante é que, para esconder e minimizar a ligação do Governo Serra com o PCC, ficam batendo na tecla do "suposto" dossiê com as contas do FHC. É só disso que a mídia dominante, que atua em conluio com os tucanos e o PFL, gosta de falar.

O que é mais relevante para o Brasil e para os Brasileiros: o dossiê fictício inventado pelos tucanos ou a ligação do Governo Serra com o PCC ?

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A motivação nos ataques do PCC

Com a descoberta da relação dos tucanos com o PCC, descobriu-se também que alguns ataques, por exemplo, o ataque de Suzano, foi motivado por negócio entre o bando tucano com a facção do PCC. O bando de tucanos não cumpriu o avençado, ou seja, libertou o enteado do Marcola, e a facção respondeu com bala.

Será que os demais ataques do PCC também foram motivados por negócios desse tipo ? Esta questão tem que ser investigada...

Portanto, os ataques do PCC contra delegacias era resultado de negócios de gente do Governo Tucano com a facção. Como os amigos do Serra não cumpriram o acordo que fizeram com os bandidos, os ataques aconteceram.

E todo mundo pensava que os bandidos eram loucos varridos que estavam atacando a polícia gratuitamente. Mal sabíamos que os ataques do PCC era acerto de contas entre os bandidos da facção e os bando do Governo Serra.
Leia mais...

http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2008/05/419797.shtml

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Texto suplementar:

Quando buchas de canhão são promovidas a generais

Fernando Soares Campos

Marcola, PCC e "grupo de chefões de Bangu" são apenas a mão grande e suja das SSP’s, PM’s, políticos safados, imprensa sem-vergonha e outros cretinos. Servem ainda para alimentar a inconsciência da classe média idiotizada, que, à falta dos antigos bandidos românticos, teorizam sobre a rebeldia dos injustiçados, ao mesmo tempo em que faz o seu papel de vítima.

Saulo de Castro (SP) [Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo quando do massacre de maio 2006. Esse sujeito foi nomeado por Alckmin e mantido no cargo quando este se afastou do governo para concorrer à Presidência da República] e Álvaro Lins (RJ) são muito mais perigosos que qualquer Beira-Mar ou Marcola.

(...)

Em depoimento à CPI do Tráfico de Armas, Marcos William Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC, a facção paulista a serviço do verdadeiro crime politicamente organizado, declarou:

"Fui criado por determinadas pessoas, agindo de má-fé para ter um bode expiatório. E cada vez que as coisas dessem errado e eles não soubessem como controlar e a quem punir, tinha lá o Marcola".

E ainda completou:

"É muito fácil ter um cara igual a mim. Se eu fosse político, eu ia arrumar um Marcola também. Se eu fosse um governador, ter um Marcola, não é bom, não? A segurança pública tá um caos, a culpa é do Marcola!". (*)

A quem as autoridades responsáveis pela segurança pública e a imprensa serviçal querem tratar como "burro": a população em geral, ou "um grupo de chefes de dentro da cadeia"?

Leia artigo completo:

http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=504

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18/05/2006 - 19h52

Suspeitos mortos pela polícia em onda de ataques em SP somam 107

da Folha Online

O número de pessoas suspeitas de envolvimento na onda de violência que atinge diversos pontos do Estado de São Paulo desde a sexta-feira passada (12) mortas durante supostos confrontos com a polícia chegou a 107 nesta quinta-feira, segundo balanço da Secretaria da Segurança Pública.

Novas ações criminosas foram registradas entre a noite de quarta-feira (17) e a madrugada desta quinta, em diferentes pontos do Estado.

Liderado pelo PCC (Primeiro Comando da Capital), criminosos têm promovido uma série de ataques --principalmente contra forças de segurança do Estado. Entre sexta e segunda-feira (15), houve ainda uma onda de rebeliões que atingiu mais de 80 unidades prisionais paulistas.

