segunda-feira, 24 de setembro de 2012

PLANEJANDO A PRÓPRIA MORTE

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(Enviado de Paris) O sociólogo francês Philippe Bataille, que é membro do Comitê de Ética Clínica do Hospital Cochin, em Paris, passou vários anos observando o sofrimento e a agonia de doentes terminais nos chamados Centros de Cuidados Paliativos. Presenciou cenas chocantes. Conviveu com parentes de moribundos, com médicos, enfermeiros, psicólogos, policiais e advogados, a quem entrevistou. O resultado foi um livro, lançado na semana passada, na França, intitulado: À la vie, à la mort. Euthanasie: le grand malentendu. (À vida, à morte. Eutanásia: a grande confusão).
Comecei a ler o livro motivado pela entrevista feita por Cécile Prieur com o sociólogo e publicada, na última quinta-feira, no jornal Le Monde. Mesmo antes de terminar a leitura, me aventuro a apresentar aqui algumas questões discutidas pelo autor sobre a eutanásia e a ajuda médica prestada aos que estão morrendo - um debate que se aprofunda nos países da Europa.
O presidente da França, François Hollande, reconhece o direito do doente de acabar com a própria vida e quer mudar a legislação para tornar isso possível. Embora a lei francesa atual contenha uma brecha que permite o paciente deixar ordens antecipadas a respeito de sua própria morte, os médicos se recusam a atender a vontade daqueles que querem escolher o momento de ir embora desta vida. Ninguém pode sequer morrer em paz. O Estado mete sempre o bedelho.
Philippe Bataille cita o caso do seu colega sociólogo, François Ascher, que antes da fase terminal de sua doença, deixou por escrito, com todas as letras, que queria morrer em casa, sedado, mas os médicos, alegando que "o paciente queria se suicidar", não atenderam seu pedido:
- "A suspeita pesa sempre sobre aquele que deseja abreviar a agonia de um moribundo ou pretende acabar com uma vida vegetativa inconsciente" - escreve o autor.
Ele condena o que denomina de "paliativismo" - uma forma ideologicamente exacerbada de cuidados paliativos, cujo princípio é de que ninguém pode usar recursos médicos para apressar a morte de um paciente, que deve acontecer naturalmente e não pode nem dever ser fruto da vontade ou da intenção do doente. O sociólogo discorda:
- Ora, existem pacientes incuráveis que não desejam morrer de "morte natural". Eles estão fatigados e estressados depois de um longo tratamento geralmente esgotante e pedem para acabar com a agonia, porque chegaram aos limites de suas forças. No entanto, esse pedido, que requer um gesto ativo dos médicos, é sistematicamente bloqueado pelo "paliativismo".


Em seu livro, Phillipe Bataille critica essa visão que se tem do doente, que é visto como uma criança, um bebê, incapaz de decidir por ele mesmo porque estaria numa situação de vulnerabilidade. Dessa forma, o paciente é desqualificado e culpabilizado de querer apressar a morte, quando, na realidade, a crueldade reside justamente no fato de não deixar partir quem está sofrendo. No caso em que a agonia se prolonga por longo período, o médico que nega ajuda para abreviar os dias de vida do paciente é que deve ser acusado de maus tratos - escreve o autor.  
Na entrevista, quando perguntado sobre qual é sua proposta, Phillipe Bataille declarou: "Acho que é absolutamente necessário escutar o doente, levar em conta sua palavra, seu desejo, ouvir o que ele tem a dizer sobre o seu próprio fim. Os médicos que condenam a eutanásia costumam fazer uma caricatura do pedido de ajuda ativa para morrer, como se isso fosse algo criminoso. Quem é melhor médico: aquele que não pode impedir que a doença mate o paciente ou aquele que, ao contrário, o acompanha a ter uma morte digna, com um gesto ativo, no momento em que esse pedido é feito?
Essa questão é bastante polêmica e o autor vem discutindo com seus alunos de doutorado no seminário "Sociologia do sujeito vulnerável", na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, onde orienta teses e coordena um grupo de pesquisa. Há alguns anos ele publicou um livro abordando o mesmo tema, intitulado: O câncer e a vida: os doentes diante da doença.   

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José Ribamar Bessa FreireDoutor em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2003). É professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio), onde orienta pesquisas de mestrado e doutorado, e professor da UERJ, onde coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas da Faculdade de Educação. Ministra cursos de formação de professores indígenas em diferentes regiões do Brasil, assessorando a produção de material didático. Assina coluna no Diário do Amazonas  e mantém o blog Taqui Pra Ti . Colabora com esta nosssa Agência Assaz Atroz.

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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domingo, 23 de setembro de 2012

O Mago de Itabira e o Bruxo do Cosme Velho

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Carlos Drummond de Andrade
Drummond, em casa

Drummond se rende a Machado


Em 1925, o jovem poeta Carlos Drummond de Andrade publicou n'A Revista, de Belo Horizonte, um artigo intitulado "Sobre a tradição em literatura", no qual afirma que, em relação a Machado de Assis, o melhor a fazer é repudiá-lo. 

Por Hélio Guimarães 


Aos 22 anos, cheio de ímpeto juvenil, Drummond considerava Machado um romancista tão curioso quanto monótono, mestre de falsas lições, um "entrave à obra de renovação da cultura geral".


Três décadas mais tarde, em 1959, Drummond publicou o poema "A um Bruxo com Amor", uma das mais belas homenagens de escritor para escritor na literatura brasileira. O bruxo do título, obviamente, é Machado; e o poema compõe-se quase inteiramente de frases e expressões tiradas de crônicas, poemas, contos e romances do autor de Dom Casmurro.



Machado de Assis, 

o Bruxo do Cosme  Velho



O que teria se passado com Drummond?

Essa rendição a Machado tem muito a ver com a trajetória do poeta, que ao longo dos anos se distanciou do modernismo iconoclasta, aproximando-se mais e mais da tradição literária, compondo também poemas com metros, rimas e formas clássicas.

Mas essa assimilação lenta e tardia da obra de Machado de Assis mostra também como ele foi uma enorme pedra no caminho dos primeiros modernistas, investidos do propósito combativo de romper com tudo o que soasse a convenção e academicismo. Machado, fundador e presidente vitalício da Academia Brasileira de Letras, foi também um emblema do espírito convencional e acadêmico, aspectos seus muito valorizados nos anos compreendidos entre sua morte, em 1908, e a renovação modernista.

Talvez por isso o silêncio quase sepulcral em torno de Machado durante a década de 1920. Para se ter uma ideia da dimensão desse silêncio, ao longo de toda a década foram publicados cerca de cem textos sobre Machado nos jornais, revistas e editoras de todo o país; nos anos 30, foram mais de 700.

A obra mais significativa de toda a década de 20 foi a reunião da correspondência de Machado de Assis com Joaquim Nabuco, publicada em 1923 por Graça Aranha, com um longo prefácio do autor de Canaã. De resto, o que dominou foi uma espécie das velhas questões associadas à obra - o humor, as figuras femininas, a timidez do escritor... Além disso, certa ênfase no lusitanismo da dicção e a insistência no academicismo do escritor calaram fundo nos círculos modernistas, afastando-os da figura e da obra machadianas, muitas vezes lembrada pela colocação de pronomes correta demais, portuguesa demais.

