quinta-feira, 15 de março de 2012

Governador pode ser transferido da Opus Dei para o Caldeirão 666

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VAMOS DENUNCIAR ALCKMIN AO TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL!


Celso Lungaretti*


O incansável companheiro Carlos Lungarzo, da Anistia Internacional, lançou uma petição on line requerendo do promotor geral do Tribunal Penal Internacional, Luis Moreno Ocampo, o julgamento internacional dos cinco maiores responsáveis pela barbárie no Pinheirinho, começando pelo governador Geraldo Alckmin. Acesse aqui.

Recomendo enfaticamente a todos os meus leitores que apoiem a iniciativa, não só assinando como a divulgando e recomendando. É importante que o documento chegue às mãos de Ocampo com o endosso de um grande número de brasileiros inconformados com a volta às práticas da ditadura militar um quarto de século depois de o País ter voltado à civilização.

Os signatários manifestam sua preocupação com a "onda de violência oficial deflagrada pelo governo, a justiça e a polícia do estado de São Paulo, que vitima brutalmente trabalhadores, estudantes, pessoas vulneráveis, habitantes de favelas e outros setores carentes ou etnicamente perseguidos da sociedade".

Lungarzo faz um extenso e impecável levantamento dos crimes e abusos cometidos na desocupação do Pinheirinho, concluindo com a solicitação de "uma ampla e rigorosa investigação independente" e o indiciamento de cinco autoridades por crimes contra a humanidade. São elas:

o governador Geraldo Alckmin;
o presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, Ivan Sartori;
o secretário de Segurança do estado de São Paulo, Antonio Ferreira Pinto;
o prefeito da cidade de São José dos Campos, Eduardo Pedrosa Cury; e
a magistrada interveniente da comarca de SJC, Márcia Faria Mathey Loureiro.

Segundo ele, uma intervenção do Tribunal Penal Internacional se faz necessária porque nenhuma medida está sendo adotada pelo governo paulista ou pelo federal, no sentido da apuração das responsabilidades e punição dos crimes.

Em artigo sobre o mesmo assunto (ver íntegra aqui), Lungarzo argumenta que "o indiciamento e acusação dos culpados, mesmo se não puderem ser detidos, servirá de estímulo para que outros setores populares não se deixassem arrasar, humilhar, balear, estuprar, queimar e, eventualmente... matar".

E destacou a integridade do promotor Ocampo e sua "equipe inteligente, corajosa e eficiente, em perpétuo alerta e correndo grandes riscos". Assim, apesar de contar com efetivos muito aquém dos necessários e de ser sabotado "pelos Estados Unidos e por todas as ditaduras e governos neofascistas", o Tribunal Penal Internacional tem obtido algumas vitórias, como a sentença que já decidiu e anunciará nesta 4ª feira (14) contra Thomas Lubanga, por seus crimes de lesa-humanidade no Congo.

Por último, quero registrar e aplaudir este ótimo comentário de Lungarzo sobre as autoridades que decidiram dar bestial demonstração de força no Pinheirinho, passando por cima de uma decisão judicial e optando por cumprir outra, como se coubesse aos governos e não à própria Justiça dirimir dúvidas sobre a competência de diferentes cortes e magistrados numa mesma questão:

"Não lutamos com inimigos normais. Estamos nas mãos de psicopatas, místicos e racistas, e é um preconceito pensar que eles são mais humanos que os da Gestapo, da Falange, do Fascio, da Ustasha, do stalinismo. Afinal, alguns dentre eles são comprovadamente discípulos do Opus Dei, a forma ideológica mais tortuosa e patológica do fascismo espanhol. Outros se nutriram no Integralismo, a versão mais irracional do fascismo italiano, que foi amplamente popular em São Paulo".

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*Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mantém o blog Náufrago da Utopia. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

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EUA: 50 números estarrecedores sobre 2011

Apesar de a maioria dos norte-americanos estar bastante furiosa com esta economia, a realidade é que grande parte deles continua a não ter ideia do quão intenso tem sido o declínio económico do país.

Por Redação

Publicado no blogue The Economic Collapse. Traduzido por Sofia Gomes para Esquerda.net.

#1 48% dos Americanos são considerados como tendo “baixos rendimentos” ou vivem na pobreza.

#2 Aproximadamente 57% de todas as crianças dos EUA vivem em lares que se consideram de “baixos rendimentos” ou empobrecidos.

#3 Se hoje o número de norte-americanos que “queriam trabalho” fosse o mesmo que em 2007, a taxa de desemprego “oficial” do governo chegaria aos 11%.

#4 A média de tempo que um trabalhador fica no desemprego nos EUA é agora mais de 40 semanas.

#5 Uma sondagem recente descobriu que 77% das pequenas empresas dos EUA não planejam contratar mais pessoas.

6# Hoje existem menos empregos pagos do que em 2000 apesar de termos mais 30 milhões de pessoas desde essa altura.

#7 Desde dezembro de 2007, a média dos rendimentos familiares diminuiu 6,8% depois da inflação.

#8 De acordo com o Gabinete de Estatística para o Trabalho, em dezembro de 2006, 16,6 milhões de norte-americanos encontravam-se em situação de auto-emprego. Hoje o número diminuiu para 14,5 milhões.

#9 Uma sondagem Gallup do início de 2011 revelou que aproximadamente um em cada cinco norte-americanos que têm trabalho consideram-se subempregados.

#10 De acordo com o autor Paul Osterman, cerca de 20% de todos os adultos têm empregos onde ganham salários ao nível da pobreza.

