domingo, 14 de março de 2010

O DICIONÁRIO DO BERINHO

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O escritor irlandês Oscar Wilde escreveu e publicou uma crítica literária impiedosa de um livro que ele não leu como, depois, confessou. Questionado sobre a legitimidade de tal julgamento, ironizou:

- Nunca leio os livros que critico, para não me deixar influenciar.

Não segui o seu conselho. Li de cabo a rabo o “Dicionário de Turismo”, de Robério Braga, sempiterno Secretário de Estado da Cultura, Turismo e Desporto do Amazonas. Dessa forma, peço desculpas ao leitor se perdi a objetividade e me deixei fascinar pelas pérolas que lá encontrei.

Os comentários que vou fazer aqui estão, portanto, contaminados por esse fascínio. Quem me vendeu o peixe foi Elson Farias, um poeta dos bons, que escreveu a orelha do dicionário e nos garante que ele pode ser útil aos turistas, agências de viagem e profissionais do setor: “Tenho certeza de que este é um livro escrito para servir” concluiu o poeta. Acreditei. Comprei um exemplar.

O livro editado em São Paulo foi impresso em Erechim (RS), financiado pela Fundação Lourenço Braga, de Manaus que, por acaso, pertence à família do autor. Para testá-lo, imaginei como poderia ser usado por um turista gaúcho que quer conhecer a Amazônia e que pegou lá na gráfica de sua cidade um exemplar dessa obra-prima de Robério Braga – o Berinho.

A primeira indecisão do Gauchão é na compra das passagens. Consulta, então, o dicionário do Berinho e lá, na letra “B” (pg. 46) encontra duas definições geniais, que vou colocar entre aspas para não pensarem que estou plagiando criação alheia.

“Bilhete de Ida – Aquele que cobre apenas uma direção”.

“Bilhete de ida-e-volta – aquele que cobre a viagem de ida-e-volta”.

O Gauchão vacila, não crê no que seus olhos leem: “Será que entendi bem?”. Tira a dúvida com outro verbete na letra “I”, onde Berinho insiste:

“Ida-e-volta – viagem em que o passageiro retorna, pelo mesmo itinerário, ao ponto de partida” (p.144).

O Gauchão fica confuso, porque deseja voltar de Manaus a Porto Alegre por outra rota, via Alto Solimões, onde pretende ver as obras fantasmas do governador Dudu Braga. Mas, nesse caso, a viagem é de ida-e-volta ou só de ida? Na letra “V”, Berinho, que está obcecado com idas e voltas, liquida de vez o assunto:

“Viagem – Deslocamento de uma pessoa para localidade diversa de sua residência. Viagem de ida-e-volta, que pode ser realizada: a) de um ponto a outro com a volta pela mesma rota; b) com a volta por uma rota diferente” (p.235).

Barbaridade, tchê! O Gauchão, que podia muito bem se confundir, achando que o bilhete de ida-e-volta podia ser só de ida, fica devidamente esclarecido com a sacação do Berinho. Suspira aliviado, mas logo enfrenta outro problema: “como é que transporto minhas roupas?” – ele se pergunta, angustiado. Corre ao dicionário e lá encontra a resposta:

“Mala – Do francês Malle. Caixa de madeira, lona, plástico ou fibra, usada para transporte de roupa e utensílios de viagem” (p.186). (Nada é dito sobre “mala sem alça”, talvez porque o autor não gosta de aparecer e evita personalizar com dados autobiográficos).

Com as malas arrumadas, Gauchão quer saber para onde deve ir com sua bagagem. Graças a Deus, Berinho, com aquela lucidez que lhe é peculiar, previu tudo e dá a dica:

“Aeroporto – Local ou aeródromo que possui instalações e serviços públicos permanentes para o funcionamento regular do tráfego aéreo, com embarque e desembarque de passageiros e de carga. Local constituído de uma ou mais pistas de aterragem” (p.14).

Consciente de seu destino, louco para “aterrar” logo em Manaus, Gauchão ruma ao aeroporto, onde enfrenta novo dilema: “Como carrego minha mala?”. Ah, seus problemas acabaram! Berinho é gerente das Organizações Tabajara. O gaúcho conferiu na letra “C”:

“Carrinho de bagagem – Pequeno carro, de arame de aço inoxidável, destinado ao transporte, pelo passageiro, de bagagem pessoal nos aeroportos e estações ferroviárias” (pg.62).

Quem diria, hein? A genialidade dessa obra-prima da lexicografia amazonense está no detalhe: não é qualquer arame, é de aço, não é qualquer aço, é inoxidável. Graças às dicas do Berinho, Gauchão, empurrando seu carrinho, se pergunta o que vai fazer no fim de semana. Busca ajuda e encontra a seguinte joia na letra “F”:

“Fim de semana – período semanal que abrange normalmente o sábado e o domingo, e que possui, em turismo, expressão especial pela possibilidade que oferece para viagens de curta duração a tarifas reduzidas” (pg.118).

Gauchão capta a profundidade da coisa. O fim de semana do Berinho é, normalmente, sábado e domingo. NORMALMENTE! Quem acha a definição esdrúxula é porque desconhece que o fim de semana no Congresso Nacional abrange também segunda e terça-feira e, na Bahia, todos os dias da semana.

