quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Margareth Tatcher para inglês ver

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Filmes: "A Dama de Ferro" - OS NEOLIBERAIS TAMBÉM AMAM?

Filme pretende pintar um retrato humano de Margareth Tatcher, mulher que governou seu país durante 11 anos com mão de ferro e crueldade nunca antes vistas

André Lux*, crítico-spam

A ex-primeira ministra da Inglaterra, Margareth Tatcher, é uma espécie de musa máxima dos neoliberais, já que foi ela, em parceria com o presidente dos EUA na época Ronald Reagan, que implantou em seu país essa doutrina econômica que foi festejada pelas elites econômicas mundiais.

Como sabemos hoje, o neoliberalismo é a expressão máxima do capitalismo selvagem, na qual predominam a privatização (leia-se: doação) do patrimônio público, arrochos salariais, corte de gastos do governo com educação, saúde e qualquer outra coisa que cheira a “ser humano”, desregulamentação do mercado e perseguição brutal a sindicatos e organizações trabalhistas. O resultado dessa política desumana nós todos podemos sentir hoje na crise que assola o mundo e é resultado direto dessa doutrina que foi disseminada e implantada no resto do mundo por políticos de direita (inclusive no Brasil, durante os governos de Collor e Fernando Henrique Cardoso).

“A Dama de Ferro” pretende pintar um retrato humano dessa mulher que governou seu país durante 11 anos com mão de ferro e crueldade nunca antes vistas, ao ponto de seu próprio partido (Conservador) se voltar contra ela e retirá-la do governo numa virada de mesa engendrada por seus ex-aliados.

Mery Streep tem uma atuação que está sendo bastante elogiada e concorre novamente ao prêmio Oscar da indústria cultural estadunidense, porém na minha opinião não é tudo isso. Primeiro porque é uma atuação de fora para dentro, toda baseada em efeitos de maquiagem e na cópia dos tiques e sotaques de Tatcher. Segundo, porque o roteiro não lhe dá grandes cenas e concentra-se quase todo nos últimos anos da musa do neoliberalismo, quando já sofria de demência em estado avançado, ao ponto de passar a maior parte do tempo conversando com o “fantasma” do marido morto.

Por meio de esparsos flashbacks, o filme vai mostrando sua trajetória, desde a criação familiar (seu pai pobre porém conservador - vejam que paradoxo! - teve importância fundamental na formação do caráter de Tatcher, diz o roteiro) até sua primeira vitória para o parlamento. Nesse ponto “A Dama de Ferro” resvala em uma certa ingenuidade, pintando Tatcher como uma mulher determinada que venceu o preconceito e o machismo dos homens de seu partido impondo sua visão de mundo e conquistando suas vitórias políticas.



Na vida real não me parece que isso tenha ocorrido desta forma, pois a elite econômica que dominava a política na Inglaterra pode ter muitos defeitos, mas de bobos não tem nada. Assim, é muito mais provável que tenham enxergado na tola e crédula Tatcher uma maneira de seduzir uma parte do eleitorado que era arredio à nata da sociedade, na figura daquela mulher que, embora oriunda das classes inferiores, defendia com unhas e dentes os dogmas ideológicos que serviam para manter os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres (que é o objetivo máximo do neoliberalismo).

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*André Lux, jornalista, presta assessoria na área de Comunicação Social, crítico-spam, administra o blog “Tudo em Cima”. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz.

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Da série: "Quem nasceu pra lagartixa nunca chega a jacaré" (III)

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Coimbra: quem nasceu para FHC não chega a Lula

Marcos Coimbra

“O fascinante na formulação é que ele (FHC) nunca se considera responsável pelo que faz o partido que preside. O presidente da República era ele em 2002, mas, como estava “cansado de exercer a liderança política” – e “não apenas por generosidade”-, resolveu lavar as mãos. Em 2010, achava que Serra não era a melhor opção, mas ficou quieto (ou não conseguiu fazer nada para impedi-lo de, outra vez, se arrogar o direito de ser candidato).

Essa liderança que não lidera conflita com a autoimagem que tem. Sem qualquer modéstia – e pouca visão da realidade-, FHC acha que ele e Lula são “os dois únicos líderes” brasileiros dos “últimos 20 anos” (o que entende ser pouco para “um país tão grande’).

Como se houvesse qualquer semelhança entre as trajetórias de ambos: sem três ou quatro acidentes (a morte de Tancredo, o fracasso de Sarney, o impeachment de Collor, o desaparecimento de Covas), FHC não existiria (ou seria muito menor do que é), enquanto Lula continuaria a ser Lula, pois não precisou do acaso – e nem de um Plano Real – para chegar aonde chegou. Fernando Henrique diz que o PSDB tem de “reorganizar a hierarquia da liderança” (o que, em tucanês, quer dizer definir quem manda no partido), pois ninguém surgiu para ocupar o lugar que tinha. Quanto a si mesmo, explica que “tomou a decisão (…) de abrir espaço”, pois, na altura da vida em que está, “perdeu a vontade” de liderar.