(Clique no título e leia matéria completa)

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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quarta-feira, 14 de março de 2012

Bundalelê em cima da bike

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Kais Ismail*


Em vez de demonstrarem competência administrativa e capacidade de resolver, ou, ao menos, amenizar as questões intrínsecas aos problemas do trânsito, certos burocratas de repartições públicas preferem mostrar por onde sai processado o que comeram. E a isso consideram brilhante atuação.

Acho que consideram frases feitas (os tais slogans que “criam”) a solução para o desordenado trânsito das grandes cidades. E até fazem muita gente delirar com bordões do tipo: “Um trânsito mais humano e democrático”, como ocorreu no último sábado em São Paulo, quando um grupo de “papagaios ciclistas” desfilou em suas bikes de último modelo, pelados, bumbum de fora, num ingênuo protesto contra a falta de empenho das autoridades em incentivar o uso de bicicletas para aliviar o pesado trânsito da capital paulista.

Ver aqui imagens do evento: Sem roupas, ciclistas fazem manifestação em São Paulo

Ciclistas eles são, é óbvio, mas não passam de “representantes” de classes sociais mais bem postas. Não se vê naquele desfile os verdadeiros interessados em humanizar o trânsito: as pessoas que se utilizam de bicicletas para prover suas subsistências; seja usando-as para se dirigirem aos locais de trabalho, ou empregando a “magrela” para fazer entregas; até mesmo usadas pelo policiamento e em outras atividades.

Se esses supostos manifestantes não agissem como papagaios, saberiam que o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) foi elaborado com o propósito de tornar o nosso trânsito mais humano e o mais democrático possível.

O CTB é a única coisa oficial que deveria nos garantir, na prática, todos os direitos e nos cobrar os deveres. Mas ele quase nunca foi respeitado, portanto não passa, até certo ponto, de letra morta da Lei.

Ao não cobrar o cumprimento integral do CTB e repetir feito papagaio “um trânsito mais humano e democrático”, estaríamos apenas dando margem muito extensa para políticos e oportunistas burocratas agirem fora da legalidade com o argumento que estão buscando o legal.

É assim que se criam projetos para construir ciclovias milionárias, e centenas de milhões de reais são queimados sem que o trânsito se torne mais humano e democrático.

Se o CTB fosse uma legislação de conhecimento desses que se prestam a agir como quem quer somente mostrar a bunda, nosso trânsito há muito tempo seria mais humano e democrático. Mas esses não passam de gente alienada.

O cumprimento do CTB e também a implementação do Projeto Bicicleta Brasil, do governo federal, são fáceis de serem interpretados, para que possamos cobrar o exercício de suas determinações. Tanto nas manifestações como no judiciário, se for o caso.

Mas isso não acontece. Nem em manifestações nem através do judiciário.

O Projeto Bicicleta Brasil foi criado em 2004, quando o governo federal assumiu que o número de vítimas decorrentes de acidente de trânsito expunha resultados equivalentes aos de uma verdadeira guerra nos grandes centros urbanos.

Apesar de o projeto conter todo o necessário para um trânsito mais humano e democrático e ser de conhecimento dos organizadores de tais manifestações exibicionistas, ele sequer é citado pelos papagaios. Isso porque quem os adestra não os ensina como se libertarem.

Há muito o CTB vem sendo descumprido, e o Projeto Bicicleta Brasil ainda anda com as rodinhas de apoio em areal. Isso porque, os verdadeiros ciclistas, aqueles que não têm outra opção de transporte, a não ser suas magrelas, não têm tempo e nem voz para chegar aos ouvidos da Justiça. Ainda que sejam aproximadamente 40 milhões de pessoas.

Costumo dizer que ciclista de boutique é aquele que solicita ciclovias sem antes solicitar o cumprimento das leis, do CTB. Porque as leis muito mal funcionam para os veículos pesados: os que possuem motor e queimam combustíveis.

Quem só tem magrela não mora em bairros nobres, os quais são contemplados com ciclovias.

Mas é isso aí, se é só para "aparecer", e se a roupa de boutique não consegue mais chamar a atenção, então, tire a roupa e mostre o bumbum.

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*Kais Ismail: produtor publicitário e empresário do ramo de entrega sobre bicicleta (empresa "fechada pra balanço"), colabora com esta Agência Assaz Atroz.

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Leia também e assista ao vídeo de...





Como os holandeses venceram a ditadura do automóvel

"Um vídeo de enorme importância para o Brasil mostra como é possível mudar mentalidades e sistemas de transporte

Outras Palavras não publica normalmente material em outros idiomas, mas o vídeo acima (em inglês – para legendas em português, clique em “CC”, sob a tela) merece uma exceção. Precisamente no período em que surge no Brasil uma forte mobilização em favor de outro sistema de transportes e mobilidade, ele mostra que esta luta pode ser vitoriosa. Está focado na Holanda, provavelmente o país que melhor superou a locomoção baseada no automóvel individual — substituindo-a por uma vasta rede de trens, bondes e ciclovias."

(Clique no título e leia matéria completa)

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terça-feira, 13 de março de 2012

MEU PRIMO CHARLES

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(Para Mário Charles Lindner, meu primo)

Urda Alice Klueger*

No nosso pequeno mundo de crianças, Charles foi uma vidinha que aconteceu sem que percebêssemos, pois ainda era o tempo em que acreditávamos na Cegonha, e quando ele chegou, como era lindo, com seus grandes olhos azuis de longos cílios, copiados da mãe dele, a minha prima Synova!

