domingo, 16 de junho de 2013

Sensibilidade da nossa juventude pós-69: "O Bolsa Família não cobre o aumento das passagens"

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10.08.2009 | Fonte de informações: 

Pravda.ru



Fernando Soares Campos

Depois de longa caminhada, pai e filho juntaram-se a um movimento reivindicatório na grande cidade. O deslocamento da multidão em passeata, do local de concentração até o ginásio onde ocorreria um encontro de trabalhadores rurais, fazia parte da estratégia dos organizadores do movimento e tinha o propósito de chamar a atenção da imprensa; era uma tentativa de informar a população urbana sobre os seus problemas no campo.

Atendendo às exigências legais, os líderes do movimento haviam solicitado apoio das autoridades para acompanhar a multidão desde a concentração até o ginásio municipal. O comando da Polícia determinou que os seus efetivos se pusessem em guarda, acompanhando o cortejo. Entretanto os militares foram orientados para reagir a qualquer manifestação "agressiva" por parte dos participantes do evento.

Quando a passeata atravessava uma das mais movimentadas avenidas da metrópole, os motoristas dos carros parados no sinal ( farol, sinaleira ou semáforo, que já abrira e fechara diversas vezes enquanto os trabalhadores passavam), impacientes, buzinavam com insistência e gritavam protestando contra a perda de seus preciosos minutos de espera.

No meio da multidão pai e filho conversavam:

Filho I: ― Pai, já que a gente tá aqui hoje e eu num vou trabalhar na carvoaria, então, depois que terminar as fala, vamo andar um pouco pela cidade?

Pai I: ― Depende da hora que terminar, fio.

Filho I: ― Pai, o homem que falou lá no acampamento disse uma palavra que eu num entendi.

Pai I: ― Qual?

Filho I: ― Excrusão. O que quer dizer isso pai?

Pai I: ― Pelo que eu entendi, fio, é quando a gente num pode disfrutá de quase nada, enquanto outras pessoas têm direito a tudo. E até mais um pouco.

Filho I: ― Ah! então, quer dizer que aquelas pessoas naqueles carro bonito num sofre de excrusão, né?

Pai I: ― Acho que é isso mesmo, fio.

Filho I: ― Pai, quando eu crescer, eu vou poder comprar um carro daqueles?

Pai I: ― Se você continuar na carvoaria, nem vai crescer, fio. Mas, se nóis conseguir um pedaço de terra boa e trabalhar, aí, até pra escola você vai. Então, pode até pensar em comprar um carro daqueles.

Subitamente, uns elementos infiltrados no movimento sacaram os pedregulhos que traziam em sacolas e, aos gritos de "abaixo a burguesia!", atiraram contra os carros parados no sinal. Imediatamente o comandante das tropas autorizou a repressão. Foram lançadas as primeiras bombas de gás contra os trabalhadores. Criou-se o tumulto. Correria, pessoas pisoteadas, gritos, protestos, resistência; os líderes ainda tentaram apaziguar os ânimos. Os policiais conseguiram dominar alguns manifestantes e baixaram o cacete. Os lojistas fecharam seus estabelecimentos, mas não evitaram que algumas vitrines fossem destruídas. Tiros, quebra-quebra, prisões.

* * *

À noite, em casa, Pai II e Filho II, que estavam num dos carros parados no sinal, assistem ao telejornal das oito. As cenas, editadas, são de uma verdadeira batalha urbana. A família assiste a tudo em silêncio. De repente o filho grita entusiasmado:

Filho II: ― Olha lá, pai! Você viu?!

A cena muda rapidamente.

Pai II: ― O quê, filho?!

Filho II: ― Você não viu, pai?!

Pai II: ― Não sei do que você está falando, filho! Você está se referindo ao espancamento dos baderneiros que foram presos?

Filho II: ― Não, pai! Ah! pena que você não viu! Você viu, mãe?!

Mãe: ― Claro que vi! Vi aquele moleque chorando porque o baderneiro do pai estava sangrando...

Filho II: ― Não, mãe, não é nada disso...

Irmãzinha: ― Eu vi.

Pai II: ― Vocês viram o quê?!

Filho II: ― Pai, o que estava em cima da faixa de pedestre, pai, era o nosso carro! O nosso carro saiu na tevê!

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Leia também...





 por Conceição Lemes

Na próxima terça-feira, os deputados estaduais Adriano Diogo e Beth Sahão (PT) proporão  à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) a  convocação do comandante da Polícia Militar (PM), para dar explicações sobre barbárie dessa quinta-feira, 13 de junho.

“Nos últimos dias, o governo Alckmin prometeu intensificar a repressão nas próximas manifestações de rua. Ao anunciar isso publicamente, ele deu a senha para a repressão abusiva, descabida, desnecessária da PM”, atenta Adriano Diogo, que preside a Comissão. “Os policiais atiraram em jovens, jornalistas, pessoas que estavam passando… Barbarizam mesmo para forçar uma reação violenta.”