Gauchão decide, então, passar um fim de semana normal em Itacoatiara. Aluga um carro. Quer encher o tanque. Abre o “Berinho”, buscando a solução. Encontra:

“Bomba de gasolina – metonímia usada para denominar um conjunto de instalações destinadas a prover veículos motorizados de combustível, lubrificantes e afins (ing) – Gas station”.(pg. 48).

O turista gaúcho pergunta a um taxista amazonense se tem alguma metonímia por perto. O cara respondeu: - “Fudereteu! Eu pensava que sabia o que era uma bomba de gasolina, mas agora deixei de saber”. Aqui faço uma crítica construtiva, é claro: se a próxima edição for ilustrada, com foto de um posto, o dicionário será mais útil ainda.

Finalmente, nosso Gauchão, que está com uma caganeira de um tacacá mal digerido, encontra um posto. Procura desesperadamente o verbete WC ou banheiro, mas o dicionário não registra nenhum dos dois. Coitado, para se aliviar, ele corre pra trás de uma moita num terreno baldio e obra. Depois, no sufoco, usa as páginas arrancadas da obra do Berinho, comprovando uma vez mais sua utilidade.

As más línguas dizem que o conteúdo do livro é “para encher linguiça”. Berinho abre, por exemplo, na letra V o verbete “Vozes de Animais”, nos ensinando que “a abelha zumbra, a andorinha gazea, o camelo blatera, a onça esturra, o peru gruguleja e o burro azurra”, etc.etc (pg. 246). Em que isso pode servir ao turista? Confesso minha ignorância. Talvez o poeta Elson Farias, que avalizou a obra, possa nos dizer numa próxima edição, aumentando a orelha do livro, como uma homenagem ao azurrante autor.

Diante desse monumento lexicográfico, não faltarão invejosos para dizer que o dicionário do Berinho, com suas ululantes obviedades, representa a derrota do pensamento no Amazonas. Ledo engano! O autor da obra é membro da Academia Amazonense de Letras e tem o aval absolutamente desinteressado de um poeta de renome. Além disso, é coerente na sua adesão ao poder, adotando a máxima: “Hay gobierno? Soy a favor”.

Com fidelidade canina, Berinho serviu a todos os governos na ditadura militar. Foi filiado à Arena, ao PFL, ao DEM, ao PTB, pertence agora à base aliada, e se o PSOL tomar o poder, ele pedirá sua carteirinha do partido. Com esse livro, a Secretaria de Cultura (Berinho) fez um baita investimento cultural, repassando recursos para a Fundação Lourenço Braga (Berinho). Mas valeu a pena. O turista tem, assim, uma tomografia da intelligentzia local oficial. Afinal, seu autor foi presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Amazonas.

O que seria do turista sem esse dicionário? Não saberia sequer distinguir um bilhete de ida de outro de ida-e-volta. O preço do livro é salgado - 42 reais – mas compensa. É verdade que sua compra causou um rombo nas minhas combalidas finanças. Já que o adquiri não para usufruto pessoal, mas por razões profissionais, estou pedindo ressarcimento ao Cirilo e ao Batará, donos do Diário do Amazonas. É possível que alguns leitores dessa desinteressada resenha queiram comprar o dicionário, assim solicito ao Berinho uma comissão de dez por cento pela propaganda desinteressada. É razoável.

P.S. - O Dicionário omite na letra Z o verbete "ZECA, de Zeca Nascimento, que nesse sábado completou 55 anos de idade, abençoado por todos os orixás, por Santa Edwiges – virgem e mártir - e por Santa Chachá, nem uma coisa, nem outra, padroeira dos glutões, dos amantes da vida e dos que cultivam a amizade". Os parabéns da coluna a ele que doou 15 mil metros quadrados a dezenas de família da Comunidade Santa Edwiges em Manaus.

Robério Braga. Dicionário de Turismo. Fundação Lourenço Braga. Uniletras Editora. São Paulo. 2003. 255 pgs.


José Ribamar Bessa Freire é professor universitário (Uerj), reside no Rio há mais de 20 anos e assina coluna no Diário do Amazonas, de Manaus, sua terra natal, e mantém o blog Taqui Pra Ti
http://www.taquiprati.com.br/home/index.php

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sábado, 13 de março de 2010

A CULPA É DA VÍTIMA?

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Lou Micaldas

"- Pega leve!" Foi o conselho que recebi quando comentei que iria escrever esta carta à sociedade! Você teve ou tem um filho viciado? Você tem ou teve pais, avós, ou parentes viciados? Você já teve a oportunidade de ouvir o drama dos pais de filhos viciados? Já chorou pelo suicídio de um amigo ou familiar viciado? Se a sua resposta é não, pare de acusar o viciado de ser o culpado pelos altos lucros da venda de drogas ilícitas.

Não quero e não posso pegar leve, pois minha palavra tem que pesar mais do que as armas usadas pelo tráfico! Tem que ser mais forte e abrangente do que as granadas que fazem parte do arsenal dos bandidos. Tem que causar mais impacto do que o abalo moral causado pela corrupção, pela extorsão e pelo suborno que levam toda uma sociedade a sofrer de medo e de constrangimento diante da violência ou ameaças graves.