A entrevista reflete o clima em que vive o PSDB. Seu presidente de honra divide, em vez de somar. É magnânimo na repartição das responsabilidades pelas derrotas, mas avaro na reivindicação dos sucessos. Acredita que cabem (somente) a Serra as culpas pelas decepções recentes.

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Reproduzido do site BRASIL! BRASIL!

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Catástrofe Anunciada: Vamos Impedir um Novo Pinheirinho

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NOTA: Estava preparando este texto, quando ouvi a notícia de que o senador Suplicy apresentou uma denúncia de que alguns dos invasores fardados tinham ABUSADO SEXUALMENTE de moradoras.

TEMOS OUTRO ARGUMENTO, PREVISTO NO ESTATUTO DE ROMA, PARA PROCESSAR COMO CRIMINOSOS OS MEMBROS DA CÚPULA POLÍTICA, POLICIAL E JUDICIAL DE SÃO PAULO, além dos executores.


Carlos A. Lungarzo*

Os militantes de Direitos Humanos e os movimentos sociais costumam reagir com energia após a ocorrência de uma catástrofe humanitária, como aconteceu no bárbaro ataque de Pinheirinho.

(Cuidado: não estou incluindo os órgãos oficiais muitas vezes criados justamente para embaçar a luta pelos direitos humanos.)

No entanto, parece que não possuímos a capacidade de prever as catástrofes e de evitá-las. Isto não é um problema apenas na América Latina. Ativistas e organizações corajosas de todo o mundo encontram dificuldades para impedir novas crises humanitárias.

Nesse sentido, estamos atrás dos pacifistas e dos ecologistas. Os pacifistas do Norte da Europa conseguem bloquear pacificamente as ruas por onde passam veículos de guerra, e muitas vezes tiram as armas dos soldados sem usar nenhuma forma de ataque, apenas fazendo pressão com o próprio corpo e usando as mãos desarmadas. É claro que em Suécia e Noruega os militares e policiais não abrem fogo sobre pessoas desarmadas.

Os ecologistas são muito valorosos. Greenpeace usa barcos rápidos para interceptar navios que caçam baleias. Em alguns desses episódios, os intrépidos ecologistas tiveram alguns militantes machucados e outros feridos, mas nunca houve mortos. Obviamente, em ambos os casos a resistência é desarmada.

Por que não existe uma disciplina deste tipo para os defensores de Direitos Humanos?

O assunto é importante porque o judiciário de São Paulo está anunciando uma nova “façanha”. Eles anunciam um novo DESPEJO DE MORADORES, agora na favela SAVOY, em Carapicuíba (Grande São Paulo).

Uma quantidade de 700 famílias com mais de 3.500 pessoas corre o risco de sofrer os mesmos dramas de Pinheirinho.

A expulsão foi programada para o 6 DE MARÇO, e os inquisidores togados se recusam a estender o prazo.

A defensora pública reconhece que a situação é muito difícil. Veja o texto da Folha de S. Paulo:

A Defensoria Pública informou que ainda não decidiu se irá recorrer da decisão. De acordo com a defensora Carolina Dalla Valle Bedicks, a preocupação é com as pessoas que não têm para onde ir, já que CARAPICUÍBA NÃO TEM ABRIGOS PÚBLICOS E OS DOIS ÚNICOS GINÁSIOS DA CIDADE NÃO TÊM CONDIÇÕES DE SEGURANÇA E HIGIENE PARA RECEBER OS MORADORES. (Vide)

Isto mostra que a situação pode ser PIOR que em Pinheirinho. O número de moradores é menor, mas a quantidade de vítimas pode ser muito maior. Sem lugar para onde ir, os despejados serão empilhados como lixo, e estarão sujeitos às atrocidades dos fardados, que, por seu permanente treinamento na violência, não podem evitar a síndrome da alta velocidade (termo usado por psiquiatras para referir-se à necessidade incontrolável dos algozes de fazer vítimas).

É necessário que a comunidade que hoje trabalha tão duramente para punir os carrascos de Pinheirinho e tem demostrado tanta coragem, se preparem agora para tentar impedir um novo linchamento massivo.

Faço uma convocação a todos os amigos vinculados com os movimentos sociais, direitos humanos, grupos progressistas, parlamentares e membros da classe política, jornalistas, sindicatos e militantes de bases de todas as organizações.