“Embora o metrô e o trem tenham aumentado, o governo Alckmin, nas entrevistas, só se refere ao aumento do ônibus, para atingir o governo Haddad”, prossegue o deputado. “É uma ação pensada, bem orquestrada, com vistas à eleição de 2014, e com o objetivo de desmoralizar o PT.”

“Nessas horas, dá perceber claramente o que nós já sabemos: a  estrutura policial da ditadura permanece intacta, principalmente os setores de inteligência, como a P2 [serviço reservado da PM] e a tropa de choque”,  denuncia Adriano. “Infiltraram policiais civis e militares à paisana no meio da garotada para incitar a violência. Ninguém me contou, eu vi um bando de profissionais em provocação – não eram estudantes! –,  quebrando vidro, fazendo bandidagem.”

Leia também:


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Não vale a pena ler... mas vale o registro:



Promotor pede que polícia [ditabranda] mate manifestantes do Movimento Passe Livre

O promotor Rogério Zagallo, de São Paulo, usou o Facebook para escrever uma mensagem bizarra [AA: eufemismo para "estúpido", ou "golpista"] sobre o protesto do Movimento Passe Livre.
“Estou há 2 horas tentando voltar para casa mas tem um bando de bugios revoltados parando a avenida Faria Lima e a Marginal do Pinheiros.”
(Bugios é macacos, para quem não saiba.)
“Por favor alguém poderia avisar a Tropa de Choque que essa região faz parte do meu Tribunal do Júri e que se eles matarem esses filhos da puta eu arquivarei o inquérito policial. Petistas de merda. Filhos da puta.”

(Se tiver estômago, clique no título e leia completo)
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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons
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sábado, 15 de junho de 2013

Assaz Atroz Reproduções apresenta: Coquetel Molotov à Trolha e Estacão

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13/06/2013 - 03h30


Editorial: Retomar a Paulista

Oito policiais militares e um número desconhecido de manifestantes feridos, 87 ônibus danificados, R$ 100 mil de prejuízos em estações de metrô e milhões de paulistanos reféns do trânsito. Eis o saldo do terceiro protesto do Movimento Passe Livre (MPL), que se vangloria de parar São Paulo --e chega perto demais de consegui-lo.
(...)
É hora de pôr um ponto final nisso. Prefeitura [AA: Leia-se "Governo do Estado] e Polícia Militar precisam fazer valer as restrições já existentes para protestos na avenida Paulista, em cujas imediações estão sete grandes hospitais.


Chegou a hora do basta

13 de junho de 2013 | 2h 08

A PM agiu com moderação [AA: Leia-se "Polícia ditabranda"], ao contrário do que disseram os manifestantes, que a acusaram de truculência para justificar os seus atos de vandalismo. Num episódio em que isso ficou bem claro, um PM que se afastou dos companheiros, nas proximidades da Praça da Sé, quase foi linchado por manifestantes que tentava conter. Chegou a sacar a arma para se defender, mas felizmente não atirou.



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Leia também...



PIG sente gostinho de 64


Serra e Alckmin se alternam mas nada muda. Não sabem o que fazer com o povão. Não é da natureza dos tucanos olhar para a população como um todo. São elitistas desde o próprio DNA. Mantém uma polícia troglodita, descendente da polícia da ditadura, que grita por eles quando é preciso. Enfrentam o que lhes foge de controle ou o que lhes parece incompreensível, na base da porrada. Satisfazem assim, aquele eleitor mais careta, conservador, que não usa ou necessita de serviços públicos e que considera o povão intruso em sua cidade.

(Enviado a esta nossa Agência Assaz Atroz pelo autor, a título de colaboração. Clique no título e leia artigo completo)
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To Remember
(Clique na imagem para ler ampliada)

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No...


14 DE JUNHO DE 2013 - 18H00 


Baba, Ouriço e Mancha conversavam, já passava das duas da matina, a temperatura naquele alojamento provavelmente atingira o pico das madrugadas calorentas daquele verão. Os pernilongos faziam a festa na pele dos outros adolescentes que dormiam amontoados, disputando pequenos espaços de um ambiente superlotado. O forte odor de suor misturava-se ao mau cheiro dos dejetos que transbordavam das latrinas.
Baba, 15 anos de idade, Ouriço, também 15, e Mancha, que já completara 16, são filhos de Ninguém, Não-Se-Sabe e Já-Morreu ― não respectivamente, pois qualquer dessas paternidades pode ser atribuída a qual dos três se apresente, sem distinção. Na verdade, Baba e Mancha são irmãos pela sorte em comum, quer dizer, pelo mesmo azar, o de terem nascido sob o estigma dos dois pês: pretos e pobres. Ouriço, apesar de branco, é da família pela segunda via.

Quanto aos apelidos, Baba não sabe ao certo qual a origem do seu. Diz que o chamam assim desde muito pequeno, no orfanato onde viveu até os doze anos. "Lá até as freiras me chamavam de Baba”. Ouriço é assim conhecido devido ao seu cabelo tipo escovinha, eriçado. No caso do Mancha, pode-se facilmente identificar a origem do seu apelido: uma mancha cutânea, avermelhada, congênita, cobre parte do seu pescoço e do lado esquerdo do rosto; parece uma inflamação por queimadura com água fervente. Quando os colegas lhe perguntam "O que foi isso?", a resposta depende do seu estado de espírito, mas quase sempre responde: "Foi um chupão da tua irmã".