Nos ataques foram mortas 45 pessoas: 23 policiais militares, sete policiais civis, três guardas municipais, oito agentes de segurança penitenciária e quatro civis --sendo uma namorada de um policial--, além de parte dos 107 suspeitos mortos em supostos confrontos.

Somadas às mortes de nove detentos de penitenciárias e CDPs (Centros de Detenção Provisória) ocorridas durante os motins, o total de pessoas mortas em decorrência da onda de crimes sobe para 161.

Outros nove presos também teriam morrido em motins, o que elevaria o número para 170.

Leia reportagem completa...

http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u121716.shtml

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Associação dos Docentes da Universidade Federal de Goiás


23/05/2006

A elite não é só branca, é podre, doutor Bolívar

A elite se pôs de pé e fez beicinho nos jornais à surpreendente entrevista do governador Cláudio Lembo à Folha de S. Paulo de 18/5. Desde a personagem Odete Roitman, menos conhecida como Beatriz Segall, passando pelo primeiro-sociólogo do sociologismo tucano, Bolívar Lamounier, até chegar no ex da Carola, a princesa da Casa dos Artistas, aquele tal de Chiquinho Scarpa.

Mesmo com um sociólogo entre os ofendidos foi o ex-Carola quem melhor resumiu o sentimento da elite: “Se cada um voltasse para o seu estado, tudo funcionaria. O problema é que 80% dos votos para presidente são de São Paulo – e os nordestinos votam errado”. Pois é, entenderam?

O ex-Carola nem sabe direito o que está falando. Fala de porcentagem e pelo resultado da matemática percebe-se que mal sabe fazer conta de mais e menos. Mas não erra no alvo. Quer segregação. Quer que os nordestinos pobres (evidente, os ricos podem ficar), voltem para sua terra. Saiam daqui.

É dessa elite, oh Bolívar, que tratou um pouco na entrevista de ontem o governador Lembo. É dela que tratamos nós.

Mas o primeiro-sociólogo do sociologismo tucano prefere a retórica academicista barata: “A elite virou explicação para tudo no Brasil, de bicho-de-pé à dor no fígado. Tudo é culpa da elite”. Não, cara pálida, a culpa é dos nordestinos, como disse o seu colega, o ex-Carola. Ou pode ser culpa de preto, de favelado, de analfabeto, dos aposentados do INSS, das crianças do farol. Ou ainda dessa gente estúpida que fica clamando por direitos humanos ao invés de ir cuidar da vida.
Ou então, doutor Bolívar, podemos dizer que a culpa é de ninguém, do destino ou dos marcolas de aluguel. Esses atuais capitães do mato de uma sociedade que não tem escravos só pretos, mas onde eles ainda são imensa maioria da senzala moderna.

E se o doutor fica aturdido e resmunga, “ao enfiar o assunto branco-preto no meio foi ainda mais infeliz”, comentando a entrevista do governador, queria lhe dizer que até agora a secretaria de segurança pública se nega a entregar o nome dos 107 “suspeitos” mortos nesses 7 dias da guerra de São Paulo.

O doutor, ao invés de beicinhos para defender a elite, poderia perguntar disso.

Se tiver dúvida, lhe adianto. Não vou meter o assunto de branco-preto no meio. Até porque ele é quase todo preto. Dos 107, quantos brancos teremos? Quantos moram nos Jardins? Quantos estudam na USP?

Como muitos que se proclamam sociólogos nunca caminharam a pé nem pela Praça da Sé, vou contar uma historinha relatada num telefonema de um amigo na tarde de ontem.

No começo da noite de anteontem (17/5) dois jovens pretos, que moram na zona Leste, num bairro menos afastado do que São Matheus, onde aconteceu a chacina dos três metalúrgicos, do mecânico e do garoto que segunda começaria a trabalhar no Habib´s foram a um supermercado. Um dirigia a moto, outro na garupa. De repente, uma blitz. Como sabem os paulistanos, temos tido dias frios nesta semana. Um dos jovens, o que dirigia, além do capacete, estava com aquele gorro de motoqueiro para se proteger do frio. Pronto, tornarem-se suspeitos.