Quero mesmo que o peso das minhas palavras atinja as velhas raposas da política e toda a sociedade, para que acabem com a hipocrisia, com a corrupção e com o custo alto das drogas! O álcool e o tabaco são drogas que matam. Os viciados escolhem e compram seus cigarros livremente, mesmo com as trágicas imagens expostas nos pacotes. Quanto lucro traz ao governo a venda dessas drogas!

Quantos empregos legais em todas as escalas são oferecidos por essas indústrias de drogas "legais"! Somos uma sociedade de drogados. Muitas mães se tornaram viciadas em barbitúricos e derivados do ópio. Muitos pais preferem uísque, vodca, cachaça, pra suportar as ameaças sofridas pelos filhos e filhas dependentes. Somos uma sociedade de drogados legais e ilegais: de produtos que são vendidos nas farmácias, nos supermercados e importadoras e os que são vendidos nas "bocas" e "becos", espalhados por toda cidade, não só nos morros ou nas periferias.

O comércio das drogas ilícitas recruta escancaradamente batalhões armados de crianças e jovens desesperançados, transformando-os em marginais na busca do dinheiro fácil, do lucro garantido! São meninos aliciados e preparados para começarem de baixo, como olheiros. Contentam-se em poder levar pão e um pouco de comida pra casa, porque sabem que "naquela organização a fome é zero" de verdade, não é promessa.E eles sabem que têm "futuro".

A subida de posto é rápida. Em contrapartida, também sabem que sua vida é curta. Podem morrer por um simples deslize. E eles são testemunhas de que seu "protetor", seu "chefe", morreu aos 20 anos. Outros tantos também foram abatidos antes de alcançarem a maioridade. Mas eles também são testemunhas de que o irmãozinho morreu de fome, ou de chumbo, ou de overdose. Vale a pena arriscar. Já que a vida vai ser curta, pelo menos, querem aproveitar o melhor.


Compram roupas de grife, tênis importado, até o dia em que tombam mortos ou vão para um Carandiru qualquer. - Fazer o que "broder"? - Melhor enfrentar, "mermão! A lei do tráfico é a lei que impõe "respeito" e que funciona rápido. Não tem burocracia. Não paga imposto. Também não sonega... Liberem as drogas todas! Quem vai comprá-las sabe o que está comprando. Vai porque quer, porque ficou dependente dela.

Pedir e esperar que um viciado deixe de comprar para diminuir ou acabar com o tráfico, pode ser um desespero de quem confia mais na força de um fraco dependente, do que na força do governo constituído. Mas pode ser também uma forma simplista de encontrar um responsável. Ou talvez o pior: revelar uma forma perversa de empurrar com a barriga (cheia) e o bolso (cheio) esta conversa fiada, protelando a solução. Quem vai querer secar a fonte do dinheiro farto e rápido?

Acredito na boa fé daqueles que têm a esperança de que, se todos os viciados se unissem e fizessem greve, o tráfico entraria em falência. São os inocentes úteis aos abutres, que fingem combater, que prendem de mentirinha, com o fim de extorquir mais e de valorizar o produto. Liberem as drogas e cobrem altos impostos. Que elas sejam vendidas em qualquer boteco, supermercado, farmácias e drogarias, assim como as bebidas e os cigarros e os soníferos.

Com a vultosa arrecadação de impostos, invistam na recuperação e na saúde dos dependentes das drogas. Invistam na educação de crianças, que antes de aprenderem a segurar um lápis, já sabem como utilizar armas pesadas, com seus braços magros que mal as agüentam. Aumentem a remuneração e a dignidade das polícias. Com a droga legalizada, o tráfico de entorpecentes, perderia uma das mais lucrativas fontes de achaque. Seria o fim do comércio e o início de uma vida melhor pra todos. Como aconteceu com o fim da "Lei Seca".

Recolham e apliquem, honestamente, os impostos de todas as drogas legalizadas, reduzindo os impostos dos remédios. Apliquem na melhoria de vida dos idosos, diminuindo seus impostos e aumentando seus proventos, suas pensões. Apliquem a arrecadação dos impostos nas estradas, nos meios de transportes, no turismo, na agricultura, na criação de empregos. Em creches.

Quanto arrecadaria o INSS com a contribuição de empregados com carteira assinada, na indústria legal das drogas? Quantas novas empresas seriam reabertas, com o fim da insegurança dos assaltos e seqüestros, motivados pela busca desenfreada de dinheiro para compra de armas e munições pra abastecer o crime organizado? Nem será necessário fazer campanhas demagógicas, paternalistas!


Quantos políticos se elegem à custa de discursos hipócritas, enquanto estão associados a marginais traficantes? Quantos foram presos? Quantos já foram soltos? Não podemos continuar passivos nesse circo, onde somos os palhaços, mas pensamos que somos platéia. Porque aplaudimos com nossos votos aqueles que nos iludem e nos roubam? O que se vê nos jornais é o governo, barganhando o salário mínimo, aumentando os impostos, propondo um aumento menor para os aposentados, cujo imposto já vem confiscado na fonte.

Tantos políticos, policiais, ministros, juízes faturam com a contravenção e depois se espantam quando aparece a "vovó do pó"! Os candidatos, em época de campanha eleitoral, prometem o que não podem cumprir: "segurança pública, saúde e educação". Eles já estão "carecas" de saber que a prevenção leva à contravenção, encarece a droga e enriquece os que assumem o comando.