Eu já estava no segundo ano da escola, naquela altura, e quantas vezes, na volta para casa, fugi do meu itinerário para ir lá espiar o nenen da Synova, aquele menino de faces rosadas, bonito como um principezinho, envolto nas mantas brancas como o lembro, e que a Synova tratava com o desvelo de leoa. Diversas vezes levei bronca em casa por chegar atrasada, pois vivia indo lá espiar o Charles, que crescia como um querubim! Conforme ele passou a comer algo mais que leite, dentre as demais coisas que fazem um bebê crescer bem, Synova passou a lhe dar, todos os dias, uma maçã raspadinha a colher, e naquele tempo maçã era coisa cara, importada da Argentina, o que fazia com que certa ala mais velha da família achasse que aquilo era um desperdício – minha mãe era da turma do contra, da turma que achava que a mãe de Charles fazia muito bem em lhe dar todo o dia a maçã.

- O que entra por aqui, ó – e minha mãe apontava a boca – aparece aqui e aqui – concluía ela dando tapinhas alternados nas faces. E Charles crescia saudável e lindo, bem como um menino que come maçã importada todos os dias.

Quando eu tinha 17 anos e Charles, portanto, tinha 8, fiquei morando um longo tempo na casa dos seus pais. Foi bem na época em que a televisão chegou a Blumenau, quando vivíamos os Festivais Internacionais da Canção e o Movimento Hippie, e aquele menino pequeno ainda era muito pequeno para nossas aventuras “adultas”, como falar de política escondidas, eu e sua irmã Rosiani, por exemplo, já que atravessávamos o tempo brabo de uma ditadura. Mas havia aquele menino ali junto com a gente, e ele era encantado pelos desenhos animados que passavam na televisão, e ficava andando pela casa em câmara lenta, imitando seus heróis preferidos, o que fazia com que todos prestássemos atenção às suas graças de ator!

O tempo foi passando, e um dia, na antiga Rua Hermann Huscher, ainda virgem de prédios e de asfalto, Charles parou sua Brasília ao meu lado para me apresentar Cléia, a linda namorada. Ele continuava muito bonito, com seus longos cílios em torno dos olhos azuis, e Cléia era uma simpatia, bem como a fada que chega na vida do príncipe! Eles se casaram um pouco depois, e fizeram a sua casa, e muito Charles trabalhou na profissão da sua escolha, que era de consertar motores de barcos de luxo, sempre indo e vindo para as praias onde as pessoas granfinas ancoravam os mesmos, sem contar da quantidade de barcos que eram rebocados até sua oficina.

Há 16 anos atrás nasceu Ricardo, o único filho de Charles, o menino Lindner que é tão parecido com a Cléia.

Faz poucas semanas que estive na propriedade do Charles, e vi muitos abacates verdes caídos no chão.

- Posso apanhá-los? – perguntei.

Claro que acima de mim havia uma enorme abacateiro carregadinho.

- Colhe do pé – me disse Charles. – Pode levar quanto quiser! – e eu colhi diversos deles. Não poderia jamais fazer idéia que nunca mais falaria com ele.

Charles morreu ontem à tarde. Daqui a pouco volto ao seu velório. Ontem à noite, no seu terno azul marinho, dormindo seu sono tranquilo, ele continuava tão bonito como sempre o conheci – só seus olhos azuis se tinham fechado para sempre, embora os grandes cílios fossem tão evidentes, por mais algumas horas. A fada Cléia permanecia a seu lado, fazendo aquele tipo de carinho que só sabem fazer as pessoas que amam muito.

Como pode acontecer tal coisa, Charles? Tu eras o mais novinho de toda a nossa turminha de primos – por que tinhas que ir tão cedo?

Choro muito, claro.

Blumenau, 11 de março de 2012.

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*Urda Alice Klueger: Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz.
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domingo, 11 de março de 2012

O LEITE DO MEU FILHO

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Supunhetemos, com todo o respeito, que o prefeito de Manaus, Amazonino Mendes (PTB-vixe,vixe), solte um pum, depois de ingerir duas cuias de tacacá apimentado. Sei que parece inusitado, mas foi isso mesmo que você ouviu: um pum! É. É isso mesmo! Acontece. Com as melhores famílias. Comigo, contigo, leitor (a), e até com o papa e com a rainha da Inglaterra, embora os dois últimos não sejam chegados a um tacacá. Por que, então, não haveria de ocorrer com o prefeito que se amarra num tucupi?

A ventosidade, às vezes, escapole-bate-fica, sem a gente querer. No caso, se ela for soprada diante do Diretor de Projetos da Prefeitura de Manaus, o zeloso funcionário, que tem cargo em comissão e função gratificada, criará imediatamente o Projeto Meu Pum. É que tudo nessa administração municipal vira projeto.

Eles acham que projeto é uma palavra mágica que enobrece qualquer atividade, até um reles pum do prefeito, conferindo-lhe uma aura sagrada. É claro que, em vez do nome vulgar, escolheriam um título mais pomposo, com mais mídia, tipo Projeto Meu Flato, Minha Vida, achando que assim a realidade fica mais colorida e menos fedorenta.

Longe de mim querer minimizar aquilo que Amazonino faz numa rodada de dominó depois de duas cuias de tacacá. Mas, francamente, será que justifica criar um projeto para isso? Essa é uma mania, uma marca da administração do Amazonino, desde a época em que ele, prefeito biônico de Manaus (1983-1985) nomeado por Gilberto Mestrinho, criou o Projeto Meu filho para distribuir cadernos e lápis às crianças nas escolas.

Foi quando proliferaram projetos com nomes espalhafatosos. Escrevi até uma coluna, em maio de 1985, intitulada Projeto 'Projeto Projeto', detalhando um projeto que consistia em transformar todas as atividades municipais - as mais banais possíveis - em projetos. Ai surgiram o Projeto Mãe Amiga, o Projeto Pai Herói, o Projeto Maninho, o Projeto Sogrinha do Meu Coração e por aí vai.