Por sorte, pelo destino ou pelo sei lá o quê, escaparam. Depois de uma humilhante revista e de mil e um xingamentos, puderam ligar a moto e voltar para casa.

É assim que se escolhem os suspeitos. Basta ser preto, nordestino, pobre, estar de moto ou carro velho. Se tiver de boné ou gorro então... Não é de se estranhar que o primeiro-sociólogo do sociologismo tucano não demonstre nenhuma indignação quanto ao assassinato dos 107 “suspeitos”. Afinal, está preocupado com a injustiça que está atingindo a moral de sua tropa, a tal elite.

Ontem o governador Lembo deu mais uma entrevista. Dessa vez para o jornalista Bob Fernandes.

Está publicada no site Terra Magazine (http://terramagazine.terra.com.br/).

Ele reafirma tudo que disse à Folha sem tergiversar. Ótimo. Como, já dito aqui, se assim é, concordamos, governador. E concordamos mesmo. Agora, vai ser preciso mais do que o discurso. É hora de fazer algo para impedir que as ruas da periferia de São Paulo deixem de ser campos de concentração.

A polícia precisa estar a postos. Precisa estar alerta. Precisa enfrentar o crime organizado, que não é algo que se resolve só com combate à injustiça social. Mas os jovens pobres não podem ser tratados como bandidos.

E o secretário de Segurança Pública, “aquele menino do Alckmin” [o Saulo de Castro], como prefere FHC, tem que respeitar o Estado de Direito.

A lista com o nome dos 107 “suspeitos” precisa ser entregue à imprensa. Precisa ser apresentada à sociedade. Que maluquice é essa? De onde esse Saulo de Castro tirou essa de que vai entregar a lista no “momento oportuno”.

Para impedir que seu governo chegue ao fim com a pecha de governo-assassino, o governador Lembo terá de enfrentar a turma que no comando da segurança pública de São Paulo desde a saída de José Afonso da Silva, levou São Paulo ao domínio do medo.

Reportagem

Renato Rovai [19/5/2006]

Fonte
Carta Maior

http://www.adufg.org.br/mm_acervo.php?idmateria=630&idlink=2&titulo_link=An%E1lise%20e%20Opini%E3o

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Procurador-geral denuncia Saulo de Castro [foto] por desacato

O Globo Online, CBN (18/11/2006)

SÃO PAULO - O procurador-geral de Justiça de São Paulo, Rodrigo Pinho, apresentou nesta quarta-feira denúncia contra o secretário estadual de Segurança Pública, Saulo de Castro Abreu Filho, por desacato. O Tribunal de Justiça de São Paulo vai analisar se aceita a denúncia, na qual Saulo é acusado de ofender deputados estaduais durante uma reunião da comissão de Segurança Pública, no último dia 6 de junho. Saulo teria que prestar esclarecimentos sobre a onda de violência promovida por uma facção criminosa. Se a denúncia for aceita, Saulo ficará sujeito a pena de detenção, de seis meses a dois anos, ou multa.

De acordo com a denúncia, Saulo feriu a dignidade e o decoro dos parlamentares com gestos e atitudes ofensivas, além de chamar a audiência de "lengalenga". Cerca de 70 policiais fardados acompanharam a sessão e se manifestaram várias vezes em favor do secretário. De acordo com a denúncia, em um dos episódios ofensivos, Saulo chegou a ensaiar passos de dança e batucou na mesa enquanto era ouvido.

Leia reportagem completa...

http://oglobo.globo.com/sp/mat/2006/11/09/286584526.asp

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Um conto para ilustrar:


MORTOS ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA

Fernando Soares Campos

Geraldo e Cláudio são amigos inseparáveis. Aposentados, podem ser vistos a partir das duas da tarde, todos os dias, na mesa exclusiva da dupla, no Bar do Cardoso. Nos últimos 20 anos, só falharam um dia.

