sábado, 19 de junho de 2010

Pequenos deuses

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Urda Alice Klueger

Outro dia, uma jornalista me telefonou para perguntar o que eu achava das pernas dos jogadores da Seleção. Eu disse-lhe que nunca olhara para as pernas dos jogadores da Seleção; que para mim eles eram como que pequenos deuses da Alegria. Ela se espantou, até andou publicando isso. E então fiquei pensando em quando me dera conta de tal título para os nossos jogadores: fora quando viajara pelo Equador, Colômbia e Venezuela, e vira muito de perto o quão ardentemente as pessoas desses países AMAM fascinadamente os nossos jogadores. Eu viajava por uma América machucada, espoliada, de gente que comia pouco e tinha os dentes estragados - mas que não tinha nenhuma vergonha de mostrá-los em grandes sorrisos, quando falavam dos seus pequenos deuses da Alegria. Estávamos em 1996, e tais pequenos deuses, então, se chamavam Pelé, Zico, Túlio, Marcelinho Carioca, e eles proporcionavam tal alegria às gentes do norte da nossa América do Sul, que não havia outro título a lhes dar, além de pequenos deuses, mesmo, pequenos deuses da mais límpida alegria nas vidas das pessoas cujo viver já é um ato de coragem.

Agora, hoje, estamos a poucas horas de, talvez, nossos pequenos deuses nos darem a grande alegria do Penta, e que não será uma alegria só nossa, brasileira, mas de los otros hermanos que vivem aqui perto no nosso castigado continente. Eu sei como é amar incondicionalmente, e é assim que nuestros vecinos amam os pequenos deuses do nosso futebol. E nós, brasileiros? Há duas ou três tardes atrás saí para caminhar, e passei por aquele complexo que reúne a Fonte Luminosa, o Terminal de Ônibus, dois supermercados, um carrinho de cachorro-quente e muita gente circulando. Numa das calçadas, reúnem-se diversos vendedores de bandeiras e bandeirinhas, e de outras coisas verde-e-amarelas, como cornetas e apitos. Os símbolos da Alegria, ali, têm diversos preços - não perguntei quanto custam as grandes e bem feitas bandeiras de pano - mas uma pequena bandeira de plástico custa vinte centavos. O sofrido povo brasileiro sabe a grandeza que é ser dono dos pequenos deuses, e quer demonstrar sua mais límpida alegria, também. A hora da grande batalha final se aproxima, e se para os corações dos nuestros vecinos ela é importantíssima, só quem, como nós, que tem um peito com um coração brasileiro, sabe aquilatar a intensidade da Alegria que a possibilidade do Penta pode nos trazer. E então fiquei a observar como as pessoas paravam para ver aquelas coisas verde-e-amarelas, aquelas coisas que falam profundamente ao coração nestas horas, e como calculavam mentalmente suas posses financeiras antes de garantir a posse do símbolo da Alegria. Uns mais despreocupados, outros com a testa vincada de preocupação, quase todos acabavam comprando alguma coisinha, pelo menos aquela bandeirinha de plástico de vinte centavos, que talvez significasse dois pãezinhos a menos na mesa das suas crianças, naquela noite. Afinal, para deuses há que se fazer alguma oferta, sejam eles pequenos ou não. Os pequenos deuses hoje se chamam Rivaldo ou Ronaldinho Gaúcho ou outros nomes - na verdade, os nomes não importam muito - o que importa é a IMENSA Alegria que eles podem trazer aos peitos desta nossa gente que deverá continuar sendo massacrada com coisas como a ALCA.

Nossos jogadores são ou não são pequenos deuses da Alegria? E pensar que tem gente que se importa com coisas efêmeras como as pernas deles!

Blumenau, 29 de Junho de 2002

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*Urda Alice Klueger é escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz.

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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PressAA

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sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago: "O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas"

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Amigos:

Acaba de falecer na manhã desta sexta-feira, dia 18 de junho de 2010, o escritor José Saramago. Acho que não há nada que eu possa fazer para homenageá-lo além de lhes repassar essa maravilha de discurso abaixo, que ele proferiu ao receber o Prêmio Nobel de Literatura.
Muito sentida,
Urda Alice Klueger - BRASIL
Discurso na Academia Sueca
(ao receber o Prêmio Nobel de Literatura)

José Saramago

O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. As quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo.

Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.

Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira.

Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz noturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.

Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranqüilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza".

Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver.


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PressAA

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A Contenda Inevitável

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Reflexões do companheiro Fidel

Recentemente afirmei que o mundo esqueceria rapidamente a tragédia que estava a ponto de acontecer como fruto da política mantida, durante mais de dois séculos, pela superpotência vizinha: os Estados Unidos da América.

Temos conhecido sua forma sinuosa e arteira de agir; o impetuoso crescimento econômico atingido a partir do desenvolvimento técnico e científico; as enormes riquezas acumuladas à custa da maioria esmagadora de seu povo trabalhador e dos povos do resto do mundo por uma exígua minoria que, nesse país e no resto dos países, dispõe e desfruta das riquezas sem limites.

Quem se queixa cada vez mais senão os trabalhadores, os profissionais, os que emprestam serviços à população, os aposentados, os desempregados, os meninos da rua, as pessoas carentes dos conhecimentos elementares, que constituem a imensa maioria dos quase sete bilhões de habitantes do planeta, cujos recursos vitais estão se esgotando visivelmente?

Como são tratados pelas chamadas forças da ordem que deveriam protegê-los?

Em quem batem os policiais armados de todos os instrumentos de repressão possível?

Não preciso descrever fatos que os povos em todas as partes, inclusive nos Estados Unidos, acompanham através da televisão, dos computadores e das mídias.

Um pouco mais difícil é desentranhar os projetos sinistros daqueles que têm em suas mãos o destino da humanidade, pensando absurdamente que se pode impor semelhante ordem mundial.

O que escrevi nas últimas cinco reflexões com as quais ocupei o espaço do jornal Granma e do site CubaDebate entre o dia 30 de maio e o dia 10 de junho de 2010?

Já os elementos básicos de um futuro muito próximo foram lançados ao ar e é impossível começar da estaca zero. Os impressionantes acontecimentos da Copa Mundial de Futebol na África do Sul, no transcurso de breves dias, têm ocupado a nossa atenção.

Apenas temos tempo de respirar durante as seis horas em que os jogos são transmitidos ao vivo e em direto pela televisão de quase todos os países do mundo.

Depois de ter acompanhado os jogos entre os times mais prestigiosos em apenas seis dias e, aplicando os meus pouco confiáveis pontos de vista, atrevo-me a pensar que o campeão da Copa vai decidir-se entre os times da Argentina, o Brasil, a Alemanha, a Inglaterra e a Espanha.

Já não há nenhuma equipe destacada que não tenha mostrado as suas garras de leão neste esporte, onde anteriormente apenas eu via pessoas correndo no extenso gramado de uma baliza para a outra. Hoje, graças a nomes famosos como Maradona e Messi, conhecedor das façanhas do primeiro como o melhor jogador na história deste esporte e da sua opinião de que o outro é igual ou ainda melhor do que ele, já posso distinguir o papel de cada um dos 11 jogadores.

Nestes dias também conheci que a nova bola de futebol tem uma geometria variável no ar, que é mais veloz e que salta muito mais. Os próprios jogadores começando pelos goleiros se queixam destas novas características da bola, mas inclusive os atacantes e a defesa também se queixam muito, visto que a bola é mais rápida e durante toda a vida eles aprenderam a manejar outra. São os dirigentes da FIFA os que decidem sobre esta matéria em cada Copa Mundial.