Dedicados os modernistas à reavaliação e à releitura do nacionalismo oitocentista e da relação da cultura brasileira com as matrizes europeias, a referência mais óbvia e mais positiva para eles era José de Alencar, muito mais forte e presente do que a figura algo incômoda e inclassificável de Machado de Assis.

Por isso, a visão do jovem poeta, que em 1925 ainda assinava Carlos Drummond, não poderia oferecer síntese melhor do entrave que Machado de Assis representava para as novas gerações. Ao contrário de Mário de Andrade, que diria ser impossível amar Machado, Drummond declara seu amor, mas também dá a medida do peso que Machado significava para a sua geração:

"Que cada um de nós faça o íntimo e ignorado sacrifício de suas predileções, e queime silenciosamente os seus ídolos, quando perceber que estes ídolos e essas predileções são um entrave à obra de renovação da cultura geral. Amo tal escritor patrício do século 19, pela magia irreprimível de seu estilo e pela genuína aristocracia de seu pensamento. Mas se considerar que este escritor é um desvio na orientação que deve seguir a mentalidade de meu país, para a qual um bom estilo é o mais vicioso dos dons, e a aristocracia um refinamento ainda impossível e indesejável, que devo fazer? A resposta é clara e reta: repudiá-lo. Chamemos este escritor pelo nome: é o grande Machado de Assis".

Foram pouquíssimos os jovens da década de 20 que tiveram a coragem de dizer aos quatro ventos o que Drummond escreveu, tentando digerir em praça pública a presença ao mesmo tempo incontornável e indigesta de Joaquim Maria.

"O escritor mais fino do Brasil será o menos representativo de todos", escreve Drummond no mesmo artigo e certamente não diz isso por insensibilidade, falta de inteligência ou afinidade com a dicção machadiana - muito pelo contrário, difícil pensar num poeta mais machadiano que Drummond. Dizia isso porque essa era a possibilidade de leitura que ele e sua geração tinham àquela altura. "A razão está sempre com a mocidade", sentencia Drummond. É preciso que a mocidade tenha razão a qualquer custo e possa sacrificar seus ídolos, para não cair no imobilismo. Foi um pouco isso que Drummond e seus colegas de geração fizeram ao virar as costas para Machado durante a década de 20.

O longo silêncio de todos eles na década anterior pode ser atribuído também ao fato de estarem absorvidos pelos próprios projetos literários. Também é razoável supor, até pelo que escreveram mais tarde, que o silêncio se devia ao desconforto causado pela figura de Machado de Assis, tão associada ao academicismo e transformado numa espécie de medalhão.

Por isso, talvez não seja acaso que tanto Mário de Andrade como Manuel Bandeira, quando escreveram sobre Machado, tenham dado tanta atenção à sua poesia, ressaltando seu aspecto técnico e convencional, deixando um pouco à sombra a prosa, certamente mais fora do esquadro e das expectativas e, portanto, mais difícil de ser compreendida.

Ao longo dos anos 30, Machado receberia mais e mais atenção da crítica, com os estudos renovadores de Augusto Meyer, Lúcia Miguel Pereira e Astrojildo Pereira. Aos poucos, foi sendo assimilado também pelas novas gerações de escritores. Em 1935, José Lins do Rego escreve um artigo elogioso sobre a linguagem e o estilo de Machado. Por ocasião das comemorações do centenário do nascimento, em 1939, os escritores modernos se manifestaram em peso: Mário, Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Marques Rebelo, Bandeira...

E a lista cresceria muito até o fim dos anos 50, com as homenagens, em 1958, pelos 50 anos de morte de Machado.

Assim, o poema-dedicatória que Drummond escreve para Machado, e inclui em A Vida Passada a Limpo, pode ser lido também como a rendição de toda a geração modernista, que aos poucos reduz a pó a estátua em mármore do fundador da Academia Brasileira de Letras, para valorizar nele a dúvida e o enigma. Nas palavras do Drummond "convertido", que tomou emprestadas do próprio Machado:

"Todos os cemitérios se parecem,/ e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida/ apalpa o mármore da verdade, a descobrir/ a fenda necessária;/ onde o diabo joga dama com o destino,/ estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,/ que revolves em mim tantos enigmas".

(*) Hélio Guimarães é professor da área de literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do CNPq

Fonte: Valor Econômico




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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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sábado, 22 de setembro de 2012

Entrevista com Hildegard Angel - aqui ilustrada por AIPC


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Em entrevista, Hildegard Angel, filha de Zuzu e irmã de Stuart, conta um pouco de sua luta para preservar e honrar a memória de sua família. Além disso, fala sobre a Lei da Anistia, a Comissão da Verdade, o papel das novas gerações na política e a imprensa brasileira. "Vivemos numa liberdade de imprensa muito relativa, mas não devido ao governo, e sim devido aos interesses capitalistas dos empresários da opinião deste país".

 

“Quem é essa mulher?” é o verso ecoante da música de Chico Buarque feita em homenagem à estilista Zuzu Angel, que morreu num mal explicado acidente de carro depois de ela ter enfrentado com unhas, dentes e desfiles de moda de protesto o regime militar, almejando saber a todo custo alguma informação sobre o paradeiro de seu filho, o ativista político Stuart Angel Jones, torturado e assassinado à época dos “anos de chumbo” brasileiros. A música se tornou símbolo da luta das mães que nunca souberam o que realmente aconteceu com seus filhos nem puderam enterrá-los dignamente. É o símbolo também de uma época de muito sofrimento cuja memória Hildegard, filha de Zuzu e irmã de Stuart, faz questão de manter viva para que essa história não volte a se repetir. 

Ela, que começou a sua carreira como atriz nos anos 1970, posteriormente se tornou jornalista e conquistou o posto de uma das maiores colunistas sociais do país. Hoje ela se dedica a um blog, cujos temas predominantes são moda e comportamento, e pretende inaugurar em breve um museu com vários documentos de sua família, guardados ao longo de anos. 

Também fundadora do Instituto Zuzu Angel, Hildegard nunca foi militante como seu irmão. “As pessoas tiravam casquinha do heroísmo alheio. Eu sempre tive pudor disso”, explica quando questionada se nunca pensou em juntar-se ao movimento de oposição ao governo. “O que eu sempre fiz foi honrar a memória dos meus”, complementa, emocionando-se ao relembrar a história de combate de sua família.

Hilde, como é chamada pelos mais próximos, tira de sua trajetória posicionamentos precisos sobre a Lei da anistia, a Comissão da Verdade, o papel das novas gerações na política e a imprensa brasileira, fazendo jus à frase com que se descreve em seu Twitter: “Vocês me conhecem. Sou aquela que pode não ter a melhor opinião, pode não ter a sua opinião, mas tem opinião!”. A partir de suas falas, que desvelam alguns episódios importantes desse período ainda nebuloso da história do nosso país, é possível conhecer um pouco mais quem é essa mulher chamada Hildegard Angel. 