A área da favela é aproximadamente da área de 16 campos de futebol. Portanto, devemos reunir a maior quantidade possível de voluntários. Temos pouco tempo para o fazer.

Ajudemos SAVOY!

Minha proposta é formar um grupo de defesa disciplinado, que forme várias linhas de contenção ao ataque policial, caso ele aconteça.

Essa defesa deve ser pacífica, limitando-se a resistir à expulsão pelo método de revezamento nas filas. Os voluntários deverão estar identificados por quaisquer métodos que provem sua origem.

NÃO SE DEVE ACEITAR QUALQUER PROVOCAÇÃO DA POLICIA

Os recursos para evitar o afogamento por gases (que são recursos muito limitados) deverão ser discutidos antes do encontro.

Nos próximos dias, envidarei todos os esforços para convidar a mídia internacional mais objetiva, para que se registrem os eventuais abusos.

A consigna será que a polícia deve se retirar e o judiciário deve anular sine die a ordem de expulsão.

O problema da reintegração só poderá ser colocado novamente, quando o governo e a prefeitura mostrem que sua promessa de atribuir casas populares aos expulsos É SÉRIA.

Estamos a favor de negociações, MAS NÃO PODEMOS CONFIAR NELAS. Se nos retirarmos com base em promessas do judiciário ou do governo do Estado, seremos tapeados logo que abandonemos o local.

Os ataques da polícia são mais frequentes entre as 3:00 e as 6:00 horas, quando os moradores estão atacados pelo sonho e são presas mais fáceis. Também a essa hora é mais fácil difundir o pânico.

Meu próximo passo é tentar comprometer pessoas que sejam representantes do povo para presidir nossa linha de proteção.

Estarei enviando novas mensagens, e respondendo os que receba a partir do dia Segunda 06/02.

Abraços a todos.

Não posso dizer, como se dizia em outra época: “venceremos”. Digo apenas: “não poderão nos dobrar; se quiserem, deverão quebrar nossa espinha”.
NOTA PARA OS AMIGOS DE GUY FAWKES:

A expulsão foi pedida pela CONSTRUTORA SAVOY. Remember, remember...

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*Carlos Alberto Lungarzo foi professor titular da UNICAMP até aposentadoria e milita em Anistia Internacional (AI) desde há muitos anos. Fez parte de AI do México, da Argentina e do Brasil, até que esta seção foi desativada. Atualmente é membro da seção dos Estados Unidos (AIUSA). Sua nova matrícula na Organização é de número 2152711. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

Para se comunicar com o autor, escrever a carlos.lungarzo@gmail.com

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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domingo, 5 de fevereiro de 2012

DOIS PRESOS E UMA MEDIDA

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Dois índios presos em momentos e locais diferentes: um no Rio de Janeiro, outro no Rio Jordão (Acre). Ainda que distantes no tempo e no espaço, essas prisões arbitrárias, no frigir dos ovos, são exemplares porque apontam na mesma direção. Foram realizadas em defesa da propriedade privada e em nome da ordem estabelecida, revelando como o Poder Judiciário, embora considere a justiça cega, às vezes é capaz de ver longe. Muito longe.

O preso do Rio, provavelmente um Puri, aparece no boletim de ocorrência apenas como índio, genérico, sem identidade étnica. Foi encarcerado num momento de reformulação da política pública de segurança. O motivo da prisão está escrito com todas as letras no registro policial: “o gatuno vadio tinha uma expressão suspeitosa de quem estava pensando em roubar”. É. É isso mesmo que você leu. O cara não roubou, mas foi preso porque acharam que ele tinha cara de ladrão. Desenterro seu caso dos arquivos policiais, porque li agora notícia vinda do Acre com um fato similar.

Lá no Acre, município do Jordão, Irineu Kaxinawá, 19 anos, permaneceu trancafiado mais de quatro meses na Penitenciária de Taraucá, sem julgamento algum. Motivo da prisão: teria ajudado seu primo menor de idade a esconder na casa do avô deles, Getúlio Sales - um líder tradicional dos Kaxinawá - roupas e bijuterias de pequeno valor que foram surrupiadas da loja de Maria Raimunda. Detalhemos os dois casos.

Polícia da Corte

No Rio de Janeiro, em 1831, o posto de chefe de polícia era ocupado por um juiz de direito. Foi, portanto, um juiz que decretou a prisão do índio, numa época em que a polícia era tão eficiente que lia até pensamento. Está lá, no documento que encontrei no Arquivo Nacional, no Fundo Polícia da Corte, formado por 340 volumes manuscritos, entre os quais os livros com a relação de presos feita pela policia na primeira metade do século XIX.