Desta vez, transfiguraram esse esporte; já é outro, embora continue chamando-se da mesma forma. A torcida, que não conhece as mudanças introduzidas na bola – que é a alma de um grande número de atividades esportivas – e repletas as arquibancadas de qualquer estádio, é a que desfruta o jogo ao máximo e todos o aceitarão sob o mágico nome do glorioso futebol. Até Maradona, que foi o melhor jogador de sua história, vai conformar-se tranquilamente que outros esportistas marquem mais gols a maior distância, mais espetaculares e com maior nível de pontaria do que ele, na própria baliza e do mesmo tamanho, que aquela onde a sua fama conseguiu um lugar tão alto.

No beisebol amador era diferente, os tacos passaram da madeira para o alumínio ou deste último para a madeira, apenas eram estabelecidos determinados requisitos.

Os poderosos clubes profissionais dos Estados Unidos decidiram aplicar normas rígidas no que se refere ao taco e outra série de requisitos tradicionais, que mantêm as características do velho esporte. Na verdade deram ao espetáculo um especial interesse e também incrementaram os enormes ganhos com que o público e os anúncios publicitários pagam.

Na atual voragem esportiva, um esporte extraordinário e nobre como o voleibol, de que tanto se gosta em nosso país, está envolvido em sua Liga Mundial, a competição mais importante para esta especialidade anualmente, salvo os títulos que se derivam do primeiro lugar nas competições olímpicas ou nos campeonatos mundiais.

Na sexta-feira e no sábado da semana passada, na Cidade Esportiva realizaram-se as penúltimas partidas que serão efetuadas em Cuba. Até agora, a nossa equipe não perdeu nenhuma partida. O último adversário foi nem mais nem menos que a Alemanha. Entre os seus esportistas havia um gigante alemão de 2,14 metros de estatura que é um excelente cortador. Foi uma verdadeira façanha ganhar todos os sets, salvo o terceiro da segunda partida. Os membros da nossa equipe, todos muito jovens, um dos quais tem apenas 16 anos, mostraram uma surpreendente capacidade de reação. O atual campeão da Europa é a equipe da Polônia, e a equipe alemã conseguiu a vitória em duas partidas contra aquela equipe. Antes desses êxitos ninguém pensou que a equipe de Cuba estaria novamente entre as melhores do mundo.

Infelizmente, por outro lado, no âmbito político o caminho está cheio de enormes riscos.

Uma questão que mencionei anteriormente, entre os elementos básicos de um futuro muito próximo que foram lançados ao ar e que já é impossível começar da estaca zero é o afundamento do navio Cheonan, navio insígnia da marinha sul-coreana que naufragou em apenas minutos no dia 26 de março, provocando a morte de 46 marinheiros e dezenas de feridos.

O governo da Coréia do Sul ordenou uma investigação para conhecer se o fato aconteceu em conseqüência de uma explosão interna ou externa. Ao verificar que procedia do exterior, acusou o governo de Pyongyang pelo afundamento do navio. A Coréia do Norte apenas dispunha de um velho modelo de torpedo de fabricação soviética. Carecia de qualquer outro elemento, salvo a lógica mais simples. Não podia nem sequer imaginar outra razão.

No passado mês de março, como primeiro passo, o governo da Coréia do Sul ordenou ativar os alto-falantes de propaganda em 11 pontos da fronteira comum desmilitarizada que divide as duas Coréias.

Por seu lado, o alto comando das Forças Armadas da República Popular Democrática de Coréia declarou que destruiria os alto-falantes logo que começassem a funcionar. Essa atividade tinha sido suspensa desde o ano 2004. A República Popular Democrática de Coréia declarou textualmente que transformaria Seul em um “mar de fogo”.

Na sexta-feira passada, o Exército da Coréia do Sul anunciou que levaria à prática essa medida logo que o Conselho de Segurança anunciasse suas medidas pelo afundamento do navio sul-coreano Cheonan. Ambas as repúblicas coreanas já têm o dedo no gatilho.

O governo da Coréia do Sul não podia imaginar que o seu aliado mais próximo, os Estados Unidos, tinham colocado uma mina no fundo do Cheonan, como relata em um artigo o jornalista investigador Wayne Madsen, publicado por Global Research no dia 1 de junho de 2010 com uma explicação coerente do acontecido. A referida explicação está baseada no fato de que a Coréia do Norte não tem nenhum tipo de míssil ou instrumento para afundar o Cheonan, que não pudesse ser detectado pelos sofisticados equipamentos do caça-submarino.

A Coréia do Norte foi acusada de algo que não realizou o que determinou uma viagem urgente de Kim Jong Il à China no trem blindado.

Logo que aconteceram estes fatos, na mente do governo da Coréia do Sul não houve nem haverá espaço para outro motivo possível.

No meio do ambiente esportivo e alegre o céu fica cada vez mais escurecido.

As intenções dos Estados Unidos da América são óbvias desde há muito tempo, na medida em que o seu governo age obrigado por seus próprios desígnios sem alternativas possíveis.

O seu objetivo – acostumados a impor seus desígnios pela força – é que Israel ataque as instalações produtoras de urânio enriquecido no Irã, usando os mais modernos aviões e o sofisticado armamento que irresponsavelmente fornece a superpotência. Esta sugeriu a Israel, que não tem fronteiras com o Irã, que solicitasse licença à Arábia Saudita para sobrevoar um longo e estreito corredor aéreo, reduzindo consideravelmente a distância entre o ponto de partida dos aviões atacantes e os alvos a serem destruídos.

Segundo o plano, cujos trechos essenciais foram divulgados pela inteligência de Israel, ondas de aviões atacarão uma e outra vez para destruir os alvos.

No passado 12 de junho, importantes órgãos de imprensa ocidentais publicaram a notícia sobre um corredor aéreo concedido por Arábia Saudita a Israel, prévio acordo com o Departamento de Estado norte-americano, visando realizar ensaios de vôo com os caça-bombardeiros israelenses para efetuar um ataque-surpressa ao Irã, que já eles tinham levado a cabo no espaço aéreo saudita.

Porta-vozes do Israel nada negaram, limitando-se apenas a declarar que os referidos países sentiam mais temor pelo desenvolvimento nuclear iraniano do que o próprio Israel. No dia 13 de junho, quando o jornal Times, de Londres, publicou uma informação tirada de fontes de inteligência assegurando que a Arábia Saudita divulgou um acordo que concede licença a Israel para a passagem através de um corredor aéreo sobre o seu território para atacar o Irã, o Presidente Ahmadinejad declarou, ao receber as cartas credenciais do novo Embaixador saudita no Teerã, Mohamad ibn Abbas al Kalabi, que existiam muitos inimigos que não desejavam relações estreitas entre ambos os países"... Mas se o Irã e a Arábia Saudita estão unidos, os inimigos renunciarão a continuar com a agressão...”

Do ponto de vista iraniano, no meu entender, essas declarações eram justificadas, quaisquer que fossem os motivos para fazê-las. Possivelmente não desejava lastimar no mais mínimo os seus vizinhos árabes.

Os ianques não disseram uma palavra, apenas para refletir mais do que nunca o seu fervente desejo de destruir o governo nacionalista que dirige o Irã.

É preciso perguntar agora quando o Conselho de Segurança analisará o afundamento do navio Cheonan, que era o navio insígnia da Armada Sul-coreana; que conduta seguirá depois que os dedos nos gatilhos das armas na península coreana as disparem; se é certo ou não que a Arábia Saudita, segundo o Departamento de Estado, autorizou um corredor aéreo para que as ondas de modernos bombardeiros israelenses ataquem as instalações iranianas, o que possibilita, inclusive, o emprego das armas nucleares fornecidas pelos Estados Unidos.