No entanto, não se trata apenas de uma mania, de uma excentricidade. Acontece que se o pum do prefeito permanecer apenas como um flato ocasional, não será subvencionado. Mas se for transformado em projeto, ele terá verbas previstas no orçamento para tal atividade e até mesmo poderá pedir financiamento internacional de outros países. Então, detrás do Projeto Meu Flato, Minha Vida, tem muita grana.

Foi o que aconteceu agora com o Projeto Leite do Meu Filho, na atual administração municipal. Esse filho que hoje recebe o leite deve ser filho daquele Meu Filho que recebia caderno, lápis e borracha trinta anos atrás. Segundo matéria publicada no Diário do Amazonas, a Prefeitura de Manaus destinou R$23 milhões só para a execução do Leite do Meu Filho.

Desconfiado, com razão, considerando o currículo do Amazonino - um senhor currículo - o Ministério Público do Estado (MP-AM) abriu dois procedimentos para investigar a legalidade do Leite do Meu Filho, que foi lançado no final do ano passado. Isso a pedido do Instituto Amazônico da Cidadania (IACI), baseado em denúncia de que a Prefeitura está comprando leite acima do valor pago pelo Estado. A Promotoria de Justiça está querendo saber se o leite das crianças está sendo superfaturado.

Mas a novela não termina aí. O documento assinado pelo presidente do IACI, Hamilton de Oliveira Leão, questiona a Prefeitura que justifica o gasto, alegando que a distribuição do leite em pó faz parte de um programa de aleitamento materno, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) avalia que crianças alimentadas com leite artificial justamente são as que correm o maior risco de contrair infecções. Ou seja, o Projeto Leite do Meu Filho pode estar sendo prejudicial à saúde das crianças, porque o leite em pó não substitui o leite materno.

Além disso, é preciso colocar água no leite em pó do meu filho, mas uma parte da população não tem acesso a ela, o que pode ser resolvido com um sub-projeto intitulado Projeto Lata D'água Na Cabeça. Amazonino fez promessas mirabolantes para se eleger prefeito. Resolveria o problema de falta de água na Zona Leste, criaria mil novas creches em Manaus, colocaria carretas com internet sem fio em todos os bairros da cidade, governaria de um ônibus itinerante e blá-blá-blá, blé-blé-blé. Tudo cascata, como podemos constatar nesse seu final de mandato. Das mil creches, só quatro e olhe lá!

Sem cobrar pela consultoria, sugiro ao prefeito a criação de outros projetos como o Projeto Daqui Não Saio, Daqui Ninguém me Tira destinado a desatar o nó no trânsito caótico da cidade. O Projeto Dessa Água Não Beberei investigaria o desabastecimento de água, agravado depois que Amazonino vendeu a COSAMA e trouxe a Águas do Amazonas, contando para isso com a assessoria do banqueiro desalgemado Daniel Dantas.

O vereador Waldemir José (PT) está propondo a criação do Projeto Mamadeira do Prefeito, que começa com uma CPI para investigar para onde foram os R$750 milhões concedidos a Águas do Amazonas, desde a privatização, em 2000. Vamos aguardar.

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José Ribamar Bessa Freire é professor universitário (UERJ), reside no Rio há mais de 20 anos, assina coluna no Diário do Amazonas, de Manaus, sua terra natal, e mantém o blog Taqui Pra Ti. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz
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sábado, 10 de março de 2012

De Havana a São Paulo são apenas alguns anus-luz

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Documentário brasileiro quer mostrar mudanças em Cuba “sem estereótipos"

"Cuba, Mucho Gusto", que estreia em festivais no segundo semestre, traz depoimento de Mariela Castro

Fugir do lugar comum e mostrar a vida de um país que passa por profundas mudanças. É esse o objetivo do documentário brasileiro “Cuba, Mucho Gusto”, que estréia em festivais nacionais no segundo semestre. Feito em parceria com o ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficas), o filme do diretor Caetano Cury traz a visão de intelectuais, artistas e personalidades cubanos sobre as reformas promovidas no país caribenho desde a chegada de Raúl Castro ao poder, em 2008.

O filme traz, entre outros, o depoimento de Mariela Castro, filha de Raúl e atual diretora do Centro Nacional Cubano de Educação Sexual. Ativista dos direitos da comunidade gay em Cuba, Mariela aponta que as mudanças no país nos últimos anos não ficaram restritas apenas ao campo econômico. “No início do Terceiro Milênio, com o que já se havia avançado e com toda a criatividade que as pessoas tiveram de desenvolver durante o Período Especial dos anos 1990... eu creio que este foi o cenário que criou as condições para que pudéssemos chamar a atenção para outras realidades e outras formas de discriminação que antes não estavam incluídas no discurso político”, diz Mariela durante o filme.

Confira as reportagens especiais do Opera Mundi sobre as reformas em Cuba:
Reformas econômicas preservam sistema de educação cubano
Bloqueio dos EUA causou prejuízo superior a US$ 1 trilhão, diz Cuba
Colapso da União Soviética reduziu economia cubana em 34%
Primeiro ciclo de reformas econômicas em Cuba começou nos anos 1990
Transformações na agricultura são laboratório para reformas em Cuba
Alto nível de escolaridade afasta trabalhadores cubanos do campo

Para Carolina Guidotti, diretora da Cinevídeo, produtora brasileira responsável pelo documentário, a ideia é quebrar também os estereótipos políticos e sociais mostrados em festivais cinematográficos a respeito do país. “E mais que isso, nosso objetivo é tentar aproximar esse país, que é tão rico e tem tanta cultura, do Brasil. [Buscamos fazer isso] por meio da cultura e das artes. Por isso escolhemos esse lado, mostrando o potencial da educação, do desenvolvimento, das produções culturais do país. [Assim], mostramos a riqueza da arte e da cultura de Cuba”, afirmou em entrevista a Opera Mundi.