Os índios estão escondidos no arquivo em documentos da Intendência Geral da Polícia, conhecida depois como Polícia da Corte. Eram muitos, mas os livros usados nas escolas os tornaram invisíveis. Quase sempre sem emprego, sem domicílio fixo, viviam de biscates e perambulavam pelos cortiços do centro da cidade. Foram duramente reprimidos quando D. João VI chegou ao Rio, em 1808, até os anos 1840, quando cessam os registros nos arquivos, depois de apodrecerem nas prisões.

Os motivos alegados para prendê-los eram diversos: atitude suspeita, vadiagem, embriaguez, porte de canivete, desordem, agressão, furto, ausência de permissão para andar na rua depois das 19h e até por estarem “pensando em roubar”.

No entanto, a equipe de pesquisa que coordenei começou a desconfiar desses motivos quando encontramos, em outro documento do Arquivo Geral da Cidade, registro do mesmo índio preso trabalhando como braçal na reforma do Passeio Público, em 1831. É que o Código Penal previa pena de prisão com trabalhos forçados. Naquela época, os negros escravos estavam quase todos ocupados nas fazendas de café do Vale do Paraíba e não havia quem cuidasse das obras públicas. Daí ocorria a prisão dos índios, porque o poder público “estava pensando” em tê-los como mão de obra gratuita.

Quem estudou bem essa documentação foi um gringo, Thomas Holloway, professor de História Latino-Americana na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. Ele vasculhou os arquivos das polícias Militar e Civil do Rio, no século XIX, guardados no Arquivo Nacional, e escreveu o livro “Policing Rio de Janeiro – repression and resistance in the XIX century”, publicado pela Universidade de Stanford.

No livro, o historiador americano analisa a tensão política vivida em 1831, quando o então ministro e futuro regente Diogo Feijó reformulou a política de segurança pública e criou não a UPP, mas o CMP (Corpo Municipal de Permanentes) para manter a ordem vigente. Um dos primeiros comandantes dessa nova polícia militar foi o Duque de Caxias, encarregado de “limpar a cidade”, o que foi feito fechando os olhos aos abusos de autoridade, à violência e à corrupção. E no Acre?

O caso do Jordão

Irineu Kaxinawá, de 19 anos, vivia na Aldeia Nova Empresa, Terra Indigena Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. Falava português com dificuldade e foi, em 2010, estudar na cidade. Seu primo roubou umas quinquilharias, ele ajudou a esconder, como o primo é menor de idade, quem foi preso foi ele, Irineu, no dia 3 de outubro do ano passado.

- Foi estudar numa escola pública do Jordão e agora está fazendo mestrado na melhor escola de bandidos do Acre, que é a penal de Tarauacá - escreveu o pai dele, o antropólogo Terri Aquino.

Quem deu a bolsa de mestrado ao Irineu foi a juíza de Tarauacá, uma ex-delegada de polícia do interior do Amazonas, que negou a liberdade provisória para que o acusado respondesse processo em liberdade. Ela alegou que o objetivo da prisão era “evitar que o delinquente, tendo praticado o primeiro crime, pratique novos crimes, quer porque seja acentuadamente propenso à prática delituosa, quer porque, em liberdade, encontrará os mesmos estímulos relacionados com a infração cometida”.

Praticado um crime? Propensão à prática delituosa? De onde é que a magistrada tirou isso, meu Deus! Um menino com bons antecedentes, profissão definida, residência fixa, nunca praticou violência contra gente, bicho ou planta, nunca havia sido preso, não foi ainda julgado para ser considerado delinquente.

A juíza do Acre avançou mais que seu colega do Rio. Enquanto no Rio o índio foi preso porque “estava pensando em roubar”, o kaxinawá, no Acre, permaneceu quase cinco meses numa penitenciária para evitar que ele pensasse em roubar.

- Se ele errou, e até acredito que tenha errado mesmo, a Justiça acreana poderia dar uma chance de recuperação a esse jovem índio de apenas 19 anos. E não ser assim tão rigorosa com um “ladrãozinho de galinha, podia dar uma pena branda, como prestação de serviços comunitários – escreveu seu pai, angustiado, que passou o Natal e Ano Novo nas aldeias Yawanawá e em visita ao filho preso, depois de conversar com juiz, desembargador, diretor de penitenciaria, defensor público, advogado, secretário de Direitos Humanos, tudo em vão. Seu filho permanecia preso.

- Estou abrindo o meu coração publicamente, mas não estou interessado em piedade de ninguém. Estou apenas atrás de Justiça para o meu moleque. O Acre é cruel. E tem proporcionalmente a maior população carcerária do Brasil. E esse caso do Irineu me dá muita vergonha de ser acreano - escreveu o antropólogo Terri Aquino ao jornalista Altino Machado.