Entre um jogo e outro da Copa Mundial de Futebol, as diabólicas notícias vão sendo colocadas de pouco e pouco, de maneira que ninguém se ocupe delas.

Fidel Castro Ruz

Agência Cubana de Notícias

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Príncipe saudita, em carta à família, ontem: “Vamos embora, antes que nos cortem a cabeça!”




PressTV, Teerã – traduzido por Caia Fittipaldi

O príncipe saudita Turki bin Abdul Aziz Al Saud alertou a família real para que abdique do trono e fuja, antes que um golpe militar ou um levante popular os derrube e ponha fim à dinastia.

Em carta publicada pela agência de notícias Wagze na 4ª-feira, o príncipe saudita, que vive no Cairo, alertou a família reinante na Arábia Saudita, de que a espera destino semelhante ao do ditador Saddan Hussein e do Xá iraniano Mohammad Reza Pahlavi: “fujam antes que o povo nos corte a cabeça na rua.”

Disse que a família real saudita já não é capaz de “impor-se ao povo”, porque os desvios dos conceitos religiosos que são a base do governo saudita “escaparam a qualquer controle”. A oposição entende nossos atos como “intervenção na vida privada e restrição às liberdades”.

“Se somos sábios, temos de entregar o país ao povo, que nos detesta mais a cada dia que passa” – escreveu o Príncipe Turki, aconselhando os funcionários e membros da monarquia a fugir com suas famílias.

“Partam hoje. O que temos é suficiente para vivermos em qualquer lugar do mundo, da Suíça ao Canadá, Austrália... Devemos partir já, enquanto podemos partir em segurança, e não devemos voltar. Temos de reunir a família e sair imediatamente”, o Príncipe insiste.

“Não se enganem. Não confiem em EUA ou Grã-Bretanha ou Israel, porque eles não sobreviverão ao nosso fim. A única porta ainda aberta para nós é a porta de saída, sem volta. Temos de partir antes que essa porta também se feche.”

Por fim, alerta para um golpe militar contra a família: “não nos atacarão de fora, mas de dentro, nossas forças armadas nos atacarão.”

O príncipe Turki é membro da organização liberal “Príncipes pela Democracia”, fundada nos anos 1950, no auge das tensões entre o rei Faisal e seu irmão rei Saud, para lutar por reformas políticas na Arábia Saudita, e por uma Constituição.

O falecido rei Faisal expulsou para o Egito membros de vários grupos que reivindicavam respeito aos direitos civis, mas adiante os perdoou.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Prince warns S. Arabia of apocalypse


Havana celebra décima edição da Semana Social Católica


Teve início ontem (16), na arquidiocese de Havana, a décima Semana Social Católica em Cuba, com o objetivo de promover um espírito de reconciliação, compreensão e consenso entre os diversos âmbitos da sociedade cubana, sob o lema "Testemunhas da esperança e promotores da Paz".

As atividades continuem até o próximo sábado (19) e contam com a presença do secretário para as relações com os Estados, monsenhor Dominique Mamberti. Além de participar da Semana Social sua visita tem como objetivo comemorar os 75 anos de relações entre o Estado Vaticano e a República de Cuba. Seu roteiro também inclui reuniões com as autoridades e encontros e celebrações com a Igreja local.

Para outras informações, acesse http://www.aica.org/.

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"Qualquer pessoa é criminosa quando promove uma guerra evitável, e também o é quando não promove uma guerra inevitável." (José Marti)

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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quinta-feira, 17 de junho de 2010

Pau que bate em Chico às vezes é entubado em Francisco, mas com vaselina

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Fernando Soares Campos

O TSE já recebeu e acatou diversas representações dos tucanos contra a militância petista/dilmista. Lula e Dilma já foram multados diversas vezes. Agora o TSE decidiu pedir ao Google os dados dos responsáveis por um dos muitos blogs administrados por militantes pró candidatura Dilma, o dilma13.blogspot.com, o qual se identifica como "o maior portal da Dilma Rousseff na internet".

(O blog oficial de Dilma é dilmanaweb. Aproveite o embalo e dê uma “espiadinha”: “Jornal Le Monde entrevista Dilma” - 16.06.2010 - O jornal Le Monde falou com Dilma Rousseff e tratou de temas importantes do Brasil. Leia abaixo a reportagem, cujo título é "De Paris, a herdeira de Lula se projeta no cenário internacional".)

Mas, como aquele juiz de futebol que marca diversas faltas (“perigo de gol”, por exemplo) para beneficiar a equipe dona do apito e, quando precisa dissimular sua desonesta atuação, acaba marcando “falta leve” do atacante dessa mesma equipe, assim o TSE acabou aceitando pedido para multar o PSDB por propaganda difamatória contra a candidata do PT à Presidência.

Conforme denúncia do Ministério Público, o PSDB tem permitido que internautas façam comentários “cujo conteúdo demonstra a existência de notória propaganda eleitoral antecipada negativa em desfavor de Dilma Rousseff e positiva em favor de José Serra”.

(Com esse pessoal que hoje faz oposição ao governo Lula a coisa funciona como no ditado popular que adverte para o fato de que “a corda arrebenta do lado mais fraco”; nesse caso, a “militância descontrolada” do PSDB é quem paga. “Falta leve". "Compensatória”?)

A representação visou apenas os comentários de leitores (“militantes”) que se manifestam de forma agressiva e difamatória. Se a acusação atingisse o partido em si, e não apenas a “militância”, certamente poderíamos acreditar que, em caso de vitória de Serra (toc toc toc), ele estaria sujeito às mesmas penalidades anunciadas pelo ministro Marco Aurélio semanas atrás: a cassação do mandato.

Outro dia o Paulo Henrique Amorim alertou:

“O Ministro Marco Aurélio Mello vem aí, de martelo em punho, para cassar o Lula e a Dilma de um só golpe.O amigo navegante duvida que o Ministro Mello casse o Lula, “o cara”, o governante mais popular do mundo? Amigo navegante, não se iluda. O Ministro Mello é capaz disso e muito mais. Ainda mais agora, que ele está no centro do palco e seu êmulo, Ele, o ex-Supremo Presidente do Supremo, recolheu-se à ministerial insignificância.”

A administração do site tucano informa que os comentários do gentequemente são moderados. “Nossos comentários são aprovados por um moderador para garantir que o conteúdo publicado seja relevante para os demais leitores, de acordo com o objetivo do blog.”

Ora, se o TSE multou o site, então, julgou exatamente a conivência dos seus administradores, a conivência do PSDB, a conivência de Serra com esses “militantes”. E aí, como é que fica? Serra pode ser cassado por isso? Certamente alguém dirá que sim. Mas o cara-de-pau não vai ser eleito mesmo, portanto só Dilma estaria ameaçada de verdade.

Em maio, o ministro do TSE Joelson Costa Dias julgou improcedente representação do PT contra o site (daquela) gente que mente descaradamente na tentativa de eleger Serra do PSDB de FHC presidente da República.

O site tucano não é de militante aguerrido, bicho solto, franco-atirador, ou coisa assim, como acontece com os inúmeros sites que defendem a candidatura petista. O gente que mente é (como se pode deduzir pelo próprio nome) do PSDB. É administrado por aquele tipo de gente(?) que costuma dizer “sou, mas quem não é?” Aquela gente confessa que o site é realmente do partido, pois eles não têm militância espontaneamente motivada, que neles acreditem de verdade e que trabalhem em prol dos seus candidatos por acreditarem nas propostas do partido. Não, nada disso existe no conluio formado pela dobradinha PSDB-DEM. Lá os “militantes” são arrebanhados a R$ 35,00 por cabeça, para participar de eventos do partido. O responsável pelo site do PSDB alega que “gente que mente” é instrumento partidário da oposição contra o que eles chamam de “mentiras do governo”.