A equipe de produção do documentário ficou em Cuba por cerca de 40 dias em busca de personagens que pudessem retratar as mudanças na ilha caribenha.

Divulgação/Cinevídeo

História, arte e cultura cultura cubana são retratadas em documentário brasileiro

Nos últimos anos, o presidente Raúl Castro aprovou uma série de reformas estruturais para dar dinamismo à economia do país. Com as mudanças, os cubanos agora podem vender e comprar casas e carros. Além disso, mais de 160 profissões antes consideradas irregulares receberam permissão do governo, incentivando o trabalho por conta própria entre os funcionários do governo que foram demitidos.

O filme mostra ainda questões consideradas polêmicas como o tratamento dado à comunidade gay no país. Um transexual entrevistado relata que “atualmente é muito mais fácil ser transformista em Cuba do que em outros lugares do mundo, já que aqui somos tratados como artistas”.

Entrevistas e produção

De acordo com Carolina, os entrevistados foram selecionados pelo próprio diretor do longa a partir de um trabalho extenso. “Na pré-produção, ele conversou com mais de 50 pessoas e depois dessa fase ele selecionou aquelas pessoas que ele achava que poderia dar um fio-condutor na história”, completou.

As gravações do filme duraram cerca de 40 dias e foram divididas em duas etapas, em julho e setembro do ano passado. Segundo Carolina, a produtora não teve nenhuma dificuldade para produzir o filme, seja no período de pré-produção, quanto nas filmagens.

Divulgação/Cinevídeo

Abertura econômica permitiu a criação de diversos pequenos negócios em Cuba, como bares e restaurantes

“É um documentário com o qual queremos atingir um público formador de opinião, um público que vai discutir a questão. Nós queremos mostrar a vida do cubano. Como ele se diverte, o que pensa, o que faz”, concluiu.

Um promo de cerca de 20 minutos foi exibido durante um festival internacional de cinema em Havana, realizado no último mês de novembro. “Houve uma recepção, que foi aberta ao público, e contou com a presença de convidados”, disse Carolina. Ela planeja um evento especial, dedicado a Cuba, para exibir o filme ao público brasileiro fora dos festivais.

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Cervejaço contra a caretice

ou "São Paulo, larga de ser careta, sô!"

Ocorre que São Paulo está ficando muito chata. E eu não ando nada bem. Talvez deva recorrer ao Rivotril para dormir e algum estimulante na manhã seguinte para não correr o risco de sonolência no trabalho. Desde que tenha receita médica, isso é permitido e estimulado em São Paulo, a cidade dos loucos. Mas eu sei lá, acho mais divertido erguer, impunemente, brindes para o alto e tomar minha cervejinha em paz na calçada. Antes que me acusem do que não fiz, esclareço: jamais dirigi sob o efeito do álcool. Só ando de transporte coletivo e, pasmem!, jamais tentei tirar habilitação. Por não ter carro, inclusive, sou visto por muitos como pária. Paulistanos só têm cidadania com volante na mão.

É por isso que após uma reunião com amigos no bar (perdoem-me, conterrâneos, cometi esse desvio de conduta em plena segunda-feira) decidimos nos manifestar contrariamente ao projeto de lei da turma que sabe o que é melhor para mim.

(Leia completo clicando no título)

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons (O cartum "Eu bebo sim" é uma adaptação baseada em charge do BLOG DO B.SILVA )

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sexta-feira, 9 de março de 2012

ELEIÇÕES MUNICIPAIS

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Laerte Braga*

Qualquer um de nós acorda na cidade, na sua cidade. E depois então no seu estado e no Brasil. A cidade é a realidade imediata de cada um de nós. Estados e União são ficções jurídicas.

O modelo político brasileiro inverte essa lógica e cidades cada vez mais dependem dos estados e da União. Em todos os sentidos. O resultado disso é perverso com os trabalhadores. E essa perversidade fica mais acentuada no sistema capitalista. União e governos estaduais decidem boa parte das políticas ambientais de cada município brasileiro. A legislação sobre licitações, por exemplo, tem abrangência nacional e afasta as empresas locais de obras públicas, gerando o aparecimento de grandes monstros nos setores de coleta de lixo, transportes coletivos, obras do setor de urbanismo, isso sem que câmaras municipais (adereços desnecessários) possam interferir no processo, mesmo porque lhes cabe a tarefa de propor leis e fiscalizar o Executivo e nem isso fazem. Submetem-se.

Como não temos uma estrutura do Judiciário, como acontece em vários países, com juizados municipais, ficamos à mercê de um processo lento, moroso e em boa parte corrupto que se define fora dos limites da cidade. Limites e interesses.

Todos nós e cada um de nós nascemos nas cidades. Nas nossas cidades. É ali que além de nascer, crescemos, nos formamos, constituímos família e vendemos a nossa força de trabalho no modelo que temos.

As decisões, em nenhum momento, passam pelo cidadão. Pelo conjunto de cidadãos. Falar em representatividade popular de câmaras municipais é acreditar em conto da Carochinha.

A febre de atrair grandes empresas, como se fossem a solução para todos os problemas, na prática gera distorções absurdas em cada cidade, seja pelos incentivos concedidos (custo transferido ao cidadão), seja pelos privilégios que as colocam acima da lei.