Além do calor, àquela hora estavam famintos. O jantar (uma sopa de legumes e um pãozinho francês) fora servido às seis da tarde; desde então, nem água.

(Clique no título e leia completo no Portal Vermelho)

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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terça-feira, 11 de junho de 2013

Dilma e Lula precisam se relacionar como irmãos: brigando entre si pela “herança maldita”!

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Fernando Soares Campos



Quando anunciaram que Dilma seria a candidata à sucessão de Lula, em 2010, com apenas 2% de intenções de voto apontados pelos institutos de pesquisa, muita gente falou que ela não se elegeria e que os petistas e aliados acabariam se rendendo à proposta de alterar a Constituição e implantar o “terceiro mandato”. Recebemos, inclusive, mensagem de um grande jornalista brasileiro, hoje atuando na Europa, informando que viria ao Brasil com o propósito de incentivar os defensores do governo trabalhista a deflagrar um movimento a favor da reeleição de Lula. Respondemos a ele que “ficasse frio”, tranquilo; pois, como a própria oposição gracejava maliciosamente, tendo Lula como cabo eleitoral até um poste seria eleito. Parece que eles tinham razão: o “poste” foi eleito presidente da República. Mas esse poste dá, deitada, seus bebês à luz.

Os suportes midiáticos da imprensa empresarial disseminavam os mais ambíguos comentários, opiniões e futricas sobre a questão do possível terceiro mandato de Lula. Uns já se adiantavam berrando que Lula queria se tornar o Chávez brasileiro (até hoje dizem que ele é...). Outros falavam que provavelmente haveria compra de voto de parlamentares para a aprovação de emenda constitucional, um “mensalão2”. Mas não faziam qualquer referência à aprovação da emenda que instituiu a reeleição de presidente da República, isso no primeiro mandato do governo de Fernando Henrique Cardoso. A tchiurma de FHC comprou votos para aprovação de emenda constitucional instituindo a sua reeleição. E, contrariando dispositivos legais que determinavam que, apesar de aprovada a emenda, esta somente teria validade na eleição seguinte ao mandato do presidente que sucedesse FHC, mesmo assim este foi eleito no primeiro turno das eleições. O STF não se manifestou contrário a essa aplicação (i)legal. Também não importunou muito o deputado Ronnie Von Santiago (PFL – hoje DEM), que confessou ter recebido R$ 200 mil para votar a favor da reeleição do Coisa Ruim. Já no caso do “mensalão” petista, apenas o próprio acusador Roberto Jefferson confessou ter recebido dinheiro do PT para os deputados de sua legenda (PTB) apoiarem votações, na Câmara, favoráveis aos projetos do governo. Depois, Jeff desmentiu, mentiu de novo, desmentiu... mentiu... Prevaleceu o dito sobre o não-dito. E Jefferson ganhou a alcunha de “dedo-duro”, conferida pelos próprios comparsas da guerra golpista. “Ele é alcaguete, mas é nosso alcaguete!”

O golpe de jogar um de encontro ao outro

Já faz muito tempo que a oposição, que não tem costume de ficar nessa posição, anda, à falta de projeto político e argumentos consistentes, por diversas veredas obscuras, umbráticas, tentando retornar ao Palácio do Planalto, do qual eles se consideram legítimos herdeiros. Até acusam o ex-operário, retirante da seca do Nordeste, de ter-lhes usurpado o trono, devido a um cochilo, ou distração, num momento em que precisavam se livrar de stalinistas, marxistas, leninistas e até de brizolistas ― não existe crime perfeito, o que existe mesmo é justiça falha, faltante ou tardia. Porém, antes tarde do que nunca.

Desde o primeiro ano do governo Lula, a imprensa manobrista e as oposições de direita e de esquerda sectária têm tentado conquistar parceiros e comparsas até mesmo no PT. Em 2005, com o escândalo do “mensalão”, conseguiram colocar algumas madalenas arrependidas de joelho fazendo mea-culpa, chorando lágrimas de crocodilo para as câmeras de televisão. Outros supliciaram em talk shows, em que talk is cheap, e prevalece uma small talk, como foi o caso do senador Eduardo Suplicy, que, ao ser perguntado por que um político “tão honesto” como ele não saía do PT, apenas esboçava um sorriso maroto e desconversava. Mas o telespectador sacava que ele permanecia no partido pelos votos que a legenda ainda gerava. No entanto, se os golpistas viessem a ter êxito em suas escusas investidas, culminando no impeachment de Lula, ele não contaria até três, cairia fora.

Agora, pesquisa do Data Folha indica que “Lula se elegeria no primeiro turno das eleições” de 2014. E, também no primeiro turno, Dilma ganharia, mas um tanto apertada. A pesquisa aponta a corrida, o sobe-e-desce de outros possíveis candidatos: Joaquim Barbosa, Marina Silva, Eduardo Campos e Aécio Neves (“o único que cresceu em relação ao levantamento de março”, informa a matéria).