Acabaram-se os inocentes! Vocês fingem tomar "atitudes severas", prometem "aplicar a lei quando se fizer necessária", mas não se movem. Por que? Acabaram-se os inocentes! Sobramos nós, uma sociedade amedrontada, anestesiada, inerte. Todos nós sabemos disto. As fitas gravadas e as imagens invadem as nossas casas e nos roubam a confiança naqueles em quem votamos.

Todos têm algo a dizer, mas "pegam leve". Não se comprometem, não se mobilizam pra acabar com este inferno que invade os próprios lares, que tiram nosso sono. São quase 4 horas da manhã e eu resolvi me levantar da cama, dos lençóis macios e vim "pegar pesado". Faça isso você também! Abra bem os olhos e a boca! Vamos proteger nossas crianças, jovens e velhos; vamos socorrer os viciados contra a falsa moralidade, contra a omissão. É de socorro que eles precisam.

Vamos cobrar das autoridades uma atitude honesta, rápida e verdadeira: legalizar a venda das drogas. Torná-la lucrativa em benefício da sociedade em geral, e não aos bolsos dos corruptos. Quantos juízes estão nas mãos dos traficantes? Quantos têm filhos e filhas dependentes e não podem cumprir a lei que os beneficiariam, porque também são vítimas de ameaças? Basta! Basta de se vestir de branco e de sair pelas ruas carregando faixas, com a inscrição "Basta!"

Conheço mães e pais que me escrevem porque são chantageados por terem filhos viciados. Não há dinheiro que baste para saciar a cobrança dos que lucram com esse comércio ilegal. Entre eles, a polícia que bate na porta ou telefona pra um pai desesperado e pergunta: "- Você quer que seu filho apareça morto na sarjeta? Não? Então trate de me dar o meu." Vamos tratar das nossas vítimas do tráfico como doentes, e não como culpados.

Lou Micaldas é professora, formada pelo Instituto de Educação, e jornalista, criada e formada no Jornal do Brasil; administra o site Velhos Amigos e colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz.

http://www.velhosamigos.com.br/


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sexta-feira, 12 de março de 2010

Fonte fidedigna de pena

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PT finalmente reage à agressão midiática

Altamiro Borges*

Passado o convescote Instituto Millenium, antro da direita hidrófoba do país, os barões da mídia resolveram ir às ruas para evitar o perigo da “restauração stalinista e castrista” representada pela candidatura Dilma Rousseff. Como na preparação do golpe midiático na Venezuela, em abril de 2002, agem como “una solo voz”. A Veja estampa na capa a manchete “caiu a casa do tesoureiro do PT”; na sequência, a TV Globo difunde a versão para milhões de telespectadores desavisados; já os jornais Folha, Estadão e O Globo, entre outros, dão farta munição para a artilharia pesada.

Diante deste autêntico “genocídio midiático”, a sociedade fica perplexa e confusa; parlamentares da base aliada se acovardam; até alguns demos voltam a falar em ética na política, deixando de visitar Arruda, o “vice-careca”, na prisão; e os tucanos tentam sair do seu inferno astral. Alguns expoentes petistas ainda defendem a tática do se fingir de morto, achando que isto abrandará o ódio da mídia. Neste cenário, a nota pública do novo presidente do PT, José Eduardo Dutra, é um alento. Serve para esclarecer a população, municiar a militância e retomar a ofensiva política.



A bandidagem do Estadão e da Veja

“É com perplexidade e absoluta indignação que o PT vem acompanhando a escalada de ataques mentirosos, infundados e caluniosos por parte de alguns órgãos da imprensa a partir de matéria sensacionalista publicada na última edição da revista Veja. O mais absurdo desses ataques se deu no jornal O Estado de S. Paulo, que usou seu principal editorial para acusar o PT de ser ‘o partido da bandidagem’ – extrapolando os limites da luta política e da civilidade sem qualquer elemento que sustente sua tese”, afirma o partido do presidente Lula, que finalmente decidiu reagir.

Ainda segundo a nota, o PT “buscará, pelas vias institucionais, a devida reparação judicial pelas infâmias perpetradas nos últimos dias. Acionará judicialmente o jornal O Estado de S.Paulo, pelo editorial, e a revista Veja, pela matéria que começou a circular no último sábado. Representará no Conselho Nacional do Ministério Público contra o promotor José Carlos Blat, fonte primária de onde brotam as mentiras, as ilações, as acusações sem prova e o evidente interesse em usar a imprensa para se promover às custas de acusações desprovidas de base jurídica ou factual”.

Os interesses eleitoreiros da mídia

A nota do PT é mais do que justa. É necessária à democracia. Quanto às “reporcagens” da mídia demotucana, elas atentam contra a própria Constituição Federal, que estabelece a “presunção da inocência”. Sem ouvir os acusados, numa atitude covarde, a mídia incorreu novamente no crime da “presunção da culpa”. Requentou antigas denúncias sem apresentar qualquer prova concreta. Seu objetivo evidente é acuar a candidatura de Dilma Rousseff e ajudar no palanque eleitoral do tucano José Serra, homem de confiança das famíglias Marinho, Civita, Frias e Mesquita.