Sem entrar no mérito do sistema capitalista, nas cidades as pequenas e médias empresas são os verdadeiros suportes do emprego e da estabilidade.

Há anos ouvi que um determinado prefeito cuidava em demasia das praças. Eram floridas e limpas. Hoje ouço que as praças estão sujas e abandonadas.

Millôr Fernandes afirmou que quando colocaram a tevê na sala, tiraram a cadeira das portas das casas e mataram a vida, a individualidade.

As redes nacionais de tevê fazem com que os cidadão se vistam rigorosamente iguais em qualquer canto do País e que cheirem o mesmo Avon em sua imensa e esmagadora maioria.

A despersonalização do indivíduo transformado em objeto. A alienação como forma deliberada do capitalismo de gerir esse objeto/trabalhador/mercadoria.

A própria mídia, nas cidades, longe de cumprir qualquer papel informativo, educativo, torce e distorce os fatos ao sabor dos interesses dos chefes políticos, das grandes empresas (às quais muitas vezes se associam), ou são extensões dessas empresas lato senso.

Não há como fugir dessa realidade se não for desconstruída outra realidade. O capitalismo. Nas cidades, nas comunas, é essencial a organização popular, a formação e a consciência políticas como instrumentos para reagir a essa transformação das nossas cidades em grandes currais de interesses políticos e econômicos.

Para que eleger um vereador que não representa coisa alguma, até porque, se assim o quiser, será sempre minoria?

Por que não conselhos comunitários, conselhos de categorias, de setores da administração pública municipal e um grande conselho para deliberar sobre prioridades, sobre tarefas, sobre questões que digam respeito ao município?

Um dos argumentos dos que entendem que câmaras representam o interesse popular está no custo dessa estrutura legislativa em termos de relação com o orçamento. É estupidamente mais caro esse custo, que a participação popular.

É a partir das cidades que vão ser feitas as grandes transformações indispensáveis a que um País como o Brasil mude o seu perfil de entreposto do capital estrangeiro, do capital internacional, do modelo cruel de globalização que temos e que nos sujeita a um papel secundário, por mais que falem em crescimento econômico.

Não temos sequer um carro brasileiro. São todos de montadoras estrangeiras. Abrimos mão da busca de tecnologia em setores essenciais para importá-las. Pouco a pouco vamos regredindo ao século XIX e início do século XX, nos submetendo a situação de exportadores de matérias primas.

Perdemos o direito ao nosso subsolo com as privatizações feitas pelo governo FHC. Com as concessões feitas pelo poder da União e dos estados (no caso de Minas Gerais é um escândalo e só não estão presos os responsáveis por absoluta omissão das autoridades, o que é resultado das políticas de alianças).

Riquezas incomensuráveis como a água são instrumentos de pressão de grandes corporações para que sejam privatizadas.

Que tipo de mecanismo de controle do Poder Público existe de fato em se tratando dos municípios? O Ministério Público? É estadual. A instância última a decidir nunca será a dos cidadãos, ou na própria cidade.

A Constituição de 1988 mudou um determinado princípio. Tínhamos na Carta Magna de 1946 e depois na polaca da ditadura militar, uma única Lei Orgânica para todos os municípios. A de 1988 permitiu a cada município ter sua própria Lei Orgânica, mas dentro de parâmetros pré-estabelecidos pela própria Constituição Federal e pelas constituições estaduais. Mudou pouco, nos foi dada a madeira e a corda para que fizéssemos o nosso próprio patíbulo e forca.

O processo de descaracterização das cidades brasileiras em função de interesses de grandes empresas acobertadas pelos poderes públicos (federal e estaduais) se acentua com tal velocidade que cidades vão aos pouco perdendo o que há de mais essencial em cada uma, a alma, a história.

Somos parte de um todo padronizado ao sabor do sistema capitalista e dentro da lógica perversa e cruel do capitalismo.

O que é um prefeito? Em minha cidade as obras públicas são feitas por empresas de outra cidade, ligadas ao partido do prefeito. Não há discussão sobre a conveniência ou não dessas obras, só promessas de obras quiméricas e um culto acendrado ao automóvel como deus dos tempos contemporâneos. As ruas cheias de carros/poluição e um trânsito gerador de doenças, mortes, mazelas que muitas vezes não percebemos, até pela ufania estúpida de achar que ruas congestionadas são sinais de progresso, ou de riqueza.

As eleições municipais se prestam a um debate amplo sobre a cidade que queremos, o modelo que desejos e ao processo de organização popular para enfrentar os monstros que transformam cidades/lugares de paz, harmonia e progresso segundo as necessidades de todos os seus cidadãos, em fonte de privilégios para elites que dominam e controlam tanto as cidades, como os estados e o País.

Drumond não quis voltar a Itabirito depois de ter visto – ou não ter visto – as montanhas suprimidas pelas mineradoras. De forma irresponsável e criminosa.

Cidades litorâneas em nosso País estão sendo transformadas em gigantescas plataformas para a exploração de petróleo, sem que seus cidadãos possam fazer nada, apenas acreditar que aquilo é progresso e amargar as doenças – em todos os sentidos – desse progresso/privilégio.

Voltar a Idade da Pedra? Nada disso. A Noruega quando descobriu petróleo no Mar do Norte – é uma grande produtora – decidiu explorar a riqueza de forma correta e de um jeito tal que o ambiente não fosse prejudicado e nem as cidades transformadas em monte de entulhos de ferro e concreto. É assim até hoje.

O lixo virou indústria, um grande negócio que sustenta empresas e figuras dos governos estaduais e municipais.

Começam a surgir em todos os pontos do Brasil as praias particulares em flagrante violação ao princípio que praias são públicas. Já existem praias privadas garantidas por forças policiais que servem às elites dominantes.