Futurologia

Altino, que mantém o blog mais lido sobre a Amazônia, correndinho, mobilizou Deus e o mundo, jornalistas, professores, advogados, gente em todo o Brasil que conhece os Kaxinawá, através dos trabalhos do Terri Aquino, cuja vida continua dedicada aos índios, lutando por suas terras, línguas e culturas.

Os jornalistas Elson Martins, a historiadora Fátima Almeida, a cronista Leila Jalul, a radialista Eliane Sinhasique e tantos outros, no Acre, mas também em Minas Gerais - Maria Inês de Almeida, diretora do Centro Cultural da UFMG, Nikão Duarte, professor de jornalismo no Rio Grande Sul, João Dal Poz, antropólogo da UFMT, Ivana Bentes, professora da Escola de Comunicação da UFRJ, todo mundo indignado com o fato de se manter numa penitenciária barra pesada um menino que nem foi ainda julgado, enquanto quem rouba dinheiro público – milhões – e enfia nas cuecas, nas meias, nos bolsos e em contas no exterior – está circulando livremente e até se elegendo como parlamentar.

Altino mobilizou também o advogado João Tezza, que na sexta-feira (27/01), impetrou um habeas-corpus onde, com todo respeito, critica a juíza que trata um réu primário como delinquente, antes de qualquer condenação, sob a justificativa de que ele cometeria outros crimes. Para o advogado, a juíza “imbuiu-se de poderes mediúnicos”:

- Se a previsão do futuro é indispensável ao exercício da profissão de vidente, é vedada, por lei, no exercício da magistratura, enquanto praticada em um Estado Democrático de Direito - escreveu Tezza.

Irineu vai agora responder em liberdade, graças ao habeas-corpus concedido. Seu pai, um antropólogo muito respeitado e querido na comunidade acadêmica e pelos índios em todo o Brasil, pode respirar, enfim, aliviado. Nós também. No entanto, não são apenas dois presos e uma medida. Existem atualmente mais de 3 mil índios presos em todo Brasil, para libertá-los um Tezza apenas não basta. É preciso um Tezzão.

P.S. Ver links Altino Machado: http://altino.blogspot.com/2012/01/terri-aquino-pede-liberdade-para-o.html; http://altino.blogspot.com/2012/01/tezza-assume-defesa-de-indigena-preso.html; http://altino.blogspot.com/2012/01/antropologo-agradece.html
; http://altino.blogspot.com/2012/01/advogado-responde-jornalista.html

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José Ribamar Bessa Freire é professor universitário (UERJ), reside no Rio há mais de 20 anos, assina coluna no Diário do Amazonas, de Manaus, sua terra natal, e mantém o blog Taqui Pra Ti. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

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Ilustração: AIPC – Atrocious International Piracy of Cartoons (A primeira charge foi extraída do blog "Centro de Estudos Ambientais".

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sábado, 4 de fevereiro de 2012

O assassinato de Einstein em Manhattan

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Fernando Soares Campos

Albert Einstein viera a Nova Iorque com a missão de acompanhar e assessorar o Distrito de Engenharia Manhattan, o famoso Projeto Manhattan, que tinha como meta produzir a bomba atômica.

Naquela noite de 7 de dezembro de 1944, o já relativamente célebre cientista caminhava pela calçada. O rigoroso inverno nova-iorquino castigava até a sua preciosa massa encefálica. Absorto em conjecturas sobre a possibilidade de viajar no tempo e no espaço sem queimar um baseado, Einstein parou ao lado de uma lixeira. Enfiou a mão no bolso do sobretudo, sacou uma pequena lanterna, acendeu e colocou-a sobre o coletor de lixo.

Ficou por alguns minutos contemplando o tênue feixe de luz. Inclinou-se, encostou o rosto na lanterninha e mirou por cima da projeção luminosa. “Será possível?!” Ergueu-se, olhou ao redor e certificou-se de que ninguém o observava. Cruzou os braços, fechou os olhos e cerrou o cenho. Assim, concentrado, nem notou que começara a levitar.

Um gato preto, sentado na escada de incêndio de um prédio em frente, assistia àquela cena insólita. O felino arrepiou-se quando viu Einstein elevar-se lentamente, se posicionar sobre o feixe de luz da lanterna e, num átimo, sumir! Shuuupt! – “Myauauau!” [“Acho que estou sonhando!”]

No umbrático cenário apareceu um mendigo, que pegou a lanterna, examinou a peça curiosamente e a desligou. O homem nem podia imaginar que, ao clique de desligar, Einstein despencou e se esborrachou no chão. Ploft!

Estirado no meio da calçada, um tanto sonolento, abriu os olhos lentamente. No primeiro momento não percebeu que já era dia claro, mas aos poucos sua vista foi-se adaptando à claridade, e ele enxergou o mundaréu de gente que transitava no local. Ao seu lado já se acumulavam umas moedas e até algumas cédulas verdinhas de baixo valor.