Antes de se dedicar ao jornalismo, a senhora teve uma carreira como atriz. Numa outra entrevista, a senhora declarou que queria ser a Joana D’Arc dos palcos, enquanto que o seu irmão queria ser a Joana D’Arc da vida real. Como foi esse seu início profissional? Ser a Joana D’Arc dos palcos também implicava alguns riscos, alguma exposição?

E ele foi, né? Ele foi a Joana D’Arc da vida real (risos). 

Mas acabou que nos anos 1970, com o teatro engajado, houve uma exposição, sim. Eu, por exemplo, fiz algum teatro engajado, com o Grupo Oficina. O último espetáculo deles, em 1973, chamado Gracias, Señor, dirigido pelo Zé Celso Marinez Corrêa, foi uma peça engajada importante da qual eu participei. Ela era assistida toda noite pelo DOPS. Era um espetáculo longo, muito improvisado também. Havia riscos naquela época, que era época da censura, né? Houve também um risco também para as pessoas de teatro que tinham uma militância. Eu não fui uma militante, né? Eu fiz a militância por acaso em alguns espetáculos como esse.

A senhora nunca pensou em se juntar ao movimento de oposição ao governo?

Eu não tinha a estrutura ideológica do meu irmão. Eu sempre respeitei muito o embasamento ideológico e intelectual do meu irmão. Seria muito fácil para mim e até muito honroso pegar, empunhar e desfraldar a bandeira da esquerda brasileira. E seria também muito proveitoso para mim naquela época se eu tivesse tomado essa iniciativa. Mas eu sempre encarei de uma maneira muito séria e com muita responsabilidade e respeito a luta do meu irmão. Eu ficava muito envergonhada de ver pessoas vestirem de uma maneira até festiva o uniforme, a roupa, as vestimentas da militância sem terem conteúdo ideológico, apenas pelas vantagens que poderiam advir dessa proximidade com os nossos heróis. As pessoas tiravam casquinha do heroísmo alheio. Eu sempre tive pudor disso. Eu sempre respeitei muito a luta legítima de quem fez por onde. Eu sempre considerei um atrevimento ver jornalistas, artistas, pessoas de comunicação sem conteúdo ideológico, mas com bom jogo de cintura, se aproveitarem do sangue, da luta, da ideologia, do conteúdo, da ingenuidade, da boa fé dos nossos jovens para tirar partido disso, para construir suas carreiras na base do oportunismo. Eu sempre tive esse pudor. Nunca quis. 

O que eu sempre fiz foi honrar a memória dos meus. Foi, em todos os momentos da minha vida, jamais negar-lhes todas as homenagens, desde o primeiro momento. Meu irmão e minha mãe são e foram as personalidades daquele momento político brasileiro mais homenageadas até hoje. Até durante a ditadura foram inauguradas ruas, praças escolas, exposições com os nomes deles. As pessoas ficavam até boquiabertas de isso acontecer porque ninguém tinha peito de fazer isso. E com meu olhar até singelo, meu jeito ingênuo – podem considerar até sonso –, eu fazia isso. Talvez as pessoas achassem que eu fosse amorfa porque eu não oferecia perigo. E eu fazia isso. Eu mantive a memória dos meus viva, respeitada, homenageada, e essa foi a minha maneira de prestar a minha homenagem, de fazer o meu bom combate e de manter essa luta e essa memória vivas para que esses fatos não se repetissem. 

E a senhora fundou também o Instituto Zuzu Angel, uma forma de preservar a história da sua mãe...

Foi a primeira ONG de moda no país, ou seja, uma sociedade civil sem fins lucrativos, lembrando a memória de Zuzu, lembrando a sua luta e a luta do Stuart. Eu lembro que naqueles anos em que todos rasgavam documentos, jogavam fora qualquer coisa que os comprometesse, eu guardei tudo, tudo o que se possa imaginar: na minha casa, nas minhas costas, nas minhas malas, nos meus baús, nas minhas gavetas. Nunca tive medo. E hoje nós temos um conteúdo sensacional de documentos. Hoje nós estamos tentando levantar um museu aqui no Rio de Janeiro com a Secretaria de Estado. Se Deus quiser nós conseguiremos. Porque, você sabe, essas coisas de governo a gente nunca sabe, né? Várias promessas, vários governos sucessivamente... Nunca sabemos se será levado adiante. Uma hora dizem uma coisa, noutra hora outra. Eu quero ver pronto! Já estou cansada de promessas! 

Mas eu tive a coragem de manter esse acervo sob as minhas asas numa época em que as pessoas tinham medo. Eu nunca me vangloriei da luta do meu irmão, da minha mãe e da minha cunhada porque é essa luta pertenceu a eles.

Que imagem a senhora acredita que o Brasil tenha da luta deles?

Acho que o Brasil tem a imagem de que os nossos jovens lutaram e de que os nossos políticos da época se omitiram. Os políticos da época, que podiam estar lá fora falando sobre isso, se omitiram. 

Não me esqueço quando minha mãe, que era uma juscelinista de boa cepa, convicta, encontrou-se com o Juscelino numa festa onde estava toda a high society do Rio de Janeiro e lhe disse: “Você poderia ter denunciado as mortes, mas você se calou. Você teria recursos para falar na imprensa internacional das torturas. Eu não lhe perdoo, Juscelino Kubitschek!” E enfiou o dedo no nariz dele. Na ocasião, disseram:
“Zuzu, você está louca! Fica calma!”.





Ela estava dizendo a verdade. No ano de 1976, foi aquela lavada geral, aquela limpeza diária: mataram a Zuzu, mataram o Juscelino, mataram o Carlos Lacerda, mataram o Jango. Porque ninguém me tira da cabeça que as mortes de Getúlio, Jango e Juscelino também fizeram parte dessa ação articulada. No Brasil, iniciava-se o processo de abertura e eles teriam que limpar a área para que tudo começasse zero-quilômetro, para que não ficasse resíduo, qualquer voz que pudesse se levantar para incomodá-los. 

Mas, quando foi dada a voz às famílias desses antigos políticos para falar a respeito na época da Comissão dos Desaparecidos, elas não quiseram investigar. Elas negaram que os seus familiares tivessem sido mortos, talvez por receio, porque não acreditassem ou porque não tivessem a ideia de que elas estavam roubando a memória de seus familiares quando lhes sonegavam o direito do reconhecimento de um assassinato político. 

A senhora apoiou a Dilma nas eleições presidenciais de 2010. Agora, no seu governo, finalmente foi instalada a Comissão da Verdade. O que a senhora espera dessa Comissão?

O assassinato da Zuzu foi reconhecido vinte e dois anos depois. Não foi no governo da Dilma, eu tenho que reconhecer. Foi no governo Fernando Henrique, quando o seu ministro, José Gregory, criou a Comissão dos Desparecidos Políticos. Foi feito um processo bem longo, em que houve recurso. O assassinato da mamãe foi reconhecido em segunda instância porque surgiram testemunhas oculares. Então não foi a presidenta Dilma. Mas eu acho que tudo anda muito vagarosamente. 