Acompanhe o caso.

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TSE pede ao Google dados sobre responsável de blog pró-Dilma

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Da Redação

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pediu ao Google Brasil informações sobre o responsável pelo site dilma13.blogspot.com. A decisão, do ministro Henrique Neves, estabelece prazo de 24 horas, contado a partir do recebimento da notificação, para que os dados sejam entregues.

A ação contra o Google foi movida pelo Ministério Público Eleitoral (MPE), que considerou que a empresa hospeda o site no qual os responsáveis não podem ser identificados. O MPE sustenta que o blog possui matérias que enaltecem a pré-candidata pelo PT à Presidência, Dilma Rousseff, inclusive com pedido de ajuda financeira “pretensamente destinada não só as despesas do próprio blog, mas, também, à confecção de vários tipos de materiais de campanha eleitoral”.

O blog também apresenta o jingle da campanha de Dilma, e trechos como “Vamos eleger a primeira mulher presidente do Brasil, Dilma Rousseff. É lula outra vez. Não tem retrocesso”, e “O Blog da Dilma, o maior portal da Dilma Rousseff na internet, independente e com a cara e a alma da militância petista continuará lutando para que as mudanças promovidas pelo presidente Lula e seu Governo continue nas mãos da nossa companheira Dilma Rousseff...”. Na página, há a informação de que o blog pertence a Daniel Bezerra de Oliveira.

Segundo o MPE, a página desobedece os artigos 36 e 57-A, da Lei das Eleições (9504/97), já que a propaganda eleitoral só é permitida a partir do dia 06/07. De acordo com a ação, o site deve ser retirado imediatamente do ar, para que a disputa eleitoral “obedeça aos ditames de equilíbrio entre os candidatos”. O MPE também alega que os responsáveis pelo site devem responder pela ilegalidade.

O ministro do TSE acatou o pedido do MPE por entender ser possível notar no blog elementos que, em princípio, demonstrariam a realização de campanha eleitoral antecipada. “Exemplo claro disto é a divulgação, não apenas como informação, do jingle da campanha”. Para o ministro, esses elementos justificam a quebra da relação de confidencialidade entre o provedor de hospedagem e o usuário.

Com informações do TSE.

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E a internet deu na Globo. A web é ingovernável

Tijolaço.com

Brizola Neto

Piada do ano, a campanha “Cala a Boca, Galvão”, que se tornou uma febre na internet é mais que uma brincadeira jocosa com o narrador. É a prova do poder da internet – e do bom humor – sobre moribundo monopólio da Globo na cultura de massas. Em alguns dias, centenas de vídeos, com milhões de exibições, explodindo no twitter e no youtube puseram para fora o que todo mundo já pensava: o Galvão é muito chato e prepotente!

Mas porque é que eu estou falando nisso aqui? É porque estas decisões do TSE, de multar o site gentequemente, do PSDB, e de ameaçar o Blog da Dilma13 são, na minha visão, mais do que um equívoco, uma inutilidade.

Teve gente que saudou a multa ao site do PSDB. Eu não, mesmo sendo o responsável pela denúncia daquele veículo de difamação contra Lula e Dilma. Desta acusação os tucanos foram absolvidos. A multa, na verdade, é por terem deixado os comentaristas se expressarem com o que consideraram propaganda eleitoral antecipada.

Ora, isso é absurdo. O PSDB patrocinou aquilo, não foi uma iniciativa de indivíduo, mas do partido, em nome de quem o site está registrado. Quando se coloca Lula com nariz de Pinóquio e se repete nauseantemente que Dilma mente, o que poderia ter surgido nos comentários? Evidente.

Esta decisão é muito ruim e abre um gravíssimo precedente. Se a gente quiser, vai achar manifestação em favor de Dilma e de Serra em todos os sites que permitem comentários, inclusive nos portais dos jornalões. O TSE vai multar o blog do Reinaldo Azevedo pelos comentários pró-Serra ou a todos os blogueiros onde há gente que diz que Dilma é a melhor?
Eu já disse que penso que sites e blogs de políticos devem ser claramente identificados. Se é do próprio, mas também se é de responsabilidade de pessoas que os apoiam, deixando claro que não são porta-vozes deles. O Blog da Dilma, com o qual até já tive uma rusga, está identificando seus responsáveis. Não é preciso intimidação para que se obtenha esta informação. São pessoas, não uma instituição ou um partido que o faz, é a expressão de seus pensamentos. O pedido de colaboração que fazem é legítimo e fica claro nele que não é para campanha eleitoral. Milhares de outros sites pedem colaboração para se manter, e é um direito de cada um dar ou não, sem qualquer vantagem em troca.

A internet é ingovernável e isso é ótimo. Esta piada do Galvão mostrou isso.

A campanha eleitoral, por indivíduos, existe independente da lei e é legítima. A própria lei eleitoral, inclusive, admite isso, ao tratar, por exemplo, de camisetas de candidatos. É proibido fazê-las em série ou distribuí-las, de forma comercial ou não. Mas o eleitor pode usar uma em que ele manifeste, individualmente, sua preferência.

O comentário é assim, uma manifestação individual. Outra coisa diferente é a campanha partidária.

Fingir que não há uma campanha em curso – embora seja correto impedir certas atividades, até o período oficial – é uma atitude que não leva a nada. Ou melhor, leva a punir um e a não punir outro, o que acaba sendo discricionário, arbitrário.

Aliás, falando nisso, a transgressão de Serra à lei nos programas do DEM e do PPS vai continuar a ser solenemente ignorada? Vamos ler um por um os comentários dos sites e não assistir uma rede de TV que entra na casa de milhões de brasileiros?

* * *

E isso aí, nós que fazemos a Agência Assaz Atroz já havíamos chamado a atenção do pessoal do blog dilma13.blogspot.com para a questão de eles estarem divulgando um gingle em favor de Dilma. Confira: A Praça Castro Alves é do povo, mas ninguém pode defecar na cabeça da estátua do poeta; exceto os pombos

Pelo visto, pau que bate em Chico, às vezes é entubado em Francisco, mas com vaselina. E ele nem chia...

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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Rui Martins entrevista o ministro Celso Amorim na Conferência da OIT

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Rui Martins*

A política salarial do Brasil teve destaque na abertura ministerial da Conferência da Organização Internacional do Trabalho (OIT), aqui em Genebra. De manhã o ministro do Trabalho, Carlos Roberto Lupi falou na sala das assembléias sobre a questão do trabalho decente e das metas alcançadas pelo Brasil no setor laboral. No começo da tarde o ministro das Relações Exteriores Celso Amorim foi o convidado para participar de um debate de alto nível, versando sobre as medidas brasileiras, isso porque o Brasil tem lugar de “vedete”, com suas iniciativas de Bolsa Família e escola, como mostrou a passagem, no ano passado, do presidente Lula na OIT. Amorim conta o que falou e aborda a questão da idade da aposentadoria.

Ministro Celso Amorim: – [São] Temas ligados ao pacto do emprego e também aos objetivos do milênio. E eu procurei transmitir mensagens que decorrem da própria realidade brasileira de que a justiça social é não só possível mas necessária para o crescimento, que implica, naturalmente, emprego, trabalho decente, enfim, são os temas também da agenda da OIT.

Rui Martins: – Ministro, o senhor sabe que aqui na Europa a crise desencadeou aquela questão da aposentadoria, no Brasil haveria esse risco de se pensar também a mesma coisa?