O venerável cientista levantou-se e pôs-se a caminhar acompanhando um dos fluxos dos transeuntes. Só aí notou que permanecia em Manhattan, na mesma calçada em que empreendera aquele esforço de concentração, na noite passada. “Noite passada?!” – Imaginou que talvez, depois da intensa pressão mental, tivesse arriado devido a um possível colapso dos sentidos.

A passos vacilantes e ainda em estado de ligeiro torpor, Einstein caminhava sem notar qualquer alteração ambiental. Ouviu uma música e parou em frente à loja da qual emanava o som, sem olhar para o estabelecimento. A canção lhe pareceu estranha, mas bastante agradável. Fechou os olhos e aguçou a audição:

Imagine que não há paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós
Acima de nós apenas o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo para o hoje

Imagine não existir países
Não é difícil de fazê-lo
Nada pelo que lutar ou morrer
E nenhuma religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Eu tenho a esperança de que um dia
você se juntará a nós
E o mundo será como um só

Imagine não existir posses
Me pergunto se você consegue
Sem necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade humana
Imagine todas as pessoas
Compartilhando todo o mundo

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Eu tenho a esperança de que um dia
Você se juntará a nós
E o mundo viverá como um só

A música cessou. Inspirado na poética composição ele formulou uma de suas geniais tiradas: “Imaginar é mais importante que o saber, pois o conhecimento é limitado, enquanto a imaginação viaja ao infinito”.

Continuou a caminhar. Parou numa esquina, parecia estar apreciando a movimentação das pessoas e o trânsito de veículos nas ruas, mas na verdade ele estava alheado de tudo, por isso nem notou a aproximação de um rapaz que carregava um livro preso no sovaco.

O jovem o abordou:

– Queira me desculpar, mas o senhor não é Albert Einstein, que foi professor na Universidade de Princeton?

– Sim, mas... eu não “fui” professor em Princeton – estranhou. – Ainda faço parte do corpo docente daquela instituição.

“Os velhos são assim mesmo: estão sempre perdidos no tempo e no espaço.” – pensou o rapaz. E continuou: – Eu gostaria de ter um autógrafo seu. Pode ser?

– Sim, com prazer! Tem papel?

O rapaz pegou o livro que trazia debaixo do braço e do bolso um lápis. Entregou o material à celebridade do mundo científico e acadêmico.

Einstein leu o título da obra: “O Apanhador no Campo de Centeio”. Abriu o livro na página inicial, em que pretendia escrever uma mensagem e registrar seu autógrafo. Perguntou:

– Como você se chama?

– Chapman, Kaio Diego Chapman...

Escreveu: “Caro Kaio Diego, creio que neste mundo somente duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez dos homens. Mas não tenho certeza se isso é verdadeiro em relação ao primeiro. Abraços. Albert Einstein. Nova Iorque, 8 de dezembro de 1944”.

Entregou o livro e o lápis ao fã.

Kaio leu a mensagem e observou:

– Acho que o senhor se confundiu... Hoje é dia 8 de dezembro, sim, mas... de 1980!

Einstein lembrou-se da “noite passada”: a lanterninha, o feixe de luz, a esforçada “concentração”. .. Só então atentou para os trajes do jovem, o que lhe pareceu, não sabia por que, um tanto excêntrico. E os óculos? Nunca vira igual modelo. Olhou em sua volta. Agora, tudo ao seu redor lhe causava estranheza: carros, prédios, cartazes, vitrines... Fez menção de se afastar, continuar caminhando... Ouviu Kaio Diego lhe chamar:

– Professor!

– Sim! – voltou-se para o rapaz.

Kaio Diego empunhava um trezoitão apontado contra Einstein.

– Professor, não me leve a mal, mas isso é pelo bem da humanidade... – disparou a arma até descarregá-la.

Einstein caiu fulminado. O sangue escorreu pela calçada, e sua memória iniciou processo de projeção de reminiscências... Em sua mente se sucediam imagens da infância, caçando passarinho nas caatingas de Ulm, nadando e pescando no lago von Männer; quebrando uma cadeira na cabeça do coleguinha de sala de aula; estudante na universidade; viajando mundo afora, a visita ao Brasil; a Teoria da Relatividade... Novamente aquela música de momentos atrás soava aos seus ouvidos de moribundo... Pensou: “Eu deveria ter-me dedicado à música. Talvez assim tivesse evitado um final tão trágico...”

Uma mulher que assistiu a tudo da janela de um prédio em frente correu ao telefone e ligou para a polícia. Informou o endereço e concluiu desesperada: “Tá lá um corpo estendido no chão!”