Eu acho que a anistia foi a anistia que foi possível na época. Eu apoiei e o Brasil inteiro apoiou a anistia porque foi a anistia possível. Eu apoiei aquela abertura porque foi a abertura possível; aquele momento porque foi o momento possível, porque foi o momento em que não houve confronto, não houve novas vítimas, não houve sangue, não houve dor. Eu apoiei, sim, aquele momento porque foi um momento sem mortes. É muito importante que o Brasil lembre que nós tivemos uma passagem para a democracia sem mortes. Para quem já sofreu tantas mortes, como eu já havia sofrido, não queria mais em nome da política que houvesse mortes. Os nossos jovens, que já estavam velhos, retornaram ao Brasil, de todos os países, sequiosos para isso, sedentos para isso. E nós aqui esperançosos para isso. Então eu achava importante que a nossa passagem tivesse sido sem mortes. 

E a senhora espera que seja feita a justiça com a Comissão da Verdade?

Eu espero que seja feita, mas eu acho tudo muito lento e eu fico muito cansada. Eu espero que sim. Sou esperançosa, vejo boas intenções, mas eu estou cansada. Você veja, esse livro (Memórias de uma guerra suja) em que é apontado o possível assassino da minha mãe... Por que eles não elucidam logo esse assassinato, quem foi o assassino? Que ela foi assassinada todos já sabemos. Por que eles não identificam logo, não abrem logo esse processo? Você vê que as famílias têm que ficar o tempo todo sofrendo esse martírio. Eu fico cansada. 

Como a senhora acha que as novas gerações lidam com a política?

Se não forem as novas gerações, o que será de nós? As velhas gerações estão muito mais preocupadas com elas mesmas do que com o nosso passado. Graças a Deus temos as novas gerações.

A senhora acredita que o Brasil lide bem com o seu passado?

Eu acho que o Brasil lida bem com o passado na medida em que as novas gerações estão preocupadas com esse passado. Com a idade, as pessoas vão se acomodando, as pessoas vão perdendo seus postos de poder, a sua voz, a sua influência. E as pessoas também vão se revelando, né? 

Pessoas que antes pareciam engajadas, preocupadas em esclarecer fatos, hoje se situam praticamente à direita e estão mais preocupadas em satisfazer seus patrões da mídia de direita do que esclarecer pontos importantes do nosso passado de esquerda. 

Os filmes que falam sobre essa época da ditadura, como o filme do Sérgio Rezende que foi feito sobre a sua mãe, podem ajudar a resgatar esse passado?

A cultura está fazendo essa revolução. A cultura está fazendo essa denúncia. A cultura está prestando um grande serviço a essa luta brasileira, a esse resgate. Acho que há movimentos importantes também. O “Tortura Nunca Mais” de hoje é um movimento muito importante.

Hoje se discute e se faz com bastante frequência política na internet, em blogs e em redes sociais. O que a senhora pensa a esse respeito?

Redes sociais são importantes, mas eu vejo que há uma certa casta superior do jornalismo que se identifica como jornalismo de primeira linha, de primeiro grupo. É um jornalismo totalmente comprometido com seus patrões, que não está muito preocupado com nada, não...

A senhora acha que nós vivemos numa liberdade de expressão plena hoje?

Vivemos numa liberdade de imprensa muito relativa, mas não devido ao governo, e sim devido aos interesses capitalistas dos empresários da opinião deste país, que estão restritos a uma única opinião, refletindo os interesses de um pequeno grupo de empresários poderosos...


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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

As "peças" que muita gente está chupando

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Fernando Soares Campos


Ricardo Noblat, o Noblá-blá-blá, blogueiro de O Globo, conta uma história inacreditável, como tantas outras que ele já contou. Mas, dessa vez, creio que o sujeito extrapolou até mesmo a orientação editorialista do jornal. Ou será que, a partir dessa maneira de fazer “jornalismo”, os editorialistas de O Globo é que vão se espelhar no Noblá-blá-blá?

Diz Noblat que, ao sair de uma festa em Brasília, ouviu alguém chamando por ele: “Canalha! Filho da puta!”

Aí reconheceu de imediato a voz do ministro do STF Dias Tóffoli e voltou para agradecer os elogios.

Acanhado diante de tanta honraria (“Quem sou eu?!”, “Não mereço tanto!”), Noblat diz que se escondeu num ponto do terraço da casa e continuou ouvindo a louvação do ministro.

Na nota publicada em seu blog, Noblat diz, inicialmente, que na saída da festa cumprimentou o ministro e, lá mais distante, no portão da casa, foi “atraído por palavrões ditos pelo ministro em voz alta, quase aos berros”, mas que voltou e ficou num ponto “onde dava para ouvir com clareza”. Ué! Mas ele não disse que ouviu inicialmente o homem falando “em voz alta, quase aos berros”? Tendo, inclusive, identificado a voz do ministro. Por que só mais perto é que poderia ouvir “com clareza”?

Noblat diz ainda que, escondido onde estava, o ministro não sabia que ele estava escutando os seus berros.

Segundo Noblat, a primeira fala do ministro “aos berros” é a seguinte: “Esse rapaz é um canalha, um filho da puta”. Nesse caso, considerando que Noblat estava saindo, diz que tinha acabado de cumprimentar o ministro e já se encontrava lá no portão, então, provavelmente, o ministro e a quem ele dirigia a palavra estavam vendo o Noblat: “Esse rapaz...” (aos berros). Ou isso ocorreu logo após o cumprimento? Quer dizer: o mais lógico seria dizer que o cumprimentou, mas, assim que lhe deu as costas, o ministro teria dito para seu suposto interlocutorEsse rapaz...” Em qualquer caso, se o ministro disse “Esse rapaz...”, então, teria Noblat ao alcance da vista de todos; assim sendo, como teria Noblat voltado sem ser visto e se escondido para continuar ouvindo o xingamento sem ser percebido?