Foi no domingo passado, pois naquele dia o bar fechou devido ao recrudescimento da violência que toma conta da cidade há uma semana.

Geraldo abre o jornal e lê para o companheiro:

- Vê essa, meu: "Já somam 107 os suspeitos abatidos pela polícia desde sexta-feira passada".
- Suspeitos de quê?! - perguntou Cláudio
- Aqui só fala em suspeitos.
- Mas quem são esses suspeitos?
- Ora! eu já li isso pra você, são os mortos, meu!
- Sei. Mas quem são os mortos?
- Putz!, meu, você não saca uma! Quer que eu desenhe? Os mortos são os suspeitos, meu!
- Mas, meu, eu quero saber quem são os mortos suspeitos.
- Fácil: são os caras que a polícia matou.
- E esses caras têm nome?
- Tinham.
- Como "tinham"?
- Agora são somente números.
- São suspeitos de quê?
- Suspeita-se que alguns desses suspeitos participaram de um movimento suspeito, supostamente ligado ao suspeito crime organizado.
- Mas, se depois de investigados os casos, descobrirem que alguns dos suspeitos são inocentes?
- E daí?!
- O que acontece com esses que já morreram?
- O que acontece?! Ora, meu!, não acontece mais nada, os caras já morreram.
- E a polícia está procurando novos suspeitos?
- Claro.
- Mas, pelo que estou entendendo, qualquer pessoa que estava na cidade, nos últimos dias, é um suspeito.
- Claro que não!
- Por que não?
- A polícia não pergunta onde o cara estava aqui nos últimos dias.
- E se ficar provado que o morto suspeito não estava na cidade há mais de uma semana?
- Aí o suspeito morto passa a ser apenas morto.
- Hein?!!
- Torna-se um morto acima de qualquer suspeita.

Fernando Soares Campos
La Insignia. Brasil, maio de 2006.

http://www.olobo.net/index.php?pg=colunistas&id=382

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Manifesto pelo Desarquivamento e Federalização dos "Crimes de Maio de 2006"


To: Presidência da República do Brasil; Casa Civil; Ministério da Justiça; Secretaria Especial de Direitos Humanos; População Brasileira e Internacional

Manifesto pelo Desarquivamento e Federalização das Investigações sobre os "Crimes de Maio de 2006" cometidos por agentes policiais do Estado de São Paulo grupos de extermínio paramilitares ligados a eles

à População Brasileira e Internacional de forma ampla, geral e irrestrita
à Presidência da República do Brasil, na pessoa do Presidente Sr. Luís Inácio Lula da Silva
à Casa Civil, na pessoa da Ministra Sra. Dilma Roussef
ao Ministério da Justiça, na pessoa do Ministro Sr. Tarso Genro
e à Secretaria Especial de Direitos Humanos, na pessoa do Secretário Sr. Paulo Vanucchi

ATÉ QUANDO O ESTADO CONTINUARÁ TORTURANDO E MATANDO?

ATÉ QUANDO A POPULAÇÃO VAI TOLERAR EM SILÊNCIO?


“De aqui, de dentro da guerra, qualquer tropeço é motivo. A morte te olha nos olhos. Te chama, te atrai, te cobiça. De aqui, de dentro da guerra, não tem DIU nem camisinha que te proteja da estúpida reprodução da fome, da miséria, da ínfima estrutura que abafa o cantar das favelas: antigas senzalas modernas. Cemitério Geral das pessoas.” Poeta Dinha, Parque Bristol, Periferia-SP


Se levarmos a sério tudo aquilo que o conceito de “democracia” promete, o Brasil obviamente nunca concluiu sua “transição democrática”. Muito pelo contrário. Quem vive nas favelas e comunidades periféricas do país, sabe na pele o quê isso significa. Vivemos num país cada vez mais dividido por um abismo entre duas classes de pessoas: aquelas que são consideradas “seres humanos portadores de direitos” porque têm mais dinheiro e, via de regra, tem a pele mais clara; e aquelas “pessoas que não são consideradas sequer seres humanos”, tratadas como bicho por terem a cor da pele quase sempre mais escura, não terem dinheiro e. quando muito, terem um emprego precário, podendo desse modo serem descartadas e massacradas pelo sistema que, sob sua lógica, as pode substituir com facilidade. A essa imensa maioria das pessoas, até para que elas permaneçam sendo exploradas ao máximo, é aplicado o Terror.