MCA – Não. Primeiro que o Brasil está crescendo, o Brasil vai crescer 7% este ano. Os economistas mais cautelosos já acham até que é muito, então, não há essa preocupação, nós não temos essa preocupação com esse aspecto. Acho que ao contrário, o Brasil continuará a crescer de maneira sustentável nos próximos anos, não há perigo de nós diminuirmos os direitos sociais. Os direitos sociais naturalmente têm que ser expandidos, gradualmente, e assim ocorrerá. Parte, aliás, da explicação do sucesso da economia brasileira, são os programas de transferência de renda, o aumento do salário mínimo, os outros programas sociais de apoio à agricultura familiar, tudo isso contribuiu para que o Brasil crescesse, enfrentasse a crise, criasse empregos, inclusive empregos formais durante a recessão mundial. Nós estamos tranquilos.

Rui Martins, de Genebra, para a Rádio França Internacional.

Transcrição de áudio: Assaz Atroz

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*Ex-correspondente do Estadão e da CBN, após exílio na França. Autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criou os Brasileirinhos Apátridas e propõe o Estado dos Emigrantes. Vive na Suíça, colabora com os jornais portugueses Público e Expresso, é colunista do site Direto da Redação. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

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terça-feira, 15 de junho de 2010

A presença de espírito do Toninho da Paraíba e o espírito de porco da madame sulista

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Raul Longo
Foto: Jasmim Losso Arranz

Calma que o Toninho da Paraíba não é personagem de minha ficção e seus argumentos, aqui reproduzidos, demonstram como o programa Bolsa Família está prejudicando um importante e significativo segmento da história político/social brasileira, com profundas influências culturais, notadamente em nossa literatura.

Seja o leitor um entusiasta ou detrator do Bolsa Família, nos argumentos do Toninho encontrará maior substancialidade do que na condenação do programa porque o cunhado do primo da vizinha da cozinheira só colocou os meninos na escola para passar o dia enchendo a cara de cachaça.

Ainda vejo mais futuro do que se as crianças tivessem de trabalhar pra comprar a cachaça ou ficassem em casa assistindo a bebedeira, mas o Toninho da Paraíba, motorista do Parque da Aclimação tal qual o descreve um amigo meu, e adiante transcrevo, apresenta muito mais conteúdo a respeito do assunto, e vale a pena conferir. Asseguro maior consistência do que o condenar Henry Ford, porque tem gente que não respeita o sinal vermelho.

Os parágrafos preliminares se devem ao fato de este texto ser resposta à uma correspondente tucana, ainda que eleitora da Marina nas próximas eleições (uma tendência marcante que ainda não compreendi o motivo nem tenho coragem de perguntar).

Estranhei o nítido empenho da moça em bajular-me por dotes que sequer reconheço e, como informou pretender me visitar em próxima viagem a esta cidade, imaginei que pretenderia pouso e guarita a custos módicos. Maldade de minha parte e só a percebi ao final, quando reparo que à mensagem se anexara um PowerPoint sobre o qual a mensagem não se referia.

Abro o anexo, é um desses que tantas vezes já recebi – e provavelmente vocês todos – comparando o Bolsa Família com a ceva de caça de porco do mato. Uma bobagem enorme, mas que, apesar de apontar no Bolsa Família a implantação do comunismo, me espanta pela similaridade a argumentos de outros amigos que se requerem como comunistas.

Não trato do assunto com a moça, dedicando-me a demonstrar a inutilidade de seus esforços na tentativa de conquistar-me alguma consideração ao anexo no qual deve encontrar as mesmas proficiências que outros encontrariam se trocadas as palavras “comunismo” por “clientelismo”.

Como não encontrei no anexo o que justificasse mantê-lo aqui além de referências sublineares, reafirmo que o real interesse desta postagem é exclusivamente as impressões do taxista.

Wera:

Então a estarei aguardando, mas não se entusiasme tanto com isso de poço ou mar de cultura, não. Na verdade nem dou tanto valor assim à cultura, quanto a valorizam.

Não é que desvalorize aqueles que realmente a possuam, mas percebo que a maioria das pessoas constroem um grande mal entendido, confundindo duas coisas que não têm absolutamente nada a ver uma com a outra, no que se refere a interdependência entre si: cultura e inteligência.

Chegou-se a um tempo em que nossa obtusidade a respeito dos sentidos dessas palavras nós leva até a confundir inteligência com oportunismo. Lembro-me das muitas vezes em que ouvi apontar como muito inteligente um recordista mundial de besteiras e bobagens ditas em público: o Sílvio Santos. Quando me indignava com tamanho despropósito, explicavam como verdade inquestionável: “Se não fosse inteligente, não teria ganhado tanto dinheiro.”

Do primarismo de raciocínio do brasileiro médio, se concluiria que Albert Einstein nunca passou de um perfeito idiota por não ter reunido grande fortuna. Sócrates, não o jogador, o filósofo que o mundo inteiro considera o primeiro gênio da história da humanidade, no Brasil seria o mais imbecil dos seres humanos. Nasceu, viveu e morreu na pobreza.

Conheci muita gente bem mais culta do que eu, independente de serem mais pobres ou mais ricas. No meu entender, Wera, cultura, com o sentido de “o cabedal de conhecimentos, a ilustração, o saber de uma pessoa ou grupo social”, nada mais é do que coleção de conhecimentos. Algo mecânico. Se você ou qualquer outra pessoa ler todos os livros que li, terá a mesma cultura que tenho. Os que leram mais do que li, são mais cultos. Apenas isso.

Infelizmente nossa formação brasileira tem sido, ao longo de cinco séculos, das piores do mundo, só comparável a dos mais pobres e espoliados povos do hemisfério sul. Isso formou uma classe média medianamente informada, mas de idiotia arrematada e arrebatada, onde é comum nos acharmos o suprassumo da sabedoria, por termos lido esses ou aqueles autores consagrados lá na Europa.

O ridículo não é o que ignoramos, mas sim a prepotência de nos acharmos distintos, por todos os parâmetros observados, daqueles que, por dificuldades de sobrevivência, não tiveram condições de melhor se informar.

Arthur Schopenhauer, um dos mais importantes filósofos e sábios alemães, tem uma frase que nos cabe muito bem. Não vou lembrá-la exatamente, mas, em suma, ele afirmava que à gente simples e trabalhadora do povo é compreensível a ignorância, pois dedicam os momentos de suas vidas à obtenção de meios de sobrevivência. Mas que os indivíduos das classes privilegiadas que não se utilizam do ócio de que dispõem para alimentar seus espíritos, se assemelham ao gado. Ou aos porcos, se preferir.

Se um dia for ao Peru, um país muito mais pobre do que o nosso, e puder conviver com os poucos naturais peruanos de classe média e que tiveram acesso aos estudos, perceberá quanto são incomensuravelmente mais cultos e tem mais informações do próprio país e da história de seu povo, do que a média dos brasileiros formados em cursos superiores através de um sistema de ensino que sempre privilegiou uma elite em permanente estado de decadência.

Nossos cursos universitários, antes do PROUNI, sempre foram de acesso privilegiado às elites econômicas, no entanto a mais clara evidência de permanente decadência dessas elites e de seus aproximados da classe média, está exatamente nessa incapacidade de reconhecer no pobre, no marginalizado, nas faixas sociais sem oportunidades de evoluir para melhores condições de sobrevivência, a origem de todos os males que afetam a sociedade brasileira por inteiro.

Fomos um país pobre porque espoliados por potências estrangeiras? Sim. Fomos um país pobre porque nossos governos eram corruptos e apenas serviram como corretores de nossos potenciais, colocando-se a serviço de exploradores estrangeiros? Sim. Mas, sobretudo, fomos um país pobre porque nossas elites, ao contrário do que ocorre em sociedades desenvolvidas, ainda são incapazes de perceber que também são vítimas das doenças geradas na miserabilidade à que mantém a maioria do país. E essa nossa estupidez na condição de elites sociais escandaliza os olhos do mundo por tão tremenda incapacidade de percepção do quanto a miséria que nós mesmos produzimos nos contamina.