Em instantes a polícia chegou ao local do crime. Os policiais avistaram Kaio Diego Chapman com o livro em uma mão e o revólver na outra, pálido, balbuciando disparates:

– Eu salvei Hiroshima e Nagasaki... Corrigi a História... O Enola Gay não partiu... Não tem mais Little Boy nem Fat Man... Podem conferir os novos registros... Agora, cientistas de todo o mundo vão pensar mil vezes antes de se dedicarem ao desenvolvimento de armas de destruição em massa...

Sem que os curiosos mortais que cercavam a cena do crime notassem, um raio precipitou-se sobre o corpo da vítima e o abduziu...

Einstein relaxou o cenho, abriu os olhos e, surpreso, viu o mendigo à sua frente, com a lanterninha ligada, focando o seu rosto.

– Não é nada do que você está pensando! – falou encabulado o cientista.

– Entendo... É que ultimamente andam servindo uísques de péssima qualidade!

O mendigo se foi, e Einstein também se pôs a caminhar noite adentro, sem reparar que o gato preto na escada de incêndio miava insistente: “Myauau! Ruuum!” [“A gente vê cada coisa!”]

Hoje Kaio Diego Chapman vive confinado num manicômio judicial cinco estrelas, em Manhattan, onde passa os dias ruminando elucubrações macabras para justificar seu tresloucado ato.

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Assista ao Vídeo em que Caio Blinder e Diogo Mainardi defendem o assassinato de cientistas iranianos, no programa Manhattan Connection.
















Use o link: http://www.youtube.com/watch?v=kH3oThn1l7g&feature=player_embedded

E para desopilar: Imagine, John Lennon.
















http://www.youtube.com/watch?v=M1NIXgjNXDk&feature=related


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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O ORIGINAL É QUE É BOM

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Filmes: "Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (2009)

Não passe nem perto da patética refilmagem estadunidense. Esse é o filme que merece se visto!

André Lux*, crítico-spam

Depois de assistir ao péssimo “Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres” de David Fincher, fiquei curioso para ver a versão original, feita na Suécia em 2009. Muitos diziam que era superior. E eles tem razão. “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, do diretor Niels Arden Oplev é mil vezes melhor do que a versão estadunidense.

Justiça seja feita: tudo que eu considerei clichê no filme de Fincher e culpei o autor do livro, Stieg Larsson, na verdade não existe na versão original, que é muito mais poderosa, humana e assustadora. O filme de Fincher, agora que vi o original, me parece ainda mais frio, posado e artificial.

Aqui a investigação feita pelo jornalista é muito mais intrigante e bem amarrada. E a relação dele com a arredia Lisbeth Salander, inclusive sexual, faz muito mais sentido. É ela, por exemplo, quem descobre a relação dos nomes e números contidos na agenda de Harriet (no filme de Fincher essa revelação é feita de forma ridícula). Isso porque ela continuou hackeando o computador dele mesmo depois de terminada sua investigação. Além disso, quando ela se junta ao jornalista, os dois saem varrendo o país em busca dos assassinatos cometidos pelo maníaco (na versão estadunidense isso é resolvido em cinco minutos de procura no google), o que justifica ao menos uma crescente atração entre eles.

Outra coisa que é bem diferente da nova versão: o assassino não fica tentando de todas as maneiras ajudar a investigação feita por Blomkvist, pelo contrário. E quando ele se revela isso é feito de maneira coerente e verossímil. O diálogo entre ele e o jornalista em sua câmara de horrores é muito bom e chega a dar calafrios (no filme de Fincher essa cena é a mais risível).

O personagem Lisbeth Salander nesta versão é muito bem delineado e a atuação de Noomi Rapace é realmente excelente (mais do que nunca a moça no filme de Fincher ficou parecendo um alien robótico). Inclusive as cenas de estupro anal são filmadas com discrição e muito mais sugeridas, o que só aumenta a tensão, ao contrário da nova versão, onde elas são quase explícitas e só causam repulsa e choque (que são coisas que Fincher adora, comprovando seu caráter doentio e ególatra). Os traumas passados de Lisbeth também convencem nesta versão. E felizmente, a conclusão é bem mais interessante do que a do filme de Fincher, que tem até ceninha de ciúme juvenil totalmente incoerente com a proposta do projeto.

Percebe-se também claramente a ligação entre os crimes, o fanatismo nazista dos personagens e os horrores descritos na bíblia judaico-cristã (vale como bom lembrete de que os nazistas eram todos cristãos fundamentalistas e achavam na própria bíblia as justificativas para suas ações mais monstruosas). Gostei também que o policial que investigou o crime há 40 anos continua na ativa, ajudando na busca, fator que dá mais verossimilhança às descobertas. Sem falar que, por ser feito e passado na Suécia, o filme tem uma autenticidade muito maior do que a refilmagem, que optou apenas por colocar no mesmo país atores estadunidenses falando inglês com sotaques estranhos.