É o Brasil rumo a um futuro sombrio e sem perspectiva que o capitalismo propicia.

E é nas cidades que a reação começa. Com organização popular e basta.

Não são reformas que vão mudar esse estado de coisas. Mas mudanças estruturais profundas que não passam por câmaras municipais ou assembléias legislativas, nem por congressos onde deputados e senadores, em sua esmagadora maioria, são eleitos com dinheiro das grandes empresas.

Mas da luta pela organização popular e como conseqüência a reação a esse ufanismo que rua congestionada é sinal de progresso, que a poluição é um preço a ser pago por esse progresso, que novas doenças são conseqüências das quais não se pode fugir, pois são inerentes ao progresso.

Só não se pergunta que mundo legaremos que nos sucederão. E estarão nas nossas cidades.

A especulação imobiliária é uma das grandes responsáveis pelas chamadas tragédias ambientais, pois vai tomando dos trabalhadores espaços que se valorizam na lógica capitalista, afastando-os, empurrando-os para uma periferia onde são tratados ou com a violência policial costumeira, ou sempre com o descaso do poder público.

É hora de um debate sobre as cidades e eleições municipais, que não vão mudar a realidade, mas são um importante instrumento para isso, para começar a mudar, na tarefa de organizar.

No duro mesmo é luta pela sobrevivência.

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*Laerte Braga é jornalista e colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

PressAA

quinta-feira, 8 de março de 2012

Projeto Fábula no Atacama (VII)

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Fernando Soares Campos

Enquanto nossa equipe de roteiristas se prepara para dar continuidade ao Projeto Fábula no Atacama, lá no alto, no cume de uma das montanhas que formam a Cordilheira dos Andes, Urda Alice Klueger está A CAMINHO DE CUSCO - PERU

Diz a historiadora do Vale do Itajaí:

“Um dia, num outro livro, escrevi assim:

“Ah, Cusco, antiga capital do Império Inca, ah! Cusco, atual capital do Império Inca!”. Como falar de Cusco sem dizer tais coisas? Depois que se vai a Cusco não se pode mais acreditar no que dizem os livros escolares, que contam que o Império Inca foi destruído por Pizarro e etc. A cultura dos povos antigos da América está muito e muito viva, e os povos também o estão. Para termos uma idéia, basta fazermos a conta da quantidade de gente que ainda hoje, em pleno século XXI, ainda fala o quíchua, a antiga língua que falavam os antigos Incas, nas regiões andinas: cerca de 8.000.000 de pessoas, e a língua está em expansão![1] Penso que outro tanto de gente fala o Aymara, e só no antigo Vale Sagrado dos Incas, o Vale do rio Urubamba, há mais 38 línguas antigas sendo faladas. São línguas tão desconhecidas pelos invasores europeus que eles nunca conseguiram sequer grafar a contento os sons das palavras, e a própria língua quíchua também é grafada como quechua ou de outras formas, bem como Cusco é grafado como Cuzco, e até como Qosqo! Se bem que o Império Inca existiu por um período curto, cerca de 400 anos, representou ele um somatório de muitos milhares de anos de História Americana, no mínimo 12.000 anos, até que se provem datas mais distantes. Pensar em Cusco me põe o coração a bater, me deixa emocionada com a grandiosidade que pode ter a História.

Na vez anterior em que eu estivera em Cusco eu chegara de noite, de trem, e não pudera ver a região próxima – desta vez era de tarde, eu dormira muitas horas e estava descansada, e a temperatura estava amena ali no carro de apoio, e então pude curtir aquela aproximação do Umbigo do Mundo como ainda não o fizera!

Eu hei de ter tempo, ainda, no decorrer da minha vida, para um dia pegar uma mochila, ir até aquela região próxima de Cusco, alugar um cantinho lá numa daquelas casinhas de adobe, e ficar por lá um mês, vivendo como aquela gente vive! Pois nessa região do entorno de Cusco se vive como se vivia, creio, há pelo menos uns 5.000 anos antes do presente, no tempo em que o ser humano daquelas terras já dominara a agricultura, a criação de gado e tantas outras coisas, e na Europa mal e mal estava a formar-se as primeiras aldeias nas penínsulas que mais tarde seriam Grécia e Roma. E um dia os europeus chegaram ali e disseram que ali era a Barbárie, e que aquele gente era selvagem, e em nome de Deus e do rei tomaram posse das terras e do poder, e destruíram tudo quanto puderam.

Não puderam destruir a cultura, no entanto. Cultura é coisa que não se destrói. Numa outra vez em que estivera no Peru vira, numa aldeia próxima de Olamtaytambo, antigas casas Incas intocadas, feitas de pura pedra, pequenas e funcionais, com seus nichos na parede à guisa de armários e prateleiras, onde os descendentes dos Filhos do Sol viviam quase como se viveu lá atrás, um dia. A diferença visível é que nos nichos das paredes, onde havia utensílios com certeza também provenientes de uma cultura milenar, havia coisas muito atuais: relógios despertadores, rádios à pilha, etc. E era uma aldeia altamente freqüentada por turistas, principalmente europeus e israelenses, que, com certeza, semeavam por ali sementes de idéias e incendiavam as imaginações, mas o tempo passava e a velha cultura milenar continuava.