Aos olhos estrangeiros somos apenas os mais gordos, mas nem por isso menos porcos e exatamente por isso muito mais abjetos e nojentos do que a gente mais pobre do nosso povo.

Para qualquer lado de nossa história que se olhe, encontraremos profusos exemplos das razões dessa abjeção do mundo pela estúpida classe média brasileira. Me ocorre agora, no momento, a história de dois bairros paulistanos que, em verdade, é um só: Bexiga ou Bela Vista. Bela Vista era a parte alta, ocupada pelos casarões senhoriais próximos à Av. Paulista, de onde os barões do café descortinavam o centro da cidade e a baixada do vale do rio Anhangabaú. A baixada que desce daqueles altos à margem do rio também chamava-se Bela Vista, e ali os senhores do café e, mais tarde, industriais, alojaram seus empregados, então chamados “carcamanos”. Eram os italianos que vieram fugidos da miséria na Europa e, hoje, foram esquecidos por seus descendentes de classe média que imitam os mesmos preconceitos de que seus avós foram vítimas.

Pois com esse mesmo olhar preconceituoso que os descendentes da miséria europeia olham para os emigrantes nordestinos que atualmente ocupam aquela baixada, seus avós eram vigiados lá de cima, da Bela Vista dos paulistas quatrocentões. Quando a epidemia de varíola se alastrou por aqueles cortiços, os barões da Paulista solucionaram o problema designando aqueles baixios pelo nome popular da doença: Bexiga.

Evidente que a mudança do nome de parte do bairro não resolveu o problema, mas não foram os corpos de crianças e adultos nas calçadas que provocaram alguma emoção como, hoje, os mendigos amontoados sob os viadutos não emocionam os netos dos “carcamanos”. Naquela época, as elites paulistanas só se deram conta de que a varíola que grassava pela miséria de seus empregados seria um problema comum a todos, quando seus próprios filhos começaram a morrer da mesma bexiga. Por isso se canalizou o rio Anhangabaú, que se estendia do bairro de Pinheiros ao rio Tamanduateí, pelo leito onde hoje corre a Avenida 9 de Julho.

Mais do que bens materiais da falida elite do café, herdamos a estupidez agravada pela insensibilidade do individualismo consumista promovido pelos meios de comunicação. Para espanto da Europa de onde ascendemos e de qualquer civilização um pouco mais evoluída, não conseguimos perceber que se atingimos um dos maiores índices de violência da história da humanidade, com mais mortes diárias por arma de fogo do que em países em guerra como as da Ásia ou do Oriente Médio, se deve exatamente por promovermos e mantermos essa miséria.

O mundo inteiro percebe e comenta nossa injusta concentração de renda. Nós nos limitamos a chafurdar nossos focinhos no lamaçal de nossa ignorância e não enxergamos a realidade do abate como objetivo final de nossa engorda consumista.

Não somos capazes sequer de perceber que nossos filhos são vítimas evidentes dos miasmas da bexiga e achamos que basta construir mais e mais presídios para evitar o estupro de nossas filhas, o crack de nossos meninos, nosso sequestro, invalidez ou morte cotidiana por bala perdida. A cada assassínio, sequestro ou caso de meninos da classe média que se inutilizam pelas drogas, nos sensibilizamos e pedimos mais presídios e mais polícia.

E quando os presídios são tantos que os poderes públicos, incompetentes ou impotentes, não conseguem impedir que de dentro de um deles, de segurança máxima, uma facção do crime organizado, de uma das mais populosas cidades do mundo, capital do estado mais rico do país, mantenha suas atividades ilícitas, comandando sequestros, assaltos, assassinatos, tráfico de drogas e o que bem mais entender? [Acredita-se que elementos dessa natureza só conseguem atuar se contarem com a cobertura de agentes internos e externos, sejam bandidos à paisana ou fardados.]

Metade das chacinas que ocorreram em São Paulo nos últimos três anos, conforme reconhece a própria Secretária de Segurança do Estado, foi promovida pela polícia paulista, que entrega refém a sequestrador e abate os leitões da classe média na frente de seus pais.

E quando a demanda por mais e mais polícia é tanta que os poderes públicos, impotentes ou inconsequentes, não dão conta de selecionar e treinar agentes da repressão que irão matar nossos filhos em nossos portões de classe média?

Será que aí se acenderá alguma luz em nossa mentalidade tacanha e obscura? Medieval!

Não! Nem assim! Apesar da segurança pública nas cidades e nos estados ser uma responsabilidade dos governos dos estados, como o é em todo o mundo, somos beócios o suficiente para responsabilizar a quem não cabe tal responsabilidade. Poderá ser o governo federal, caso seja ocupado por alguém a quem nossos estúpidos preconceitos eleger como a raiz de todo o mal; tal qual na Idade Média, os preconceitos religiosos dos inquisidores destinavam às fogueiras as mulheres, para regozijo da imbecilidade dos burgos. Para a imbecilidade dos burgos brasileiros, pobres, negros e nordestinos, hoje, são os possuídos pelo demônio como antes foram as bruxas da Inquisição.

Mas há uma responsabilidade que, como em todo mundo, cabe sim ao governo federal. Sempre foi uma responsabilidade de todos os governos federais de qualquer lugar do mundo, embora, aqui no Brasil, nunca tenhamos protestado nem distribuído mensagens pelos correios reclamando por essa responsabilidade jamais assumida. A responsabilidade de tornar esse país real e socialmente democrático, com condições dignas de sobrevivência para todos, de todas as classes sociais, origens raciais, formações culturais e condições econômicas.

E é por essa nossa inércia, por essa nossa conivência com a irresponsabilidade política dos governos deste país, que éramos um dos países mais pobres e atrasados do mundo. E o mais abjeto e ignorado também.

Acontece, Wera, que nós da classe média brasileira somos tão primários que sempre nos limitamos a entender democracia como o movimento eleitoral pelo qual de quatro em quatro anos escolhemos se queremos um governante que fale português castiço e perfunctório como o de Jânio Quadros, ou um bonitinho filho das elites como Fernando Collor de Melo, ou alguém culto e poliglota como Fernando Henrique Cardoso.

O problema é que a cada um desses, os miasmas da moléstia da bexiga mais se alastrou até invadir as praias da zona sul do Rio de Janeiro. Não gostamos disso, não nos agrada a erupção das chagas da bexiga às nossas vistas. Mas quando, enfim, nossa história avança, e um governo federal resolve tomar uma atitude efetiva para conter o crescimento da miséria, desenvolvendo um programa que se notabiliza no resto do mundo e cuja eficiência vem sendo copiada na Alemanha, nos Estados Unidos, na Rússia, na Itália e em outros países do hemisfério norte e da Ásia, cheira-nos mal.

Claro! Não se dá perfumes aos porcos!

Mas, se a Bela Vista é a Bela Vista e o Bexiga é o Bexiga, pra que canalizar o Anhangabaú? Se a favela está no alto do morro, o que tenho a ver com a situação de risco dos barracos? Só não quero é que invadam minha Vieira Souto com um arrastão! Aí eu chamo a polícia e quero mais presídios!

Wera, conheci gente muito mais culta do que eu, mas totalmente inapta para dirigir a própria vida, gerir a própria família, carente de alguém que orientasse seus passos, gente paralisada pelo medo de errar. São pessoas que vivem como guias conduzidos por cegos.