Quanto ao promotor José Carlos Blat, fonte primaria das ilações da Veja, o PT poderia anexar ao processo velhas denúncias da própria revista contra o sinistro sujeito. Entre os manjados padrões de manipulação da mídia, um dos principais é realçar o que interessa e ocultar o que não serve no momento. Neste caso, a Veja preferiu esconder as denúncias que já fez contra o promotor – que revelou recentemente suas pretensões políticas. “Estou pensando em me candidatar a deputado”.

Fonte primária é bastante suspeita


A revista sabe que Blat é um elemento suspeito. Quando integrou o Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), ele foi acusado de tentar se livrar de multas do Detran e de proteger suspeitos de corrupção. Em 2004, Blat inclusive foi afastado do órgão. Na ocasião, a Corregedoria do Ministério Público apontou vários indícios de crimes: uso de veículo e pessoal da Gaeco para interesses pessoas; negociar com um delegado a liberação do seu pai, preso em flagrante por armazenar bens roubados; abuso de autoridade e enriquecimento ilícito.

Ele também foi acusado de beneficiar o contrabandista chinês Law Kin Chong. Em 2002, quando atuou na força-tarefa antipirataria, focou a investigação nos pequenos contrabandistas, livrando o chefe da máfia. A advogada do contrabandista costumava visitar Blat no Gaeco. A Corregedoria descobriu ainda que ele morou num apartamento de Alfredo Parisi, condenado por bancar o jogo do bicho. Antes de virar promotor, ele foi sócio do filho de Ivo Noal, outro banqueiro do bicho, numa loja de conveniência. Esta é a fonte privilegiada da Veja, da TV Globo e dos jornalões.

http://altamiroborges.blogspot.com/2010/03/pt-finalmente-reage-agressao-midiatica.html#links


*Altamiro Borges é jornalista de verdade, desses que, com ou sem diploma, dá gosto a gente ler, pois nos faz bem informados. Agradecemos aos pais de Miro por tê-lo trazido a este mundo.

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quinta-feira, 11 de março de 2010

CRÔNICA PARA A MULHER MADURA

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Urariano Mota

Assim como a noite depois do dia, que não mais pode ser da natureza do dia, mas no seu escuro, nas suas estrelas, tem um encanto que por ser diverso não deixa de ser um encanto. Assim como nas sucessões do tempo de toda a natureza, da flor que fenece e cai e se ergue em outra a partir dos grãos derramados até a onda do mar que se espraia e se desfaz e se refaz dos seus restos em nova onda, assim o amor à mulher madura também se faz um sentimento curtido, de marcas e rugas que entranham à vista o sol que se foi e se organiza em nova pele. Que não tem a elasticidade e o frescor dos primeiros anos. Mas que tem um sabor íntimo do vinho de que se aprendeu a gostar, uma cumplicidade de lições apreendidas ao toque sem palavras, que o rebento dos primeiros fogos não poderiam construir.

Pois não é próprio do fogo o consumo e o autoconsumo voraz no incêndio, mas lento depois até as brasas que por fim esfriam? Pois sendo próprio do fogo a destruição inexorável, linear e de sentido único, do começo para o fim e sempre, é no entanto mais próprio da coisa humana o guardar semelhança com os fenômenos naturais, mas sem se deixar reduzir ao que não tem o salto e a qualidade da pessoa. Se os primeiros anos de amor são um fogo sem medida, e ao dizer isto guardamos apenas uma aproximação, pois não são exatamente um fogo a loucura e a impulsividade e o não ter limites os atos e ações daqueles anos, menos própria será a comparação do amor que amadurece ao fogo que lentamente se apaga. Pois se esse amor guarda correspondência com o próprio amadurecimento, e portanto faz sua casa nas rugas do rosto, e por rugas lembrarmos sempre os efeitos do sol ao longo do tempo na matéria couro do semblante, isso não quer dizer que o amor antigo, por lembrar sol e destruição do frescor, venha a ser um inventário de perdas.

Pois as perdas na vida não são um número de sinal negativo. Diríamos, num primeiro impulso, que as perdas se reservam em experiência. Dizendo menos mal, diríamos que as perdas na vida organizam um novo ser, porque a vitória não é bem um metódico e unidirecional fazer a coisa certa. Que a vitória é um fazer inúmeras coisas erradas, que ao receberem uma reflexão iluminam o fazer a coisa menos errada. Que a vitória sobre as trevas é como um labirinto que oculta o caminho secreto até a maravilhosa saída. Mas ainda aí, nessa tradução de perdas, o amor amadurecido ainda não é alcançado. Pois para ele, para esse amor que sofreu mudanças ao longo dos anos, o que há e o que houve não são bem perdas. É exatamente uma perda o não levar a amada para a cama com a mesma freqüência dos primeiros tempos? Um cínico, míope, diria que sim. Que uma coisa é fazer sexo, e aqui mais se mostra a miopia ao fazer equivalentes o amor e o sexo, pois uma coisa seria fazer sexo três vezes por dia nos 30 dias de um mês, todos os meses, e outra bem diferente é fazer sexo quando Deus, a conveniência, a oportunidade e as forças forem servidas. Já nessa resposta o cínico não vê a etapa superior que é o prazer que conhece sobre a fome onívora. A coisa madura evita caminhos precários, enquanto a coisa verde segue às cegas até atingir uma satisfação sempre insatisfeita.