Ah! Apareceu uma não-testemunha do caso. Foi Eduardo Pertence, filho do ministro Sepúlveda Pertence, que comentou a postagem no Blog do Noblat, dizendo:

Nome: Eduardo Pertence - 12/8/2012 - 3:36
Caro Noblat,
Aprendi a lhe respeitar e admirar desde criança, por consequência do meu pai, Sepúlveda Pertence, seu amigo e admirador.
Contudo, não posso deixar de demonstrar meu espanto com essa leviana notícia.
Estava eu, junto ao meu pai, nessa mesma festa.
Você foi recebido na mesa dele com todas as loas e elogios.
Fiquei na festa até o final, chegando a acompanhar o Min. Toffoli até o seu carro, quando ele foi embora.
Afirmo não ter presenciado nada parecido com o que você noticiou aqui.
Não vi, nem ouvi dele, nada assemelhado as loucuras aqui mencionadas.
De minha parte, testemunho que isso não houve.
De sua parte, espero que o Mensalão não esteja alterando sua noção de realidade.
Continue, fora isso, sendo o grande a admirável jornalista que sempre foi.
Com respeito, mas espanto,
Eduardo Pertence


 

Em seguida Noblat escreveu:

Resposta: Neste domingo, por volta das 11h, Eduardo Pertence me telefonou. Pediu desculpas pelo que escreveu aqui. Reconheceu que onde estava não dava para ouvir o que Toffoli disse ou não. Noblat

Enrolou mais ainda. Veja: “Reconheceu que onde estava não dava para ouvir o que Toffoli disse ou não”. Como assim? Não dava para ouvir o que foi dito ou o que não foi dito?! Como alguém poderia ouvir o que não foi dito? Ah! Acho que o Noblat quis dizer que o rapaz assumiu que, de onde estava, não poderia ter ouvido seTóffoli disse”, apenas isso. Mas dizer que “não dava para ouvir o que Tóffoli disse ou não [disse]” fica estranho! Ninguém ouve o que não foi dito.

E por que pedir desculpas se ele deixa claro: "Afirmo não ter presenciado nada parecido com o que você noticiou aqui. Não vi, nem ouvi dele, nada assemelhado as loucuras aqui mencionadas. De minha parte, testemunho que isso não houve."? É verdade, nesse caso seria a não-testemunha do que não houve, ou não "ouve". Sei lá!
Pediu desculpas pelo que escreveu ou pediu desculpas por não ter ouvido?

Ah! Pediu desculpas por ter dito: "espero que o Mensalão não esteja alterando sua noção de realidade".

Bom, o Noblat a gente tem uma ideia de a quem ele pertence. 

Leia a nota do Noblat e observe que, pelos seus relatos, dá a impressão de que o ministro estava sozinho, aos berros, gritando ensandecido. Quer dizer... no final da nota, a gente percebe que o ministro poderia estar conversando com alguém, falando do reconhecido caráter do Noblat. É quando, segundo Noblat, o ministro teria dito: “Chupa! Minha pica é doce.” Provavelmente segurando e balançando as partes baixas. Como, pelo que parece, ninguém chupou, o ministro teria sugerido “Ele que chupe minha pica”. Só assim interpretando a nota do Noblat foi que pude identificar a suposta presença de alguma testemunha.

Existem outros detalhes na fantasiosa história do Noblat, mas eu não tenho paciência para comentar. Também seria subestimar a inteligência do leitor, que certamente saberá identificar as incoerências. Eu não frequento o Blog do Noblat, leio dele o que raramente me enviam, e é sempre coisas desse tipo.



Acabo de sair de uma festa em Brasília. Na chegada e na saída cumprimentei José Antônio Dias Tóffoli, ministro do Supremo Tribunal Federal.
Há pouco, quando passava pelo portão da casa para pegar meu carro e vir embora, senti-me atraído por palavrões ditos pelo ministro em voz alta, quase aos berros.
Voltei e fiquei num ponto do terraço da casa de onde dava para ouvir com clareza o que ele dizia.
Tóffoli referia-se a mim.
Reproduzo algumas coisas que ele disse (não necessariamente nessa ordem) e que guardei de memória:
- Esse rapaz é um canalha, um filho da puta.
Repetiu "filho da puta" pelo menos cinco vezes. E foi adiante:
- Ele só fala mal de mim. Quero que ele se foda. Eu me preparei muito mais do que ele para chegar a ministro do Supremo.
Acrescentou:
- Em Marília não é assim.
Foi em Marília, interior de São Paulo, que o ministro nasceu em novembro de 1967.
Por mais de cinco minutos, alternou os insultos que me dirigiu sem saber que eu o escutava:
- Filho da puta, canalha.
Depois disse:
- O Zé Dirceu escreve no blog dele. Pois outro dia, esse canalha o criticou. Não gostei de tê-lo encontrado aqui. Não gostei.
Arrematou:
- Chupa! Minha pica é doce. Ele que chupe minha pica.
 Atualização das 3h52m - Imagino - mas apenas imagino - que o ataque de fúria do ministro deve ter sido desatado por um comentário que fiz recentemente sobre a participação dele no julgamento do mensalão. Segue o comentário

(Se quiser assistir ao comentário do Noblat, clique no título desta sua postagem)

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Já tem outra história do Noblat rolando na internet, virou corrente entre pessoas aparentemente ingênuas e outras tantas de sombria má-fé.

A "peça" do Noblat que muita gente tá chupando intitula-se "A quarta cópia".

Recebi por e-mail de pessoa que costuma me enviar corrente religiosa e, às vezes, despacha uma do diabo. Acessei o Google a fim de encontrar um endereço eletrônico para dar acesso ao texto a partir deste nosso blog. Escolhi um dos 18.400 resultados (assim, que nem Skol, redondo - ? -), informado pelo site de busca, numa pesquisa feita com a frase inicial do texto aspeada: "Dá-se a prudência como característica marcante dos mineiros." Pelo visto, Noblat não é mineiro.

Cliquei em um dos resultados do Google e linquei e título. Se alguém se interessar em ler, é só clicar aí...

A quarta cópia

Mas, ao ler, não se esqueça do que o rapaz lá em cima falou: "espero que o Mensalão não esteja alterando sua noção de realidade"

Porém, ao que tudo indica, o que está mesmo tirando o sossego do Noblat é isso aí...

Toffoli julga mulher de Noblat sobre rombo de R$ 33 milhões no INCRA

Agora está explicado a obsessão do blogueiro da Globo contra o ministro Dias Toffoli, do STF.

(Clique no título e leia completo no site BRASIL! BRASIL! )

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Entrevista copidescada com um homem em estado de sítio

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por Equipe Assaz Atroz

Ficha: Agente a serviço da intelectualidade oficial de patente, autor de “Mais de 1.800 Colinas”, livro que deu origem ao hino “1800 Colunas Curvadas”, do general Costa Colina, Callos Heiduque Conifloro volta à narrativa minimalista ao lançar obra de não-ficção (continue doente): “Conspiração contra a Teoria da Conspiração”.
                               
Nesta entrevista, concedida a dois repórteres frilas e um Assaz Atroz contista paraíba-carioca, Heiduque fala de sexo, futebol, cachaça, política, jornalismo e cultura inútil em geral.

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Eis que surge Callos Heiduque Conifloro no convés do seu iate fundeado na Lagoa dos Feitos, andando com dificuldade, pois perdeu seu poder de volitar. Se a distância fosse maior, usaria um ultraleve; viagens, agora, só mesmo no seu jatinho adaptado.

Durante duas madrugadas de conversa fiada, o escritor acadêmico pagou mico, falou de tudo um pouco, até de literatura; lembrou amigos como Paulo Franco, aspirante a generalíssimo, e Adolphino Broche, seu führer-mentor, e contou como transcorreram suas hospedagens em quartéis cinco estrelas, nos tempos da ditadura militar que se instalou no Brasil em 1º de abril de 64, época em que pouca gente fazia 69 – morria antes, de acordo com a expectativa da vida inútil de cada um de nós.