Muito generosa essa pesquisa do Data Folha, empresa do grupo Folha de São Paulo, uma das que mais destilam ódio contra os petistas. Eles mesmos, de vez em quando, estão acusando o PT de fazer propaganda eleitoral antecipada, transgredindo a legislação. Desconfio que o escuso objetivo dessa vez é incrementar a discórdia entre petistas e aliados (como o PSB de Eduardo Campos, por exemplo), criar clima de receio (medo mesmo), entre os governistas. Medo de Dilma “perder” a reeleição, como aconteceu com Michelle Bachelet, no Chile, que, apesar da sua imensa popularidade, não conseguiu eleger seu candidato à sucessão presidencial. Depois de passar 20 anos fora do poder, a direita chilena voltou “para ficar”.

Os comentários e opiniões dos articulistas de plantão me deixam com a pulga atrás da orelha.

Vejamos:

A colunista do Painel, da Folha, Vera Magalhães, insinuou o coro"Volta Lula" diante da pesquisa Datafolha deste final de semana que mostra melhor aprovação do ex-presidente em relação a Dilma Rousseff. Leia:

Colunista da Folha destaca preferência de pessimistas com o rumo da economia pelo ex-presidente, que tem 43% das intenções desses votos contra 29% da presidente, segundo o Datafolha; "No geral, o estrago para Dilma é maior entre os eleitores preocupados com perdas no próprio orçamento (sua preferência cai de 51% para 31%)"


Segundo ele, aliados já ensaiam uma torcida pela volta de Lula. Leia:

Segundo colunista, cresce entre os partidos aliados a torcida silenciosa pela volta de Lula. “Dilma é temida. Amada? Bem, só por Aloizio Mercadante, ministro da Educação”; para Noblat, presidente não é gerente sintonizada com as exigências dos tempos modernos, muito menos gestora admirável; atrapalhada na condução da economia e um rotundo desastre no exercício cotidiano da política

Ainda acenam com a possibilidade de Lula vencer Alckmin na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes: “Para Data Folha, só Lula ameaça Alckmin em SP”. 

Pelo que me consta, até um noia da Boca do Lixo poderia ameaçar o Picolé de Chuchu.

Com essa pesquisa do Data Folha, fiquei cá com meus botões imaginando: “Creio que eles concluíram que Dilma está imbatível. Pode ser que com muitos golpes midiáticos consigam reverter o quadro. Lula, que passou por sérios problemas de saúde, pode estar debilitado e talvez seja menos difícil... (vá lá!) ...mais fácil abatê-lo dessa vez”. Mas meus botões às vezes me confundem. O fato é que estão muito assanhados, e isso  pode ser indicativo de que, hoje, eles têm mais medo de Dilma nas urnas do que de Lula, sabem que Dilma tem, talvez, mais chances que Lula.


Ano passado o intelectual opinioso Fernando Henrique Cardoso escreveu artigo, publicado e distribuído pela imprensa grande, falando que Dilma estaria enfrentando sérias dificuldades em seu governo devido a suposta “herança maldita” deixada por Lula. O objetivo estava claro: fazer Dilma ouvir o canto da sereia e, pelo menos, agradecer as “análises” de sua geniosa ex-excelência. Estaria assim plantada a semente da discórdia entre Dilma e Lula. Porém, pelo contrário, a presidenta mandou de volta, na mesma medida, um petardo dizendo que “herança maldita” foi a que ele deixou para Lula e para todo o povo brasileiro. E que tudo estava indo bem em sua administração. Melhor seria se os entreguistas de antanho se arrependessem e passassem a trabalhar pelo desenvolvimento da Nação, redimindo-se dos pecados de lesa-pátria que  cometeram quando tinham o poder nas mãos.  Este episódio nos inspirou a escrever uma paródia fabulosa:


Quando Barack Obama disse que Lula era “o cara”, mandamos essa frase freudiana para o presidente: “Podemos nos defender de um ataque, mas somos indefesos a um elogio”.


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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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segunda-feira, 10 de junho de 2013

O Bolsa Família vai acabar... elegendo um inimigo do governo Dilma

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Quem é contra o Bolsa Família é mal-intencionado ou mal-informado

Sempre que a oportunidade aparece, ressuscita a campanha contra o Bolsa Família. Seu objetivo não é acabar com o benefício. É tão impossível quanto acabar com o salário mínimo, o Natal, o nascer do sol.

por André Forastieri*




As metas são outras: manter o Bolsa Família com o menor valor possível, enxovalhar a reputação de quem o recebe, influenciar a opinião pública, para que se torne politicamente difícil a criação de outros benefícios semelhantes, e bater no governo. A quem interessa? Aos que têm outros destinos para o dinheiro dos nossos impostos.

Recentemente, a correria por conta dos boatos sobre o fim do Bolsa Família ressuscitou os zumbis de sempre. As questões habituais se arrastaram para fora da tumba: o Bolsa Família é bom? É justo? Não é um estímulo oficial à vagabundagem e à procriação destrambelhada? Não seria melhor deixar de lado essa política assistencialista, e focar na geração de empregos, verdadeira porta de saída dessa esmola? Não tenha dúvida: na próxima oportunidade que pintar, os mesmos de sempre voltarão a atiçar com desinformação os mesmos preconceitos. É bom estar preparado para retrucar.