É claro que o amor que amadurece não nos deixa menos carnais, mais virtuosos ou santos. De um ponto de vista menos prático, ele é a transformação daquele sentimento juvenil que só desejava a própria satisfação. Que em vez de abrigar buscava urgente abrigo. Em lugar da busca de formas perfeitas, e sabe-se lá o que a carência idealizava como perfeitas, coxas, busto, ventre, rosto, perfume e fetiches exuberantes, esse amor maduro compreende que a estação das formas fôrmas não se guarda nua em mármore. Que aquela pedra é forma oca de experiência. Mas que nem por isso esse amor transformado é um sentimento outonal, do ocaso. Ele não é o sentimento de alguém que vê a chuva batendo na janela, e aconchegado no calor da sala se diz, “para a rua não poderei mais sair”. Ele é apenas, talvez, uma doce intimidade conquistada. Sujeito a trovoadas, tempestades, pois a vida não é de paz, dentro e fora do sentimento. Mas sem aquelas soluções terminativas, definitivas, dos arroubos sectários dos primeiros anos, “ou isto ou aquilo”.

Esse amor maduro diz melhor, fala melhor às sístoles e diástoles do coração velho. Dele fala melhor o que não é conceito, ao que é essencial encarnado no destino de toda a gente. E o essencial é que as rugas, as gorduras, os ossos frágeis do objeto que se ama se revelam uma fortaleza. O amor que amadurece ama a pessoa exatamente nesse tempo de aparente decadência física, e por causa mesmo dessas formas frágeis. As fragilidades físicas se tornam uma qualidade, pois remetem a uma história comum. Esse amor apenas deseja dizer, “saiba que aprendi muito a amar as suas rugas”. O que quer dizer, ele, esse novo amor, não quer vê-la sozinha, ele a quer a seu lado nos próximos, nos poucos e infelizmente poucos anos que lhes restam.

Como flores na praia açoitadas pelo vento. Até que venham as ondas e tudo cubram.


Urariano Mota, escritor e jornalista, autor de “Soledad no Recife” (Boitempo – 2009) seu último romance, indicado como um possível livro do ano pelo conceituado site Nova Cultura, elaborado e administrado na Alemanha, com os destaques literários da CPLP - Comunidade de Países de Língua Portuguesa. É colunista do site Direto da Redação, edita o blog SAPOTI DE JAPARANDUBA http://urarianoms.blog.uol.com.br/

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quarta-feira, 10 de março de 2010

Vira-latas, discurso fácil e unanimidade

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Fernando Soares Campos

Já faz, precisamente, mais ou menos não sei quanto tempo que não acesso os portais da grande imprensa. Não tenho tempo para ler bobagens. Só para escrever.

Geralmente o que publicamos aqui (exceto os textos dos nossos colaboradores diretos) nos foi enviado por leitores e amigos, ou recebemos através da rede castorphoto, mantida pelo nosso amigo Castor Filho, um engenheiro aposentado que não aposentou a dignidade nem abdicou do uso de suas faculdades mentais.

Diariamente leitores e amigos nos enviam textos produzidos por cronistas penas-leves, espécie de punguistas de consciências adormecidas. Cochilou na leitura, eles furtam o senso crítico do leitor e colocam no lugar uma opinião pirata.

Vejamos esta que recebi de um amigo que tem estômago para ler os esgotos do PIG:



Lula afirma que imprensa tem complexo de ‘vira-lata’

Evocando fato ocorrido sob FHC, Lula disse: foi-se o tempo em que um “sub do sub” do governo dos EUA palpitava sobre o Brasil e as autoridades abaixavam a cabeça.

A audiência reagiu às bravatas de Lula com aplausos. Uma evidência de que Nelson Rodrigues continua, de fato, atual, muito atual, atualíssimo.

Dizia o cronista: “No Brasil, há platéia para tudo e o brasileiro é, por vocação, platéia. Se um camelô vende caneta-tinteiro, junta gente...

“...Se morre um cachorro atropelado, junta gente; e, se passa um batalhão, nós vamos atrás. O brasileiro tem uma alma de cachorro de batalhão”.

No momento, a julgar pelas pesquisas, a maioria dos “cachorros” segue gostosamente o batalhão chefiado pelo general do discurso fácil.

Escrito por Josias de Souza às 20h41

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http://www.youtube.com/watch?v=xFTnHHyTngw

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A unanimidade do PIG em torno do golpe

No momento, a julgar pelo que escrevem os cronistas de difícil vida fácil, eles permanecem unânimes quanto à necessidade de golpear Lula.

Josias de Souza, provavelmente, pensou em mandar aquela outra do Nelson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra”, mas deve ter-se lembrado que toda a imprensa empresarial de grande porte, oligopolizada, para a qual aluga sua pena, fechou, unânime, contra o governo Lula. Aí estaria assumindo a própria estupidez.

“Melhor deixar de lado essa coisa de unanimidade e chutar os cachorros do batalhão inimigo”, deve ter concluído o cronista.

Rodriguianas

Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos...” [Pelo visto, nem jornalismo.]