Enfim, tudo que se elogiava no livro de Stieg Larsson está aqui no filme de Niels Arden Oplev, que contém também uma ótimo trilha musical sinfônica de Jacob Groth, a qual realça o drama e o suspense de maneira muito eficiente (enquanto Fincher optou por uma trilha quase toda composta por ruídos atonais feitos por dois sujeitos oriundos de uma banda pop qualquer), além de uma fotografia primorosa.

Não passe nem perto da patética refilmagem estadunidense. Esse é “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” que merece se visto!

Cotação: * * * *

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*André Lux, jornalista, presta assessoria na área de Comunicação Social, crítico-spam, administra o blog “Tudo em Cima”. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz.

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

PressAA

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Da série: "Quem nasceu pra lagartixa nunca chega a jacaré"

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QUEM NASCEU PARA GERALDO ALCKMIN NUNCA CHEGA A ULYSSES GUIMARÃES

Celso Lungaretti*

Muitos ficaram surpresos quando o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, começou a mostrar o seu lado Índio da Costa.

Apesar de ser pública e notória a devoção de Alckmin pela pregação direitista do Opus Dei, a figura de poltrão fazia crer que ele jamais pudesse ordenar as barbaridades cometidas na USP, na cracolândia e no Pinheirinho.

A verdade, como sempre, está no meio.

Ele é capaz de, da segurança do seu gabinete, soltar "os milicos na rua", mandar "sentar pua, pegar e bater e matar e prender", como fez o Visconde de Barbacena segundo a ótima canção "Tiradentes", de Ary Toledo e Chico de Assis.

Mas, em termos de coragem pessoal, continua exatamente como era em 2001, quando o apresentador Sílvio Santos foi sequestrado pelo bandido Fernando Dutra Pinto e, bom camelô, passou-lhe a conversa, convencendo-o a render-se ao governador de São Paulo.

Ou seja, Sílvio Santos armou o palco para Alckmin brilhar, mas este demorou horas e horas vacilando, uma eternidade, até controlar sua paúra e fazer o que se impunha.

Nem sequer honrou a promessa de garantir a vida do sequestrador no cativeiro: menos de seis meses depois Dutra Pinto morreria com sinais de torturas (um corte profundo nas costas) e de negligência médica. Ou seja, já então a polícia deitava e rolava nos governos de Alckmin.

Agora, apavorado com o repúdio popular ao massacre do Pinheirinho, ele se tranca no gabinete e deixa de comparecer a atos públicos como a missa pelo aniversário de São Paulo na catedral da Sé e a inauguração da nova sede do Museu de Arte Contemporânea da USP.

Depois de confirmar presença ele refugou, mandando um vice e um secretário esquivarem-se de ovos, frutas e legumes no seu lugar.

Que papelão!

Um exemplo de como um político, noblesse oblige, deve agir em tais circunstâncias foi dado por Ulysses Guimarães em maio de 1978, quando a ditadura militar tentou impedi-lo de discursar em Salvador (o relato é do site Política para políticos e a íntegra está http://www.politicaparapoliticos.com.br/interna.phppagina=4&t=754814

"A polícia-militar havia cercado a praça do Campo Grande e comunicado que não iria permitir a reunião para o lançamento das candidaturas da oposição ao Senado, apesar dela estar programada para recinto fechado.

...A praça parecia um campo de batalha com homens portando fuzis com baioneta calada, 28 caminhões-transportes, dezenas de patrulhas, lança-chamas e grossas cordas amarradas nos coqueiros em torno da praça.

Ulysses decidiu seguir com seu grupo que incluía Tancredo, Saturnino Braga, Freitas Nobre, entre outros. Um oficial determinou: 'Parem!'. Ulysses, porém, reagiu: 'Respeitem o presidente da oposição'.

Desviou o cano do fuzil e passou, seguido por seus correligionários. Tancredo afastou outro. Cães saltaram sobre Ulysses, mas Freitas Nobre deu um pontapé num deles. E ingressaram todos no local do evento. Ulysses subiu à janela, ligou os alto-falantes para a praça e exclamou com ênfase: 'Soldados da minha pátria, baioneta não é voto, cachorro não é urna'. E o comício saiu, com muitos discursos".

Mas, claro, quem nasceu para Geraldo Alckmin nunca chega a Ulysses Guimarães...

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*Celso Lungaretti, jornalista, escritor e ex-preso político anistiado pelo MJ. Mantém o blog Náufragos da Utopia Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz.

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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