Por outro lado, por onde analisarmos a História brasileira, encontraremos exemplos da estupidez de nossos preconceitos. Outro ao acaso e que nos é próximo, Cruz e Souza, que na França era ídolo de Mallarmé e Baudelaire, considerados responsáveis pelo maior movimento cultural da época em que viveram. Aqui nesta Santa Catarina viveu miseravelmente o brasileiro Cruz e Souza, embora Mallarmé e Baudelaire o declarassem como o verdadeiro mestre do movimento cultural que promoveram. No entanto, por ser negro, Cruz e Souza morreu no Rio de Janeiro e seu corpo foi transportado num vagão de carga, dentro de um caixote de tábuas podres, acompanhado apenas pela viúva.

De lá pra cá, em que mudamos? Onde deixamos de ser tão imbecis e incapazes de superar os preconceitos que nos tornam uma das elites mais atrasadas e mesquinhas do mundo? Uma vergonha para o sentido da palavra humanidade ou qualquer senso mínimo de humanismo?

De que me adianta tudo o que li, Wera, se não sou capaz de explicar aos meus amigos norte-americanos, aos meus amigos alemães, espanhóis, coreanos, japoneses, ingleses e de tantos países do mundo (se vier para cá você os conhecerá) a razão da estupidez dos brasileiros incapazes de perceber a importância do Programa Bolsa Família?

O que dizer a eles? Me dê uma sugestão, Wera! Dizer que seja pelo medo do comunismo? Qual, se nos últimos 8 anos o capitalismo brasileiro se fortaleceu como nunca e o mais importante conselho do mundo capitalista, o de Davos, criou uma condecoração só para homenagear Lula como Estadista Global? Nunca nenhum presidente brasileiro foi tão condecorado pelos principais países, instituições e governos capitalistas do mundo! Meus amigos iriam rir da minha cara!

Dizer que Lula é um “apedeuta”? Entre meus amigos estrangeiros há os que conhecem o português e sabem que apedeuto é um adjetivo de dois gêneros. Esses desprezariam o ridículo da prepotência de minha ignorância ao querer acusar a ignorância de outro, sem ao menos ter noção básica de nosso idioma.

O que dizer Wera? Como explicar? Me sugira, por favor! Me diga como justiçar que nossa classe média seja tão estúpida que não é capaz de ver que, assim como a bexiga da baixada do Vale Anhangabaú, a violência invade suas casas, tal qual a crise econômica invade as mais tradicionais e fortalecidas economias do hemisfério norte, as quais, hoje, reconhecem o Programa Bolsa Família como uma das principais razões da crise internacional não nos ter atingido além de um efeito marolinha?

Realmente, Wera, não tenho cultura e sequer inteligência para explicar, justificar, o tamanho da mesquinhez da classe média do segundo país que mais cresce economicamente no mundo, mantendo programas sociais exemplares e elogiados pelos analistas de todos os continentes, enquanto a grande maioria das nações amarga uma recessão sem comparativos em suas histórias.

Gostaria muito que você me ajudasse, mas um amigo inglês que acaba de me visitar relatou uma conversa com um motorista de táxi que ao menos servirá para demonstrar a todos estrangeiros que conheço, que nem todos brasileiros somos tão estúpidos e porcos de espírito como lhes parece.

Esse amigo, também estrangeiro – inglês, como disse – é diretor de marketing de tradicional seguradora paulistana e, como não gosta de dirigir em São Paulo, onde mora há muitos anos, diariamente usa o mesmo táxi que faz ponto próximo à sua casa, no Jardim da Aclimação. Ficou amigo do taxista, um paraibano chamado Antonio. Pois o Toninho Paraíba, como é conhecido lá no ponto da Aclimação, relatou ao amigo que anualmente visita sua cidade natal e as cercanias dos sertões de sua origem, onde tem encontrado, nos últimos anos, diversos comércios dos mais variados gêneros.

Observando tal fato e lembrando-se de que até uns 6 ou 8 anos atrás, em cada pequena cidade daquelas só havia uma casa de comércio, invariavelmente de propriedade direta ou indireta do maior latifundiário local, onde sempre se operavam preços escorchantes pela falta de concorrência; Toninho Paraíba chegou a uma conclusão lógica, denotando que sua inteligência independe da cultura formal que, de fato, não tem.

Visto que, através do Bolsa Família, mesmo aqueles excedentes do excesso de oferta de mão de obra barata, conseguem consumir o básico para manter a própria sobrevivência e dos filhos, o comércio local floresceu. Floresceu e provocou maior giro de dinheiro antes concentrado nas mãos dos coronéis. Com isso tem aumentado a oferta de trabalho, em parte absorvida pelo próprio comércio e em parte absorvida por pequenos agricultores que, igualmente beneficiados pelo giro de capital, agora conseguem investir em suas produções. Tendo a quem vender e como concorrer com o monopólio dos coronéis, esses pequenos produtores também propulsionam produções regionais que, em cadeia, colaboram com a produtividade do país como um todo.

Toninho Paraíba, que não tem muita cultura, mas é inteligente que só, concluiu daí a explicação da diminuição do fluxo de emigração de seus conterrâneos para São Paulo. Não sei se chegou a imaginar que isso diminuirá o inchamento das favelas e periferias do Sul Maravilha, mas concluir que, progressivamente o sucesso do programa diminuirá a violência das cidades do Sul Maravilha, é função nossa, da classe média deste Sul Maravilha. Afinal, não dá pra deixar todo o esforço de raciocínio só para a inteligência do coitado do Toninho. Aí já é abuso e muita preguiça! Depois não adianta reclamar do Alzheimer nem do Parkinson! O que não se usa ou deteriora ou atrofia!

Toninho não corre esse risco, porque foi capaz de perceber – veja você! – que não adiantará mais aquela lavagem que se atirava aos porcos para eleger os paus-mandado dos coronéis a cada eleição, pois não é mais por uma cestinha-básica às vésperas do pleito que o caboclo votará nesse ou naquele. Por mais pobre que seja, ninguém mais está confinado no chiqueiro das demagogias eleitoreiras para comer por alguns dias. Agora os currais eleitorais estão em baixa, porque tendo como sobreviver durante o ano todo desde que mantenha o comparecimento diário dos filhos na escola e o acompanhamento de saúde em dia, ninguém mais vai eleger aqueles que o explorarão por toda a vida como sempre fizeram desde que se proclamou a república neste país.

E isso de saúde, você sabe como é, sempre está atrelada à higiene. De forma, Wera, que queiramos enxergar a realidade ou não, uma coisa ou outra está mudando radicalmente nesse país: ou o lugar dos porcos, ou o da pocilga.

Claro que essas mudanças aborrecem muito aos coronéis das elites regionais e Toninho, que não é besta, já sentiu quanto eles têm-se incomodado com os salários de trabalhadores, que começam a deixar de se sujeitar às lavagem eleitoreiras, tampouco aos restos que lhes eram atirados apenas para continuarem vivos e trabalhando, da mesma forma que se engorda porcos para o abate. Hoje, os trabalhadores brasileiros exigem melhores salários, e, por mais que se crie propagandas e mensagens contra o Programa Bolsa família, não serão enganados por tais historinhas com as quais o Silvio Santos conseguia atrair otários ao Baú da Felicidade.

É mesmo de se esperar que, em contrapartida, a classe média sulista argumente que a solução é construir mais escolas, mas com a inteligência provinda da própria experiência de vida, Toninho sabe bem que essa é mais uma conversa pra porco dormir, pois nunca adiantou criar sala de aula pra criança com fome. Promessas de solução do problema da educação com construções de escolas, só serviram para financiamento de campanhas eleitorais pelas empreiteiras contratadas em vésperas de eleição, pois sequer tínhamos professores capacitados para ensinar nossas crianças, embora tivéssemos um professor da Sorbonne na presidência. Mas a Sorbonne é lá em Paris, e mais vale a inteligência de um Toninho Paraíba no Jardim da Aclimação do que um professor da Sorbonne que entregue de mão beijada ao estrangeiro o que de mais promissor poderá ter o futuro de todos os filhos de brasileiros de qualquer classe social: a reserva do Pré Sal. Concorda? Tem mais: aqueles privilegiados que se formavam com recursos próprios, também iam buscar oportunidade em terras estrangeiras.