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Informe AA: CAMPO FORMOSO (BA), TIMBIRAS (MA) e FORMOSA (GO) Em quase uma década, 1,69 milhão de famílias de beneficiários do Bolsa Família saíram espontaneamente do programa, depois de declarar que tinham renda familiar acima do limite permitido

Os beneficiários que saíram espontaneamente do Bolsa Família


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A revista britânica Lancet publicou semana passada estudo que relaciona de forma conclusiva o Bolsa Família com a queda da mortalidade infantil. Dados de quase 3 mil municípios brasileiros foram utilizados, no período entre 2004 e 2009. A Lancet é a mais tradicional publicação científica na área de saúde do planeta - existe desde 1823. Nas cidades em que o programa tem alta cobertura, a queda geral na mortalidade infantil foi de 19,4%. Cruzando o Bolsa Família com causas específicas de morte, o impacto é ainda maior: queda de 65% nas mortes por desnutrição e 53% nas mortes por diarreia. A íntegra está aqui.

O Bolsa Família, portanto, salva vidas. Não é uma solução permanente. É uma operação de emergência, necessária hoje e todo dia. Sua missão fundamental é salvar vidas em perigo, vidas que enfrentam uma calamidade permanente (o miserê nacional, desastre que de natural não tem nada). Aí chegamos a outra crítica comum ao programa: mas pra quê tanta criança? Essa mulherada sem vergonha não está parindo um filho atrás do outro, só pra garantir uma renda fixa?

A resposta é um grande não. A taxa de fertilidade do Brasil vem caindo rápido. Hoje é de 1,8 filhos por mulher, a mesma que o Chile, menos que os Estados Unidos (1,9). Está abaixo do nível mínimo de reposição da população (que é 2,1%). É evidente que se o mundo tivesse dois bilhões de pessoas, em vez de sete, estaríamos melhor na fita. Quanto menos pobre, menos pobreza... mas o fato inquestionável é que as brasileiras têm cada vez menos filhos. E cada vez mais tarde - 40% das nossas conterrâneas entre 25 e 29 anos ainda não têm filhos. Dados citados em um iluminador artigo da Economist desta semana.

A importância do Bolsa Família para essas famílias pobres ficou assustadoramente explícita nas reportagens de TV sobre o corre-corre. Pareciam cenas de refugiados na África, se batendo por um galão de água, um saco de ração. Por que nossos compatriotas ficaram tão desesperados com a possibilidade de ficar sem o Bolsa Família? Porque eles não recebem um monte de outros benefícios simultaneamente. Comparando com os países que tem a melhor qualidade de vida, o Brasil tem benefícios sociais minúsculos.
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Seu doutô os nordestinos têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão
Mas, doutô, uma esmola a um homem que é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão (Luiz Gonzaga, em Vozes da Seca)

O que está são. Mas quem são eles? A própria fome já é, por si mesma, um estado patológico. O homem são que tem fome precisa ser atendido antes que a fome o mate. A inanição mata milhões de pessoas, principalmente crianças, em todo o mundo. O homem são sofre pela fome dos filhos - no Nordeste ou em qualquer bolsão de  miséria no País. 



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O sociólogo Alberto Carlos Almeida fez uma comparação chocante entre Brasil e Inglaterra, em artigo para o jornal Valor Econômico. Os ingleses ganham salários muito mais altos que os brasileiros. E mesmo assim recebem muitos tipos de auxílio diferentes, que aqui não existem. Alguns:

- bolsa funeral (R$ 2.100 para ajudar no enterro de seu familiar, incluindo pagar flores, caixão, uma viagem de algum parente para o velório etc.)

- bolsa aquecimento no inverno (média de R$ 2.400 por mês para ajudar você a se aquecer no inverno)

- bolsa necessidades especiais (para deficientes ou idosos, até R$ 1.500 por mês)

- bolsa cuidador de quem tem necessidades especiais (R$ 720 por mês)

- bolsa aquecimento por painéis solares (até R$ 3.600 por mês)

- seguro desemprego (R$ 720 por mês)

E muitos outros de todo gênero. Almeida destaca o bolsa criança, que paga R$ 1.350 por mês para a família que tem uma criança (e mais uns R$ 1.200 para o segundo filho etc.). Vale lembrar que a saúde pública inglesa é boa e gratuita, assim como a educação, em sua maior parte. Por isso tudo, os ingleses são mais saudáveis e educados que os brasileiros, vivem mais e melhor que nós, em um país sem violência. Lá, os impostos são aplicados em benefícios que garantem uma vida mais saudável e segura. Quando alguém criticar o Bolsa Família, faça-lhe um favor: jogue esses dados na cara do infeliz. Nós, brasileiros, precisamos ter consciência do que funciona bem em outros países, para cobrar as mesmas leis aqui. Dou o link para a reprodução do texto de Almeida no site do Senado Federal, porque no site do Valor é só para assinantes. 