Um Terror cotidiano que tem na falta de condições mínimas para uma vida digna, por um lado e, por outro, no poder repressivo da polícia e de agentes paramilitares ligados ao estado, duas faces da mesma moeda da opressão. Uma opressão que se concretiza das mais diversas formas, concentradas ou difusas, em especial contra a juventude pobre e negra do país. Práticas que, cada vez mais, têm culminado em torturas cotidianas, encarceramento em massa, e seguidas execuções sumárias. Uma pesquisa recente divulgada pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos, UNICEF e Observatório de Favelas, no dia 21/07/2009, afirma que, se as estatísticas permanecerem como estão, mais de 33,5 mil jovens terão sido executados no Brasil durante o curto período de 2006 a 2012. Os estudos ainda apontam que os jovens negros apresentam risco quase três vezes maior de serem executados em comparação com os brancos.

Os Crimes de Maio de 2006


Pois mal: foi neste contexto que, durante o mês de maio de 2006, no Estado de São Paulo, policiais e grupos paramilitares de extermínio ligados à Polícia Militar promoveram um dos mais vergonhosos escândalos da história brasileira. Em uma cínica e mentirosa “onda de resposta” ao que se chamou na grande imprensa de "ataques do PCC", foram assassinadas no mínimo 493 pessoas - que hoje constam entre mortas e desaparecidas. A imensa maioria delas - mais de 400 jovens negros, afro-indígena-descendentes e pobres – executados sumariamente. Sem dúvida, o maior Massacre da história brasileira recente.

São centenas de mães, milhares de familiares e amig@s que tiveram, no intervalo de pouco mais que uma semana, seus entes queridos assassinados covardemente, e até hoje seguem sem qualquer satisfação por parte do Estado brasileiro. Os casos permanecem arquivados sem investigação correta para busca da Verdade dos fatos; sem Julgamentos dos verdadeiros culpados (os agentes do estado e seus outros braços armados); sem qualquer Proteção, Indenização ou Reparação por parte das instituições que tiraram os seus jovens. Um estado que ainda insiste em sequestrar também o sentimento de Justiça dessas famílias.

Desde então, por meio de muita luta - sobretudo das Mães e Familiares de Vítimas à frente dela - um primeiro e importante desafio já vem sendo superado: a censura nos grandes meios de comunicação, e a barreira do desconhecimento. Hoje, passados três anos e meio desde os terríveis Crimes, milhões de pessoas ao redor de todo o Mundo já sabem o quê realmente aconteceu naqueles trágicos dias. Entretanto, muitas ainda precisam saber, principalmente aqui no Brasil, onde o massacre aconteceu, e onde a marcha fúnebre prossegue com o desconhecimento ou conivência de muitos.

No dia 15 de outubro de 2009, a Anistia Internacional enviou uma nota a todas as instâncias do Estado brasileiro, na qual repudia o absurdo arquivamento da imensa maioria dos casos que se multiplicaram nas periferias de São Paulo a partir de maio de 2006, ressaltando estar atenta em relação à impunidade que vigora até o momento, e atenta também ao futuro das investigações e providências. Há poucos dias, no início de dezembro, novamente em visita ao Brasil, representantes da AI voltaram a destacar e se solidarizar com toda a luta das Mães e Familiares que, segundo a entidade internacional, sofrem uma "dupla-violência”: além de terem perdido seus filhos de maneira brutal por parte de agentes do Estado, ainda têm renegado o seu legítimo direito à Verdade e à Justiça, sendo obrigadas muitas vezes a conduzir elas mesmas as investigações - sem nenhum suporte, reparação, e sequer a garantia da própria Vida. A Anistia Internacional também volta a exigir o desarquivamento dos casos.