A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem.” [Foi aí que os cronistas do PIG decidiram pela vaia.]

Nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem.” [Por isso os cronistas do PIG dizem que não sentem paixão política. O problema de se apaixonar por si próprio é que mole não entra e dura não enverga!]


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segunda-feira, 8 de março de 2010

Mulheres, não percam o fôlego!

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Aparecida Torneros*

Mais um Dia Internacional das Mulheres, o 8 de março carrega, simbolicamente, em todas nós, do sexo dito frágil, a sensação de que a corrida do ouro está apenas começando.

Depois de mais de um século em que a massa feminina mundial tenta chegar menos atrasada, em busca de lugares decentes sob o céu do planeta azul, ainda que se esteja cansada de tantos retrocessos, é preciso que não se perca o fôlego, nessa maratona cuja reta de chegada terá sabor de conquista e de vitória.

Discursos vários de cunho feminista já se fizeram ouvir pelo século XX e pouco se conseguiu de concreto, em termos de evidências estatísticas.

Ainda percebemos menores salários quando desempenhamos as mesmas atividades que os homens.

Vícios culturais, religiosos e socioeconômicos ainda nos impelem a aceitar distorções que vão desde restrições a vestimentas até castrações físicas do clitóris em vários países, passando pela aceitação de jornada dupla de responsabilidade para aquelas que acumulam a função de chefes de suas famílias, quando os homens saem de casa, fenômeno crescente importante, detectado no último censo do Brasil.

Quando se observa os rostos das mulheres ao perderem seus filhos, maridos e companheiros nas guerras em curso no mundo, é possível identificar o horror permanente que a miséria da condição humana que iguala todas num caldeirão de impotência quanto ao poder decisório para os conflitos entre os povos.

Está claro que esses embates atingem os homens tanto quanto afetam mulheres. Mas é justamente o advento das guerras que antes só convocavam grandes contingentes masculinos, que nos levou a engrossar, por necessidade, as alas industriais, e nos fizeram passar a ser importante mão de obra no mundo da revolução industrial.

Numa fábrica, companheiras nossas morreram queimadas num gesto autoritário, marcando o 8 de março, como um dia a ser relembrado em homenagem à condição feminina , não somente pela sua importância na escalada social, na conjuntura econômica dos povos, mas sobretudo, pela injustiça e pela atrocidade desfechada contra o gênero feminino naquele momento.

O Dia Internacional da Mulher serve para nos repensarmos todas. Importante se faz nos conscientizarmos de que é preciso ser fortes, estarmos preparadas para continuar correndo em direção ao podium.

Se, em alguns momentos, no entanto, sentimos que nos falta o ar, aparentemente cansadas das lutas constantes que empreendemos para trabalhar e sobreviver com dignidade, para apoiarmos nossos companheiros, filhos e amigos, num mundo extremamente competitivo e muitas vezes tão desonesto, respiremos fundo, e retomemos o fôlego. Companheiras, não deixem que as eventuais dificuldades da vida as façam perder o ritmo da corrida. Sigam em frente, certas de que há luz no horizonte feminino, se umas passarem para as outras o grande exemplo das suas superações. Mulheres síndicas, policiais, pilotos de aviação, garis, enfermeiras, professoras, somos muitas, somos as dançarinas que enfeitam as noites, como somos as cantadeiras que embalam os filhos, somos as artistas que criam as rendas e os bordados, tecendo fios de afeição e amizade.

Senhoras, meninas e modelos, desfilamos na passarela dos sonhos, em busca dos lugares de construção.

Precisamos urgentemente, construir melhores dias para as novas gerações. Sabemos disso porque somos amigas, amantes e esposas, quase sempre nos dividindo em múltiplos papéis, aquecendo músculos que se desdobram em corridas permanentes, no nosso dia a dia.

Mulheres, não percam o fôlego, ainda que as decepções pareçam maiores que nossos limites. Há muito mais a fazer. Estejamos atentas para esta corrida insana, observando o exercício constante do preparo físico e mental que a nova ordem mundial requer. Permaneçam antenadas, “plugadas”, não se deixem dominar pelas ideologias ultrapassadas e pelos discursos velhos e repetidos.

Cada uma de nós deve empreender seu próprio texto, pois a vida de uma é base sensível para a demarcação do território livre do universo feminino. Nesse, só pisa quem souber o sentido de uma corrida delicada com pés descalços que, feridos, se comprazem ao alcançar o degrau mais alto da história.

Mulheres, respirem fundo e sigam lutando lindamente, com sorrisos de paz e harmonia!

O dia é seu, como deve ser o mundo!

*Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com/.

Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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O DIA DO NÃO DOS SUÍÇOS

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Rui Martins

Os suíços sempre votaram em favor dos seus banqueiros mas criaram a surpresa ao rejeitar financiá-los com suas aposentadorias.

Domingo 7 de março 2010 tem tudo para se transformar em data histórica suíça, por ter sido o dia do Não. Imaginem um povo pacato, tranquilo (um pouco em excesso), capaz de suportar todos os abusos e perguntar, humildemente, se tem mais.

Mas eis que, de repente, cansados de ser carneiros e de tanto balido, os suíços deram um berro que ainda está ecoando aqui pelas montanhas.