Ele até se emocionou ao falar de trabalhos seus que voltam às livrarias em novas tiragens revisadas do ponto de vista ideológico: “Esqueçam tudo que um dia eu disse, mas esqueçam também tudo que de mim disseram daqui em diante; exceto o que aqui vou dizer atrozmente e que brota de uma mente que não mente”. Voltando-se para nós, perguntou: “E aí? Sou ou não sou melhor frasista que o Nelson Rodrigues?” (os ponto-e-vírgulas aqui utilizados contrariam palpite de Heiduque; confira na entrevista).

“Conspiração contra a Teoria da Conspiração” reúne contos crônicos, ensaios profundos, literatura infanto-senil, entre outros gêneros genéricos.

E, como diria Odorico Paraguaçu, deixemos de lado os entretantos e vamos partir pros finalmentes...


Assaz Atroz – O senhor acompanhou a construção do Estádio de Sítio, em 1964, e assistiu ao jogo entre Direita e Esquerda. Com essa bagagem, acredita que vamos faturar a Copa de 2014?

Callos Heiduque ConifloroÉ complicado! O futebol que jogamos hoje não é o mesmo do mundo cubalizado em que vivíamos em 64. A seleção dos Estados Unidos, por exemplo, sempre foi formada por pernas-de-pau, só ganhavam uma partida se comprassem o juiz, os bandeirinhas e até os gandulas, além de dar souvenir à galera, pompom pra torcida. Hoje ainda é assim; mas, com as redes de relacionamento na internet, aumentou seu poder de influência. Em 1950, batemos de 6 a 1 a seleção da Espanha, ao som de “Touradas de Madri”, de Braguinha. Porém, naquela época, os espanhóis jogavam feito miúra, touro bravo, mas, miúdo. Dizem até que esse tipo de touro anda passando fome por lá... Conversa fiada! O touro deles engordou, e estão batendo um bolão... A seleção paraguaia, sim, essa está num tremendo miserê, pois lá a vaca foi pro brejo.

E no caso do Brasil, nós temos ou não temos chances concretas de faturar a Copa de 2014?

Depende do “nós”! A quem você se refere? Nós quem, gafanhoto? [?!] Vocês sabem que existem brasileiros que torcem contra, é a turma do quanto-pior-melhor. Mas, respondendo diretamente à sua pergunta, eu diria que chance todo mundo tem, mas o que falta ao Brasil é um técnico com espírito de “füherer”. Gosto muito dessa palavra, mas às vezes digo que não, porque posso ser mal interpretado. No Brasil não há técnico com esse estilo no mais amplo sentido da palavra, só uns arremedos. Para melhorar nossas chances, precisamos encontrar um técnico-füherer, um sujeito com verdadeira capacidade de liderança.

O Serapião seria uma boa opção?

Pelo menos rima! [sorriso amarelo] Precisamos de mais arrojo, na base do nazismo mesmo, sabe?! Um camarada com cujones em cima dos jogadores. Não vejo ninguém com esse potencial todo. A Copa é um torneio medieval, como diria o Merdal Parreira. E hoje as seleções de fora têm esse cacete de combate muito superior ao nosso. Técnicos com verdadeiro espírito “füherer”. Já tivemos técnico até no estilo liderzinho, como foi o caso do Lugallo, em 1970, que quase tardiamente substituiu João Saudade, que não dava pra gente engolir... Aquele que foi convocado e depois cassado. Lugallo teve mais sorte, ganhou a Copa. Mas ele não é propriamente um técnico “füherer”, aprendeu táticas de futebol assistindo a partidas no Morumbi, depois de ter observado muito jogo de várzea às margens do Tietê. No entanto, precisamos de mais! Como diz São Serapião: podemos fazer mais!

O senhor é a favor da reforma do velho Estádio de Sítio?

Os estádios modernos não são mais em forma de prato, como, por exemplo, o Maracanã e o Morumbi. Essa reforma seria necessária para deixá-lo em forma de xícara, que favorece a visão. É uma questão polêmica, porque, se fizermos isso, ampliaremos a visibilidade da galera ignara. Nós abolimos a geral exatamente por isso, porque a classe Z ficava na mesma posição dos técnicos, à beira do gramado. E foi assim que surgiram muitos técnicos empíricos, gente que não tem formação acadêmica e se acha! Creio que um dos maiores problemas é o acesso ao estádio, que só seria solucionado se criássemos condições de todo torcedor poder comprar um carro. Do jeito que o consumismo anda, é bem capaz de chegarmos a 2014 nessas condições. Deus nos livre!

Como já falamos, o senhor acompanhou a construção do Estádio de Sítio. Qual foi a maior polêmica para se concretizar o projeto?

Ary Barroso e Carlos Lacerda eram vereadores. Lacerda queria o estádio em Jacarepaguá, ali onde hoje fica o Riocentro, o da bomba. Talvez por interesse na valorização de umas áreas na Zona Oeste, propriedades de possíveis investidores de suas campanhas eleitorais. Ary queria que fosse construído na Tijuca. Foi uma briga de foice!

Mas o Partido Comunista, que na época havia eleito 18 vereadores, entre eles Aparício Torelly, o Barão de Itararé, fechou com a proposta do Ary: fazer na Tijuca, próximo ao local onde funciona até hoje um quartel militar. Foi o erro deles. O "Jornal das Peladas", com Mário Filho no comando, também fez campanha, movido a verbas publicitárias, claro!

O senhor conheceu Nelson Rodrigues depois que conheceu seu irmão Mário Filho, não foi nessa ordem?

É verdade, eu era amigo do Mário e acabei conhecendo o Nelson. Mas ele não me conhecia. [?!] Quer dizer... ele não tinha ideia de com quem estava lidando. Quando notou que eu era um frasista mais habilidoso do que ele, aí ficou enciumado e criou uma birra comigo.

Quando o Marcito [Márcio Moreira Alves, o Gota d’Água] foi candidato a deputado em 1966, emprestei meu carro, um Simca Chambord, para a campanha. Naquela época era ou Ford ou sai de Simca. A turma do DOPS flagrou o Marcito com material de propaganda considerado subversivo. Coisa do tipo: “Queremos verba publicitária!”. A notícia saiu nos jornais, e Mário me telefonou, preocupado. Naquele dia ele passou mal e à noite morreu.

Fui ao enterro, e Nelson me viu chorando. Tudo mudou a partir daí. Ele disse que havia perdido um irmão, mas ganhado outro. Uma frase nada original. Mas felizmente não foi naquele momento que ele disse: “Só o inimigo não traí nunca”.

Estreitaram os laços de amizade?

Até o dia em que ele disse: “Invejo a burrice, porque é imortal”.

No seleto grupo que circundava o Nelson e que contava com o Gastão, um cara que, quando me via, vomitava, todos tinham a certeza de que o personagem Palhares, o canalha, aquele que não respeitava nem as cunhadas, era eu. Na época, vestiu saia, não era padre nem escocês, eu tascava.