Desarquivamento e Federalização


Agora é preciso dar novos passos, e superar novas barreiras simbólicas, políticas e jurídicas. Esta petição, lançada pelas “Mães de Maio” às vésperas do Dia Internacional dos Direitos Humanos de 2009, tem como objetivo geral exigir o mínimo que as pessoas com alguma decência e dignidade podem fazer diante de brutalidades como esta: manifestar seu Repúdio e reivindicar Justiça! Mas tem um objetivo específico muito preciso: exigir do Poder Executivo Nacional que este faça cumprir a Constituição Brasileira, a qual vem sendo constantemente vilipendiada pelos Poderes Judiciário e Executivo do Estado de São Paulo – de alguma maneira implicados politicamente com os referidos Crimes de Maio de 2006, sobre os quais cobramos Justiça.

Sabemos que uma sociedade realmente democrática não se constrói sem encarar todo o seu Passado, sem assimilar toda sua Verdade Histórica. Sabemos que isso não é fácil, e que no Brasil há uma blindagem pesada feita pelas elites civis e militares para que isto não aconteça. Entretanto, diante de todo este poder opressivo imposto pelo dinheiro, pelas mídias e pelas armas, nós que abaixo-assinamos esta petição não nos intimidamos.

Estamos absolutamente convictos de que não construiremos uma sociedade Justa, Igualitária e, sobretudo, Livre, sem fazer todas as devidas reparações históricas. Mais que isso: seria impossível dormir com a consciência tranqüila se nos calássemos, nos omitíssemos ou, pior, se colaborássemos para a manutenção desta situação. Tampouco atingiremos os nossos ideais coletivos, nacionais e internacionalistas, sem exigirmos a punição dos responsáveis pela sucessão de crimes históricos cometido pelas elites e por seus agentes incrustados no Estado brasileiro, de forma direta ou indireta. Principalmente aqueles altos responsáveis pela sucessão de Massacres que marca a nossa História. Sem o julgamento e a devida punição de todos os responsáveis por estes crimes inomináveis, a sociedade brasileira na prática continuará dando aval para que eles sigam ocorrendo, sobretudo contra a juventude pobre e negra do país.

A luta pelo Desarquivamento e pela Federalização das investigações sobre os Crimes de Maio de 2006 se insere nesta tradição de resistência de tod@s @s oprimid@s que lutaram e lutam pela Memória, pela Verdade e por Justiça, em relação a todos os massacres históricos. Não apenas as vítimas e familiares dos Crimes de Maio de 2006 agradecem o apoio a este manifesto, mas todas as vítimas diretas ou indiretas do Massacre de Canabrava (2009), do Complexo do Alemão (2007), da Baixada Fluminense (2005), da Praça da Sé e de Felisburgo (2004), de Eldorado dos Carajás (1996), da Candelária e de Vigário Geral (1993), do Carandiru (1992), de Acari (1990), da Ditadura Civil-Militar (1964-1989), e de todos os massacres históricos contra trabalhadoras e trabalhadores pobres, negros e indígenas ocorridos ao longo da história brasileira.


NOSSA LUTA POR JUSTIÇA HISTÓRICA É UMA SÓ!


E, neste momento, neste manifesto: a Luta é por Justiça frente aos Crimes de Maio de 2006!


EM DEFESA DO DESARQUIVAMENTO E DA FEDERALIZAÇÃO DAS INVESTIGAÇÕES SOBRE OS “CRIMES DE MAIO DE 2006” COMETIDOS POR AGENTES MILITARES DO ESTADO DE SÃO PAULO E GRUPOS DE EXTERMÍNIO PARAMILITARES LIGADOS A ELES.
07 de Dezembro de 2009,

Abaixo-Assinados

Use o link para assinar o Manifesto:

http://www.petitiononline.com/maesmaio/petition-sign.html

http://www.petitiononline.com/maesmaio/petition.html

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PressAA

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