Mas qual foi a gota d´água que poderá transformar tantos carneiros bons para a tosquia em exemplos para a Europa? Ora, os banqueiros, os seguradores, os políticos, obrigados a cortar em algum lugar, exigência da crise, decidiram cortar num lugar que não iria atrapalhar nenhuma empresa, nenhum trader, nenhum empresário – decidiram cortar na aposentadoria dos suíços.

Afinal - pensaram os donos dos bancos e das seguradoras e seus fiéis vassalos, e a quase totalidade dos políticos (tem exceção, vem a seguir) – se é para cortar vamos cortar nesse rebanho de carneiros que nunca estrila. Sempre tiveram salários melhores que os outros europeus, nunca entraram nessas histórias de greve, sempre votaram mais para a direita, mesmo se Lenin e Bakunin com eles conviveram, chegou a hora de precisarem dar uma apertada no cinto do futuro e assim poderemos amortizar os efeitos da crise nos nossos cofres e nos nossos bolsos.

Os suíços têm dois tipos de aposentadoria. Uma de base calculada segundo seus salários e recolhimentos durante a vida ativa, é praticamente o mesmo esquema brasileiro. Porém, existe outra aposentadoria obrigatória chamada de « segundo pilar », para a qual contribuem também o empregado e o empregador, ficando a gestão do capital gerado ou com a própria empresa ou com grandes seguradoras.

Ao chegar aos 65 anos, o aposentado tem direito a duas rendas, o que lhe garante em geral uma velhice digna. Entretanto, ocorre que muito do dinheiro do segundo pilar foi queimado nas loucuras dos investimentos rendosos, que acabaram estourando como balão de ar. E muitas seguradoras ao assumirem o encargo de administrar os fundos de pensões de pequenas e médias empresas cobram honorários excessivos.

Mas como a Suíça era um país rico, como vaca de úberes enormes jorrando leite adocicado dos Alpes, todo mundo queria mamar. Porém, o fluxo da riqueza mudou de direção, graças à incapacidade dos gerentes suíços de tanta riqueza. Em lugar dos pipeline levarem para Zurique, Genebra ou Lugano a evasão fiscal dos países vizinhos, as comissões em concorrências públicas e os roubos de ditadores e governantes corruptos, agora a riqueza acumulada durante tantos anos na Suíça está descendo os Alpes para se esconder em outros lugares.

Acabou aquela confiança cega nos banqueiros suíços, depois do banco UBS ter entregue ao fisco americano os nomes dos milionários, que seus gerentes tinham ensinado a fraudar o tesouro americano. Acabou também a confiança no segredo suíço, depois de informáticos terem vendido Cds com nomes de milhares de clientes para o fisco alemão e francês.

Como chegou a hora do sacrifício, matem-se os carneiros, imaginaram os donos do país que colonizam sua Câmara, seu Senado, distribuindo – sem que a Globo fale nisso – polpudos mensalões legais aos deputados e senadores.

Os suíços tinham fama de votarem ao contrário dos franceses e mesmo dos nossos espertos eleitores – bastava os seus mestres mandarem que eles votavam. Assim, votaram pelo aumento da idade da aposentadoria das mulheres, em nome da igualdade de sexos; votaram a favor de uma taxa de 10 centavos no preço do combustível, isso há mais de dez anos, antes de Al Gore, em nome da ecologia; votaram contra a diminuição das horas de trabalho, contra a preguiça e a vagabundagem; votaram contra o seguro-doença (que é de iniciativa privada) calculado sobre o salário, permitindo que um milionário pague o mesmo que um assalariado, sem se contar na espiral crescente dos preços desses seguros. E daí para a frente, sempre a favor dos seus patrões, dos seus bancos, das seguradoras, dos políticos e nunca em seu próprio favor.

Mas, neste domingo, caiu a gota que transbordou. E o povo disse Não à uma redução gradativa no cálculo do total de seus recolhimentos para o segundo pilar da aposentadoria. Só os socialistas com os verdes de esquerda foram contra a anunciada espoliação, pintada como esforço nacional para reequilibrar as finanças.

E o resultado foi estarrecedor – 73% dos suíços disseram Não, e o que é raro, em todos os 26 cantões. Foi a união nacional contra a tentativa de se enfiar a mão no bolso do povo. O governo suíço foi fragorosamente derrotado, seus banqueiros e seus donos da política tomaram uma solene bofetada, que poderá servir para toda a Europa e mesmo para os EUA, onde Obama cedeu aos financistas e ao grande capital na hora de enfrentar a crise.

E vai sobrar também lição desse voto do povo suíço para tantos que pregam a desestatização e se mobilizam mesmo, em nome da liberdade de dizerem só o que lhes interessa, nesse movimento Millenium com cheiro de Opus Dei e reacionarismo golpista da época da Marcha pela Família.

*Ex- correspondente do Estadão e da CBN, após exílio na França. Autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criou os Brasileirinhos Apátridas e propõe o Estado dos Emigrantes. Vive na Suíça, colabora com os jornais portugueses Público e Expresso, é colunista do site Direto da Redação. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

Para Rui Martins, o governo brasileiro deveria criar uma nova política de emigração a exemplo de Portugal, França, Itália e mesmo México e Equador.

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