Mas mesmo a construção de pocilgas disfarçadas de escolas, se tornou uma demagogia difícil de por em prática, pois ao longo dos últimos oito anos, independente de eleições, se têm libertado o povo desse país com a construção de 12 universidades e cerca de 120 escolas técnicas. O que há muitas décadas não se construía no Brasil. E quem está lhe dizendo isso não é nenhum PowerPoint apócrifo de algum covarde que, sem conhecê-la, se comunica com você como se estivesse se relacionando com um animal de curral que acredita em qualquer lavagem que lhe joguem como alimento de falsa informação.

Quem está afirmando isso sou eu, Raul Longo. Tenho nome e endereço em que aguarda sua visita para mostrar o belo pôr de sol do Sambaqui, além da confirmação dessas informações e do que foi deduzido pela inteligência do taxista Toninho da Paraíba, através do Google do meu computador. Caso você também tenha o Google ou qualquer outro programa de pesquisa de informações instalado no seu computador, nem precisará vir até aqui por isso, mas pelo pôr de sol, sim, vale a pena.

Só não espere essa tanta cultura da qual me imagina detentor. Para ser franco, sequer tenho a mesma inteligência do Toninho! Quando muito, o suficiente para não cair na conversa do ex-ministro da Saúde quando indicava como medida profilática à epidemia da H1N1, ou gripe suína, que “é só não chegar perto do nariz do porquinho”, como se Bexiga e Bela Vista fossem bairros diferentes.

De toda forma, querida, agradeço seus elogios a minha cultura que nem é tanta, mas, convenhamos, Werinha, cultura sem inteligência é mais ou menos como um soldado na guerra, armado até os dentes, mas que já sem as mãos para usar as armas ou sem os pés pra correr quando o bicho pegar novamente no front; ou mesmo como um “general pelado”, conforme observava uma índia velha argentina, avó do poeta Facundo Cabral.

Abraço grande!

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*Raul Longo é jornalista, escritor e poeta. Ponta do Sambaqui, 2886
Floripa/SC. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz


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segunda-feira, 14 de junho de 2010

Serra, o retorno do “Magnífico”?

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Quando compara, de forma jocosa, Lula a Luís XIV, Serra incorre em dois erros perigosos. O primeiro mostra a indigência política de sua maneira de ver o país. O segundo traz à cena o “padrinho" que precisa ser ocultado.

Gilson Caroni Filho

Nascido da tradição da Filosofia da História, o tempo lento, linear e previsível não costuma dar espaço para que surjam agitações trazidas por "eventos" desconstrutores de representações sedimentadas. No entanto, quando constelações específicas condensam a vida, restituindo sua dimensão dialética, estamos, sem dúvida, diante de atos ou fatos inaugurais quase sempre originados na esfera política.

José Serra, em discurso na convenção do PSDB que aprovou seu nome como candidato à sucessão de Lula, mostrou desconhecer quando a história se torna presente no espaço. Sua fala aparenta ser prisioneira de um passado que, por não poder ser explicitado para eleitores mais jovens, ameaça se voltar contra ele.

Ao dizer que “não tenho esquemas, não tenho máquinas oficiais, não tenho patotas corporativas e não tenho padrinhos", Serra tenta, em vão, esconder de onde vem e quais são suas companhias. Tanto o PSDB quanto o PFL, partidos da coligação vencedora da sucessão eleitoral em 1994 e 1998, foram criaturas concebidas e direcionadas a fim de se tornarem instrumentos viabilizadores das velhas elites no sistema político hegemonizado pelo neoliberalismo. O ex-governador paulista, velho militante da AP, ressurgiu como ator de relevo no bojo da velha conciliação negociada.

É isso que faz dele o ator antagônico das novas formas de articulação entre o Estado e a sociedade civil, forjadas nos últimos oito anos de governo Lula. O tucanato representa uma época em que qualquer demanda coletiva, mesmo quando meramente setorial, encontrava barreiras quase intransponíveis na desorganização e apodrecimento dos aparelhos institucionais do Estado cartorial, submetido aos ditames do mercado.

Quando compara, de forma jocosa, Lula a Luís XIV, Serra incorre em dois erros perigosos. O primeiro mostra a indigência política de sua maneira de ver o país. O segundo traz à cena o “padrinho" que precisa ser ocultado. O desmantelamento do consórcio tucano-pefelista combinou ampliação da participação com fortalecimento institucional. O presidente petista não expressou a ameaça de uma via personalista, carismática, na qual a institucionalidade se enfraqueceu e a participação popular aumentou de forma abrupta e inorgânica

Pelo contrário, dialogando com movimentos sociais, a inclusão de novos atores se deu de forma consistente, sem prejuízo do Estado Democrático de Direito. Antes o reforçou, na medida em que conferiu maior densidade e vitalidade aos partidos políticos, entidades de classe e ao próprio processo eleitoral.

A alusão ao monarca absolutista, a quem se atribui a frase "L’État c'est moi", não só não guarda sintonia com o momento de avanços democráticos em que vivemos, como remete à genealogia política do candidato da Rede Globo, revelando o apadrinhamento rejeitado. Sim, Serra não é pouca coisa. Pontificou como gente grande no poder quando o Palácio do Planalto, no início do governo de FHC, parecia o de Lourenço, o Magnífico, fino poeta e protetor das artes em Florença. Ele permitiu a falência do banco dos Médicis.

No segundo mandato, o Planalto ficou parecido com o palácio de Lorenzaccio, príncipe intrigante e sem prestígio, que assassinou o primo Alexandre e depois foi assassinado também.

Na trama palaciana do tucanato, um forte componente de sua personalidade era o orgulho e alta conta em que tinha a si mesmo. O que mais temia, no entanto, ocorreu: passou à história como um fracassado na economia e um fiasco na política, tolerante com os desmandos de seus aliados e com a corrupção. Esse é o legado que Serra, com o apoio da grande mídia corporativa e do judiciário partidarizado, pretende resgatar. Será isso o que queremos?

Pretendemos voltar a um período em que ação econômica instrumentalizava a política, fazendo dela um meio de coerção para maximizar fins acumulativos? Ou desejamos manter as conquistas de oito anos de governo democrático- popular, que, enfrentando a questão social, inverteu os termos da equação?

Em tempo: ignorando o intervalo de 57 anos, a madrugada fria de 10 de junho de 2010, trouxe de volta o tema do petróleo como questão de soberania. Das brumas de 3 de outubro de 1953, Vargas voltou a sancionar a Lei 2004, recriando a Petrobrás, com o restabelecimento do monopólio do Estado para exploração do nosso mais valioso recurso natural. Da névoa seca do Planalto, Lula retomou a campanha de “O Petróleo é Nosso", reinventando Brasília como capital da consciência histórica.

Como Carta Maior já destacou, “a decisão do Congresso representa derrota para o projeto de Serra e das petroleiras internacionais que lutaram até o fim para adiar votação, na expectativa de uma reversão do quadro político nacional, após as eleições de outubro.” Mais uma conquista a ser preservada nas próximas eleições.
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Gilson Caroni Filho, sociólogo, mestre em ciências políticas, professor titular de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), é colunista da Carta Maior, colabora com o Jornal do Brasil e com esta nossa Agência Assaz Atroz.

Ilustração: AIPC – Atrocious International Piracy of Cartoons

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