Certo que o Brasil não é a Inglaterra. Certeza que há dinheiro suficiente para ajudarmos nossos deficientes, idosos, crianças, desempregados e defuntos. Estão aí os estádios faraônicos pra Copa, molezas diversas para empresas próximas do poder, benesses variadas para apadrinhados etc. Somos a sexta maior economia do mundo. Nosso desafio não é gerar recursos, é forçar a aplicação desses recursos no que trará mais benefícios para nossa população.


O PT explora politicamente o Bolsa Família? Claro, é isso que governos fazem, e a oposição idem. Aécio Neves até já disse que quem criou o Bolsa Família foi o PSDB [Grifo e link AA] (não foi, mas criaram coisas parecidas. Lula, quando o Fome Zero não decolou, reempacotou os benefícios criados pelos tucanos, engordou um tanto o bolo, e marketou magistralmente). Minha sugestão é que os governos estaduais e municipais da oposição criem seus próprios bolsa isso e bolsa aquilo. Que bom se os políticos disputarem nosso voto nos dando dinheiro, em vez de tirar...

O questionamento do Bolsa Família mais furado de todos é o moral: é justo uma pessoa receber dinheiro, sem ter trabalhado por isso? Nem merece resposta. A questão não é de justiça, é de isonomia. Os mais ricos já recebem bastante dinheiro sem trabalhar. Embolsam rendimentos de suas aplicações financeiras, aluguel de imóveis e tal. Acionistas de empresas recebem dinheiro sem trabalhar: os lucros. E herdeiros recebem dinheiro sem trabalhar, às vezes sem nunca ter trabalhado de verdade. Muitas crianças brasileiras felizardas já têm seus futuros assegurados, graças ao que construíram seus pais ou avós. Nunca precisarão pegar no batente (e mesmo assim, como sabemos, muita gente abonada continua trabalhando, porque assim se sente realizada, produtiva, estimulada, ganha mais dinheiro ainda etc. Dinheiro é 100%, mas não é tudo...).

Na próxima vez que a campanha contra o Bolsa Família mostrar sua cara feia, ajude a cravar uma estaca em seu coração. O Bolsa Família não é nenhuma maravilha, mas é infinitamente melhor que nada. Tem que ser aplaudido, imitado, diversificado e expandido para pessoas que não têm família. Tem que ter o seu valor aumentado, bastante e rápido. Contra fatos, e vidas salvas, não há argumentos.


* André Forastieri é jornalista
Fonte: R7

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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domingo, 9 de junho de 2013

OS BANDEIRANTES ESTÃO VOLTANDO

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O Brasil assiste, de cócoras, a volta dos bandeirantes, que estão atacando pra valer, com metodologia igualmente truculenta, mas mais sofisticada. No período colonial, quando os índios eram maioria, eles organizavam as bandeiras, expedições armadas que invadiam aldeias e queimavam malocas para aprisionar os seus ocupantes e vendê-los como escravos. Agora, em pleno séc. XXI, quando os índios são minoria, os agrobandeirantes lançam ofensiva muito bem organizada com o objetivo de varrer definitivamente os índios do mapa do Brasil para se apropriarem de suas terras. Para isso, contam com a cumplicidade da grande mídia.

O último exemplo dessa violência foi a morte do terena Oziel Gabriel, em Sidrolândia (MS) na semana passada. Nos últimos quarenta anos - segundo Tonico Benites, índio guarani Kaiowá que é mestre em antropologia pelo Museu Nacional - no Mato Grosso do Sul, mais de 200 líderes indígenas "foram torturados e assassinados de modo cruel pelos pistoleiros contratados pelos donos das fazendas". Só na última década, no Brasil, durante os oito anos do Governo Lula e os dois do Governo Dilma, foram assassinados 564 índios, conforme levantamento realizado pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI).

- "Vai morrer mais gente" - ameaçou em entrevista à Folha de São Paulo (6/6/2013) o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrisul) e da Frente Nacional da Pecuária (Fenapec), Francisco Maia, uma espécie de Borba Gato dos tempos modernos. Ele informa que os agrobandeirantes estão armados:

- "Vai ter mais sangue. Isso que aconteceu, de morrer um índio, pode ser pouco diante do que se anuncia. Estamos falando de um massacre iminente. Temos produtores que se recusam a sair de suas propriedades e estão armados".



A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em nota oficial, reforçou a ameaça, avisando que "caso a situação não seja revertida, poderão ocorrer novos e dramáticos confrontos de consequências imprevisíveis".

Para que isso não ocorra, a CNA, através de discurso da senadora Katia Abreu, exige a elaboração de uma nova política indigenista, a suspensão imediata dos processos de demarcação de terras indígenas - o que contraria a Constituição em vigor no Brasil - a transferência para o Congresso Nacional da competência de dizer o que é e o que não é terra indígena e a revalidação da portaria da AGU que restringe os direitos constitucionais dos índios.