Sempre nos encontrávamos num boteco perto do "Jornal das Peladas". O Nelson pedia uma fatia de queijo do reino, mas havia de ser uma fatia bem finiiiinha. Ele precisava enxergar através da fatia. Disse a uns amigos que era pra quando levasse a fatia à boca, assim, como quem come macarrão em botequim, continuar acompanhando meus movimentos. Se não via através do queijo o outro lado, não comia. Era uma excentricidade.

O senhor vê alguma relação entre a sua obra e a dele?

Não sou muito chegado a queijo do reino, mas acho minha obra bem mais clara que a dele. O Paulo Franco, aspirante a generalíssimo, falou que se tratava de uma questão de microverme, coisa que só poderia ser identificada em laboratório. Para ele, que era inveterado comensal e excelente gastrônomo, o problema tinha origem nas peculiaridades do subdesenvolvimento dos restaurantes brasileiros, como acontece em tudo neste país.

Mas, em se tratando de literatura, o senhor foi influenciado pelo estilo do Mário Filho, ou não, como diria Caetano, ou não?

Mário Filho?! Irmão do Nelson?! Não! Nada disso! Quem me influenciou de verdade foi o Nelson Filho, filho. Quando o Nelsinho foi preso pelos aparelhos de repressão da Redentora, entendi que ponto de interrogação no asterisco dos outros é criatividade linguístico-literária. Depois dele, nunca mais usei o ponto-e-vírgula. Ponto em cima da vírgula é perversão sexual. Mas tem muita gente por aí que me pergunta se eu uso ponto e vírgula. Claro que uso! Eu não uso é ponto-e-vírgula.

A vírgula tem funções que vão além das regras gramaticais. Por exemplo: quando escrevo e-mail informando que um amigo meu viajou com uma amante, tomo o cuido de virgular corretamente. Se o cara for um Palhares como eu, digo que ele viajou “com a amante” ou “com fulana, sua amante”. Sacaram?! [?!] Explico. Se eu disser que viajou “com uma amante” ou “com sua amante fulana”, estou insinuando que o cara tem um harém. Aí, se o e-mail for parar na caixa de correio da mulher do sujeito, ela vai se sentir apenas uma “unicórnia”, o que não é lá tão grave. Pelo contrário, pode até ser um estímulo à vida sexual do casal. Mas manter um harém são outros quinhentos.

Com a leitura do Mário, ganhei naturalidade; com a do Nelson, maturidade. Com os catecismos de Carlos Zéfiro, entendi pra que serve a solitária prática da literatura.

Quando ele morreu, em 1966, o senhor já era famoso cronista de futebol, não era?

Escute bem: até 1964, eu não escrevia sobre futebol. Era copy editor no “Correio da Matina”, revisava textos que falavam dos serviços da cidade, coisas do tipo: “Qual o buffet que oferece os melhores serviços à grã-finagem?” . Às vezes, tratavam de comensalões. Aí, eu sempre aproveitava e inseria uma espécie de merchandising: citava Swift, a mortadela que passou a ser apreciada pela nobreza, como no comercial em que o Raul Cortez atuava como garoto propaganda. Descolava um jabaculê.

Como o senhor reagiu quando foi deflagrado o movimento golpista de 1964?

Como qualquer reacionário, ora! O Paulo Franco, aspirante a generalíssimo, disse que entrei na Arena com a fúria de um mintchura. Anos depois, a Neuzinha Brizola faz um pop rock em minha homenagem. Mas a primeira crônica minha, publicada em 2 de abril de 1964, não era sobre futebol. Falava de um incidente que presenciei e escrevi na véspera, dia 1º, dia do golpe e da mentira. Estava com Drumlin, colega no "Correio da Matina" e vizinho em Copacabana.

Saímos juntos, estava chovendo. Quando passávamos ali em frente à Praça dos Paraíbas, vimos o general Rey Montanha dar um coice na cara de um sentinela e, com o gesto, brochou a resistência.

Em seguida um oficial da Marinha pipocou a pistola pra todo lado. Um paraíba, de short, sem camisa, gritou: "Viva Brizola!". O oficial e outros milicos derrubaram o coitado e o chutaram sem dó nem ré. Depois dispararam pra cima do pau-de-arara, que virou presunto. O infeliz eu conhecia de vista, chamava-se Severino e era porteiro do prédio vizinho ao que eu e Drumlin morávamos. Voltamos taciturnos. Escrevi a crônica sem protestar contra o método de produção de presunto, bem diferente das técnicas empregadas na linha de produção Swift. Escrevi apenas narrando o que vi: um baderneiro que virou peneira. Quem procura acha... Mesmo assim, ainda sobrou pra mim.

O senhor fazia ideia de como a imprensa iria se posicionar?

Claro que fazia! Ela continuaria na posição de sempre: de quatro para a burguesia e para os militares

O meu texto, "Da Redenção da Pátria", foi mal interpretado. Ligaram para o comando do Primeiro Exército dizendo que eu estava pregando “a rendição da pátria”, que já estava nas mãos dos militares há mais de 24 horas.

Ao chegar à redação do “Correio da Matina”, ouvi alguém me perguntar de passagem: "Você sabe que merda fez?". O pessoal que trabalhava comigo no Petit Pois, a sala dos copy editors, estava com o asterisco cortando ponto de interrogação. O Drumlin me telefonou e só disse isso: “Aquele abraço glacial”. Longe de ser um gesto de solidariedade.

Quase todos os jornais, inclusive o Informe "JB", um boletim da fábrica de whisky, "O Cubo", nem se fala, o "Último Momento", timidamente, saíram no dia seguinte com elogios à Redentora.

O senhor não abriu as pernas?

Nem podia! Senão me rasgava ao meio! Não sou bailarina, nem contorcionista. Minhas pernas permaneceram abertas, mas na medida do possível, como estavam há muito tempo.

Um dos meus textos mais agressivos, e provavelmente um dos mais ingênuos, intitulava-se “Cacete para Todos”, ao fim do qual, registrei que qualquer estupro contra mim seria informado ao general Costa Colina, autor do hino “1800 Colunas Curvadas”. E ainda teve gente dizendo que eu estava insinuando que os militares também deveriam tomar cacete. São pessoas que só leem os títulos das matérias. “Todos” os baderneiros e subversivos, claro!

Meus ex-amigos estavam quase todos presos ou abrigados em embaixadas. Gente que não sabe escrever. Outros mudaram de lado, como o Heliomar Hernandes, que passou a atuar como araque da resistência. Ele ficava ligado nos nossos textos, tentando identificar atos falhos que revelassem as intenções dos comandos das redações. Aí, passava as informações para os subversivos. Mas, de modo geral, a maioria ficou a favor do golpe.

O próprio Lugallo desfilou numa daquelas marchas da família, em São Paulo. Não há foto pra provar, mas ele desfilou. Tem gente que diz que o que estou falando é como o tal “grampo sem áudio”. Veja: isto é uma prática jornalística legal, muito legaaal! A fonte precisa ser preservada, pra poder virar cachoeira. E o povaréu estava confuso! Quando se falava que a revolução havia triunfado, muita gente pensava que os esquerdistas teriam chegado ao poder. Era uma confusão dos diabos no Bananão. Até hoje ainda é assim. Também tem gente que tem vergonha de dizer que na época era alienado de muita coisa por ser muito jovem.