Assim era por onde andávamos naquela tarde. A fertilidade muito verde daqueles páramos parecia de veludo, toda cheia de umidade, até com magro rio a escorrer no meio dela, rio que deveria ter sido profundo e caudaloso no tempo do Degelo, pouco antes. No meio da verdura, casinhas de adobe como devem ter sido as casas do passado abrigavam a população que era toda rural, e lá estavam as pessoas, principalmente as mulheres, em duas, em três, em pequenos grupos que vigiavam seus rebanhos de lhamas que pastavam nos pastos sem cercas. Perguntei-me: seriam terras comunais? Teriam sido os velhos costumes mais fortes que o tacão do europeu e aqueles pastos não teriam cercas por costumes imemoriais? Não sei, talvez fossem. Sei que no México, no século XXI, muitas terras ainda são comunais.

Sei que era extremamente lindo ver aqueles rebanhos de lhamas nos pastos verdinhos, e suas donas sentadas próximas a elas, fiando a lã da última tosquia como suas antepassadas devem ter fiado por milhares de anos antes que o invasor espanhol por ali chegasse, e aquelas mulheres e aquela lã eram extremamente coloridas e emocionantes dentro de como que um passado revivido, e eu ficava muitíssimo emocionada a olhá-las, quieta ali dentro do Land-Rover, sonhando com o dia em que voltaria ali para viver entre elas por um tempo. É aquela uma região onde ainda não há luz elétrica, e uma noite dentro de uma daquelas casinhas de adobe, à luz de algum tipo de fogo, deve ressuscitar realmente os velhos fantasmas do passado e trazer à tona toda a força da cultura que os cristãos julgaram erradicada, um dia.

Apaixonada por aquela paisagem de sonho, por aquele mergulho no passado, percorri aquelas últimas duas horas quase que em silêncio, apenas chamando a atenção do Lobo Solitário para isso ou para aquilo e usando de interjeições como a gente faz quando lida com a paixão!

E na sombra do entardecer, chegamos a Cusco!”

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Mas vamos agora à produção do roteiro de nossa fantástica fábula.






Lá embaixo, no Deserto do Atacama, o Urubu faminto, pousado num dos montes do Vale da Morte, ergue as asas.

Mais embaixo, abrigado em uma ligeira depressão do terreno, o Preá agonizante também desperta de longa e tenebrosa letargia...

(Sombra! Olho! Atividade!)

09 – Vale da Morte – Deserto do Atacama - manhã

Animado, o Urubu faminto alça voo e logo está espiralando numa forte corrente de ar. Depois de alguns ziguezagues, despenca em sentido declinatório, em direção ao abrigo depressivo do Preá agonizante.

“Será que o bichinho já bateu as patinhas?” – imagina o Urubu faminto com um toque de esperança.

O pouso da agourenta ave, à beira do buraco em que se encontra o Preá, lembra a aterrissagem de um avião da Tamancos Aéreos em pista sem ranhuras do Araraporto de Conganhas.

Contrarregra: Riiimm.. Plaft! Ploft!

Se ainda não havia despertado de todo, foi então que o Preá sobressaltou-se:

– Que é que isso, meu Deus! Eu pensava que aqui no Atacama só tinha furacão, mas parece que dá terremoto também!

Pousado em paz, o Urubu faminto se aproximou um pouco mais da beira do buraco do Preá e falou:

– Ué! Eu pensei que tu não pensava! Mas é assim mesmo, a gente morre aprendendo, né? Quer dizer... vive aprendendo, e, se pensas, ainda existes...

– Que é que você acha? Eu ainda existo, você, pelo visto, ainda existe, logo, nós existimos. Confere?

– Desculpa, mas eu só queria conferir se minha refeição estava pronta...

– Refeição? De que refeição você tá falando?

Aí foi a vez da necrófaga ave agourenta pensar e soltar suas interjeições:

– Não! Não se perturbe! Não há motivo para pânico! Fique tranquilo! – súbito, o Urubu entendeu que poderia estar cometendo ato falho, e então baixou o tom: – Meu caro preazinho, eu só estou esperando uma entrega do Cina in Box...

– China in Box?! Ah, acho que entendi! Estamos no oeste da América do Sul, e você deve ter pedido sua refeição de um restaurante da antiga Puerto Stroessner, hoje Ciudad Del Leste. É isso?

O Urubu faminto soltou um “croac!”, alguma coisa equivalente a um pum, só que pelo bico.

– Tá bem! Tá bem! Também sei perder, assim como [conjunção] ganhar...

O Urubu decolou com a esperança de que, na próxima visita ao buraco do Preá, sua refeição esteja pronta.

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Sobem os créditos:

Nossos agradecimentos

Urda Alice Klueger – colaboradora da Agência Assaz Atroz

Google – fonte de pesquisa

Antônio Houais – a favor da regra

Equipe de pauteiros da PressAA – revisão

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Para quem se interessar em compreender melhor a nossa fábula e tiver tempo, acesse os endereços...

Pouca carniça pra muito bico
http://assazatroz.blogspot.com/2007/06/pouca-carnia-pra-muito-bico.html

Projeto Fábula no Atacama (I)
http://assazatroz.blogspot.com/2007/06/projeto-fbula-no-atacama-i.html
Projeto Fábula no Atacama ( II )
http://assazatroz.blogspot.com/2007/06/projeto-fbula-no-atacama-ii.html
Projeto Fábula no Atacama ( III )
http://assazatroz.blogspot.com/2007/06/projeto-fbula-no-atacama-iii.html
Projeto Fábula no Atacama ( IV )
http://assazatroz.blogspot.com/2007/06/projeto-fbula-no-atacama-iv.html
Projeto Fábula no Atacama ( V )
http://assazatroz.blogspot.com/2007/06/projeto-fbula-no-atacama-v.html
Projeto Fábula no Atacama (VI)
http://sergioscampos.blogspot.com/2009/09/projeto-fabula-no-atacama-vi.html
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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

PressAA

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