AGROBANDEIRANTE

A prática adotada por essa nova leva de agrobandeirantes é similar a que foi testemunhada no período colonial por Jerônimo Rodrigues, que presenciou o assassinato de índios velhos, enfermos e crianças e chamou os bandeirantes de bandidos:

- “Nenhuma pessoa, que não tenha visto com os seus próprios olhos tais horrores abomináveis, pode imaginar coisa igual. A vida inteira desses bandidos consiste em ir e vir do sertão, indo e trazendo cativos com muita crueldade, mortes, saqueios e depois vendendo-os como se fossem porcos do mato”.

- "É necessário desarmar os espíritos" - afirmou o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo. Pelo visto, se for verdade o anúncio de Francisco Maia Borba Gato e da CNA, não são apenas os espíritos que devem ser desarmados. A Força Nacional de Segurança, que ocupou a área, deve desarmar também as agromilícias formadas por pistoleiros contratados pelos fazendeiros.

A nova ofensiva dos agrobandeirantes anunciada pelo coordenador da bancada ruralista na Câmara, deputado Luiz Carlos Heinze (PP/RS - vixe, vixe!) prevê uma manifestação que a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) organizou para fechar as rodovias federais na próxima sexta-feira, dia 14, no horário das 9h às 14 h.

Escudando-se na imunidade parlamentar, a FPA distribuiu banners, camisetas, adesivos para carros, post para facebook, outdoors, anúncios de jornais e revistas, com a recomendação para dizer que esse material foi produzido pela Frente Parlamentar de Agropecuária "para evitar eventuais ações judiciais futuras", segundo matéria assinada por Evandro Éboli de O Globo(7/6/2013). Eles sabem que estão agindo ilegalmente.

Um panfleto da FPA que já começou a ser distribuído nas rodovias identifica o foco da tensão no campo: "a origem das arbitrariedades é a Funai, que na ânsia de ampliar ao máximo as reservas indígena, promove a violência por intermédio de invasões de propriedades rurais". Ou seja, na lógica da CNA, só chove porque as pessoas saem às ruas com guarda-chuvas e não o contrário.

UÍSQUE DO PARAGUAI

No Estado de Mato Grosso do Sul, segundo Tonico Bentes, vivem 90 mil índios, pertencentes a oito etnias, cujas terras foram invadidas por fazendeiros. Os índios, deportados de suas aldeias, ficaram confinados em acampamentos de beira de estrada. Agora, reivindicam as terras ocupadas pelos agrobandeirantes, que responsabilizam a Funai - o órgão encarregado de identificar e demarcar as terras indígenas. É dentro desse contexto que deve ser analisada esta nova ofensiva dos agrobandeirantes, que contam com o apoio incondicional da grande mídia.

Neste sábado, o Globo berra em manchete: "EMBRAPA ACUSA FUNAI DE DEMARCAR TERRA SEM ÍNDIO". Demarcar terra sem índio? Alguém está mentindo: ou o funcionário da Funai ou o da Embrapa ou O Globo. Se a "notícia" for verdadeira, é preciso que o jornal aponte os nomes dos funcionários responsáveis para que sejam punidos e processados por crime de falsidade ideológica. Se for mentira, quem deve ser punido é o funcionário da EMBRAPA, autor anônimo do relatório de onde o jornalão da família Marinho jura ter retirado tal "informação".

Mas o jornalão nem se preocupa em apontar nomes, nem em comprovar se a "notícia" é verdadeira. Embarca na canoa do agrobandeirantismo e anuncia como verdade o que é falso, nos permitindo concluir que está agindo mesmo de má-fé.

E se eu for lá, tirar fotos e mostrar que a terra está ocupada por índios? O Globo, na mesma edição, no sub-título, se apressa em prevenir que são "indígenas que vieram do Paraguai".Esse é um argumento mais velho do que "a preta do leite", tão antigo que é de estranhar que na carta dirigida a D. Manuel, Pero Vaz de Caminha não o tenha informado que os índios da Bahia eram paraguaios.

A revista VEJA em 2007 veio com o mesmo papo. Eles pensam que índio é como uísque: se veio do Paraguai, é falso. Desconhecem as pesquisas etnográficas e etnohistóricas, que envolvem um cuidadoso levantamento genealógico, sistemas de parentesco, organização social, cosmologia, conhecimento da língua e registros escritos e orais. Se lessem tais estudos, saberiam que o povo guarani habita esses territórios muito antes da criação das fronteiras nacionais e que ainda hoje é comum encontrar nas aldeias guarani do Brasil, Argentina, Uruguai ou Paraguai indivíduos e famílias que moraram ou nasceram em diferentes países.

Os donos do poder, para defender seus interesses particulares, sempre exploram o sentimento nacional que está no coração de cada brasileiro e transformam isso em xenofobia. Quando são incomodados, inventam sempre um inimigo estrangeiro: os anarco-sindicalistas eram espanhóis ou italianos, os comunistas eram russos ou cubanos, agora os índios são paraguaios. Não precisa da Embrapa para fazer tal afirmação. É tão inconsistente e ridículo como se os índios, vendo os cabelos louros, os olhos azuis e os sobrenomes dos fazendeiros, os "acusassem" de "alemães".