O senhor foi processado?

Antes chegaram a anunciar minha morte. Um sujeito entrou no "Correio da Matina" dizendo que eu havia sido assassinado. O que houve foi que, em agosto de 1964, fui processado pelo Costa Colina. Ele disse que tomou a medida porque não conseguia mais conter a pressão dos que queriam me matar. Subversivos! Conforme vocês podem ver, o general tomou apenas uma medida preventiva. Também fizeram isso com Anselmo, puniram e até o prenderam, a fim de legitimar sua atuação ao lado dos esquerdistas. Uma medida dessas é uma faca de dois legumes...

Como ainda havia ilhas de legalidade, então, leeegal! Pude contratar um advogado, que pediu um habeas corpus no Supremo Tribunal Federal, descaracterizando a Lei de Segurança Nacional e fazendo o processo correr na Lei de Imprensa, que previa o mesmo crime de que eu era acusado, criar animosidade entre militares e civis. O STF sempre foi essa ilha de legalidade. Isso é análogo ao caso dos mensaleiros de lá e os mensaleiros de cá. Aos amigos, caviar; aos inimigos, nem mortadela Swift.

Se fosse condenado, pegaria 30 anos. O que estamos esperando hoje pro Dirceu. O processo passou para outra esfera judicial. Fui intimado a comparecer ao Ministério da Guerra no dia em que Costa Colina prestou depoimento. Foi um encontro cordial, diga-se. Depuseram a meu favor Austregésilo, Alceu e Drumlin. Acabei condenado a três meses, em 1965, mas então já estava preso por outro motivo.

Qual?

Ter participado de um protesto diante do hotel Glória, quando ali se reunia uma Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos. Faziam parte do nosso grupo, chamado de "Os Outeiros do Glória", Antonio, este não falava nada, Márcio Moreira Alves, o Gota d”Água, Glauber Rocha, o Dragão da Maldade, Joaquim, Mario, Flávio e o embaixador James.

Havia um nono integrante, que não foi preso na ocasião, mas apresentou-se às autoridades depois. O PC prometera levar 5.000 operários. A imprensa informou que só surgiram cinco gatos pingados. Prefiro dizer que eram cinco gatos cagados. Isso prova que toda a população estava com a gente. Não houve violência. Pelo contrário, até nos acariciaram. Um soldado me apalpou e, como eu tinha um cachimbo no bolso, ele disse: "Esse camarada está armado!". Camarada, sim; armado, não. Imagine se ele tivesse apalpado a virilha. Aí ia ser um Deus nos acuda, todos os outros militares iriam querer me revistar.

Quando estávamos saindo, na viatura, alguém disse: "Olha o Paulo Franco!". Ele estava na calçada, olhando. Ao chegarmos ao batalhão, eu mesmo vi o Paulo atrás de uma árvore. Na hora, me lembrei de Judas, que negou Jesus uma só vez, mas decisiva.

Houve outras prisões?

Ao todo, foram seis. Fui preso mais vezes que Anselmo. Fui preso quando saiu o AI-5, em dezembro de 68, junto com o Joel. Fiquei numa espécie de Hilton, a cadeia cinco estrelas de um batalhão militar: sala enorme, dois banheiros, comida de razoável para boa. Na noite de Natal, ganhamos uma cesta com nozes, amêndoas, avelãs, castanhas, frutas secas e um cartão de boas-festas do general Costa Colina.

Quando saí, o comandante me perguntou se tinha alguma queixa. Respondi que havia estranhado o tratamento cinco estrelas. Tratar o Joel com tapete vermelho eu entendia, ele era um herói e um patrimônio nacional. Mas a mim?! O oficial disse que a deferência havia sido uma cortesia do general Costa Colina.

Quando o senhor deixou o "Correio da Matina'?

Antes do AI-2, em 1965, estava sem assunto e fiz um texto imaginando como seria o decreto: "Artigo primeiro: os Estados Unidos do Brasil passam a denominar-se Brasil dos Estados Unidos". Acontece que, na véspera, houve um pedido para que jornalistas maneirassem críticas em relação aos EUA. Chamar o Bananão de Estados Unidos era uma ofensa. Só o Serapião é que ainda hoje pensa que o nome do nosso país é República dos Estados Unidos do Brasil. Muitos de nós víamos a Revolução que se fez como mais desdobramento da Guerra Fria. Nada de ouro de Moscou; prata de Washington era mais que suficiente para nós. Quem de fato mandava no Brasil era o embaixador dos EUA Lincoln Gordon, sendo o marechal Castello Branco uma espécie de Pôncio Pilatos, governador da colônia.

Meu artigo saiu, e o contínuo do jornal me contou quando cheguei à redação: "Tá uma briga danada entre por sua causa”. Tudo porque escrevi dizendo que queria que nosso país continuasse se chamando Estados Unidos. Fiz uma carta pedindo demissão e mandei o contínuo entregar ao redator-chefe. Em solidariedade, o redator-chefe também se demitiu. Logo arrumou emprego. Eu não...

Como o senhor acabou indo trabalhar com Adolphino Broche?

Encontrei-o no Leme, fazendo pesquisa informal numa banca, para saber quantos exemplares de "Mancha" ou "Fatos Fofocas" tinham sido vendidos. Ele me falou para aparecer no prédio novo de sua editora, tinha trabalho para me oferecer.

O "Pasquim" o convidou a ser colaborador na mesma época em que o senhor entrou para a "Mancha"?

Nos três ou quatro primeiros números do "Pasquim", havia a chamada: "Na próxima edição, Callos Heiduque Conifloro". Não me animei. Disse ao Jaguatirica que não fazia sentido gastar meus neurônios para falar mal do Ibrahim ou elogiar a Leila Diniz. Além disso, concordo com o Miraldo, que tempos depois disse que também não estava mais naquela de sanduíche de mortadela. Se pelo menos fosse mortadela Swift... Eu apreciava o lado político e a liberdade deles, mas não era a minha. Exílio por exílio, preferi a "Mancha", onde tinha uma suíte, com piscina e tudo.

A revista lhe deu oportunidade para exercer sua vocação de repórter?

Não tenho vocação de jornalista. O que fiz foi viajar. Cobri conflitos no Oriente Médio, eleições de papas, o casamento de Lady Di, crimes hediondos e passionais, desfiles de Carnaval, cometi milhares de crônicas. Editei revistas. Mas não falei mal do Ibrahim nem elogiei Leila Diniz.

E passei muitos anos sem escrever ficção, só não-ficção, continue doente. Àquela altura, já havia publicado nove romances, era o autor que mais vendia na editora que me publicava. Sempre me considerei um escritor profissional, não gosto de amadores. Mas não mais sentia necessidade de escrever ficção, como vocês, amadores desta Agência Assaz Atrofiada.

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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