Um aluno guarani do Curso de Formação de Professores do Rio Grande do Sul, onde ministrei algumas aulas, me deu de presente um cd com músicas em língua guarani. Em uma delas, tem um poema que é um hai-kai. Nele, a borboleta amarela que voa no céu azul é infinitamente bela, entre outras razões, porque não faz mal a ninguém. Beleza e bondade caminham juntas. Com esse critério, podemos nos perguntar qual é a estética e a ética da violência cometida contra os índios? Como classificar O Globo, o agronegócio e Kátia Abreu em sua infinita maldade?


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José Ribamar Bessa Freire: Doutor em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2003). É professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio), onde orienta pesquisas de mestrado e doutorado, e professor da UERJ, onde coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas da Faculdade de Educação. Ministra cursos de formação de professores indígenas em diferentes regiões do Brasil, assessorando a produção de material didático. Assina coluna no Diário do Amazonas  e mantém o blog Taqui Pra Ti . Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz.

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of  Cartoons
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sábado, 8 de junho de 2013

TEMPOS FELIZES - CHUVA NO TELHADO

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Urda Alice Klueger*



TEMPOS FELIZES 2 - CHUVA NO TELHADO
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(Excerto do livro "Meu cachorro Atahualpa", publicado em 2010)

Nas primeiras semanas foi um pouco traumático para Atahualpa se adaptar à nova realidade de viver numa casa, e ainda por cima numa casa com piso cerâmico. Era um tempo muito frio e de muita chuva – eu logo me acostumei a andar de tênis todo o tempo, mas cachorrinhos não usam calçados e se deitam em qualquer lugar. Tratei de providenciar diversas camas para o meu bichinho – de novo foi minha amiga Rovena quem costurou capas para grandes blocos de espuma, que podiam ser colocados em diversos lugares e formar diversas camas - ao menos no inverno, pois no verão ele gosta, mesmo, é de se deitar de barriga no piso cerâmico para se refrescar.
Havia diversas novidades na nova casa, e há algumas que causaram tais reações no meu cachorrinho que até hoje rio e me emociono ao me lembrar.
Nossa casa tem uma laje de concreto abaixo do telhado, mas há três pontos dela em que não há tal cobertura: a varanda, a cozinha e um ponto de luz central, como um pequeno jardim de inverno, recoberto por uma coifa de acrílico transparente. Morando no apartamento e no depósito de livros onde vivêramos, na verdade Atahualpa nunca tinha ouvido chuva no telhado, e na primeira noite de chuva forte em que dormimos na nova casa, meu bichinho teve reações que me criaram preocupação. Algo o assustava terrivelmente, e a princípio imaginei que deveria haver algum animal selvagem desconhecido na mata dos fundos da casa, para ele ficar tão perturbado. É claro que se entocou no meu quarto, penso que para me proteger e para se sentir protegido, e escondido debaixo da cama, com os dentes à mostra, rosnava todo o tempo olhando para fora do quarto como se uma onça fosse pular em nós a qualquer momento. Cheguei a levantar-me diversas vezes, para ver se não havia algum animal escondido dentro de casa, pois não conseguia entender a atitude do meu cachorro. A noite entrou pela madrugada e nem ele nem eu dormíamos: ele, de algum medo que eu não conseguia descobrir; eu, por causa do medo dele. Volta e meia saía da minha cama e tentava alcançar Atahualpa sob ela, tentando confortá-lo, mas ele estava tão assustado que fugia de mim, enquanto continuava olhando firmemente para fora da porta do nosso quarto, com os dentes à mostra, pronto para atacar o grande perigo que estava lá fora.
                                 Diversas vezes, também, levantei-me e tentei encorajá-lo a enfrentar seu medo, andando pela casa e acendendo as luzes, e às vezes meu cachorrinho até se encorajava e saía pela casa atrás de mim, mas bastava eu me virar e tentar pegá-lo para que ele voltasse correndo para debaixo da minha cama.
         Já eram umas três horas da madrugada quando eu entendi o que se passava, o que estava causando todo aquele pavor no meu bichinho: a chuva forte caindo sobre a coifa de acrílico do ponto de luz central da casa fazia um delicioso barulho de chuva no telhado, e para um cachorro que nunca ouvira tal coisa, aquilo acabara se tornando assustador. Minha vontade foi cair na risada, mas tinha que entender o que se passava no coração apavorado do meu bichinho. Então rastejei sob a cama até conseguir alcançá-lo, de dentes à mostra e rabo entre as pernas e o puxei para o meu colo – e o levei ao pequeno jardim de inverno, acendi as luzes, elevei-o no ar, para que ele se certificasse que não havia nenhum perigo, e fiquei ali conversando com ele:
                       - Vês, meu amor? É só a chuva caindo, está tudo certo! Não precisas ficar com medo, não, está tudo normal! Podes ficar tranqüilo, vamos dormir!
           Juro que ele entende quando eu falo assim com ele! Naquela madrugada, com um suspiro, Atahualpa tirou o rabo do meio das pernas, descansou a cabeça no meu ombro e deixou-me colocá-lo direitinho na cama dele, onde dormiu, exausto, no outro dia, até depois do meio dia!   
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*Urda Alice Klueger: Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz.
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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons
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